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RELIGIÃO

A revelação

A revelação

C. BAXTER KRUGER

Uma conversa extraordinária com o apóstolo João sobre verdade e mentira, tristeza e alegria, descrença e fé

Uma conversa extraordinária com o apóstolo João sobre verdade e mentira, tristeza e alegria, descrença e fé

“Este livro é uma porta de entrada para reflexões profundas, envolventes e transformadoras!” – William P. Young, autor de A Cabana

Nesta parábola moderna, C. Baxter Kruger, autor de De volta à cabana, aborda os grandes mistérios da fé cristã à luz de uma visão inclusiva e sensível dos evangelhos, numa interpretação surpreendente que vai abalar nossas maiores certezas sobre o significado das palavras de Jesus.

 

Enfrentando uma séria crise existencial, o teólogo Aidan estava exausto, deprimido, questionando o sentido da vida e a própria fé – até que ele é transportado de volta no tempo e se vê na ilha de Patmos, em companhia do apóstolo João.

Ao longo de três dias de conversas emocionantes, o discípulo de Jesus provoca em Aidan reflexões que todos os seus anos de estudo bíblico não foram capazes de suscitar.

Dividido entre a crença e a desconfiança, ele é levado a encarar suas maiores dúvidas, seus traumas e seus fantasmas, e acaba fazendo descobertas que colocam em xeque todas as convicções que guiaram sua vida até então.

São João, por sua vez, não pode conter a curiosidade e quer saber tudo sobre o desenrolar da história e os rumos da Igreja, ao mesmo tempo que apresenta a seu hóspede todas as ferramentas de que ele precisa para alcançar a própria libertação.

“Este livro é uma porta de entrada para reflexões profundas, envolventes e transformadoras!” – William P. Young, autor de A Cabana

Nesta parábola moderna, C. Baxter Kruger, autor de De volta à cabana, aborda os grandes mistérios da fé cristã à luz de uma visão inclusiva e sensível dos evangelhos, numa interpretação surpreendente que vai abalar nossas maiores certezas sobre o significado das palavras de Jesus.

 

Enfrentando uma séria crise existencial, o teólogo Aidan estava exausto, deprimido, questionando o sentido da vida e a própria fé – até que ele é transportado de volta no tempo e se vê na ilha de Patmos, em companhia do apóstolo João.

Ao longo de três dias de conversas emocionantes, o discípulo de Jesus provoca em Aidan reflexões que todos os seus anos de estudo bíblico não foram capazes de suscitar.

Dividido entre a crença e a desconfiança, ele é levado a encarar suas maiores dúvidas, seus traumas e seus fantasmas, e acaba fazendo descobertas que colocam em xeque todas as convicções que guiaram sua vida até então.

São João, por sua vez, não pode conter a curiosidade e quer saber tudo sobre o desenrolar da história e os rumos da Igreja, ao mesmo tempo que apresenta a seu hóspede todas as ferramentas de que ele precisa para alcançar a própria libertação.

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Ficha técnica
Lançamento 15/01/2018
Título original PATMOS
Tradução DÉBORA CHAVES
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 256
Peso 300 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0565-9
EAN 9788543105659
Preço R$ 34,90
Ficha técnica e-book
eISBN 9788543105666
Preço R$ 19,99
Lançamento 15/01/2018
Título original PATMOS
Tradução DÉBORA CHAVES
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 256
Peso 300 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0565-9
EAN 9788543105659
Preço R$ 34,90

E-book

eISBN 9788543105666
Preço R$ 19,99

Leia um trecho do livro

CAPÍTULO 1

A passagem

Na maioria dos domingos, quando estou em casa, durmo o máximo que posso. Porém esse domingo não seria do jeito que eu imaginava. Uma tempestade violenta havia durado a noite inteira e eu mal conseguira dormir. Isso que me deixou irritado, pois, após uma turnê de duas semanas dando palestras sobre teologia, eu precisava de descanso. Um pouco depois das seis da manhã, um estranho silêncio – ainda mais assustador do que a tempestade – me despertou. Eu podia sentir a guerra invisível recomeçando. Apesar de ter ajudado centenas de pessoas a se reerguerem de suas batalhas e a encontrarem ajuda e mesmo a vitória, havia algo inédito agindo em minha vida – o mal covarde que sabia me derrubar como ninguém. Eu podia senti-lo, como uma nuvem negra vindo em minha direção, mas não havia nada que pudesse fazer para detê-lo.

