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Como Adam Smith pode mudar sua vida

Como Adam Smith pode mudar sua vida

RUSS ROBERTS

O que o pai da economia tem a ensinar sobre a natureza humana, a felicidade e a riqueza

O que o pai da economia tem a ensinar sobre a natureza humana, a felicidade e a riqueza

“Um livro excelente. Faz você se sentir melhor com a vida, com a humanidade e com você mesmo.” – Nassim Taleb, autor de A lógica do cisne negro

 

Adam Smith se tornou o pai da economia moderna depois de escrever A riqueza das nações. Mas pouca gente sabe que o filósofo escocês do século XVIII também tinha muito a dizer sobre comportamento e ética.

Ele desenvolveu suas ideias sobre o modo como nos relacionamos, a maneira como tratamos as pessoas e as decisões que tomamos no livro Teoria dos sentimentos morais.

O pesquisador e economista Russ Roberts examinou essa obra-prima esquecida e descobriu um tesouro de sabedoria prática e atemporal. Em Como Adam Smith pode mudar sua vida, ele mostra que as reflexões do pensador sobre a natureza humana são tão relevantes hoje quanto eram há 300 anos.

Como conhecer a si mesmo? Como ser feliz? Como não se enganar? Como ser amado e amável? Como tornar o mundo um lugar melhor? Como viver no mundo moderno?

As respostas inesperadas de Adam Smith, analisadas no contexto dos acontecimentos, da literatura, da história e da cultura pop atuais, são profundas, surpreendentes e até divertidas. Russ Roberts reinterpreta os pensamentos do filósofo e lança uma nova luz sobre questões simples e complexas do nosso dia a dia.

“Um livro excelente. Faz você se sentir melhor com a vida, com a humanidade e com você mesmo.” – Nassim Taleb, autor de A lógica do cisne negro

 

Adam Smith se tornou o pai da economia moderna depois de escrever A riqueza das nações. Mas pouca gente sabe que o filósofo escocês do século XVIII também tinha muito a dizer sobre comportamento e ética.

Ele desenvolveu suas ideias sobre o modo como nos relacionamos, a maneira como tratamos as pessoas e as decisões que tomamos no livro Teoria dos sentimentos morais.

O pesquisador e economista Russ Roberts examinou essa obra-prima esquecida e descobriu um tesouro de sabedoria prática e atemporal. Em Como Adam Smith pode mudar sua vida, ele mostra que as reflexões do pensador sobre a natureza humana são tão relevantes hoje quanto eram há 300 anos.

Como conhecer a si mesmo? Como ser feliz? Como não se enganar? Como ser amado e amável? Como tornar o mundo um lugar melhor? Como viver no mundo moderno?

As respostas inesperadas de Adam Smith, analisadas no contexto dos acontecimentos, da literatura, da história e da cultura pop atuais, são profundas, surpreendentes e até divertidas. Russ Roberts reinterpreta os pensamentos do filósofo e lança uma nova luz sobre questões simples e complexas do nosso dia a dia.

Compre agora:

Ficha técnica
Lançamento 01/09/2015
Título original HOW ADAM SMITH CAN CHANGE YOUR LIFE
Tradução VERA LUCIA RIBEIRO
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 192
Peso 240
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0260-3
EAN 9788543102603
Preço R$ 39,90
Ficha técnica e-book
eISBN 9788543102610
Preço R$ 24,99
Lançamento 01/09/2015
Título original HOW ADAM SMITH CAN CHANGE YOUR LIFE
Tradução VERA LUCIA RIBEIRO
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 192
Peso 240
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0260-3
EAN 9788543102603
Preço R$ 39,90

E-book

eISBN 9788543102610
Preço R$ 24,99

Leia um trecho do livro

Capítulo 1

Como Adam Smith pode mudar sua vida

O que é uma vida boa? A religião, a filosofia e os livros de autoajuda modernos debatem essa questão, mas a resposta a que chegam é sempre vaga. Significa ser feliz? Ou será que tem a ver com riqueza e sucesso profissional? Qual é o papel que a virtude desempenha nisso? Ter uma vida boa é uma consequência de ser bom? Ou de ajudar os outros e fazer do mundo um lugar melhor?

Há 250 anos, um filósofo moral escocês abordou essas perguntas num livro com o singelo título Teoria dos sentimentos morais. O livro foi uma tentativa de Adam Smith de explicar de onde vem a moral e por que as pessoas são capazes de agir com dignidade e virtude, mesmo quando isso entra em conflito com seus interesses pessoais. Trata-se de uma mistura de psicologia, filosofia e o que hoje é chamado de economia comportamental, somada a observações sobre amizade, busca da riqueza, busca da felicidade e virtude. Ao longo do texto, Adam Smith mostra ao leitor o que é uma vida boa e como conquistá-la.

