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LITERATURA

As cinco pessoas que você encontra no céu

As cinco pessoas que você encontra no céu

MITCH ALBOM

Mais de 12 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo.

“Um livro com o poder genuíno de provocar e confortar os leitores.” – The New York Times

“Profundo, intenso, escrito com a serena eloquência de um contador de histórias que se atreve a penetrar no mais encantado de todos os mundos. Um livro poético, cheio de lições e de esperanças.” – James McBride, autor de A cor da água

 

As cinco pessoas que você encontra no céu conta a história de Eddie, mecânico de um parque de diversões, que morre no dia de seu aniversário de 83 anos. Imerso numa rotina de trabalho e solidão, ele passou a vida se considerando um fracassado. Ao acordar no céu, encontra cinco pessoas que lhe mostram o verdadeiro valor de sua existência.

Este livro foi escrito para cada um de nós, pois frequentemente nos sentimos frustrados e inúteis – assim como Eddie – por não termos realizado nossos sonhos. Ele nos faz lembrar que vivemos numa ampla teia de ligações e que temos o poder de mudar o destino das pessoas ao nosso redor com pequenos gestos.

Com seu estilo sensível e profundo, Mitch Albom, autor de A última grande lição, criou uma fábula que nos faz refletir sobre o significado da vida e nos dá mais uma aula sobre a importância da lealdade e do amor.

 

Mais de 12 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo.

“Um livro com o poder genuíno de provocar e confortar os leitores.” – The New York Times

“Profundo, intenso, escrito com a serena eloquência de um contador de histórias que se atreve a penetrar no mais encantado de todos os mundos. Um livro poético, cheio de lições e de esperanças.” – James McBride, autor de A cor da água

 

As cinco pessoas que você encontra no céu conta a história de Eddie, mecânico de um parque de diversões, que morre no dia de seu aniversário de 83 anos. Imerso numa rotina de trabalho e solidão, ele passou a vida se considerando um fracassado. Ao acordar no céu, encontra cinco pessoas que lhe mostram o verdadeiro valor de sua existência.

Este livro foi escrito para cada um de nós, pois frequentemente nos sentimos frustrados e inúteis – assim como Eddie – por não termos realizado nossos sonhos. Ele nos faz lembrar que vivemos numa ampla teia de ligações e que temos o poder de mudar o destino das pessoas ao nosso redor com pequenos gestos.

Com seu estilo sensível e profundo, Mitch Albom, autor de A última grande lição, criou uma fábula que nos faz refletir sobre o significado da vida e nos dá mais uma aula sobre a importância da lealdade e do amor.

 

Compre agora:

Ficha técnica
Lançamento 09/04/2018
Título original THE FIVE PEOPLE YOU MEET IN HEAVEN
Tradução PEDRO JORGENSEN JUNIOR
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 192
Peso 300 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0611-3
EAN 9788543106113
Preço R$ 34,90
Ficha técnica e-book
eISBN 9788543106120
Preço R$ 19,99
Lançamento 09/04/2018
Título original THE FIVE PEOPLE YOU MEET IN HEAVEN
Tradução PEDRO JORGENSEN JUNIOR
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 192
Peso 300 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0611-3
EAN 9788543106113
Preço R$ 34,90

E-book

eISBN 9788543106120
Preço R$ 19,99

Leia um trecho do livro

Fim

Esta é a história de um homem chamado Eddie. Ela começa pelo fim, com Eddie morrendo sob o sol. Pode parecer estra­nho uma história começar pelo fim. Mas todos os fins são também começos. Embora, quando acontecem, não saibamos disso.

_____

A hora final da vida de Eddie foi passada, como a maioria das outras, no Ruby Pier, um parque de diversões situa­do às margens de um grande oceano cinzento. O parque tinha as atrações de costume: deque à beira-mar, montanha-russa, carrinhos bate-bate, quiosque de bala puxa-puxa e um fliperama onde se podia jogar água na boca do palhaço. Tinha também um brinquedo novo e grande chamado Cabum do Freddy, e era por causa dele que Eddie ia morrer, num acidente que seria notícia em todo o estado.