Eu sabia que o sono tinha ido embora, então decidi me levantar, me vestir, preparar o café e pegar o jornal. Sorri ao lembrar como minha esposa, Mary, gosta de café de verdade, mas eu não tenho paciência para esperar a água ferver. Detesto a sensação de não ter o controle sobre as coisas, embora isso me aconteça com frequência. Quantas vezes alcancei uma série de sucessos na busca de respostas apenas para sentir algum detestável paraquedas se abrindo e me puxando de volta?

Coloquei uma cápsula de café na máquina, pressionei o botão e saí da cozinha para pegar o jornal. Não seria maravilhoso se você pudesse mandar uma mensagem para a cafeteira e ela fizesse o resto, e depois lhe enviasse uma mensagem quando o café estivesse pronto?

Quando me virei para entrar no vestíbulo, esperava ver nossa porta da frente, mas o que encontrei foi tão surpreendente quanto algo tirado do livro do Apocalipse e das violentas visões do apóstolo João.

Não é raro vermos luzes estranhas ao redor da porta, que tem 28 painéis de vidro. Às vezes, no inverno, os vidros refletem a luz do sol e criam cores diferentes. Mas nessa manhã a luz que atingia os painéis criou centenas de prismas brilhantes, que se mexiam e atravessavam uns aos outros, como se estivessem vivos, num espetáculo deslumbrante de luz e cor a poucos metros de mim.

Os prismas me fascinam desde que eu era garoto, mas nunca vi ou ouvi falar sobre prismas múltiplos se fundindo para criar um maior. Entretanto foi exatamente isso que surgiu entre mim e a porta. Pulsando numa miríade de cores, arco-íris dentro de arco-íris, tudo se misturou misteriosamente num manto vivo.
Fiquei parado, hipnotizado por aquela visão. E então esse manto começou a se mover – na minha direção.

Eu me preparei para algum tipo de impacto, mas, quando o manto me cobriu, nada aconteceu e não senti coisa alguma. De repente, o mundo simplesmente desapareceu, como se alguém tivesse desplugado a minha casa da existência. Minha casa e todo o planeta Terra – tudo o que eu conhecia havia desaparecido. Numa fração de segundo, me vi sozinho na mais completa escuridão.

– Ai, meu Deus! – gritei.

O que aconteceu? Morri? Estou morto? Onde estou? Que diabo está acontecendo? Conferi se meu rosto, minha cabeça, meu peito e o meu corpo ainda estavam lá. Minha mente estava a mil, mas eu era incapaz de pensar concretamente.

Medo não é a palavra certa para descrever o que eu sentia. Já tive medo centenas de vezes, à noite, na mata, perdido entre os arbustos, com os coiotes uivando e os sons estranhos que habitam a floresta. Mas sempre havia uma noção de alteridade que me proporcionava algum contexto. Contudo, no universo de escuridão que subitamente tomara conta da minha vida, eu estava sozinho e não havia nada que pudesse me oferecer um ponto de referência: nada de vinhas penduradas, folhas farfalhando ao vento, grilos chilreando, sapos coaxando, nem mesmo o zumbido de um mosquito. Num minuto eu estava me dirigindo para a porta da frente; no seguinte estava sozinho em uma escuridão tão intensa que parecia viva.

Por mais estranho que soe, pensei num biscoito de aveia. Agora esse pensamento me faz rir, mas foi isso que me veio à mente. Não demorei muito para entender por quê: o mundo silencioso e escuro em que eu tinha de algum modo entrado era tão desprovido de tudo que parecia insosso e seco como serragem. Isso me pareceu extremamente estranho, considerando que a minha suposta entrada tinha sido através de tantas luzes e cores bonitas.

Esses pensamentos duraram apenas um instante, enquanto a escuridão – que eu juro que estava se mexendo – me pressionava por todos os lados, como se sua intenção fosse me engolir vivo. Não dava para enxergar nada.

Entrei em pânico. Onde está a minha porta? O que aconteceu com a minha casa? Onde está a minha família? A confusão e o medo se misturaram à frustração e à indignação e foram aumentando conforme eu ia me dando conta da minha completa impotência. Eu não sabia o que fazer nem qual caminho tomar, nem sequer se isso importava. Era como se o próprio horror tivesse se transformado numa entidade e estivesse sufocando a minha vida. Talvez eu estivesse morto.

– Senhor Jesus – gritei. – O que você está fazendo? Isso não é justo. Você prometeu a vida, e eu a venho buscando desde a juventude, você sabe disso. Quem na Terra trabalhou mais que eu? E esta é a grande recompensa?