Na época em que foi lançado, o livro foi um sucesso. Hoje, entretanto, a Teoria dos sentimentos morais está quase esquecida, ofuscada pela fama que o autor alcançou com seu segundo livro, A riqueza das nações. Publicado em 1776, tornou Adam Smith eternamente famoso e deu origem ao campo da economia. Embora nos dias de hoje poucas pessoas o leiam, é inegável que é um clássico. Muito menos gente, porém, leu ou sequer ouviu falar do outro livro de Adam Smith, Teoria dos sentimentos morais.

Durante a maior parte da minha carreira, eu também não havia lido. Esta é uma confissão meio constrangedora para um economista. Seria de esperar que eu tivesse lido os dois principais livros do fundador da minha área. Até recentemente, porém, eu sabia pouquíssimo sobre a Teoria dos sentimentos morais. Na verdade, demorou muito até que eu ouvisse alguém mencionar o outro livro de Smith, aquele de título intimidante que não parecia ter muito a ver com economia.

Minha relação com a Teoria dos sentimentos morais mudou quando meu amigo Dan Klein, da Universidade George Mason, sugeriu que eu o entrevistasse sobre essa obra em meu podcast semanal, o EconTalk. Concordei, pensando que isso enfim me levaria a ler o livro. Pelo menos, eu tinha um exemplar – comprado uns trinta anos antes, por eu achar que um economista deveria no mínimo ter os dois livros de Adam Smith. Assim, tirei-o da estante, abri-o na primeira página e comecei a ler.

Por mais egoísta que o homem suponha ser, é evidente que há em sua natureza alguns princípios que o fazem se interessar pela sorte dos outros e se importar com a felicidade deles, embora nada extraia disso senão o prazer de testemunhá-la.

Tive de ler esse trecho duas vezes para compreender o que Adam Smith estava dizendo: embora as pessoas possam ser bastante egoístas, elas se importam com a felicidade alheia. Faz sentido. Continuei a ler a primeira página. Depois, a segunda e a terceira. Fechei o livro.

Uma segunda confissão: eu não fazia ideia de qual era o assunto abordado por Smith. O livro parecia começar no meio do caminho. Ao contrário de A riqueza das nações, que é uma prosa encantadora e cativante desde o início, a Teoria dos sentimentos morais possui uma narrativa muito lenta. Eu me senti pouco confiante – talvez não devesse ter concordado com a entrevista. Duvidei da minha capacidade de entender a obra. Ia me expor a um vexame, e até pensei em pedir ao Dan que cancelasse o encontro.

Mas insisti, na esperança de mudar de ideia. Recomecei. Aos poucos, fui tendo uma ideia do que Smith pretendia explicar. Quando cheguei a um terço do texto, tinha sido fisgado. Levei o livro para os jogos de futebol da minha filha e o devorei no intervalo das partidas e quando ela não estava em campo. Li trechos em voz alta para minha mulher e meus filhos à mesa do jantar, na esperança de despertar o interesse deles pelas ideias do autor sobre como se relacionar com outras pessoas. As margens do livro ficaram cheias de asteriscos e pontos de exclamação, pois eu marquei as passagens de que mais havia gostado. Quando terminei a leitura, tive vontade de espalhar a notícia para todos, em alto e bom som: o livro é uma maravilha, uma joia rara, vocês precisam ler!

A obra modificou minha maneira de ver as pessoas e, o que talvez seja mais importante, minha forma de enxergar a mim mesmo. Adam Smith me tornou consciente de como as pessoas interagem umas com as outras de modos que eu não havia notado antes. Ele oferece conselhos de valor inestimável sobre como lidar com o dinheiro, a ambição, a fama e a moral. Mostra ao leitor como encontrar a felicidade, como lidar com o sucesso e o fracasso materiais. Também descreve o caminho para a virtude e a bondade, e a razão pela qual vale a pena segui-lo.

Adam Smith me ajudou a compreender, entre outras coisas, o motivo de Whitney Houston e Marilyn Monroe terem sido tão infelizes e por que a morte delas entristeceu tanta gente; a causa de minha afeição por meu iPad e meu iPhone; por que conversar com estranhos sobre nossos problemas pode acalentar a alma; a razão de ser possível ter pensamentos monstruosos mas raramente colocá-los em prática; o porquê de as pessoas adorarem os políticos; e de que modo a moral se incorpora à trama do mundo.

Embora ele seja o pai do capitalismo e tenha escrito o livro mais famoso, e talvez o melhor, sobre por que algumas nações são ricas e outras são pobres, Adam Smith, na Teoria dos sentimentos morais, escreveu com a mesma fluência de qualquer outro autor sobre a futilidade que é buscar dinheiro na esperança de encontrar felicidade. Como conciliar isso com o fato de ninguém ter feito mais do que Adam Smith para tornar respeitáveis o capitalismo e o interesse pessoal? Este é um enigma que tentarei decifrar até o final deste livro.

