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LITERATURA

Em busca de Francisco

Em busca de Francisco

IAN MORGAN CRON

Como a história do santo de Assis ajudou um pastor a redescobrir sua fé

Como a história do santo de Assis ajudou um pastor a redescobrir sua fé

Neste romance inspirador, Chase Falson, um pastor evangélico, se vê às voltas com uma crise espiritual – ele perdeu a fé em Deus, na Bíblia e na sua igreja.

Atormentado por dúvidas existenciais, ele fica ainda mais abalado com a morte repentina de uma criança da sua congregação e começa a pôr em xeque todas as certezas que antes eram os alicerces de sua vida. Seus questionamentos o fazem mergulhar em uma profunda crise espiritual e, depois de ter um colapso em pleno culto, acaba sendo afastado de seu ministério.

Decepcionado consigo mesmo por não ter se mantido firme em sua crença, Chase decide passar um tempo na Itália com seu tio Kenny, um padre franciscano. Lá ele é apresentado aos ensinamentos de São Francisco de Assis, que viveu há mais de 800 anos e cuja maneira simples de amar Jesus mudou a história do mundo e renovou a Igreja Católica em meio às trevas da Idade Média.

Considerado por muitos o “último cristão”, São Francisco foi um homem que nasceu em uma família rica, mas abriu mão de tudo o que tinha para viver como pregava Jesus Cristo, dedicando-se aos menos afortunados e amando todas as criaturas, chamando-as de irmãos.

Santo inconformista, ele não criticou a Igreja como instituição, mas também não aceitou mantê-la como ela sempre fora. Em vez disso, colocou em prática todas as mudanças que queria ver à sua volta.

Na tentativa de recuperar sua fé e preencher o vazio da alma, Chase concorda em partir em peregrinação pelos lugares sagrados em que Deus se revelou ao venerado santo italiano.

Ao longo dessa busca, ele conhece diversas pessoas que vivenciaram incríveis experiências de fé. As histórias emocionantes que elas lhe contam iluminam seu caminho para reconquistar a graça, a humildade e a alegria de viver.

****

Filho de um rico comerciante de tecidos da Itália medieval, Francisco de Assis sonhava em conquistar a glória como soldado. Mas foi justamente às vésperas de uma batalha que o Senhor se revelou a ele e mudou o seu destino.

Ao contrário dos religiosos de seu tempo, que costumavam se enclausurar em mosteiros e levar uma vida introvertida e contemplativa, São Francisco criou o hábito da pregação itinerante, seguindo à risca o Evangelho, imitando a vida de Jesus e desenvolvendo uma profunda identificação com os problemas de seus semelhantes.

São Francisco – para muitos o santo que viveu mais radicalmente o cristianismo desde Jesus Cristo – conquistou a reputação de santidade ainda em vida, não por causa de sua erudição religiosa, mas graças à sua dedicação ao próximo, bem como à sua simplicidade autêntica, sua caridade e sua visão positiva da natureza e do homem.

É essa “luz que brilhou sobre o mundo” mais de oito séculos antes que ilumina o caminho de Chase Falson, um pastor evangélico que tenta superar a crise de fé que o está consumindo. Tudo o que Chase quer é recuperar sua crença em Deus e na igreja que ele mesmo fundou numa cidadezinha no nordeste dos Estados Unidos.

O descontentamento espiritual de Chase espelha o sentimento de muitos cristãos que saem da igreja se perguntando: “Será que isso é tudo?” Eles estão cansados de sacerdotes que agem como celebridades, dogmas sem sentido e cultos em que a aparência e a encenação importam mais que qualquer ensinamento, ao passo que as questões mais profundas da vida são deixadas sem resposta.

De maneira cativante, Ian Morgan Cron entrelaça o carisma atemporal de São Francisco a questões que desafiam a Igreja contemporânea, apresentando a trajetória do santo que inspirou uma nova vida para os cristãos desiludidos e para uma instituição religiosa à beira do colapso.

Em busca de Francisco é uma história de perda e descoberta, além de um relato esperançoso e comovente, com implicações profundas para aqueles que anseiam por um relacionamento mais intenso com Deus e com o mundo à sua volta.

Neste romance inspirador, Chase Falson, um pastor evangélico, se vê às voltas com uma crise espiritual – ele perdeu a fé em Deus, na Bíblia e na sua igreja.

