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HISTÓRIAS REAIS

A maior de todas as mágicas

A maior de todas as mágicas

JAMES R. DOTY

A história real de um neurocirurgião e suas descobertas sobre o poder da meditação e da compaixão

A história real de um neurocirurgião e suas descobertas sobre o poder da meditação e da compaixão

“Neste livro bonito e profundo, o Dr. Doty nos ensina, por meio de sua própria experiência, algumas das lições mais importantes da vida: a felicidade sem sofrimento não existe; a compaixão nasce da compreensão desse sofrimento; e apenas quando temos compaixão é que podemos ser felizes de verdade.” – Thich Nhat Hahn

“Este livro narra a busca de um neurocirurgião por compreender a misteriosa ligação entre o cérebro e o coração. A vida de Jim Doty é um exemplo de como cada um de nós pode fazer a diferença no mundo. Muitos leitores serão tocados por esta história inspiradora.” – Sua Santidade, o Dalai Lama

 

Jim teve uma infância difícil. Cresceu com o pai alcoólatra e a mãe depressiva numa pequena cidade da Califórnia. Para ele, a vida se resumia a uma sucessão de dias tristes, violentos e sem esperança.

Mas tudo mudou ao completar 12 anos, quando entrou numa loja de artigos de magia e conheceu a misteriosa Ruth. Enxergando todo o sofrimento do menino, a generosa senhora resolveu ajudar e prometeu ensinar a ele a maior de todas as mágicas. Ao longo de seis semanas, Ruth guiou Jim por diversas técnicas de meditação, ensinando-o a relaxar o corpo, esvaziar a mente e abrir o coração – os passos necessários para qualquer pessoa aprender a lidar com a dor e com as próprias emoções.

Os anos se passaram, Jim incorporou as práticas e se tornou o Dr. James Doty, neurocirurgião proeminente e empresário de sucesso. Mas esqueceu de manter o coração aberto, o que gerou terríveis consequências.

Nesta emocionante história real, Dr. Doty mostra o poder que a compaixão tem de transformar vidas e a força que cada um de nós possui para transformar o mundo.

***

“A maior de todas as mágicas é um testemunho de que, quando você abraça a compaixão, o extraordinário real- mente acontece em sua vida. Numa época em que estamos perdendo a esperança no ser humano, esta obra é capaz de elevar nosso espírito e abrir nosso coração. Quem ler este livro certamente mudará – para melhor.”  – Thupten Jinpa

“A verdadeira cura é tanto física quanto espiritual. Quando você cura a si mesmo, está levando a cura aos outros. A bondade e a compaixão são o caminho para salvar o mundo. Nesse livro brilhante, o Dr. James mostra como isso é possível.” – Deepak Chopra

“De vez em quando surge alguém capaz de compartilhar o mistério que existe em sua vida de tal forma que capta a imaginação dos outros e os inspira a se alinhar com o que há de melhor dentro de si mesmos. É o que James Doty faz neste livro.” – Jon Kabat-Zinn

“Misto de memórias e investigação científica, este livro mostra que todos temos dentro de nós um lugar de calma e beleza para onde podemos retornar sempre que necessário. Basta abrirmos a porta e nos permitirmos entrar.” – Arianna Huffington

“O neurocirurgião James Doty compartilha a incrível história de sua vida, marcada por perdas súbitas, desafios suplantados e sucessos conquistados. Um depoimento tocante sobre o poder da compaixão e da gentileza.” – Adam Grant

“É maravilhoso descobrir como alguém com uma infância tão difícil pôde se tornar professor de neurocirurgia, fundar um centro de estudos sobre compaixão numa universidade de prestígio e ainda atuar como empresário e filantropo. Mas o que torna esta obra uma joia rara é a habilidade com que James Doty descreve sua jornada e a generosidade com que compartilha as lições que aprendeu.” – Abraham Verghese

“Este livro é um exemplo de como a fé e a compaixão vão muito além da religião. O relato do Dr. James pode ajudar as pessoas a superar dificuldades e limitações pessoais. É inspirador.” – Sri Sri Ravi Shankar

“Neste livro bonito e profundo, o Dr. Doty nos ensina, por meio de sua própria experiência, algumas das lições mais importantes da vida: a felicidade sem sofrimento não existe; a compaixão nasce da compreensão desse sofrimento; e apenas quando temos compaixão é que podemos ser felizes de verdade.” – Thich Nhat Hahn

“Este livro narra a busca de um neurocirurgião por compreender a misteriosa ligação entre o cérebro e o coração. A vida de Jim Doty é um exemplo de como cada um de nós pode fazer a diferença no mundo. Muitos leitores serão tocados por esta história inspiradora.” – Sua Santidade, o Dalai Lama

 

Jim teve uma infância difícil. Cresceu com o pai alcoólatra e a mãe depressiva numa pequena cidade da Califórnia. Para ele, a vida se resumia a uma sucessão de dias tristes, violentos e sem esperança.