Não obtive resposta, nenhuma palavra, nenhum som, nada, apenas o pavoroso silêncio do isolamento na escuridão mais negra, um vazio que eu não desejaria nem mesmo para os fariseus hipócritas da minha vida.

– Procurei respostas durante trinta anos – gritei. – Durante toda a minha vida adulta, fiz das tripas coração para encontrar as malditas respostas. Estudei teologia, até estudei a Igreja Primitiva, história e psicologia, e estou fazendo terapia, caso você não se lembre, terapia!, e agora o desfecho é esta piada? É este o reino que você anunciou? O que mais você quer de mim? Diga! Você prometeu o rio de água viva, alegria indescritível, e eu analisei a fundo todas as denominações, até mesmo as carismáticas, buscando respostas incessantemente, sem encontrar nenhuma. E agora minha vida termina neste nada? Isso é tudo o que existe? Você está de brincadeira comigo?

Enfurecido, expeli meio século de raiva acumulada no meu coração. Irritado com a injustiça do que estava acontecendo,
caí de joelhos, desolado e emocionalmente esgotado pelas décadas de palavras e definições do que – agora estava claro para mim – não passava de ideias vazias, formas e ilusões ocas, falsas promessas da religião.

– Eu me recuso a morrer desta maneira – protestei. – Deve haver algo mais. Este não pode ser o fim.

O que quer que esteja acontecendo, minha vida não vai eu não vou terminar aqui. Vou encontrar o caminho para casa.

Ajoelhado sozinho na escuridão, tentando descobrir o que fazer, notei uma mancha cinzenta a distância, na minha frente, como uma luz tentando nascer, sem conseguir. A esperança se acendeu em meu coração, mas se apagou rapidamente no momento em que o meu cérebro saltou para o pensamento de um trem vindo na minha direção em um túnel. Perfeito, pensei. Depois de toda essa detestável busca, vou ser atropelado por um trem. Mas não havia trilhos, sons nem vibrações. Notei um cheiro esquisito de pepino podre flutuando no vazio negro. Estreitei os olhos, como se isso pudesse me ajudar a sentir o cheiro ou a enxergar melhor, mas de nada adiantou.

Eu me abaixei para tocar o chão. Sentindo um pó fino como poeira lunar, eu disse, meio em voz alta, meio para mim mesmo: Devo estar na face oculta da Lua. Ao contrário de todos os meus gritos anteriores, que foram engolidos pelo vácuo, esse murmúrio ecoou várias vezes, então imaginei que deveria estar – pelo menos agora, se não estava antes – em uma caverna. Talvez eu esteja no Arizona e este seja o trem das 3h10 para Yuma, pensei, me lembrando do filme Os Indomáveis e tentando desesperadamente trazer um toque de leveza para o momento mais surreal da minha vida.

Determinado a não desaparecer nem morrer sozinho, levantei-me e fui abrindo caminho instintivamente em direção à luz cinzenta. A luz foi aumentando e parecia mais brilhante. De longe chegava um som de pessoas marchando, como se uma banda estivesse ensaiando sem os instrumentos. Os passos da banda pouco a pouco ficaram mais altos enquanto eu ia em direção à luz, mas ainda não se ouvia nenhum tambor, assobio ou grito.

Estava tão escuro que eu tinha que me mover devagar. Só consegui avançar uns 3 metros antes de tropeçar em uma pedra – eu acho – e cair de cara no chão. Ao me virar de barriga para cima para me levantar, senti uma pressão nos ombros e nas pernas me puxando para baixo – como Gulliver sendo amarrado à areia contra sua vontade –, mas algo dentro de mim lutava para se erguer.

Eu me forcei a ficar de pé. Limpei a terra da roupa e fui mancando em direção à luz cinza. Como um zumbi, avançava devagar com os braços estendidos à frente, morrendo de medo de a qualquer momento cair de cabeça em algum abismo inimaginável – como se já não estivesse assustado o suficiente.

Por fim, consegui chegar à entrada do que descobri ser de fato uma caverna. Dominado por um alívio indescritível, me esforcei para enxergar enquanto meus olhos se ajustavam gradualmente
à luz do sol. Diante de mim, um mundo sem árvores, árido como a
superfície de Marte e vasto como o oceano. O céu estava azul, mas todo o resto era ocre. Tudo que dava para ver ou imaginar eram altos penhascos, colinas, ravinas e rochas que se espalhavam pela paisagem, tudo no mesmo tom terroso. Pensei no “Cântico de Moisés” e na “região árida e de ventos uivantes”.