Além do vazio do materialismo excessivo, Smith compreendeu o potencial que temos para enganar a nós mesmos, o perigo das consequências não planejadas, a atração exercida pela fama e pelo poder, as limitações da razão humana e as fontes invisíveis que tornam nossa vida tão complexa e, ainda assim, às vezes tão ordenada. Teoria dos sentimentos morais é um livro de observações sobre o que nos motiva. De quebra e quase de passagem, o autor nos mostra como levar uma vida boa, no sentido mais pleno dessa expressão.

*

Os detalhes da vida do próprio Adam Smith são bem triviais. Ele nasceu na aldeia de Kircaldy, na Escócia, em 1723. Seu pai morreu quando ele tinha poucos meses. Aos 14 anos, foi estudar na Universidade de Glasgow, depois em Oxford, e então voltou para a Escócia para lecionar na Universidade de Edimburgo. Em seguida, em 1751, foi contratado pela Universidade de Glasgow como professor de lógica e, mais tarde, de filosofia moral. Sua mãe e uma tia solteira foram morar com ele em Glasgow, numa casa oferecida pela universidade. Em 1763, ele deixou a vida acadêmica para ter um emprego mais lucrativo, como mentor do rico e jovem duque de Buccleuch.

Essa deve ter sido uma mudança de ritmo bastante drástica para Adam Smith, que, então com 40 anos, passou a ver de perto o estilo de vida dos ricos e famosos de sua época. Durante dois anos e meio, ele viajou pela França e pela Suíça com seu jovem aluno e, no caminho, conheceu alguns dos grandes intelectuais europeus da época, entre eles Voltaire, François Quesnay e Anne-Robert-Jacques Turgot. Após esse período, e ao longo de uma década, ficou em Kircaldy, depois em Londres, trabalhando em A riqueza das nações.

Em 1778, Adam Smith mudou-se de Londres para Edimburgo, onde foi morar com a mãe e vários primos. No mesmo ano, foi nomeado um dos cinco comissários da alfândega escocesa, chefiando uma equipe que perseguia o contrabando e cobrava impostos, ou o que hoje chamamos de tarifa alfandegária. O homem que talvez tenha sido o mais influente defensor do livre-comércio passou os últimos anos de vida reduzindo o fluxo de mercadorias contrabandeadas e coletando impostos de importação para o governo.

Sem contar o período que passou na Europa continental, Adam Smith parece ter levado uma vida que a maioria classificaria como particularmente sem graça. Foi conferencista, professor universitário e tutor – três trabalhos conhecidos por ficarem distantes do que chamamos de realidade. Joseph Schumpeter escreveu: “Nenhuma mulher, exceto sua mãe, desempenhou papel algum em sua vida; nesse, como em outros aspectos, os encantos e as paixões foram mera literatura para ele.” Schumpeter exagerou um pouco, mas o fato é que Smith nunca se casou. Morreu em 1790, aos 67 anos.

Essa foi a vida pública de Adam Smith. Mas e quanto a suas motivações e dúvidas, sua vida interior? Não foi deixado nenhum diário ou agenda após sua morte – ele pediu que todos fossem destruídos. Quase todas as suas cartas são sucintas e formais, inclusive as que escreveu a seu melhor amigo, o grande filósofo e seu conterrâneo David Hume. Como um homem com a experiência aparentemente limitada de Adam Smith pôde sondar as profundezas da interação humana e fazer descobertas perspicazes?

Sabemos que ele conseguiu fazê-lo porque temos a Teoria dos sentimentos morais. Originalmente publicado em 1759, o livro teve seis edições na época, e em 1790, ano da morte de Adam Smith, foi lançada a última delas, na qual ele fez alterações substanciais. Em certo sentido, a Teoria dos sentimentos morais foi o primeiro e último livro dele.

Creio saber por que ele o revisou numa fase tardia da vida, em que vinha fazendo poucos estudos sérios que tenham surtido algum impacto. Quando se começa a pensar na motivação dos homens e nos lados luminoso e sombrio da humanidade – o que Faulkner chamava de “o coração humano em conflito consigo mesmo” –, fica difícil pensar em qualquer outra coisa. Tentar compreender o próximo e a si mesmo é algo que pode ser feito eternamente. Todo dia há um novo conjunto de dados para ruminar e explorar, se a pessoa estiver interessada – todas as interações com amigos, familiares, colegas e estranhos.

Ao ler a Teoria dos sentimentos morais, percebe-se que a moral e o sentido da vida, e também o modo como as pessoas se comportam, não mudaram muito desde o século XVIII. Um homem suficientemente sagaz é capaz de atravessar mais de dois séculos, chamar a atenção de todos e ensinar uma ou duas coisas acerca de nós e do que é importante.