Mas tudo mudou ao completar 12 anos, quando entrou numa loja de artigos de magia e conheceu a misteriosa Ruth. Enxergando todo o sofrimento do menino, a generosa senhora resolveu ajudar e prometeu ensinar a ele a maior de todas as mágicas. Ao longo de seis semanas, Ruth guiou Jim por diversas técnicas de meditação, ensinando-o a relaxar o corpo, esvaziar a mente e abrir o coração – os passos necessários para qualquer pessoa aprender a lidar com a dor e com as próprias emoções.

Os anos se passaram, Jim incorporou as práticas e se tornou o Dr. James Doty, neurocirurgião proeminente e empresário de sucesso. Mas esqueceu de manter o coração aberto, o que gerou terríveis consequências.

Nesta emocionante história real, Dr. Doty mostra o poder que a compaixão tem de transformar vidas e a força que cada um de nós possui para transformar o mundo.

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“A maior de todas as mágicas é um testemunho de que, quando você abraça a compaixão, o extraordinário real- mente acontece em sua vida. Numa época em que estamos perdendo a esperança no ser humano, esta obra é capaz de elevar nosso espírito e abrir nosso coração. Quem ler este livro certamente mudará – para melhor.”  – Thupten Jinpa

“A verdadeira cura é tanto física quanto espiritual. Quando você cura a si mesmo, está levando a cura aos outros. A bondade e a compaixão são o caminho para salvar o mundo. Nesse livro brilhante, o Dr. James mostra como isso é possível.” – Deepak Chopra

“De vez em quando surge alguém capaz de compartilhar o mistério que existe em sua vida de tal forma que capta a imaginação dos outros e os inspira a se alinhar com o que há de melhor dentro de si mesmos. É o que James Doty faz neste livro.” – Jon Kabat-Zinn

“Misto de memórias e investigação científica, este livro mostra que todos temos dentro de nós um lugar de calma e beleza para onde podemos retornar sempre que necessário. Basta abrirmos a porta e nos permitirmos entrar.” – Arianna Huffington

“O neurocirurgião James Doty compartilha a incrível história de sua vida, marcada por perdas súbitas, desafios suplantados e sucessos conquistados. Um depoimento tocante sobre o poder da compaixão e da gentileza.” – Adam Grant

“É maravilhoso descobrir como alguém com uma infância tão difícil pôde se tornar professor de neurocirurgia, fundar um centro de estudos sobre compaixão numa universidade de prestígio e ainda atuar como empresário e filantropo. Mas o que torna esta obra uma joia rara é a habilidade com que James Doty descreve sua jornada e a generosidade com que compartilha as lições que aprendeu.” – Abraham Verghese

“Este livro é um exemplo de como a fé e a compaixão vão muito além da religião. O relato do Dr. James pode ajudar as pessoas a superar dificuldades e limitações pessoais. É inspirador.” – Sri Sri Ravi Shankar

Compre agora:

Ficha técnica
Lançamento 12/09/2016
Título original INTO THE MAGIC SHOP
Tradução VERA RIBEIRO
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 240
Peso 240 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0410-2
EAN 9788543104102
Preço R$ 39,90
Ficha técnica e-book
eISBN 9788543104119
Preço R$ 24,99
Lançamento 12/09/2016
Título original INTO THE MAGIC SHOP
Tradução VERA RIBEIRO
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 240
Peso 240 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0410-2
EAN 9788543104102
Preço R$ 39,90

E-book

eISBN 9788543104119
Preço R$ 24,99

Leia um trecho do livro

Introdução

Coisas bonitas

Um som peculiar é produzido quando o couro cabeludo é descolado do crânio – como um pedaço grande de velcro ao se desprender de sua fonte. É um som alto e áspero, além de meio triste. Na faculdade de medicina, não há aulas para ensinar os sons e odores da cirurgia cerebral. Deveria haver. O zumbir da broca pesada, à medida que ela perfura o crânio. A serra óssea que enche o centro cirúrgico de cheiro de serragem, cortando e fazendo uma linha para ligar os orifícios feitos pela broca. O estalido relutante do crânio ao ser afastado da dura-máter, a camada espessa que reveste o cérebro e serve como derradeira linha de defesa contra o mundo externo. As tesouras que cortam lentamente a dura-máter. Exibido o cérebro, podemos vê-lo mover-se ao ritmo de cada batimento cardíaco e, às vezes, parece que o ouvimos gemer, em sinal de protesto contra sua nudez e vulnerabilidade – seus segredos expostos à vista de todos, sob as luzes impiedosas da sala de operações.