_____

Na época em que morreu, Eddie era um velho atarracado de cabelos brancos, pescoço curto, peito estufado, braços vigorosos e uma tatuagem do Exército desbotada no ombro direito. Suas pernas agora eram finas e cheias de veias, e seu joelho esquerdo, ferido na guerra, estava destruído pela artrite. Usava uma bengala para caminhar. Tinha um rosto largo, queimado de sol, suíças de marinheiro e uma queixada um pouco proeminente que lhe dava um aspecto mais orgulhoso do que ele propriamente era. Levava sempre um cigarro atrás da orelha direita e uma corrente com um molho de chaves enganchada no cinto. Usava sapatos de sola de borracha. E um velho boné de pano. Seu uniforme marrom-claro sugeria que era um trabalhador, e ele era.

_____

O trabalho de Eddie consistia em fazer a manu­tenção dos brinquedos do parque, o que na verdade significava mantê-los seguros. Toda tarde ele percorria o parque veri­ficando cada uma das atrações, da Rumba ao Toboágua. Procurava tá­buas quebradas, travas frouxas, ferragens desgastadas. Às vezes pa­rava, com os olhos vidrados, e as pessoas que passavam tinham a impressão de que havia algo errado. Mas ele só estava ouvindo. Depois de todos aqueles anos, era capaz de ouvir um problema, ele dizia, nas cuspidas, nas gagueiras e nos zumbidos dos equipamentos.

_____

Com cinquenta minutos ainda por viver na Terra, Eddie começou sua última caminhada pelo Ruby Pier. Passou por um casal de velhos.

– Olá, pessoal – murmurou, tocando no boné.

Educadamente, eles responderam com um movimento de cabeça. Os fregueses conheciam Eddie. Pelo menos os frequentadores. Verão após verão, eles o viam ali, era uma dessas caras que a gente associa a um lugar. Seu uniforme de traba­lho levava um distintivo no peito no qual se lia EDDIE logo acima da palavra MANUTENÇÃO, razão pela qual as pessoas às vezes diziam: “Lá vai o Eddie Manutenção”, embora ele não achasse a menor graça nisso.

Hoje, por acaso, é aniversário de Eddie. Oitenta e três anos. Na semana anterior, o médico lhe dissera que ele sofria de herpes-zóster. Herpes-zóster? Eddie não fazia ideia do que fosse isso. Antes ele era tão forte que conseguia levantar um cavalo do carrossel em cada braço. Muito tempo atrás.

_____

– Eddie!… Me leva, Eddie!… Me leva!

Quarenta minutos para a sua morte. Eddie caminhou até o início da fila da montanha-russa. Ele andava em todos os brinquedos pelo menos uma vez por semana para ter certeza de que os freios e comandos funcionavam perfeitamente. Hoje era o dia da montanha-russa – Montanha Fantasma era como esta se chamava –, e os garotos que conheciam Eddie berravam pedindo para ir no carro com ele.

As crianças gostavam de Eddie. Os adolescentes não. Os adolescentes lhe davam dor de cabeça. Depois de tantos anos, Eddie imaginava já ter visto todo tipo de adolescente vadio e desaforado que existia no mundo. Mas as crianças eram dife­rentes. As crianças olhavam para Eddie – que, com sua mandí­bula proeminente, parecia estar sempre sorrindo, como um golfinho – e confiavam nele. Sentiam-se atraídas por ele como mãos frias pelo fogo. Abraçavam suas pernas. Brincavam com suas chaves. Eddie só grunhia, sem dizer quase nada. Imaginava que era porque não falava muito que as crianças gostavam dele.

Eddie bateu nos ombros de dois garotinhos com bonés de beisebol virados para trás. Eles correram até o carrinho e se atiraram dentro dele. Eddie entregou sua bengala ao operador do brinquedo e se acomodou vagarosamente entre os dois.

– Lá vamos nós… Lá vamos nós!… – guinchou um dos garotos, enquanto o outro colocava o braço de Eddie em torno dos seus ombros. Eddie baixou a barra de segurança e clec-clec-clec, lá se foram eles.

Ο

Havia uma história a respeito de Eddie. Quando menino, nesse mesmo píer, ele se envolvera numa briga de rua. Cinco garotos da avenida Pitkin tinham encurralado seu irmão, Joe, e se preparavam para lhe dar uma surra. Eddie estava a uma quadra de distância, sentado na escada à entrada de uma casa, comendo um sanduíche, quando ouviu o irmão gritar. Correu até o beco, apanhou a tampa de uma lata de lixo e mandou dois garotos para o hospital.

_____

– A gente pode ir outra vez, Eddie? Por favor!