Fiquei sem palavras, imóvel, até que o som de ondas do mar quebrou o silêncio. Olhando ao redor para tentar encontrá-las, percebi que a entrada da caverna onde eu estava ficava ao lado de um penhasco. Apenas uma trilha, de mais ou menos 1 metro de largura, me separava de uma queda perigosa; acima de mim, erguia-se um paredão de 9 metros de rocha. Onde fica este lugar? Talvez eu esteja no purgatório, pensei. Ou na Austrália.

O som de pessoas marchando voltou à minha consciência e se tornava cada vez mais alto. Fiquei imóvel e agucei os ouvidos, tentando descobrir o que era e de onde vinha aquele barulho, quando, do nada, uma mão agarrou meu ombro.

Antes que eu pudesse gritar, a voz atrás de mim berrou:

– Romanos. Siga-me!

Eu me virei a tempo de ver um homem de cabelos brancos com uma lamparina a óleo na mão esquerda.

Rápido! Por aqui – disse ele com autoridade, fazendo um gesto com a outra mão.

Quando percebi que o velho estava me levando de volta para a caverna e sua escuridão, congelei.

Espere aí um minutinho. Que diabo está acontecendo aqui?

Morra sem misericórdia ou venha atrás de mim e continue vivo – proclamou ele, sem se virar.

Estou bem atrás de você – gritei.

Quem quer que sejam esses romanos, pensei, posso correr mais rápido que este velho e ganhar algum tempo se for necessário.

À medida que adentrávamos na caverna, ouvi um murmúrio de água ao longe. Não era um rio, mas com certeza não eram apenas gotas pingando do teto. Eu tentava registrar tudo mentalmente, mas não conseguia.

Por fim, o velho se virou, entrou num salão e apagou a lamparina. Antes de tudo ficar escuro de novo, vislumbrei sua barba longa e o que pareciam ser odres de vinho e uma cesta grande.

Minha respiração estava pesada no ar frio. Ainda não havia qualquer vestígio de umidade. Eu podia ouvi-lo ofegar perto de mim, mas não dava para enxergar nada. Se algo der errado, acho que consigo encontrar o caminho de volta até a entrada da caverna. Pelo menos consigo chegar até a luz do sol, pensei.

– Eles não vão nos encontrar aqui – disse ele, com calma e segurança.

Senhor, só Deus sabe por que o segui de volta a esta caverna abandonada, mas isso tem que parar por aqui. Quem é você? Onde estamos? Como cheguei aqui? Não estou com disposição para mais mistérios.

Ele respirou fundo e soltou um suspiro.

– Tudo ficará esclarecido com o tempo, jovem. Por enquanto você precisa saber que está seguro aqui comigo. Confie em mim.

Confiar? Como posso confiar num velho que apareceu em uma caverna no meio do nada? Não tenho nenhuma ideia de como cheguei aqui, muito menos de quem você é. Consegui encontrar um pouco de luz, e agora você me trouxe de volta para a escuridão.

– Estamos a salvo – declarou ele, acrescentando de um jeito enigmático: – A luz brilha na escuridão.

Sem a mínima noção do que ele queria dizer, sentei-me no escuro e rememorei os fatos, meu corpo tremendo à medida que o efeito da dose dupla de adrenalina ia passando. Pelo menos não estou mais sozinho. Este velho não representa nenhuma ameaça real a mim e obviamente sabe se localizar nesta escuridão. Isso pode ser útil. Por alguma razão ele demonstrou boa vontade comigo. Mas eu quero respostas.

A voz preencheu o vazio:

De onde você é?

– Eu sou de Brandon – respondi. Pelo menos sei a resposta a essa pergunta. – Mas não é essa a questão. Como cheguei aqui? Quem é você? E o que quer dizer com “romanos”?

Ele acendeu de novo a lamparina a óleo e se levantou devagar e de maneira confiante, ficando diante de mim. Várias sombras dançavam na parede atrás dele. Ao olhar para ele, meu primeiro pensamento foi sabedoria. Ele era velho como a terra, baixo e esguio, mas dava para ver que fora forte quando jovem – do tipo magro. (Eu sempre quis ser magro, mas minha ascendência escocesa não me permitiu.) Suas mãos ainda eram fortes e maiores do que eu imaginava, considerando sua altura. O cabelo era comprido e de um branco quase tão cintilante quanto a barba, o que contrastava com a escuridão da caverna. Linhas profundas e antigas sulcavam seu rosto, cada uma implorando para contar sua história naquela que certamente fora uma vida de aventuras. Nenhum traço de tristeza aparecia em seu rosto. Os olhos, marcados por pés de galinha e sobrancelhas tão espessas que pareciam ter vida própria, brilhavam com intensidade indomável. Foi isto que mais me impressionou: seus profundos olhos castanhos, vívidos e luminosos. Ele tinha aquele olhar marcado pelo conhecimento há muito estabelecido.