O menino parecia pequeno com a camisola hospitalar, quase engolido pela cama, esperando para entrar em cirurgia.

– Vovó rezou por mim. Por você também.

Ouvi a mãe do menino inspirar e expirar ruidosamente diante dessa informação e percebi que ela tentava se mostrar corajosa. Pelo filho. Por ela mesma. Talvez até por mim. Passei a mão no cabelo dele. Era castanho, longo e fino – ainda mais parecido com o de um bebê que de um garoto. Ele me disse que tinha acabado de fazer aniversário.

– Quer que eu explique de novo o que vai acontecer hoje, campeão, ou você já está pronto?

Ele gosta quando o chamo de campeão, ou de parceiro.

– Eu vou dormir. Você vai tirar a Coisa Feia da minha cabeça, para ela não doer mais. Depois eu vou ver a mamãe e a vovó.

A “Coisa Feia” era um meduloblastoma, o tipo mais comum de tumor cerebral maligno nas crianças, e ficava situado na fossa posterior (a base do crânio). Meduloblastoma não é uma palavra fácil de pronunciar para os adultos, muito menos para um menino de 4 anos, por mais precoce que ele seja. Os tumores cerebrais pediátricos são mesmo coisas feias, de modo que eu concordava com o termo. Os meduloblastomas são invasores disformes e grotescos na requintada simetria do cérebro. Começam entre os dois lobos do cerebelo, crescem e acabam comprimindo não apenas o cerebelo, mas também o tronco cerebral, e por último bloqueiam as vias que permitem a circulação sanguínea cerebral. O cérebro é uma das coisas mais belas que já vi, e explorar seus mistérios e descobrir maneiras de curá-lo são privilégios que nunca subestimei.

– Você me parece pronto. Vou pôr minha máscara de super-herói e encontro você na sala da luz brilhante.

Ele me deu um sorriso. As máscaras cirúrgicas e as salas de operação podem ser assustadoras. Nesse dia eu ia chamá-las
de máscara de super-herói e sala da luz brilhante para que ele não sentisse muito medo. A mente é uma coisa engraçada; mas eu não ia explicar semântica a um menino de 4 anos. As crianças são sábias. O coração delas é escancarado. Dizem do que têm medo, o que as deixa felizes e do que gostam ou não gostam na gente. Não há intenções ocultas e nunca temos que adivinhar o que elas estão realmente sentindo.

Falei para a mãe e a avó:

– Alguém da equipe vai atualizar vocês à medida que progredirmos. Estou prevendo uma ressecção completa. Não espero nenhuma complicação.

Isso não era só conversa de cirurgião, para dizer o que elas queriam ouvir. Meu plano era uma cirurgia limpa e eficiente para retirar o tumor inteiro, mandando também um fragmento dele ao laboratório, para saber quão feia era essa Coisa Feia.

Eu sabia que a mãe e a avó estavam assustadas. Segurei as mãos de ambas, procurando tranquilizá-las e oferecer algum consolo. Nunca é fácil. As dores de cabeça matinais de um garotinho tornam-se o pior pesadelo de todos os pais. A mãe confiava em mim. A avó confiava em Deus. Eu confiava na minha equipe.

Juntos, todos tentaríamos salvar a vida daquele menino.

Depois que o anestesista fez a contagem regressiva para o menino dormir, firmei sua cabeça numa braçadeira presa ao crânio e o posicionei em pronação, de barriga para baixo. Peguei a máquina de cortar cabelo. Prefiro raspar pessoalmente a cabeça em vez de deixar a tarefa nas mãos da enfermeira. É um ritual que sigo. E, enquanto raspava, fui pensando nesse menininho precioso e repassando na minha mente cada detalhe da cirurgia. Cortei a primeira mecha de cabelo e a entreguei à enfermeira, para que a guardasse num saquinho para a mãe do menino. Era o seu primeiro corte de cabelo e, embora isso não fosse importante para a mãe dele naquele momento, eu sabia que mais tarde seria. É o tipo de marco que se gosta de lembrar. Primeiro corte de cabelo. Primeiro dentinho que cai. Primeiro dia na escola. Primeira vez que se anda de bicicleta. A primeira cirurgia cerebral nunca entra nessa lista.