Soma-se ao prazer dessa descoberta o fato de que Adam Smith realmente sabe escrever. É irônico, divertido e eloquente. Quando está no auge da excelência e nos alerta sobre não nos envolvermos demais com engenhocas sofisticadas que cabem no bolso, temos a sensação de haver encontrado uma fonte secreta de sabedoria. É como descobrir que Bruce Wayne, aquele homem bem-sucedido, tem ainda mais coisas a compartilhar com o mundo e que seu lado oculto talvez seja muito mais interessante do que sua imagem pública.

Então por que a Teoria dos sentimentos morais é tão secreta? O mapa de Adam Smith para a felicidade, a bondade e o autoconhecimento é antigo. A linguagem é meio empoeirada e deixa transparecer sua origem setecentista. Mais do que isso, o livro é um roteiro com uma porção de reviravoltas complexas. De vez em quando o texto parece retroceder, e temos a sensação de chegar a um ponto que já tínhamos visitado. Não é o caminho mais fácil para o leitor moderno.

Adam Smith estava escrevendo um tratado acadêmico, em competição intelectual com outros autores que tinham as próprias teorias sobre a motivação humana. A maioria deles – escritores como Bernard Mandeville, Francis Hutcheson e os estoicos – foi esquecida há muito tempo por quase todos nós, juntamente com suas visões particulares da humanidade. Adam Smith passa boa parte do livro explicando por que suas teorias e percepções são preferíveis às da concorrência. Logo, o texto não parece muito o de um livro de autoajuda.

Eu ficaria muito contente se mais pessoas lessem a Teoria dos sentimentos morais. Grande parte do seu encanto está na linguagem poética de Adam Smith. Ele tinha um estilo ímpar, o que explica parte do seu sucesso. Mas nós, do século XXI, podemos achar maçante a prosa antiga – é comum as frases serem longas, além de estruturadas de um jeito que nosso cérebro não processa bem sem certa prática. Requerem muito tempo e alguma paciência para serem compreendidas. Parte do meu objetivo aqui é lhes mostrar as percepções de Adam Smith e alguns dos melhores trechos de seus livros, para o caso de vocês não conseguirem ler o original inteiro.

Minha outra missão é trazer as ideias de Adam Smith para o presente e refletir sobre de que modo elas podem ser úteis para você e para mim. Todos nos achamos únicos – e tenho certeza de que você o é –, mas também temos várias coisas em comum. Muitas das nossas forças e fraquezas são iguais. Por isso, quando Smith me ensina algo a respeito de mim, é provável que isso também faça sentido para você. E isso me ajuda a tratar as pessoas como elas gostam de ser tratadas, além de lhes dar uma ideia de como me tratar. Mais que isso, Adam Smith tentava entender o que nos deixa felizes e o que dá sentido à vida. Continua sendo bastante útil entendermos essas coisas.

Fiz um esforço para transmitir as lições de Adam Smith de uma forma digerível. A estratégia normal seria seguir a narrativa dele em seu livro. Mas ela não é linear, e muitos temas abordados pelo autor não são interessantes para o leitor moderno. Por isso peguei as percepções mais relevantes de Adam Smith e as organizei numa ordem que creio ser mais pertinente que a do original. Também incluí citações dele, sempre que possível. Quando necessário, eu as destrinchei e fiz comentários descritivos que explicam as alusões e as peculiaridades estilísticas de um cavalheiro culto em 1759.

A menos que eu forneça uma indicação diferente, todas as citações deste livro são da Teoria dos sentimentos morais. No meio delas, vez ou outra utilizo colchetes [como estes] para explicar uma palavra ou uma expressão arcaica.

Talvez você se pergunte o que um livro setecentista sobre a moral e a natureza humana tem a ver com a economia, o mais famoso legado de Smith. Os economistas comportamentais de hoje em dia trabalham na fronteira entre a economia e a psicologia, o que é um território muito smithiano. Porém, quase todos os economistas do século XXI tentam prever as taxas de juros, sugerir políticas para reduzir o desemprego e abrandar seus efeitos nocivos, ou projetar o PIB do trimestre seguinte. Às vezes, tentam explicar por que o mercado de ações entrou em alta ou em baixa. Não são particularmente bons em nenhuma dessas coisas, e é comum discordarem quanto às melhores políticas para fazer a economia crescer. Isso leva os não economistas a concluírem que a economia tem a ver sobretudo com dinheiro, e que os economistas não fazem previsões muito confiáveis do futuro, tampouco são os melhores engenheiros para conduzir a máquina econômica.