Vestido com uma túnica, ele se manteve de pé com a confiança de um visionário vingador. Um cinto de couro muito gasto, escurecido pelo uso, marcava sua cintura. Em algum momento do passado a túnica deve ter sido branca, pensei. De seu ombro direito pendia uma velha bolsa marrom, obviamente remendada uma dezena de vezes no decorrer de suas aventuras.

Algo naquele velho me acalmou.

Obrigado – falei. – Estou muito abalado e terrivelmente confuso com o que está acontecendo aqui…

Não estamos todos? – interrompeu ele, passando a mão pela longa barba e sorrindo.

Notei que ele não tinha todos os dentes e que a maioria dos que restavam tinha diminuído ao longo dos anos. Mas seu sorriso me fez pensar em um santuário. Por mais bizarro que este mundo parecesse, onde quer que estivesse e o que quer que fosse, eu me senti seguro nele. Eu estava a anos-luz de me sentir à vontade, mas estava em segurança. O velho parecia confiável.

Ainda tremendo, consegui fingir uma risada.

Senhor, eu estava em casa quando umas coisas esquisitas aconteceram e vim parar nesta caverna.

CAPÍTULO 1

A passagem

Na maioria dos domingos, quando estou em casa, durmo o máximo que posso. Porém esse domingo não seria do jeito que eu imaginava. Uma tempestade violenta havia durado a noite inteira e eu mal conseguira dormir. Isso que me deixou irritado, pois, após uma turnê de duas semanas dando palestras sobre teologia, eu precisava de descanso. Um pouco depois das seis da manhã, um estranho silêncio – ainda mais assustador do que a tempestade – me despertou. Eu podia sentir a guerra invisível recomeçando. Apesar de ter ajudado centenas de pessoas a se reerguerem de suas batalhas e a encontrarem ajuda e mesmo a vitória, havia algo inédito agindo em minha vida – o mal covarde que sabia me derrubar como ninguém. Eu podia senti-lo, como uma nuvem negra vindo em minha direção, mas não havia nada que pudesse fazer para detê-lo.

Eu sabia que o sono tinha ido embora, então decidi me levantar, me vestir, preparar o café e pegar o jornal. Sorri ao lembrar como minha esposa, Mary, gosta de café de verdade, mas eu não tenho paciência para esperar a água ferver. Detesto a sensação de não ter o controle sobre as coisas, embora isso me aconteça com frequência. Quantas vezes alcancei uma série de sucessos na busca de respostas apenas para sentir algum detestável paraquedas se abrindo e me puxando de volta?

Coloquei uma cápsula de café na máquina, pressionei o botão e saí da cozinha para pegar o jornal. Não seria maravilhoso se você pudesse mandar uma mensagem para a cafeteira e ela fizesse o resto, e depois lhe enviasse uma mensagem quando o café estivesse pronto?

Quando me virei para entrar no vestíbulo, esperava ver nossa porta da frente, mas o que encontrei foi tão surpreendente quanto algo tirado do livro do Apocalipse e das violentas visões do apóstolo João.

Não é raro vermos luzes estranhas ao redor da porta, que tem 28 painéis de vidro. Às vezes, no inverno, os vidros refletem a luz do sol e criam cores diferentes. Mas nessa manhã a luz que atingia os painéis criou centenas de prismas brilhantes, que se mexiam e atravessavam uns aos outros, como se estivessem vivos, num espetáculo deslumbrante de luz e cor a poucos metros de mim.

Os prismas me fascinam desde que eu era garoto, mas nunca vi ou ouvi falar sobre prismas múltiplos se fundindo para criar um maior. Entretanto foi exatamente isso que surgiu entre mim e a porta. Pulsando numa miríade de cores, arco-íris dentro de arco-íris, tudo se misturou misteriosamente num manto vivo.
Fiquei parado, hipnotizado por aquela visão. E então esse manto começou a se mover – na minha direção.

Eu me preparei para algum tipo de impacto, mas, quando o manto me cobriu, nada aconteceu e não senti coisa alguma. De repente, o mundo simplesmente desapareceu, como se alguém tivesse desplugado a minha casa da existência. Minha casa e todo o planeta Terra – tudo o que eu conhecia havia desaparecido. Numa fração de segundo, me vi sozinho na mais completa escuridão.