Cortei com delicadeza as finas mechas castanho-claras, desejando que meu pequeno paciente pudesse vivenciar cada uma dessas primeiras vezes. Em pensamento, eu o via sorrindo, com uma grande lacuna banguela onde deveriam estar os dentes incisivos. Podia vê-lo entrando no jardim de infância, com uma mochila quase do seu tamanho pendurada nas costas. Podia enxergá-lo andando de bicicleta pela primeira vez – aquela primeira emoção de liberdade, pedalando febrilmente com o vento no rosto. Pensei em meus próprios filhos. As imagens e cenas de todas essas primeiras vezes eram tão claras no meu pensamento que eu não podia imaginar nenhum outro desfecho para aquela cirurgia. Não queria ver um futuro de visitas hospitalares, tratamentos contra o câncer e cirurgias adicionais. Como sobrevivente de um tumor cerebral infantil, ele sempre teria de ser monitorado, mas eu me recusava a vê-lo no futuro tal como tinha sido no passado. A náusea. Os vômitos. As quedas. Os gritos ao despertar cada manhã, porque a Coisa Feia estava comprimindo o cérebro e doía. Já existem dissabores suficientes na vida; não é preciso acrescentar mais esse. Continuei a raspar seu cabelo com cuidado, apenas o bastante para poder fazer meu trabalho. Marquei dois pontos na base do crânio, onde faríamos a incisão, e desenhei uma linha reta.

A cirurgia cerebral é difícil, mas a cirurgia na fossa posterior é ainda mais. E, numa criança pequena, é de uma dificuldade excruciante. Esse tumor era grande, e o trabalho seria penosamente lento e preciso. Olhos enxergando através das lentes do microscópio durante horas a fio, concentrados num único ponto. Como cirurgiões, somos treinados para suspender nossas reações orgânicas quando operamos. Não paramos para ir ao banheiro nem para comer. Fomos treinados para ignorar a dor nas costas e as cãibras musculares.

Lembro-me da minha primeira vez numa sala de cirurgia, auxiliando um cirurgião famoso, que era conhecido não apenas por ser brilhante, mas também por ser belicoso e arrogante ao operar. Eu me sentia intimidado e nervoso e, de pé ao lado dele na sala de operações, comecei a sentir o suor brotar no meu rosto. A respiração era pesada dentro da máscara e meus óculos foram embaçando. Eu não conseguia enxergar os instrumentos. Havia trabalhado arduamente, superado muitas coisas, e agora estava ali, fazendo uma cirurgia, como sempre imaginara, e não conseguia enxergar nada. E então aconteceu o impensável. Uma grande gota de suor rolou do meu rosto e pingou na área esterilizada. O homem ficou enfurecido. Era o sonho da minha vida, minha primeira vez na cirurgia, e eu contaminei o campo cirúrgico. Fui sumariamente expulso da sala de operações. Jamais esqueci aquilo.

Agora eu tinha a testa fria e a visão clara. Meu pulso estava lento e regular. A experiência faz diferença e, na minha sala de cirurgia, eu não era um ditador. Tampouco belicoso e arrogante. Cada membro da equipe era valioso e necessário. Cada um se concentrava no seu papel. O anestesista monitorava a pressão sanguínea e o oxigênio do menino, seu nível de consciência e o ritmo de seus batimentos cardíacos. A instrumentadora supervisionava os instrumentos e materiais, para ter certeza de que tudo de que eu precisasse estaria ao meu alcance. Uma bolsa grande fora presa aos panos cirúrgicos, pendendo abaixo da cabeça do menino, para coletar sangue e líquido de irrigação, de modo que soubéssemos qual o volume de sangue perdido.

O cirurgião que me assistia era um residente sênior em fase de treinamento e novo na equipe, mas estava tão concentrado quanto eu nos vasos sanguíneos, no tecido cerebral e nas minúcias da extirpação daquele tumor. Não podíamos pensar nos nossos planos para o dia seguinte, na política hospitalar, nos nossos filhos nem nos nossos problemas de relacionamento. A concentração era total, como na meditação. Treinamos a mente e a mente treina o corpo. Há um ritmo e um fluxo admiráveis quando se tem uma boa equipe – todos ficam em sincronia. Mente e corpo trabalham juntos, como uma só inteligência coordenada.