Infelizmente, os meios de comunicação e o público esperam dos economistas aquilo em que eles, provavelmente, são piores: dar respostas exatas a perguntas que supõem que a economia é como um relógio ou um aparelho gigantesco cujos mecanismos podem ser dominados e manipulados com certo grau de precisão. A incapacidade de prever a Grande Recessão, de chegar a um acordo sobre a maneira de sair dela ou de projetar o caminho da recuperação foi humilhante para todos nós, economistas.

Convém frisar que a economia tem a ver com algo mais importante que o dinheiro.

A economia ajuda a compreender que o dinheiro não é a única coisa importante na vida. Ensina que fazer uma escolha significa abrir mão de algo. E pode nos ajudar a apreciar a complexidade e o fato de que ações e pessoas aparentemente sem relação entre si podem estar relacionadas. Esses e outros insights encontram-se dispersos por todo o texto da Teoria dos sentimentos morais. Dinheiro é bom, mas saber como lidar com ele pode ser melhor ainda.

Certa vez, uma aluna me disse que um de seus professores afirmava que a economia era o estudo de como tirar o máximo proveito da vida. Isso talvez pareça uma afirmação absurda para alguns de vocês, inclusive os que se formaram nessa área. Mas tudo tem a ver com escolhas. Tirar o máximo proveito da vida significa escolher bem e com sabedoria. E fazer escolhas – estar ciente de que optar por um caminho significa não seguir por outro, de que minhas escolhas interagem com as dos outros – é a essência da economia.

Se você quiser realizar boas escolhas, terá de compreender a si mesmo e os que o cercam. Se quiser viver da melhor forma possível, é provável que compreender o que Adam Smith tem a dizer na Teoria dos sentimentos morais seja mais importante do que os insights dele em A riqueza das nações. Vamos começar.

Capítulo 1

Como Adam Smith pode mudar sua vida

O que é uma vida boa? A religião, a filosofia e os livros de autoajuda modernos debatem essa questão, mas a resposta a que chegam é sempre vaga. Significa ser feliz? Ou será que tem a ver com riqueza e sucesso profissional? Qual é o papel que a virtude desempenha nisso? Ter uma vida boa é uma consequência de ser bom? Ou de ajudar os outros e fazer do mundo um lugar melhor?

Há 250 anos, um filósofo moral escocês abordou essas perguntas num livro com o singelo título Teoria dos sentimentos morais. O livro foi uma tentativa de Adam Smith de explicar de onde vem a moral e por que as pessoas são capazes de agir com dignidade e virtude, mesmo quando isso entra em conflito com seus interesses pessoais. Trata-se de uma mistura de psicologia, filosofia e o que hoje é chamado de economia comportamental, somada a observações sobre amizade, busca da riqueza, busca da felicidade e virtude. Ao longo do texto, Adam Smith mostra ao leitor o que é uma vida boa e como conquistá-la.

Na época em que foi lançado, o livro foi um sucesso. Hoje, entretanto, a Teoria dos sentimentos morais está quase esquecida, ofuscada pela fama que o autor alcançou com seu segundo livro, A riqueza das nações. Publicado em 1776, tornou Adam Smith eternamente famoso e deu origem ao campo da economia. Embora nos dias de hoje poucas pessoas o leiam, é inegável que é um clássico. Muito menos gente, porém, leu ou sequer ouviu falar do outro livro de Adam Smith, Teoria dos sentimentos morais.

Durante a maior parte da minha carreira, eu também não havia lido. Esta é uma confissão meio constrangedora para um economista. Seria de esperar que eu tivesse lido os dois principais livros do fundador da minha área. Até recentemente, porém, eu sabia pouquíssimo sobre a Teoria dos sentimentos morais. Na verdade, demorou muito até que eu ouvisse alguém mencionar o outro livro de Smith, aquele de título intimidante que não parecia ter muito a ver com economia.

Minha relação com a Teoria dos sentimentos morais mudou quando meu amigo Dan Klein, da Universidade George Mason, sugeriu que eu o entrevistasse sobre essa obra em meu podcast semanal, o EconTalk. Concordei, pensando que isso enfim me levaria a ler o livro. Pelo menos, eu tinha um exemplar – comprado uns trinta anos antes, por eu achar que um economista deveria no mínimo ter os dois livros de Adam Smith. Assim, tirei-o da estante, abri-o na primeira página e comecei a ler.

Por mais egoísta que o homem suponha ser, é evidente que há em sua natureza alguns princípios que o fazem se interessar pela sorte dos outros e se importar com a felicidade deles, embora nada extraia disso senão o prazer de testemunhá-la.

Tive de ler esse trecho duas vezes para compreender o que Adam Smith estava dizendo: embora as pessoas possam ser bastante egoístas, elas se importam com a felicidade alheia. Faz sentido. Continuei a ler a primeira página. Depois, a segunda e a terceira. Fechei o livro.