Atormentado por dúvidas existenciais, ele fica ainda mais abalado com a morte repentina de uma criança da sua congregação e começa a pôr em xeque todas as certezas que antes eram os alicerces de sua vida. Seus questionamentos o fazem mergulhar em uma profunda crise espiritual e, depois de ter um colapso em pleno culto, acaba sendo afastado de seu ministério.

Decepcionado consigo mesmo por não ter se mantido firme em sua crença, Chase decide passar um tempo na Itália com seu tio Kenny, um padre franciscano. Lá ele é apresentado aos ensinamentos de São Francisco de Assis, que viveu há mais de 800 anos e cuja maneira simples de amar Jesus mudou a história do mundo e renovou a Igreja Católica em meio às trevas da Idade Média.

Considerado por muitos o “último cristão”, São Francisco foi um homem que nasceu em uma família rica, mas abriu mão de tudo o que tinha para viver como pregava Jesus Cristo, dedicando-se aos menos afortunados e amando todas as criaturas, chamando-as de irmãos.

Santo inconformista, ele não criticou a Igreja como instituição, mas também não aceitou mantê-la como ela sempre fora. Em vez disso, colocou em prática todas as mudanças que queria ver à sua volta.

Na tentativa de recuperar sua fé e preencher o vazio da alma, Chase concorda em partir em peregrinação pelos lugares sagrados em que Deus se revelou ao venerado santo italiano.

Ao longo dessa busca, ele conhece diversas pessoas que vivenciaram incríveis experiências de fé. As histórias emocionantes que elas lhe contam iluminam seu caminho para reconquistar a graça, a humildade e a alegria de viver.

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Filho de um rico comerciante de tecidos da Itália medieval, Francisco de Assis sonhava em conquistar a glória como soldado. Mas foi justamente às vésperas de uma batalha que o Senhor se revelou a ele e mudou o seu destino.

Ao contrário dos religiosos de seu tempo, que costumavam se enclausurar em mosteiros e levar uma vida introvertida e contemplativa, São Francisco criou o hábito da pregação itinerante, seguindo à risca o Evangelho, imitando a vida de Jesus e desenvolvendo uma profunda identificação com os problemas de seus semelhantes.

São Francisco – para muitos o santo que viveu mais radicalmente o cristianismo desde Jesus Cristo – conquistou a reputação de santidade ainda em vida, não por causa de sua erudição religiosa, mas graças à sua dedicação ao próximo, bem como à sua simplicidade autêntica, sua caridade e sua visão positiva da natureza e do homem.

É essa “luz que brilhou sobre o mundo” mais de oito séculos antes que ilumina o caminho de Chase Falson, um pastor evangélico que tenta superar a crise de fé que o está consumindo. Tudo o que Chase quer é recuperar sua crença em Deus e na igreja que ele mesmo fundou numa cidadezinha no nordeste dos Estados Unidos.

O descontentamento espiritual de Chase espelha o sentimento de muitos cristãos que saem da igreja se perguntando: “Será que isso é tudo?” Eles estão cansados de sacerdotes que agem como celebridades, dogmas sem sentido e cultos em que a aparência e a encenação importam mais que qualquer ensinamento, ao passo que as questões mais profundas da vida são deixadas sem resposta.

De maneira cativante, Ian Morgan Cron entrelaça o carisma atemporal de São Francisco a questões que desafiam a Igreja contemporânea, apresentando a trajetória do santo que inspirou uma nova vida para os cristãos desiludidos e para uma instituição religiosa à beira do colapso.

Em busca de Francisco é uma história de perda e descoberta, além de um relato esperançoso e comovente, com implicações profundas para aqueles que anseiam por um relacionamento mais intenso com Deus e com o mundo à sua volta.

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Ficha técnica
Lançamento
Título original
Tradução
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 208
Peso 280 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0026-5
EAN 9788543100265
Preço R$ 34,90
Ficha técnica e-book
eISBN 9788543100340
Preço R$ 24,99
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Número de páginas 208
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Leia um trecho do livro

1

“Tendo à metade desta vida chegado,

vi-me nas entranhas de uma floresta escura,

pois o caminho reto perdido estava.

Oh, quão difícil é discernir o que seja

selva tão espessa, selvagem e intrincada,

cuja simples lembrança renova meus medos!”