Trinta e quatro minutos de vida. Eddie levantou a barra de segurança, deu a cada um dos garotos uma bala, pegou de volta a sua bengala e saiu coxeando em direção à oficina de ma­nutenção para se refrescar do calor do verão. Se soubesse que sua morte era iminente, talvez tivesse ido a outro lugar. Em vez disso, fez o que todos nós fazemos. Seguiu sua rotina monótona como se tivesse todos os dias do mundo à sua disposição.

Um dos trabalhadores da oficina, um rapaz desengonçado de rosto ossudo chamado Dominguez, estava na pia de solventes removendo a graxa de uma roda.

– Olá, Eddie – disse ele.

– Dom – respondeu Eddie.

A oficina cheirava a serragem. Era escura e apertada, com teto baixo e paredes cobertas por chapas perfuradas onde ficavam pendurados brocas, serras e martelos. Havia peças e partes de brinquedos espalhadas por toda parte: compressores, motores, cintos, lâmpadas, o alto da cabeça de um pirata. Junto a uma parede havia uma pilha de latas de café cheias de pregos e parafusos, e junto a outra, uma infinidade de potes de graxa.

Para lubrificar um trilho, dizia Eddie, não era preciso ter mais cérebro do que para lavar louça; a diferença era que, em vez de limpar, deixava mais sujo. Era este o tipo de serviço que Eddie fazia: colocar graxa, ajustar freios, afivelar cintos, verificar painéis eletrônicos. Muitas vezes ele teve vontade de sair daquele lugar, encontrar outro trabalho, construir um outro tipo de vida. Mas aí veio a guerra. Seus planos deram em nada. Quando caiu em si, já estava grisalho, usando calças largas, e, por causa do cansaço, era compelido a aceitar quem ele era e sempre seria: um homem com areia nos sapatos, num mundo de risadas mecânicas e salsichas grelhadas. Tal como seu pai, tal como a insígnia na sua camisa, Eddie era a manutenção – o chefe da manutenção –, ou, como os garotos às vezes o chamavam, “o homem dos brinquedos do Ruby Pier”.

_____

Trinta minutos de vida.

– Ei, feliz aniversário! Eu já soube… – disse Dominguez.

Eddie grunhiu.

– Vai ter festa, alguma coisa?

Eddie o olhou como se ele estivesse maluco. Por um mo­mento pensou como era estranho estar envelhecendo num lugar que cheirava a algodão-doce.

– Eddie, não esqueça que eu vou estar fora na semana que vem, a partir de segunda-feira. Vou ao México.

Eddie assentiu movendo a cabeça, e Dominguez fez uns passos de dança.

– Eu e Thereza. Vamos ver a família inteira. Vai ser um festão.

Parou de dançar ao perceber que Eddie olhava para ele.

– Você já esteve lá? – perguntou Dominguez.

– Lá onde?

– No México.

Eddie suspirou.

– Eu nunca estive em nenhum lugar onde não tenha sido desembarcado com um fuzil na mão, rapaz.

Observou Dominguez voltar à pia. Pensou por um momento. Aí, pegou no bolso uma pequena carteira, tirou duas notas de vinte, as únicas que tinha, e lhe ofereceu.

– Compre alguma coisa bem bonita para a sua mulher – disse Eddie.

Dominguez olhou o dinheiro e abriu um grande sorriso:

– O que é isso, cara. Tem certeza?

Eddie pôs o dinheiro na mão de Dominguez. Depois saiu caminhando para a área de despejo. Um pequeno “buraco de pesca” fora feito nas pranchas do passeio anos antes. Eddie levantou a tampa de plástico e puxou uma linha de náilon que descia 25 metros até atingir o mar. Ainda tinha preso nela um pedaço de salsicha.

– Pegamos alguma coisa? – berrou Dominguez. – Diz pra mim que nós pegamos alguma coisa!

Eddie se perguntou como aquele sujeito podia ser tão otimista. Nunca havia nada naquela linha.

– Um dia – berrou Dominguez – a gente vai pegar um linguado gigante!

– Vai, sim – resmungou Eddie, sabendo que era impossível puxar um peixe daquele tamanho por um buraco tão pequeno.

_____

Vinte e seis minutos de vida. Eddie atravessou o deque até a extremidade sul. O movimento estava fraco. A garota atrás do balcão de bala puxa-puxa estava apoiada nos cotovelos, fazendo bolas com seu chiclete.

No passado, o Ruby Pier era o lugar para se ir no verão. Tinha elefantes, queima de fogos e maratonas de dança. Mas as pessoas não vinham mais aos píeres oceânicos; iam aos parques temáticos de 75 dólares, onde podiam tirar fotos fantasia­das de personagens de desenhos animados.