Uma segunda confissão: eu não fazia ideia de qual era o assunto abordado por Smith. O livro parecia começar no meio do caminho. Ao contrário de A riqueza das nações, que é uma prosa encantadora e cativante desde o início, a Teoria dos sentimentos morais possui uma narrativa muito lenta. Eu me senti pouco confiante – talvez não devesse ter concordado com a entrevista. Duvidei da minha capacidade de entender a obra. Ia me expor a um vexame, e até pensei em pedir ao Dan que cancelasse o encontro.

Mas insisti, na esperança de mudar de ideia. Recomecei. Aos poucos, fui tendo uma ideia do que Smith pretendia explicar. Quando cheguei a um terço do texto, tinha sido fisgado. Levei o livro para os jogos de futebol da minha filha e o devorei no intervalo das partidas e quando ela não estava em campo. Li trechos em voz alta para minha mulher e meus filhos à mesa do jantar, na esperança de despertar o interesse deles pelas ideias do autor sobre como se relacionar com outras pessoas. As margens do livro ficaram cheias de asteriscos e pontos de exclamação, pois eu marquei as passagens de que mais havia gostado. Quando terminei a leitura, tive vontade de espalhar a notícia para todos, em alto e bom som: o livro é uma maravilha, uma joia rara, vocês precisam ler!

A obra modificou minha maneira de ver as pessoas e, o que talvez seja mais importante, minha forma de enxergar a mim mesmo. Adam Smith me tornou consciente de como as pessoas interagem umas com as outras de modos que eu não havia notado antes. Ele oferece conselhos de valor inestimável sobre como lidar com o dinheiro, a ambição, a fama e a moral. Mostra ao leitor como encontrar a felicidade, como lidar com o sucesso e o fracasso materiais. Também descreve o caminho para a virtude e a bondade, e a razão pela qual vale a pena segui-lo.

Adam Smith me ajudou a compreender, entre outras coisas, o motivo de Whitney Houston e Marilyn Monroe terem sido tão infelizes e por que a morte delas entristeceu tanta gente; a causa de minha afeição por meu iPad e meu iPhone; por que conversar com estranhos sobre nossos problemas pode acalentar a alma; a razão de ser possível ter pensamentos monstruosos mas raramente colocá-los em prática; o porquê de as pessoas adorarem os políticos; e de que modo a moral se incorpora à trama do mundo.

Embora ele seja o pai do capitalismo e tenha escrito o livro mais famoso, e talvez o melhor, sobre por que algumas nações são ricas e outras são pobres, Adam Smith, na Teoria dos sentimentos morais, escreveu com a mesma fluência de qualquer outro autor sobre a futilidade que é buscar dinheiro na esperança de encontrar felicidade. Como conciliar isso com o fato de ninguém ter feito mais do que Adam Smith para tornar respeitáveis o capitalismo e o interesse pessoal? Este é um enigma que tentarei decifrar até o final deste livro.

Além do vazio do materialismo excessivo, Smith compreendeu o potencial que temos para enganar a nós mesmos, o perigo das consequências não planejadas, a atração exercida pela fama e pelo poder, as limitações da razão humana e as fontes invisíveis que tornam nossa vida tão complexa e, ainda assim, às vezes tão ordenada. Teoria dos sentimentos morais é um livro de observações sobre o que nos motiva. De quebra e quase de passagem, o autor nos mostra como levar uma vida boa, no sentido mais pleno dessa expressão.

*

Os detalhes da vida do próprio Adam Smith são bem triviais. Ele nasceu na aldeia de Kircaldy, na Escócia, em 1723. Seu pai morreu quando ele tinha poucos meses. Aos 14 anos, foi estudar na Universidade de Glasgow, depois em Oxford, e então voltou para a Escócia para lecionar na Universidade de Edimburgo. Em seguida, em 1751, foi contratado pela Universidade de Glasgow como professor de lógica e, mais tarde, de filosofia moral. Sua mãe e uma tia solteira foram morar com ele em Glasgow, numa casa oferecida pela universidade. Em 1763, ele deixou a vida acadêmica para ter um emprego mais lucrativo, como mentor do rico e jovem duque de Buccleuch.

Essa deve ter sido uma mudança de ritmo bastante drástica para Adam Smith, que, então com 40 anos, passou a ver de perto o estilo de vida dos ricos e famosos de sua época. Durante dois anos e meio, ele viajou pela França e pela Suíça com seu jovem aluno e, no caminho, conheceu alguns dos grandes intelectuais europeus da época, entre eles Voltaire, François Quesnay e Anne-Robert-Jacques Turgot. Após esse período, e ao longo de uma década, ficou em Kircaldy, depois em Londres, trabalhando em A riqueza das nações.