– Dante, Inferno, Canto I, versos 1-6

Enquanto o voo da Alitalia se preparava para aterrissar em Florença, eu folheava, apreensivo, as páginas do meu exemplar da Divina Comédia. Duas décadas de esquecimento no meu porão úmido haviam rendido ao livro uma camada poeirenta de mofo que pairava no ar ao meu redor. Pude vê-la por um instante, pequenas partículas flutuando preguiçosamente nos raios de sol que entravam pela janela. Não lia a parte dedicada ao Inferno do clássico de Dante desde a época de faculdade. Aos 19 anos, naturalmente, eu tinha ignorado o peso contido naqueles primeiros versos. Agora, relendo-os aos 39, minha vontade era poder telefonar para o escritor italiano e marcar um almoço com ele. Tinha uma longa lista de perguntas para lhe fazer.

Ao examinar a zona rural da Toscana pela janela do avião, eu soube que havia perdido o “caminho reto” e entrado em uma “floresta espessa, selvagem e intrincada”. Duas semanas antes, eu era Chase Falson, o pastor que tinha fundado a maior igreja evangélica contemporânea da Nova Inglaterra. Meus 14 anos de sacerdócio eram uma bem-sucedida história de como fazer uma igreja crescer. Eu me considerava um dos poucos privilegiados que haviam recebido dos céus uma bússola perfeita para servir de guia. Sabia quem era e para onde estava indo. Tinha certeza de que um dia alcançaria todos os meus objetivos na vida. Eu gostava de mim mesmo. Gostava muito.

Muita gente tem preconceito contra os evangélicos. Todo Natal, meu tio Bob me recebia com um martíni em uma das mãos e um charuto cubano dos grandes na outra. Ele me dava um tapa nas costas e gritava: “Olhem só quem chegou! É o Sr. Evangélico!”

Durante muitos anos, foi praticamente impossível colocar os termos Nova Inglaterra e evangélico na mesma frase. Meu professor de História da Igreja me disse que Jonathan Edwards certa vez se referiu a essa região do nordeste dos Estados Unidos como “o cemitério dos pastores”. Por mais desanimador que parecesse, isso não me impediu de dar ouvidos à minha vocação e seguir rumo ao leste quando terminei o seminário. Meus três amigos mais próximos mal conseguiram acreditar quando lhes contei sobre minha decisão de fundar uma igreja em Thackeray, no estado de Connecticut, uma cidade-dormitório a cerca de 50 quilômetros de Wall Street.

– Você enlouqueceu? Até Deus tem medo do nordeste dos Estados Unidos – disseram.

Eu ri.

– Não é tão ruim quanto parece. Eu cresci naquela área – expliquei.

– Mas você poderia ir para alguma daquelas megaigrejas, com templos enormes e milhares de fiéis, na Califórnia ou em Chicago – argumentaram eles.

Para dizer a verdade, eu não estava interessado em trabalhar para nenhuma igreja fundada por outra pessoa. Queria ser o pioneiro que “desvendou o segredo” para conquistar o espiritualmente inóspito nordeste dos Estados Unidos, o herói que levou a causa de Cristo à região do país mais resistente ao evangelho. Ingênuo que era, eu estava certo de que conhecia a cultura local bem o suficiente para cativar aqueles indivíduos formados pelas melhores universidades americanas, cujas casas ficavam discretamente escondidas atrás de muros de pedra e portões de ferro forjado. É muita arrogância, eu sei, mas era assim que eu pensava.

De qualquer forma, consegui. Fundei uma igreja que, de acordo com a última contagem, era visitada por mais de três mil fiéis todos os domingos – uma façanha hercúlea em uma região do mundo que suspeita de tudo o que seja grande ou novo.

Agora que posso olhar para trás, vejo que a Igreja Comunitária de Putnam foi construída com base na minha crença em um Deus que pudesse ser controlado e explicado racionalmente. Eu possuía uma fé tão inabalável em minha teologia evangélica conservadora que consegui conquistar até mesmo alguns dos moradores mais céticos. Depois de anos cumprindo jornadas de trabalho de setenta horas semanais, a Putnam Hill se tornou uma igreja repleta de jovens executivos e suas famílias, muitos dos quais haviam se convertido por causa da decepção com o fato de a felicidade não ser um dos opcionais de seus carros esportivos.

Dez dias atrás, esse mundo havia sido virado pelo avesso. Agora lá estava eu, no meio de uma licença compulsória, olhando para os telhados de terracota que salpicavam as colinas da Toscana cada vez mais próximas. E o mais provável era que, quando voltasse para casa, eu estivesse desempregado.