Eddie passou coxeando pelos carrinhos bate-bate e fixou os olhos num grupo de adolescentes encostados na grade de proteção. “Que ótimo”, disse a si mesmo. “Era tudo o que eu precisava.”

– Saiam daí – disse Eddie, batendo na grade com a bengala. – Vão embora. Este lugar não é seguro.

Os adolescentes o olharam, desafiantes. Os mastros dos carros chiavam ao contato com a corrente elétrica, zzzzap zzzzap.

– Não é seguro – repetiu Eddie.

Os adolescentes se entreolharam. Um garoto com uma mecha de cabelo alaranjada lhe dirigiu um sorrisinho desde­nhoso e subiu na barra do meio da grade.

– Como é, caras, acertem em mim! – ele berrava, acenando para os jovens motoristas. – Me acert…

Eddie deu uma bengalada tão forte na grade que quase a partiu em dois.

– SAIAM DAÍ!

Os adolescentes saíram correndo.

_____

Contava-se uma outra história sobre Eddie. Quando soldado, ele entrara em combate diversas vezes. Tinha lutado com bravura. Ganhara até uma medalha. Mas no fim do seu tempo de serviço teve uma briga com um de seus companheiros. Desse jeito Eddie foi ferido. Ninguém sabia o que tinha acontecido com o outro sujeito.

Ninguém perguntava.

Fim

Esta é a história de um homem chamado Eddie. Ela começa pelo fim, com Eddie morrendo sob o sol. Pode parecer estra­nho uma história começar pelo fim. Mas todos os fins são também começos. Embora, quando acontecem, não saibamos disso.

_____

A hora final da vida de Eddie foi passada, como a maioria das outras, no Ruby Pier, um parque de diversões situa­do às margens de um grande oceano cinzento. O parque tinha as atrações de costume: deque à beira-mar, montanha-russa, carrinhos bate-bate, quiosque de bala puxa-puxa e um fliperama onde se podia jogar água na boca do palhaço. Tinha também um brinquedo novo e grande chamado Cabum do Freddy, e era por causa dele que Eddie ia morrer, num acidente que seria notícia em todo o estado.

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Na época em que morreu, Eddie era um velho atarracado de cabelos brancos, pescoço curto, peito estufado, braços vigorosos e uma tatuagem do Exército desbotada no ombro direito. Suas pernas agora eram finas e cheias de veias, e seu joelho esquerdo, ferido na guerra, estava destruído pela artrite. Usava uma bengala para caminhar. Tinha um rosto largo, queimado de sol, suíças de marinheiro e uma queixada um pouco proeminente que lhe dava um aspecto mais orgulhoso do que ele propriamente era. Levava sempre um cigarro atrás da orelha direita e uma corrente com um molho de chaves enganchada no cinto. Usava sapatos de sola de borracha. E um velho boné de pano. Seu uniforme marrom-claro sugeria que era um trabalhador, e ele era.

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O trabalho de Eddie consistia em fazer a manu­tenção dos brinquedos do parque, o que na verdade significava mantê-los seguros. Toda tarde ele percorria o parque veri­ficando cada uma das atrações, da Rumba ao Toboágua. Procurava tá­buas quebradas, travas frouxas, ferragens desgastadas. Às vezes pa­rava, com os olhos vidrados, e as pessoas que passavam tinham a impressão de que havia algo errado. Mas ele só estava ouvindo. Depois de todos aqueles anos, era capaz de ouvir um problema, ele dizia, nas cuspidas, nas gagueiras e nos zumbidos dos equipamentos.

_____

Com cinquenta minutos ainda por viver na Terra, Eddie começou sua última caminhada pelo Ruby Pier. Passou por um casal de velhos.

– Olá, pessoal – murmurou, tocando no boné.

Educadamente, eles responderam com um movimento de cabeça. Os fregueses conheciam Eddie. Pelo menos os frequentadores. Verão após verão, eles o viam ali, era uma dessas caras que a gente associa a um lugar. Seu uniforme de traba­lho levava um distintivo no peito no qual se lia EDDIE logo acima da palavra MANUTENÇÃO, razão pela qual as pessoas às vezes diziam: “Lá vai o Eddie Manutenção”, embora ele não achasse a menor graça nisso.

Hoje, por acaso, é aniversário de Eddie. Oitenta e três anos. Na semana anterior, o médico lhe dissera que ele sofria de herpes-zóster. Herpes-zóster? Eddie não fazia ideia do que fosse isso. Antes ele era tão forte que conseguia levantar um cavalo do carrossel em cada braço. Muito tempo atrás.