– Ai, meu Deus! – gritei.

O que aconteceu? Morri? Estou morto? Onde estou? Que diabo está acontecendo? Conferi se meu rosto, minha cabeça, meu peito e o meu corpo ainda estavam lá. Minha mente estava a mil, mas eu era incapaz de pensar concretamente.

Medo não é a palavra certa para descrever o que eu sentia. Já tive medo centenas de vezes, à noite, na mata, perdido entre os arbustos, com os coiotes uivando e os sons estranhos que habitam a floresta. Mas sempre havia uma noção de alteridade que me proporcionava algum contexto. Contudo, no universo de escuridão que subitamente tomara conta da minha vida, eu estava sozinho e não havia nada que pudesse me oferecer um ponto de referência: nada de vinhas penduradas, folhas farfalhando ao vento, grilos chilreando, sapos coaxando, nem mesmo o zumbido de um mosquito. Num minuto eu estava me dirigindo para a porta da frente; no seguinte estava sozinho em uma escuridão tão intensa que parecia viva.

Por mais estranho que soe, pensei num biscoito de aveia. Agora esse pensamento me faz rir, mas foi isso que me veio à mente. Não demorei muito para entender por quê: o mundo silencioso e escuro em que eu tinha de algum modo entrado era tão desprovido de tudo que parecia insosso e seco como serragem. Isso me pareceu extremamente estranho, considerando que a minha suposta entrada tinha sido através de tantas luzes e cores bonitas.

Esses pensamentos duraram apenas um instante, enquanto a escuridão – que eu juro que estava se mexendo – me pressionava por todos os lados, como se sua intenção fosse me engolir vivo. Não dava para enxergar nada.

Entrei em pânico. Onde está a minha porta? O que aconteceu com a minha casa? Onde está a minha família? A confusão e o medo se misturaram à frustração e à indignação e foram aumentando conforme eu ia me dando conta da minha completa impotência. Eu não sabia o que fazer nem qual caminho tomar, nem sequer se isso importava. Era como se o próprio horror tivesse se transformado numa entidade e estivesse sufocando a minha vida. Talvez eu estivesse morto.

– Senhor Jesus – gritei. – O que você está fazendo? Isso não é justo. Você prometeu a vida, e eu a venho buscando desde a juventude, você sabe disso. Quem na Terra trabalhou mais que eu? E esta é a grande recompensa?

Não obtive resposta, nenhuma palavra, nenhum som, nada, apenas o pavoroso silêncio do isolamento na escuridão mais negra, um vazio que eu não desejaria nem mesmo para os fariseus hipócritas da minha vida.

– Procurei respostas durante trinta anos – gritei. – Durante toda a minha vida adulta, fiz das tripas coração para encontrar as malditas respostas. Estudei teologia, até estudei a Igreja Primitiva, história e psicologia, e estou fazendo terapia, caso você não se lembre, terapia!, e agora o desfecho é esta piada? É este o reino que você anunciou? O que mais você quer de mim? Diga! Você prometeu o rio de água viva, alegria indescritível, e eu analisei a fundo todas as denominações, até mesmo as carismáticas, buscando respostas incessantemente, sem encontrar nenhuma. E agora minha vida termina neste nada? Isso é tudo o que existe? Você está de brincadeira comigo?

Enfurecido, expeli meio século de raiva acumulada no meu coração. Irritado com a injustiça do que estava acontecendo,
caí de joelhos, desolado e emocionalmente esgotado pelas décadas de palavras e definições do que – agora estava claro para mim – não passava de ideias vazias, formas e ilusões ocas, falsas promessas da religião.

– Eu me recuso a morrer desta maneira – protestei. – Deve haver algo mais. Este não pode ser o fim.

O que quer que esteja acontecendo, minha vida não vai eu não vou terminar aqui. Vou encontrar o caminho para casa.

Ajoelhado sozinho na escuridão, tentando descobrir o que fazer, notei uma mancha cinzenta a distância, na minha frente, como uma luz tentando nascer, sem conseguir. A esperança se acendeu em meu coração, mas se apagou rapidamente no momento em que o meu cérebro saltou para o pensamento de um trem vindo na minha direção em um túnel. Perfeito, pensei. Depois de toda essa detestável busca, vou ser atropelado por um trem. Mas não havia trilhos, sons nem vibrações. Notei um cheiro esquisito de pepino podre flutuando no vazio negro. Estreitei os olhos, como se isso pudesse me ajudar a sentir o cheiro ou a enxergar melhor, mas de nada adiantou.