Agora sei que chegar ao auge de uma crise espiritual diante de mil pessoas não é algo muito inteligente. Olhando para trás, eu deveria ter percebido que estava à beira de um grande abismo existencial. Havia dois anos que correntes subterrâneas de dúvida vinham se infiltrando no poço das minhas certezas mais arraigadas. A estrutura que sustentava todo o meu sistema de crenças estava abalada, como se alguma força invisível tentasse derrubá-la.

Três meses antes de a vaca ir para o brejo, eu tinha começado a me consultar com o Dr. Alistair McNally, conhecido como Mac, um psiquiatra de 65 anos e o único terapeuta competente em um raio de 50 quilômetros de Thackeray. Nascido e criado em Dublin, Mac tinha um senso de humor desbocado e ostentava uma cabeleira branca e desgrenhada. Ele é o único analista que conheço que não tem aquela mania irritante de ficar fazendo “hummm” quando você conta algum detalhe doloroso sobre a sua vida. Tampouco insiste em manter contato visual como se estivesse tentando controlar sua mente. É apenas um sujeito comum que tem muito mais experiência de vida do que eu – e gosto dele. A secretária de Mac, Regina, frequenta nossa igreja, então eu costumava encontrá-lo fora do consultório sob o pretexto de jogarmos squash no clube. Minhas alterações de humor estavam rapidamente se tornando motivo para fofocas na congregação. A última coisa de que eu precisava era que as pessoas descobrissem que eu estava me consultando com um psiquiatra.

Um dia, depois de eu ter perdido três partidas de squash seguidas para ele, nós nos sentamos no chão em frente à quadra, tentando recuperar o fôlego.

– Então, como você está esta semana? – perguntou ele.

– Na verdade, estou me sentindo pior do que na semana passada – respondi com um suspiro. – Ainda não consigo dormir e engordei um quilo e meio. Mas, pelo menos, adquiri um novo hobby.

– Qual?

– Me irritar no trânsito.

Mac riu.

– Então, o que você faz quando não consegue dormir?

– Quer dizer, quando não estou com a cara enfiada na TV, tomando litros de sorvete?

Meu analista tornou a rir.

– Isso.

– Passo bastante tempo olhando para o teto, questionando tudo em que acreditei nos últimos vinte anos. Não consigo entender como isso foi acontecer. Eu costumava ser um poço de certezas, tinha resposta para tudo. Então, quando menos percebo, sou o Bertrand Russell. Alguém deu uma rasteira na minha fé.

– E que “fé” seria essa? – perguntou ele com seu sotaque irlandês.

– Do tipo que não tem complicações – respondi. – Seguir Jesus costumava ser tão simples. No dia em que atravessei o palco para pegar meu diploma do seminário, eu achava que tinha entendido basicamente tudo o que há para entender sobre Deus. Tudo em que acreditava estava embalado, catalogado e guardado em seu devido lugar.

Mac secou a testa com uma toalha.

– Ou seja, uma teologia sem conversa fiada – sugeriu ele.

– Como assim?

– O tipo de religião em que só os fatos interessam – disse Mac.

– É, durante vinte anos isso funcionou muito bem para mim. Agora, tenho mais perguntas do que respostas.

– E que perguntas são essas?

– Perguntas perigosas – respondi, meio brincando, meio a sério.

Mac sorriu.

– Me dê um exemplo.

– Está bem: por que eu tenho esta impressão incômoda de que estou lendo um roteiro teológico escrito por outra pessoa? Esta é a minha fé, ou eu me deixei convencer quando era mais novo sem realmente pensar no assunto? Por que sinto vergonha de ter dúvidas e questionar as coisas? Minha fé costumava ser tão cheia de vida, agora parece tão sem graça… Você nem imagina como isso me deixa furioso.

– Por quê? – perguntou Mac.

– Eu fui enganado – falei, batucando minha raquete no chão.

– Por quem?

– É difícil dizer ao certo. Por toda a subcultura cristã, imagino. Aquela pequena fatia do mundo costumava ser tudo de que eu precisava. Agora, acho que ela promete muito e oferece pouco em troca.