_____

– Eddie!… Me leva, Eddie!… Me leva!

Quarenta minutos para a sua morte. Eddie caminhou até o início da fila da montanha-russa. Ele andava em todos os brinquedos pelo menos uma vez por semana para ter certeza de que os freios e comandos funcionavam perfeitamente. Hoje era o dia da montanha-russa – Montanha Fantasma era como esta se chamava –, e os garotos que conheciam Eddie berravam pedindo para ir no carro com ele.

As crianças gostavam de Eddie. Os adolescentes não. Os adolescentes lhe davam dor de cabeça. Depois de tantos anos, Eddie imaginava já ter visto todo tipo de adolescente vadio e desaforado que existia no mundo. Mas as crianças eram dife­rentes. As crianças olhavam para Eddie – que, com sua mandí­bula proeminente, parecia estar sempre sorrindo, como um golfinho – e confiavam nele. Sentiam-se atraídas por ele como mãos frias pelo fogo. Abraçavam suas pernas. Brincavam com suas chaves. Eddie só grunhia, sem dizer quase nada. Imaginava que era porque não falava muito que as crianças gostavam dele.

Eddie bateu nos ombros de dois garotinhos com bonés de beisebol virados para trás. Eles correram até o carrinho e se atiraram dentro dele. Eddie entregou sua bengala ao operador do brinquedo e se acomodou vagarosamente entre os dois.

– Lá vamos nós… Lá vamos nós!… – guinchou um dos garotos, enquanto o outro colocava o braço de Eddie em torno dos seus ombros. Eddie baixou a barra de segurança e clec-clec-clec, lá se foram eles.

Ο

Havia uma história a respeito de Eddie. Quando menino, nesse mesmo píer, ele se envolvera numa briga de rua. Cinco garotos da avenida Pitkin tinham encurralado seu irmão, Joe, e se preparavam para lhe dar uma surra. Eddie estava a uma quadra de distância, sentado na escada à entrada de uma casa, comendo um sanduíche, quando ouviu o irmão gritar. Correu até o beco, apanhou a tampa de uma lata de lixo e mandou dois garotos para o hospital.

_____

– A gente pode ir outra vez, Eddie? Por favor!

Trinta e quatro minutos de vida. Eddie levantou a barra de segurança, deu a cada um dos garotos uma bala, pegou de volta a sua bengala e saiu coxeando em direção à oficina de ma­nutenção para se refrescar do calor do verão. Se soubesse que sua morte era iminente, talvez tivesse ido a outro lugar. Em vez disso, fez o que todos nós fazemos. Seguiu sua rotina monótona como se tivesse todos os dias do mundo à sua disposição.

Um dos trabalhadores da oficina, um rapaz desengonçado de rosto ossudo chamado Dominguez, estava na pia de solventes removendo a graxa de uma roda.

– Olá, Eddie – disse ele.

– Dom – respondeu Eddie.

A oficina cheirava a serragem. Era escura e apertada, com teto baixo e paredes cobertas por chapas perfuradas onde ficavam pendurados brocas, serras e martelos. Havia peças e partes de brinquedos espalhadas por toda parte: compressores, motores, cintos, lâmpadas, o alto da cabeça de um pirata. Junto a uma parede havia uma pilha de latas de café cheias de pregos e parafusos, e junto a outra, uma infinidade de potes de graxa.

Para lubrificar um trilho, dizia Eddie, não era preciso ter mais cérebro do que para lavar louça; a diferença era que, em vez de limpar, deixava mais sujo. Era este o tipo de serviço que Eddie fazia: colocar graxa, ajustar freios, afivelar cintos, verificar painéis eletrônicos. Muitas vezes ele teve vontade de sair daquele lugar, encontrar outro trabalho, construir um outro tipo de vida. Mas aí veio a guerra. Seus planos deram em nada. Quando caiu em si, já estava grisalho, usando calças largas, e, por causa do cansaço, era compelido a aceitar quem ele era e sempre seria: um homem com areia nos sapatos, num mundo de risadas mecânicas e salsichas grelhadas. Tal como seu pai, tal como a insígnia na sua camisa, Eddie era a manutenção – o chefe da manutenção –, ou, como os garotos às vezes o chamavam, “o homem dos brinquedos do Ruby Pier”.

_____

Trinta minutos de vida.

– Ei, feliz aniversário! Eu já soube… – disse Dominguez.