Eu me abaixei para tocar o chão. Sentindo um pó fino como poeira lunar, eu disse, meio em voz alta, meio para mim mesmo: Devo estar na face oculta da Lua. Ao contrário de todos os meus gritos anteriores, que foram engolidos pelo vácuo, esse murmúrio ecoou várias vezes, então imaginei que deveria estar – pelo menos agora, se não estava antes – em uma caverna. Talvez eu esteja no Arizona e este seja o trem das 3h10 para Yuma, pensei, me lembrando do filme Os Indomáveis e tentando desesperadamente trazer um toque de leveza para o momento mais surreal da minha vida.

Determinado a não desaparecer nem morrer sozinho, levantei-me e fui abrindo caminho instintivamente em direção à luz cinzenta. A luz foi aumentando e parecia mais brilhante. De longe chegava um som de pessoas marchando, como se uma banda estivesse ensaiando sem os instrumentos. Os passos da banda pouco a pouco ficaram mais altos enquanto eu ia em direção à luz, mas ainda não se ouvia nenhum tambor, assobio ou grito.

Estava tão escuro que eu tinha que me mover devagar. Só consegui avançar uns 3 metros antes de tropeçar em uma pedra – eu acho – e cair de cara no chão. Ao me virar de barriga para cima para me levantar, senti uma pressão nos ombros e nas pernas me puxando para baixo – como Gulliver sendo amarrado à areia contra sua vontade –, mas algo dentro de mim lutava para se erguer.

Eu me forcei a ficar de pé. Limpei a terra da roupa e fui mancando em direção à luz cinza. Como um zumbi, avançava devagar com os braços estendidos à frente, morrendo de medo de a qualquer momento cair de cabeça em algum abismo inimaginável – como se já não estivesse assustado o suficiente.

Por fim, consegui chegar à entrada do que descobri ser de fato uma caverna. Dominado por um alívio indescritível, me esforcei para enxergar enquanto meus olhos se ajustavam gradualmente
à luz do sol. Diante de mim, um mundo sem árvores, árido como a
superfície de Marte e vasto como o oceano. O céu estava azul, mas todo o resto era ocre. Tudo que dava para ver ou imaginar eram altos penhascos, colinas, ravinas e rochas que se espalhavam pela paisagem, tudo no mesmo tom terroso. Pensei no “Cântico de Moisés” e na “região árida e de ventos uivantes”.

Fiquei sem palavras, imóvel, até que o som de ondas do mar quebrou o silêncio. Olhando ao redor para tentar encontrá-las, percebi que a entrada da caverna onde eu estava ficava ao lado de um penhasco. Apenas uma trilha, de mais ou menos 1 metro de largura, me separava de uma queda perigosa; acima de mim, erguia-se um paredão de 9 metros de rocha. Onde fica este lugar? Talvez eu esteja no purgatório, pensei. Ou na Austrália.

O som de pessoas marchando voltou à minha consciência e se tornava cada vez mais alto. Fiquei imóvel e agucei os ouvidos, tentando descobrir o que era e de onde vinha aquele barulho, quando, do nada, uma mão agarrou meu ombro.

Antes que eu pudesse gritar, a voz atrás de mim berrou:

– Romanos. Siga-me!

Eu me virei a tempo de ver um homem de cabelos brancos com uma lamparina a óleo na mão esquerda.

Rápido! Por aqui – disse ele com autoridade, fazendo um gesto com a outra mão.

Quando percebi que o velho estava me levando de volta para a caverna e sua escuridão, congelei.

Espere aí um minutinho. Que diabo está acontecendo aqui?

Morra sem misericórdia ou venha atrás de mim e continue vivo – proclamou ele, sem se virar.

Estou bem atrás de você – gritei.

Quem quer que sejam esses romanos, pensei, posso correr mais rápido que este velho e ganhar algum tempo se for necessário.

À medida que adentrávamos na caverna, ouvi um murmúrio de água ao longe. Não era um rio, mas com certeza não eram apenas gotas pingando do teto. Eu tentava registrar tudo mentalmente, mas não conseguia.

Por fim, o velho se virou, entrou num salão e apagou a lamparina. Antes de tudo ficar escuro de novo, vislumbrei sua barba longa e o que pareciam ser odres de vinho e uma cesta grande.