Há meses que qualquer coisa remotamente parecida com evange­lismo me embrulhava o estômago. Eu costumava devorar aqueles livros que prometiam uma vida espiritual mais gratificante em três passos simples. Frequentava congressos de pastores em que celebridades davam palestras que pareciam mais espetáculos do que eventos religiosos. Recebera por correio não muito tempo antes a propaganda de um seminário organi­zado por uma daquelas igrejas enormes com milhares de membros sobre evangelização e como conquistar mais fiéis. O tema da convenção era: “Vença a Batalha por Jesus!” A mala direta trazia uma imagem do pastor responsável pelo evento segurando a Bíblia ao lado de um tanque do exército.

Alguns anos antes, eu ficara chocado quando um colega de seminário se converteu ao catolicismo porque tinha a sensação de que os evangélicos haviam transformado Jesus em uma espécie de McDonald’s. Eu estava começando a compreender o que ele queria dizer.

– Não acho que a raiva seja a raiz do seu problema – disse Mac. – Ela está escondendo outra emoção.

– Qual? – perguntei.

– Medo.

– Medo de quê?

– Você tem medo de que, se não encontrar uma nova maneira de seguir Jesus, talvez tenha que abandonar o ringue – respondeu ele.

Mac se levantou para pegar um copo d’água do bebedouro. Era um pouco constrangedor levar uma surra tão grande no squash de um cara com aquelas pernas branquelas e finas, aquela pança e aquele traseiro murcho.

– Como estão indo as coisas na igreja? – perguntou Mac.

– Estou dando um curso para a nossa turma de jovens adultos chamado Verdade Absoluta na Era do Relativismo.

– E como está indo?

– Não muito bem. Tenho a sensação de estar respondendo a perguntas que ninguém está fazendo.

– Nem você? – perguntou ele, num tom de voz gentil.

Encolhi os ombros.

– Talvez. O mais desanimador é que nossos fiéis de 20, 30 e poucos anos estão abandonando a congregação.

– Alguma ideia do motivo?

– Outro dia chamei um deles para conversar e perguntei por que isso estava acontecendo. Ele me disse que eu tinha “certezas demais” e que os nossos cultos de domingo eram muito superficiais. Todos estão indo para alguma nova igreja moderninha em Bridgewater, onde todo mundo parece gostar de velas e cavanhaques.

Mac se sentou no chão para se alongar.

– Talvez outros pastores na cidade estejam passando pelo mesmo problema. Já conversou com eles?

– Fui a um encontro de pastores na semana passada.

Mac revirou os olhos e deu uma risadinha. Aquele grupo era de lascar.

– Como foi? – perguntou ele.

– Um desastre. Um palestrante ficou falando sem parar sobre a guerra de culturas e sobre como deveríamos orar para os Estados Unidos “redescobrirem a fé dos seus pais fundadores”.

– Ai, ai… – disse ele, soltando um suspiro.

– Depois os pastores conservadores se juntaram para falar sobre a der­rocada do país rumo a um “abismo moral” e sobre como precisavam convencer os membros das suas congregações a votarem nos republicanos. Quando passei pela mesa dos liberais, eu os ouvi falando sobre como eles precisavam impedir que os “evangélicos fascistas” tomassem conta do país – desabafei.

– E o que você fez?

– Devia ter ido embora, mas parei por alguns minutos na mesa dos conservadores.

– E então?

– O clima ali estava tão deprimente que eu tentei trazer um pouco de humor para a conversa. Então falei: “Talvez devêssemos construir abrigos subterrâneos e armazenar comida enlatada para o apocalipse.”

Mac arregalou os olhos.

– Como eles reagiram?

– Ficaram me olhando tão feio que eu achei que fosse cair duro.

As gargalhadas do meu analista ecoaram pelo corredor.

– Sério, Mac, estou de saco cheio de todo esse conflito entre conservadores e liberais teológicos, dessa história de mocinhos e bandidos. Todos eles acreditam que são os donos da verdade. Todas as manhãs tenho vontade de escancarar a janela e gritar: “Diga-me que existe algo mais! Não pode ser só isso!”

Ficamos alguns minutos sentados, ouvindo as bolas ricochetearem nas paredes da quadra. De vez em quando, ouvíamos alguém xingar por ter cometido algum erro.

Mac se levantou.

– Você já assistiu a O show de Truman? – perguntou ele.

– Aquele filme com o Jim Carrey?

– Isso. Por que não o aluga? Podemos falar sobre ele na nossa próxima conversa.