Eddie grunhiu.

– Vai ter festa, alguma coisa?

Eddie o olhou como se ele estivesse maluco. Por um mo­mento pensou como era estranho estar envelhecendo num lugar que cheirava a algodão-doce.

– Eddie, não esqueça que eu vou estar fora na semana que vem, a partir de segunda-feira. Vou ao México.

Eddie assentiu movendo a cabeça, e Dominguez fez uns passos de dança.

– Eu e Thereza. Vamos ver a família inteira. Vai ser um festão.

Parou de dançar ao perceber que Eddie olhava para ele.

– Você já esteve lá? – perguntou Dominguez.

– Lá onde?

– No México.

Eddie suspirou.

– Eu nunca estive em nenhum lugar onde não tenha sido desembarcado com um fuzil na mão, rapaz.

Observou Dominguez voltar à pia. Pensou por um momento. Aí, pegou no bolso uma pequena carteira, tirou duas notas de vinte, as únicas que tinha, e lhe ofereceu.

– Compre alguma coisa bem bonita para a sua mulher – disse Eddie.

Dominguez olhou o dinheiro e abriu um grande sorriso:

– O que é isso, cara. Tem certeza?

Eddie pôs o dinheiro na mão de Dominguez. Depois saiu caminhando para a área de despejo. Um pequeno “buraco de pesca” fora feito nas pranchas do passeio anos antes. Eddie levantou a tampa de plástico e puxou uma linha de náilon que descia 25 metros até atingir o mar. Ainda tinha preso nela um pedaço de salsicha.

– Pegamos alguma coisa? – berrou Dominguez. – Diz pra mim que nós pegamos alguma coisa!

Eddie se perguntou como aquele sujeito podia ser tão otimista. Nunca havia nada naquela linha.

– Um dia – berrou Dominguez – a gente vai pegar um linguado gigante!

– Vai, sim – resmungou Eddie, sabendo que era impossível puxar um peixe daquele tamanho por um buraco tão pequeno.

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Vinte e seis minutos de vida. Eddie atravessou o deque até a extremidade sul. O movimento estava fraco. A garota atrás do balcão de bala puxa-puxa estava apoiada nos cotovelos, fazendo bolas com seu chiclete.

No passado, o Ruby Pier era o lugar para se ir no verão. Tinha elefantes, queima de fogos e maratonas de dança. Mas as pessoas não vinham mais aos píeres oceânicos; iam aos parques temáticos de 75 dólares, onde podiam tirar fotos fantasia­das de personagens de desenhos animados.

Eddie passou coxeando pelos carrinhos bate-bate e fixou os olhos num grupo de adolescentes encostados na grade de proteção. “Que ótimo”, disse a si mesmo. “Era tudo o que eu precisava.”

– Saiam daí – disse Eddie, batendo na grade com a bengala. – Vão embora. Este lugar não é seguro.

Os adolescentes o olharam, desafiantes. Os mastros dos carros chiavam ao contato com a corrente elétrica, zzzzap zzzzap.

– Não é seguro – repetiu Eddie.

Os adolescentes se entreolharam. Um garoto com uma mecha de cabelo alaranjada lhe dirigiu um sorrisinho desde­nhoso e subiu na barra do meio da grade.

– Como é, caras, acertem em mim! – ele berrava, acenando para os jovens motoristas. – Me acert…

Eddie deu uma bengalada tão forte na grade que quase a partiu em dois.

– SAIAM DAÍ!

Os adolescentes saíram correndo.

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Contava-se uma outra história sobre Eddie. Quando soldado, ele entrara em combate diversas vezes. Tinha lutado com bravura. Ganhara até uma medalha. Mas no fim do seu tempo de serviço teve uma briga com um de seus companheiros. Desse jeito Eddie foi ferido. Ninguém sabia o que tinha acontecido com o outro sujeito.

Ninguém perguntava.

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Mitch Albom

Sobre o autor

Mitch Albom

Autor de sete livros, entre eles A última grande liçãoPor mais um dia e As cordas mágicas. Suas obras já foram traduzidas para 42 idiomas e venderam mais de 600 mil exemplares no Brasil e mais de 35 milhões no mundo. Um dos jornalistas esportivos mais premiados dos Estados Unidos, trabalha como colunista de jornal e apresentador de rádio e de televisão. É também roteirista e músico. Fundou oito instituições de caridade em Detroit e atua em um orfanato em Port-au-Prince, no Haiti. Atualmente mora com a esposa, Janine, em Michigan.

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