Eu estava retirando o último pedaço do tumor, preso a uma das principais veias nas profundezas do cérebro. O sistema venoso da fossa posterior é de uma complexidade incrível, e meu assistente estava fazendo a aspiração de fluidos enquanto eu realizava a ressecção final do tumor. Ele deixou sua atenção desviar-se por um segundo e, nesse instante, a sucção rompeu a veia e, por um momento brevíssimo, tudo parou.

E então a casa veio abaixo.

O sangue da veia cortada encheu a cavidade da ressecção e começou a brotar da abertura na cabeça daquele lindo garotinho. O anestesista começou a gritar que a pressão do menino estava caindo depressa e que ele não podia continuar a perder sangue daquele jeito. Eu precisava pinçar a veia para deter o sangramento, mas ela se retraíra naquela poça de sangue e eu não conseguia enxergá-la. Sozinha, minha sucção não poderia controlar o sangramento, e a mão de meu assistente estava trêmula demais para ser de alguma serventia.

– Ele está em parada cardiorrespiratória! – gritou o anestesista.

Ele teve que rastejar por baixo da mesa, porque a cabeça do garotinho estava presa a uma braçadeira, com a parte posterior aberta. O anestesista começou a comprimir o peito do menino, com a outra mão segurando as costas dele, na tentativa desesperada de fazer o coração voltar a bombear. Havia líquidos sendo despejados nos tubos intravenosos. A primeira e mais importante tarefa do coração é bombear o sangue, e essa bomba mágica, que possibilita tudo no corpo, havia parado. O menino de 4 anos se esvaía em sangue na mesa, diante de mim. Enquanto o anestesista massageava seu peito, a abertura cirúrgica se enchia de sangue. Tínhamos de conter a hemorragia, ou ele morreria. O cérebro consome 15% do fluxo que vem do coração e só consegue sobreviver por alguns minutos depois que o coração para. Precisa do sangue e, o que é mais importante, do oxigênio nele contido. Estávamos ficando sem tempo antes da morte cerebral – cérebro e coração precisam um do outro.

Eu tentava freneticamente pinçar a veia, mas não havia como encontrá-la em meio a todo aquele sangue. Embora a cabeça estivesse fixada na sua posição, as compressões no peito a deslocavam. A equipe e eu sabíamos que o tempo estava acabando. O anestesista me olhou e vi medo em seus olhos. Poderíamos perder o menino. Fazer ressuscitação cardiopulmonar (RCP) é como tentar fazer um carro pegar no tranco – não é muito confiável, sobretudo quando se continua a perder sangue. Eu trabalhava às cegas e, por isso, abri meu coração para uma possibilidade além da razão, além da perícia, e comecei a fazer o que me fora ensinado décadas antes, não na residência médica, não na faculdade de medicina, mas na sala dos fundos de uma lojinha de mágicas no deserto da Califórnia.

Acalmei minha mente.

Relaxei meu corpo.

Visualizei a veia retraída. Vi-a mentalmente, dobrada no trajeto neurovascular daquele menino. Busquei-a às cegas, mas sabendo que há mais coisas nesta vida do que aquilo que podemos ver e que cada um de nós é capaz de realizar coisas incríveis, que ultrapassam em muito o que julgamos possível. Controlamos nosso destino, e eu não podia admitir que aquele menino estivesse destinado a morrer ali, na mesa de operação.

Aproximei minha mão da poça de sangue com a pinça aberta, encontrei a veia, fechei-a e retirei a mão devagar.

O sangramento parou e, a distância, ouvi o bipe lento do monitor cardíaco. Fraco, a princípio. Irregular. Mas logo foi ficando mais forte e mais estável, como fazem todos os corações quando começam a ganhar vida.

Senti meus próprios batimentos começarem a se igualar ao ritmo do monitor.

Mais tarde, no pós-operatório, eu daria à mãe do menino as sobras do seu primeiro corte de cabelo e meu amiguinho sairia da anestesia como um sobrevivente. Ele teria uma vida completamente normal. Em 48 horas, estaria conversando e até rindo, e eu poderia lhe dizer que a Coisa Feia tinha ido embora.

Introdução

Coisas bonitas

Um som peculiar é produzido quando o couro cabeludo é descolado do crânio – como um pedaço grande de velcro ao se desprender de sua fonte. É um som alto e áspero, além de meio triste. Na faculdade de medicina, não há aulas para ensinar os sons e odores da cirurgia cerebral. Deveria haver. O zumbir da broca pesada, à medida que ela perfura o crânio. A serra óssea que enche o centro cirúrgico de cheiro de serragem, cortando e fazendo uma linha para ligar os orifícios feitos pela broca. O estalido relutante do crânio ao ser afastado da dura-máter, a camada espessa que reveste o cérebro e serve como derradeira linha de defesa contra o mundo externo. As tesouras que cortam lentamente a dura-máter. Exibido o cérebro, podemos vê-lo mover-se ao ritmo de cada batimento cardíaco e, às vezes, parece que o ouvimos gemer, em sinal de protesto contra sua nudez e vulnerabilidade – seus segredos expostos à vista de todos, sob as luzes impiedosas da sala de operações.