Minha respiração estava pesada no ar frio. Ainda não havia qualquer vestígio de umidade. Eu podia ouvi-lo ofegar perto de mim, mas não dava para enxergar nada. Se algo der errado, acho que consigo encontrar o caminho de volta até a entrada da caverna. Pelo menos consigo chegar até a luz do sol, pensei.

– Eles não vão nos encontrar aqui – disse ele, com calma e segurança.

Senhor, só Deus sabe por que o segui de volta a esta caverna abandonada, mas isso tem que parar por aqui. Quem é você? Onde estamos? Como cheguei aqui? Não estou com disposição para mais mistérios.

Ele respirou fundo e soltou um suspiro.

– Tudo ficará esclarecido com o tempo, jovem. Por enquanto você precisa saber que está seguro aqui comigo. Confie em mim.

Confiar? Como posso confiar num velho que apareceu em uma caverna no meio do nada? Não tenho nenhuma ideia de como cheguei aqui, muito menos de quem você é. Consegui encontrar um pouco de luz, e agora você me trouxe de volta para a escuridão.

– Estamos a salvo – declarou ele, acrescentando de um jeito enigmático: – A luz brilha na escuridão.

Sem a mínima noção do que ele queria dizer, sentei-me no escuro e rememorei os fatos, meu corpo tremendo à medida que o efeito da dose dupla de adrenalina ia passando. Pelo menos não estou mais sozinho. Este velho não representa nenhuma ameaça real a mim e obviamente sabe se localizar nesta escuridão. Isso pode ser útil. Por alguma razão ele demonstrou boa vontade comigo. Mas eu quero respostas.

A voz preencheu o vazio:

De onde você é?

– Eu sou de Brandon – respondi. Pelo menos sei a resposta a essa pergunta. – Mas não é essa a questão. Como cheguei aqui? Quem é você? E o que quer dizer com “romanos”?

Ele acendeu de novo a lamparina a óleo e se levantou devagar e de maneira confiante, ficando diante de mim. Várias sombras dançavam na parede atrás dele. Ao olhar para ele, meu primeiro pensamento foi sabedoria. Ele era velho como a terra, baixo e esguio, mas dava para ver que fora forte quando jovem – do tipo magro. (Eu sempre quis ser magro, mas minha ascendência escocesa não me permitiu.) Suas mãos ainda eram fortes e maiores do que eu imaginava, considerando sua altura. O cabelo era comprido e de um branco quase tão cintilante quanto a barba, o que contrastava com a escuridão da caverna. Linhas profundas e antigas sulcavam seu rosto, cada uma implorando para contar sua história naquela que certamente fora uma vida de aventuras. Nenhum traço de tristeza aparecia em seu rosto. Os olhos, marcados por pés de galinha e sobrancelhas tão espessas que pareciam ter vida própria, brilhavam com intensidade indomável. Foi isto que mais me impressionou: seus profundos olhos castanhos, vívidos e luminosos. Ele tinha aquele olhar marcado pelo conhecimento há muito estabelecido.

Vestido com uma túnica, ele se manteve de pé com a confiança de um visionário vingador. Um cinto de couro muito gasto, escurecido pelo uso, marcava sua cintura. Em algum momento do passado a túnica deve ter sido branca, pensei. De seu ombro direito pendia uma velha bolsa marrom, obviamente remendada uma dezena de vezes no decorrer de suas aventuras.

Algo naquele velho me acalmou.

Obrigado – falei. – Estou muito abalado e terrivelmente confuso com o que está acontecendo aqui…

Não estamos todos? – interrompeu ele, passando a mão pela longa barba e sorrindo.

Notei que ele não tinha todos os dentes e que a maioria dos que restavam tinha diminuído ao longo dos anos. Mas seu sorriso me fez pensar em um santuário. Por mais bizarro que este mundo parecesse, onde quer que estivesse e o que quer que fosse, eu me senti seguro nele. Eu estava a anos-luz de me sentir à vontade, mas estava em segurança. O velho parecia confiável.

Ainda tremendo, consegui fingir uma risada.

Senhor, eu estava em casa quando umas coisas esquisitas aconteceram e vim parar nesta caverna.

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C. Baxter Kruger

Sobre o autor

C. Baxter Kruger

Diretor do Ministério Perichoresis, escritor e teólogo. Formado em Ciência Política e Psicologia, obteve o título de Ph.D. na Universidade de Aberdeen, na Escócia. Ele dá aulas ao redor do mundo e é autor de nove livros, incluindo De volta à cabana. É casado e tem quatro filhos.

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