Em 1778, Adam Smith mudou-se de Londres para Edimburgo, onde foi morar com a mãe e vários primos. No mesmo ano, foi nomeado um dos cinco comissários da alfândega escocesa, chefiando uma equipe que perseguia o contrabando e cobrava impostos, ou o que hoje chamamos de tarifa alfandegária. O homem que talvez tenha sido o mais influente defensor do livre-comércio passou os últimos anos de vida reduzindo o fluxo de mercadorias contrabandeadas e coletando impostos de importação para o governo.

Sem contar o período que passou na Europa continental, Adam Smith parece ter levado uma vida que a maioria classificaria como particularmente sem graça. Foi conferencista, professor universitário e tutor – três trabalhos conhecidos por ficarem distantes do que chamamos de realidade. Joseph Schumpeter escreveu: “Nenhuma mulher, exceto sua mãe, desempenhou papel algum em sua vida; nesse, como em outros aspectos, os encantos e as paixões foram mera literatura para ele.” Schumpeter exagerou um pouco, mas o fato é que Smith nunca se casou. Morreu em 1790, aos 67 anos.

Essa foi a vida pública de Adam Smith. Mas e quanto a suas motivações e dúvidas, sua vida interior? Não foi deixado nenhum diário ou agenda após sua morte – ele pediu que todos fossem destruídos. Quase todas as suas cartas são sucintas e formais, inclusive as que escreveu a seu melhor amigo, o grande filósofo e seu conterrâneo David Hume. Como um homem com a experiência aparentemente limitada de Adam Smith pôde sondar as profundezas da interação humana e fazer descobertas perspicazes?

Sabemos que ele conseguiu fazê-lo porque temos a Teoria dos sentimentos morais. Originalmente publicado em 1759, o livro teve seis edições na época, e em 1790, ano da morte de Adam Smith, foi lançada a última delas, na qual ele fez alterações substanciais. Em certo sentido, a Teoria dos sentimentos morais foi o primeiro e último livro dele.

Creio saber por que ele o revisou numa fase tardia da vida, em que vinha fazendo poucos estudos sérios que tenham surtido algum impacto. Quando se começa a pensar na motivação dos homens e nos lados luminoso e sombrio da humanidade – o que Faulkner chamava de “o coração humano em conflito consigo mesmo” –, fica difícil pensar em qualquer outra coisa. Tentar compreender o próximo e a si mesmo é algo que pode ser feito eternamente. Todo dia há um novo conjunto de dados para ruminar e explorar, se a pessoa estiver interessada – todas as interações com amigos, familiares, colegas e estranhos.

Ao ler a Teoria dos sentimentos morais, percebe-se que a moral e o sentido da vida, e também o modo como as pessoas se comportam, não mudaram muito desde o século XVIII. Um homem suficientemente sagaz é capaz de atravessar mais de dois séculos, chamar a atenção de todos e ensinar uma ou duas coisas acerca de nós e do que é importante.

Soma-se ao prazer dessa descoberta o fato de que Adam Smith realmente sabe escrever. É irônico, divertido e eloquente. Quando está no auge da excelência e nos alerta sobre não nos envolvermos demais com engenhocas sofisticadas que cabem no bolso, temos a sensação de haver encontrado uma fonte secreta de sabedoria. É como descobrir que Bruce Wayne, aquele homem bem-sucedido, tem ainda mais coisas a compartilhar com o mundo e que seu lado oculto talvez seja muito mais interessante do que sua imagem pública.

Então por que a Teoria dos sentimentos morais é tão secreta? O mapa de Adam Smith para a felicidade, a bondade e o autoconhecimento é antigo. A linguagem é meio empoeirada e deixa transparecer sua origem setecentista. Mais do que isso, o livro é um roteiro com uma porção de reviravoltas complexas. De vez em quando o texto parece retroceder, e temos a sensação de chegar a um ponto que já tínhamos visitado. Não é o caminho mais fácil para o leitor moderno.

Adam Smith estava escrevendo um tratado acadêmico, em competição intelectual com outros autores que tinham as próprias teorias sobre a motivação humana. A maioria deles – escritores como Bernard Mandeville, Francis Hutcheson e os estoicos – foi esquecida há muito tempo por quase todos nós, juntamente com suas visões particulares da humanidade. Adam Smith passa boa parte do livro explicando por que suas teorias e percepções são preferíveis às da concorrência. Logo, o texto não parece muito o de um livro de autoajuda.

Eu ficaria muito contente se mais pessoas lessem a Teoria dos sentimentos morais. Grande parte do seu encanto está na linguagem poética de Adam Smith. Ele tinha um estilo ímpar, o que explica parte do seu sucesso. Mas nós, do século XXI, podemos achar maçante a prosa antiga – é comum as frases serem longas, além de estruturadas de um jeito que nosso cérebro não processa bem sem certa prática. Requerem muito tempo e alguma paciência para serem compreendidas. Parte do meu objetivo aqui é lhes mostrar as percepções de Adam Smith e alguns dos melhores trechos de seus livros, para o caso de vocês não conseguirem ler o original inteiro.