O menino parecia pequeno com a camisola hospitalar, quase engolido pela cama, esperando para entrar em cirurgia.

– Vovó rezou por mim. Por você também.

Ouvi a mãe do menino inspirar e expirar ruidosamente diante dessa informação e percebi que ela tentava se mostrar corajosa. Pelo filho. Por ela mesma. Talvez até por mim. Passei a mão no cabelo dele. Era castanho, longo e fino – ainda mais parecido com o de um bebê que de um garoto. Ele me disse que tinha acabado de fazer aniversário.

– Quer que eu explique de novo o que vai acontecer hoje, campeão, ou você já está pronto?

Ele gosta quando o chamo de campeão, ou de parceiro.

– Eu vou dormir. Você vai tirar a Coisa Feia da minha cabeça, para ela não doer mais. Depois eu vou ver a mamãe e a vovó.

A “Coisa Feia” era um meduloblastoma, o tipo mais comum de tumor cerebral maligno nas crianças, e ficava situado na fossa posterior (a base do crânio). Meduloblastoma não é uma palavra fácil de pronunciar para os adultos, muito menos para um menino de 4 anos, por mais precoce que ele seja. Os tumores cerebrais pediátricos são mesmo coisas feias, de modo que eu concordava com o termo. Os meduloblastomas são invasores disformes e grotescos na requintada simetria do cérebro. Começam entre os dois lobos do cerebelo, crescem e acabam comprimindo não apenas o cerebelo, mas também o tronco cerebral, e por último bloqueiam as vias que permitem a circulação sanguínea cerebral. O cérebro é uma das coisas mais belas que já vi, e explorar seus mistérios e descobrir maneiras de curá-lo são privilégios que nunca subestimei.

– Você me parece pronto. Vou pôr minha máscara de super-herói e encontro você na sala da luz brilhante.

Ele me deu um sorriso. As máscaras cirúrgicas e as salas de operação podem ser assustadoras. Nesse dia eu ia chamá-las
de máscara de super-herói e sala da luz brilhante para que ele não sentisse muito medo. A mente é uma coisa engraçada; mas eu não ia explicar semântica a um menino de 4 anos. As crianças são sábias. O coração delas é escancarado. Dizem do que têm medo, o que as deixa felizes e do que gostam ou não gostam na gente. Não há intenções ocultas e nunca temos que adivinhar o que elas estão realmente sentindo.

Falei para a mãe e a avó:

– Alguém da equipe vai atualizar vocês à medida que progredirmos. Estou prevendo uma ressecção completa. Não espero nenhuma complicação.

Isso não era só conversa de cirurgião, para dizer o que elas queriam ouvir. Meu plano era uma cirurgia limpa e eficiente para retirar o tumor inteiro, mandando também um fragmento dele ao laboratório, para saber quão feia era essa Coisa Feia.

Eu sabia que a mãe e a avó estavam assustadas. Segurei as mãos de ambas, procurando tranquilizá-las e oferecer algum consolo. Nunca é fácil. As dores de cabeça matinais de um garotinho tornam-se o pior pesadelo de todos os pais. A mãe confiava em mim. A avó confiava em Deus. Eu confiava na minha equipe.

Juntos, todos tentaríamos salvar a vida daquele menino.

Depois que o anestesista fez a contagem regressiva para o menino dormir, firmei sua cabeça numa braçadeira presa ao crânio e o posicionei em pronação, de barriga para baixo. Peguei a máquina de cortar cabelo. Prefiro raspar pessoalmente a cabeça em vez de deixar a tarefa nas mãos da enfermeira. É um ritual que sigo. E, enquanto raspava, fui pensando nesse menininho precioso e repassando na minha mente cada detalhe da cirurgia. Cortei a primeira mecha de cabelo e a entreguei à enfermeira, para que a guardasse num saquinho para a mãe do menino. Era o seu primeiro corte de cabelo e, embora isso não fosse importante para a mãe dele naquele momento, eu sabia que mais tarde seria. É o tipo de marco que se gosta de lembrar. Primeiro corte de cabelo. Primeiro dentinho que cai. Primeiro dia na escola. Primeira vez que se anda de bicicleta. A primeira cirurgia cerebral nunca entra nessa lista.