Eu me levantei devagar. Tinha rompido um dos ligamentos do joelho direito quando ainda estava na escola e esquecera minha joelheira em casa.

– Está bem – respondi, intrigado com aquele “dever de casa”.

– Vou passar três semanas fora, visitando minha mãe. Ligo quando voltar para marcarmos nossa próxima consulta.

– Com essas palavras, Mac segurou a porta da quadra para mim e fomos embora.

No sábado à noite, Chip, o pastor do ministério estudantil da minha igreja, encarregado de orientar os jovens em idade escolar, veio até minha casa para comer uma pizza e assistir a O show de Truman. Quando o assunto é pregar para a juventude, Chip tem tudo o que um pastor sênior poderia querer e mais. Ele é bonito, carismático, atlético, toca violão e os pais acham que ele é capaz de fazer milagres. Só tem uma coisa que me irrita nele: sempre que alguém aparece, ele se levanta e grita “E aí, cara!”, indo abraçar a pessoa como se não a visse há um tempão. Digo por experiência própria: ele faz isso comigo umas cinco vezes por dia.

Eu sabia que Chip estava começando a ficar impaciente. Ele tem 32 anos e vem dando sinais de que não quer trabalhar com jovens por muito mais tempo. A simples ideia de substituí-lo, no entanto, me dá arrepios.

Mac tinha razão. O show de Truman é excelente. Jim Carrey interpreta Truman Burbank, um cara que cresce em uma cidade idílica numa pequena ilha chamada Seahaven. O que Truman não sabe é que ele é o astro do reality show há mais tempo no ar em toda a história da televisão. A ilha é um gigantesco estúdio, seus amigos e sua família são atores, e cinco mil câmeras escondidas capturam cada movimento seu no mundo exterior. Aos poucos, Truman começa a perceber que alguma coisa está errada. Ele pressente que há algo além de Seahaven e, apesar dos esforços de todos para mantê-lo na ilha, fica cada vez mais determinado a sair dali e descobrir a verdade. Certo dia, escapa em um pequeno barco, atravessa uma tempestade violenta e dá de cara com um muro do estúdio pintado para parecer o horizonte. Enquanto tateia o muro em busca de uma maneira de atravessá-lo, descobre uma porta e se vê obrigado a tomar uma decisão: voltar à sua vida perfeita na ilha ou atravessar a porta em direção ao que quer que esteja à sua espera do outro lado? Na última cena do filme, Truman deixa para trás a única realidade que conhece na vida e descobre o mundo real que existe lá fora.

– Que filme incrível, hein? – comentei, desligando a TV.

Chip encolheu os ombros.

– É, até que foi legal.

Eu olhei para ele.

– Como assim “legal”? O filme tem várias camadas de simbolismo e significado – argumentei.

– Não é tão bom quanto Coração valente. Além disso, gosto mais das comédias do Jim Carrey. Debi & Loide é hilário – respondeu ele com a boca cheia de pizza.

Eu me levantei.

– Está falando sério? Este filme é sobre a busca pela verdade, pela transcendência, por uma realidade mais elevada. Debi & Loide nem se compara – retruquei.

– Você já viu essa comédia? – perguntou ele.

Fiquei vermelho na mesma hora.

– Não, mas…

Chip se levantou e começou a tatear os bolsos em busca das chaves do seu carro.

– É que não me pareceu muito verossímil – disse ele. – Por que Truman iria querer abandonar a ilha?

– Você só pode estar brincando… – falei, sem acreditar no que ele estava dizendo.

– Ele tinha uma vida ótima.

Estava começando a me perguntar se Chip e eu tínhamos visto o mesmo filme. Na verdade, eu já estava até me questionando se ambos vivíamos na mesma galáxia.

– Mas, Chip… como ele poderia continuar na ilha? Era tudo uma grande mentira!

– Você não viu como a mulher dele era gata?

– Chip, acorde! – gritei.

Ele fechou a cara e cruzou os braços sobre o peito.

– Chase, que bicho mordeu você nos últimos dias? Já estou cansado de ser tratado como um idiota. Você me perguntou o que eu tinha achado do filme, e eu respondi – disse ele.

Ele tinha razão. Eu andava pegando pesado ultimamente. E sabia por quê. Chip simbolizava tudo com que eu vinha me ressentindo. Ele seguia à risca todas as políticas da igreja. Nunca questionava nada e tinha uma resposta pronta para cada questão que o universo lhe apresentasse. Eu o acompanhei até a porta com o rabo entre as pernas.