Minha outra missão é trazer as ideias de Adam Smith para o presente e refletir sobre de que modo elas podem ser úteis para você e para mim. Todos nos achamos únicos – e tenho certeza de que você o é –, mas também temos várias coisas em comum. Muitas das nossas forças e fraquezas são iguais. Por isso, quando Smith me ensina algo a respeito de mim, é provável que isso também faça sentido para você. E isso me ajuda a tratar as pessoas como elas gostam de ser tratadas, além de lhes dar uma ideia de como me tratar. Mais que isso, Adam Smith tentava entender o que nos deixa felizes e o que dá sentido à vida. Continua sendo bastante útil entendermos essas coisas.

Fiz um esforço para transmitir as lições de Adam Smith de uma forma digerível. A estratégia normal seria seguir a narrativa dele em seu livro. Mas ela não é linear, e muitos temas abordados pelo autor não são interessantes para o leitor moderno. Por isso peguei as percepções mais relevantes de Adam Smith e as organizei numa ordem que creio ser mais pertinente que a do original. Também incluí citações dele, sempre que possível. Quando necessário, eu as destrinchei e fiz comentários descritivos que explicam as alusões e as peculiaridades estilísticas de um cavalheiro culto em 1759.

A menos que eu forneça uma indicação diferente, todas as citações deste livro são da Teoria dos sentimentos morais. No meio delas, vez ou outra utilizo colchetes [como estes] para explicar uma palavra ou uma expressão arcaica.

Talvez você se pergunte o que um livro setecentista sobre a moral e a natureza humana tem a ver com a economia, o mais famoso legado de Smith. Os economistas comportamentais de hoje em dia trabalham na fronteira entre a economia e a psicologia, o que é um território muito smithiano. Porém, quase todos os economistas do século XXI tentam prever as taxas de juros, sugerir políticas para reduzir o desemprego e abrandar seus efeitos nocivos, ou projetar o PIB do trimestre seguinte. Às vezes, tentam explicar por que o mercado de ações entrou em alta ou em baixa. Não são particularmente bons em nenhuma dessas coisas, e é comum discordarem quanto às melhores políticas para fazer a economia crescer. Isso leva os não economistas a concluírem que a economia tem a ver sobretudo com dinheiro, e que os economistas não fazem previsões muito confiáveis do futuro, tampouco são os melhores engenheiros para conduzir a máquina econômica.

Infelizmente, os meios de comunicação e o público esperam dos economistas aquilo em que eles, provavelmente, são piores: dar respostas exatas a perguntas que supõem que a economia é como um relógio ou um aparelho gigantesco cujos mecanismos podem ser dominados e manipulados com certo grau de precisão. A incapacidade de prever a Grande Recessão, de chegar a um acordo sobre a maneira de sair dela ou de projetar o caminho da recuperação foi humilhante para todos nós, economistas.

Convém frisar que a economia tem a ver com algo mais importante que o dinheiro.

A economia ajuda a compreender que o dinheiro não é a única coisa importante na vida. Ensina que fazer uma escolha significa abrir mão de algo. E pode nos ajudar a apreciar a complexidade e o fato de que ações e pessoas aparentemente sem relação entre si podem estar relacionadas. Esses e outros insights encontram-se dispersos por todo o texto da Teoria dos sentimentos morais. Dinheiro é bom, mas saber como lidar com ele pode ser melhor ainda.

Certa vez, uma aluna me disse que um de seus professores afirmava que a economia era o estudo de como tirar o máximo proveito da vida. Isso talvez pareça uma afirmação absurda para alguns de vocês, inclusive os que se formaram nessa área. Mas tudo tem a ver com escolhas. Tirar o máximo proveito da vida significa escolher bem e com sabedoria. E fazer escolhas – estar ciente de que optar por um caminho significa não seguir por outro, de que minhas escolhas interagem com as dos outros – é a essência da economia.

Se você quiser realizar boas escolhas, terá de compreender a si mesmo e os que o cercam. Se quiser viver da melhor forma possível, é provável que compreender o que Adam Smith tem a dizer na Teoria dos sentimentos morais seja mais importante do que os insights dele em A riqueza das nações. Vamos começar.

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Russ Roberts

Sobre o autor

Russ Roberts

Pesquisador da Instituição Hoover da Universidade Stanford. É apresentador do premiado podcast EconTalk e autor de três livros sobre economia, entre eles o The Price of Everything – A Parable of Possibility and Prosperity. Também é cocriador dos vídeos de rap Keynes-Hayek, visualizados mais de 7 milhões de vezes no YouTube.

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