Cortei com delicadeza as finas mechas castanho-claras, desejando que meu pequeno paciente pudesse vivenciar cada uma dessas primeiras vezes. Em pensamento, eu o via sorrindo, com uma grande lacuna banguela onde deveriam estar os dentes incisivos. Podia vê-lo entrando no jardim de infância, com uma mochila quase do seu tamanho pendurada nas costas. Podia enxergá-lo andando de bicicleta pela primeira vez – aquela primeira emoção de liberdade, pedalando febrilmente com o vento no rosto. Pensei em meus próprios filhos. As imagens e cenas de todas essas primeiras vezes eram tão claras no meu pensamento que eu não podia imaginar nenhum outro desfecho para aquela cirurgia. Não queria ver um futuro de visitas hospitalares, tratamentos contra o câncer e cirurgias adicionais. Como sobrevivente de um tumor cerebral infantil, ele sempre teria de ser monitorado, mas eu me recusava a vê-lo no futuro tal como tinha sido no passado. A náusea. Os vômitos. As quedas. Os gritos ao despertar cada manhã, porque a Coisa Feia estava comprimindo o cérebro e doía. Já existem dissabores suficientes na vida; não é preciso acrescentar mais esse. Continuei a raspar seu cabelo com cuidado, apenas o bastante para poder fazer meu trabalho. Marquei dois pontos na base do crânio, onde faríamos a incisão, e desenhei uma linha reta.

A cirurgia cerebral é difícil, mas a cirurgia na fossa posterior é ainda mais. E, numa criança pequena, é de uma dificuldade excruciante. Esse tumor era grande, e o trabalho seria penosamente lento e preciso. Olhos enxergando através das lentes do microscópio durante horas a fio, concentrados num único ponto. Como cirurgiões, somos treinados para suspender nossas reações orgânicas quando operamos. Não paramos para ir ao banheiro nem para comer. Fomos treinados para ignorar a dor nas costas e as cãibras musculares.

Lembro-me da minha primeira vez numa sala de cirurgia, auxiliando um cirurgião famoso, que era conhecido não apenas por ser brilhante, mas também por ser belicoso e arrogante ao operar. Eu me sentia intimidado e nervoso e, de pé ao lado dele na sala de operações, comecei a sentir o suor brotar no meu rosto. A respiração era pesada dentro da máscara e meus óculos foram embaçando. Eu não conseguia enxergar os instrumentos. Havia trabalhado arduamente, superado muitas coisas, e agora estava ali, fazendo uma cirurgia, como sempre imaginara, e não conseguia enxergar nada. E então aconteceu o impensável. Uma grande gota de suor rolou do meu rosto e pingou na área esterilizada. O homem ficou enfurecido. Era o sonho da minha vida, minha primeira vez na cirurgia, e eu contaminei o campo cirúrgico. Fui sumariamente expulso da sala de operações. Jamais esqueci aquilo.

Agora eu tinha a testa fria e a visão clara. Meu pulso estava lento e regular. A experiência faz diferença e, na minha sala de cirurgia, eu não era um ditador. Tampouco belicoso e arrogante. Cada membro da equipe era valioso e necessário. Cada um se concentrava no seu papel. O anestesista monitorava a pressão sanguínea e o oxigênio do menino, seu nível de consciência e o ritmo de seus batimentos cardíacos. A instrumentadora supervisionava os instrumentos e materiais, para ter certeza de que tudo de que eu precisasse estaria ao meu alcance. Uma bolsa grande fora presa aos panos cirúrgicos, pendendo abaixo da cabeça do menino, para coletar sangue e líquido de irrigação, de modo que soubéssemos qual o volume de sangue perdido.

O cirurgião que me assistia era um residente sênior em fase de treinamento e novo na equipe, mas estava tão concentrado quanto eu nos vasos sanguíneos, no tecido cerebral e nas minúcias da extirpação daquele tumor. Não podíamos pensar nos nossos planos para o dia seguinte, na política hospitalar, nos nossos filhos nem nos nossos problemas de relacionamento. A concentração era total, como na meditação. Treinamos a mente e a mente treina o corpo. Há um ritmo e um fluxo admiráveis quando se tem uma boa equipe – todos ficam em sincronia. Mente e corpo trabalham juntos, como uma só inteligência coordenada.

Eu estava retirando o último pedaço do tumor, preso a uma das principais veias nas profundezas do cérebro. O sistema venoso da fossa posterior é de uma complexidade incrível, e meu assistente estava fazendo a aspiração de fluidos enquanto eu realizava a ressecção final do tumor. Ele deixou sua atenção desviar-se por um segundo e, nesse instante, a sucção rompeu a veia e, por um momento brevíssimo, tudo parou.

E então a casa veio abaixo.

O sangue da veia cortada encheu a cavidade da ressecção e começou a brotar da abertura na cabeça daquele lindo garotinho. O anestesista começou a gritar que a pressão do menino estava caindo depressa e que ele não podia continuar a perder sangue daquele jeito. Eu precisava pinçar a veia para deter o sangramento, mas ela se retraíra naquela poça de sangue e eu não conseguia enxergá-la. Sozinha, minha sucção não poderia controlar o sangramento, e a mão de meu assistente estava trêmula demais para ser de alguma serventia.

– Ele está em parada cardiorrespiratória! – gritou o anestesista.

Ele teve que rastejar por baixo da mesa, porque a cabeça do garotinho estava presa a uma braçadeira, com a parte posterior aberta. O anestesista começou a comprimir o peito do menino, com a outra mão segurando as costas dele, na tentativa desesperada de fazer o coração voltar a bombear. Havia líquidos sendo despejados nos tubos intravenosos. A primeira e mais importante tarefa do coração é bombear o sangue, e essa bomba mágica, que possibilita tudo no corpo, havia parado. O menino de 4 anos se esvaía em sangue na mesa, diante de mim. Enquanto o anestesista massageava seu peito, a abertura cirúrgica se enchia de sangue. Tínhamos de conter a hemorragia, ou ele morreria. O cérebro consome 15% do fluxo que vem do coração e só consegue sobreviver por alguns minutos depois que o coração para. Precisa do sangue e, o que é mais importante, do oxigênio nele contido. Estávamos ficando sem tempo antes da morte cerebral – cérebro e coração precisam um do outro.

Eu tentava freneticamente pinçar a veia, mas não havia como encontrá-la em meio a todo aquele sangue. Embora a cabeça estivesse fixada na sua posição, as compressões no peito a deslocavam. A equipe e eu sabíamos que o tempo estava acabando. O anestesista me olhou e vi medo em seus olhos. Poderíamos perder o menino. Fazer ressuscitação cardiopulmonar (RCP) é como tentar fazer um carro pegar no tranco – não é muito confiável, sobretudo quando se continua a perder sangue. Eu trabalhava às cegas e, por isso, abri meu coração para uma possibilidade além da razão, além da perícia, e comecei a fazer o que me fora ensinado décadas antes, não na residência médica, não na faculdade de medicina, mas na sala dos fundos de uma lojinha de mágicas no deserto da Califórnia.

Acalmei minha mente.

Relaxei meu corpo.

Visualizei a veia retraída. Vi-a mentalmente, dobrada no trajeto neurovascular daquele menino. Busquei-a às cegas, mas sabendo que há mais coisas nesta vida do que aquilo que podemos ver e que cada um de nós é capaz de realizar coisas incríveis, que ultrapassam em muito o que julgamos possível. Controlamos nosso destino, e eu não podia admitir que aquele menino estivesse destinado a morrer ali, na mesa de operação.

Aproximei minha mão da poça de sangue com a pinça aberta, encontrei a veia, fechei-a e retirei a mão devagar.

O sangramento parou e, a distância, ouvi o bipe lento do monitor cardíaco. Fraco, a princípio. Irregular. Mas logo foi ficando mais forte e mais estável, como fazem todos os corações quando começam a ganhar vida.

Senti meus próprios batimentos começarem a se igualar ao ritmo do monitor.

Mais tarde, no pós-operatório, eu daria à mãe do menino as sobras do seu primeiro corte de cabelo e meu amiguinho sairia da anestesia como um sobrevivente. Ele teria uma vida completamente normal. Em 48 horas, estaria conversando e até rindo, e eu poderia lhe dizer que a Coisa Feia tinha ido embora.

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James R Doty

Sobre o autor

James R Doty

Neurocirurgião e professor no Departamento de Neurocirurgia na Universidade Stanford e diretor do Centro para Pesquisa e Educação em Compaixão e Altruísmo, CCARE, que tem o Dalai Lama como benfeitor. Filantropo, Doty instalou postos de saúde em vários pontos do mundo e financiou bolsas de estudo em diversas universidades. Ele faz parte da diretoria de inúmeras entidades sem fins lucrativos, como a Dalai Lama Foundation e a Charter for Compassion International.

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