– Desculpe, Chip. Tenho me sentido meio esgotado nos últimos tempos – admiti, arrependido.

– Tudo bem – disse ele, mas dava para perceber que não era verdade. – É melhor eu ir andando. Tenho um dia cheio amanhã – falou, bocejando. – Falei para a garotada do ensino médio que eles poderiam raspar minha cabeça se eu não levantasse dinheiro suficiente para financiar nossa viagem de missão ao México. Vários deles disseram que vão levar seus amigos de fora da igreja para ver.

Depois que ele foi embora, fui para a cama e, pela enésima noite consecutiva, tive dificuldades para pegar no sono. Fiquei repassando os momentos mais importantes do filme na minha cabeça sem parar. Não era preciso ser nenhum gênio para descobrir por que Mac tinha sugerido que eu o assistisse. Eu era o Truman. Havia começado a suspeitar que existia algo além da ilha de evangelismo na qual passara os meus últimos vinte anos. Estava diante do mesmo tipo de escolha: ficar nessa ilha, agarrado a um relacionamento com Deus que me parecia cada vez mais insosso e insatisfatório, ou deixá-la para trás e ter a confiança de que havia outras maneiras de segui-lo. Continuar a conduzir a nossa igreja por um caminho do qual eu vinha duvidando, ou dar as costas para ele e tentar encontrar outros rumos. Por um instante, me senti repleto de esperança e entusiasmo – mas, então, uma voz que dizia “que coisa mais feia…” surgiu na minha cabeça. A ideia de abandonar minha pequena ilha me aterrorizava. Comecei a ficar desesperado.

– Jesus, me ajude – orei. – Parte de mim quer abandonar a ilha, enquanto outra parte não consegue imaginar a vida em nenhum outro lugar.

Puxando as cobertas sobre a cabeça, caí lentamente no sono e passei a noite sonhando com barcos furados e oceanos ferventes.

Na manhã seguinte, fiz algo na igreja que nunca havia feito antes. Talvez o filme tivesse me inspirado a dar a cara a tapa e me arriscar. Eu estava pregando sobre a questão da adoração quando, perto do final da minha men­sagem, me desviei do roteiro e comecei a improvisar. Já havia feito isso, é claro, mudando uma ou outra frase, mas dessa vez estava fugindo totalmente do assunto.

– Eu tenho me perguntado várias coisas ultimamente. E se Deus não for tão previsível e explicável quanto gostaríamos de pensar? Eu me lembro de quando li O urso, de William Faulkner, durante o meu primeiro ano de faculdade. Nessa história, um jovem chamado Ike McCaslin está caçando um urso que sempre lhe escapa e que é um símbolo do Deus todo-poderoso. Depois de várias tentativas frustradas, ele percebe que, se quiser ver o animal, terá que largar sua arma e sua bússola e ficar indefeso a céu aberto. Por um breve momento, a criatura gloriosa surge na clareira, olha por sobre o ombro para Ike e então torna a se embrenhar na floresta, como um peixe desaparecendo nas profundezas de um lago – sussurrei.

Enquanto falava, me perguntei por que não tinha feito isso antes. Estava vibrando por dentro; sangue e adrenalina corriam pelas minhas veias. Aquela era a minha versão do famoso discurso “Eu tenho um sonho”, de Martin Luther King. Continuei falando por vários minutos, então apresentei minha conclusão.

– E se, de vez em quando, silenciássemos a bateria e as guitarras, desligássemos os projetores e o aparelho de som e esperássemos, em silêncio, que Deus saia da floresta? Será que temos fé suficiente para acreditar que ele surgirá para a nossa comunidade?

Eu estava embevecido. Falava de uma parte da minha alma que sempre soubera existir, mas que até o momento não fazia ideia de como acessar. O que disse estava longe de ser perfeito, mas era a expressão mais perfeita de mim mesmo. Imaginei um grupo de membros da congregação extasiados me erguendo em seus ombros e me carregando pelo auditório enquanto entoavam meu nome. Teria me contentado até mesmo com uma breve salva de palmas contidas. Mas, em vez disso, enquanto eu falava, era como se tivessem injetado doses cavalares de anestésico nos rostos da plateia. Dava para ouvir o universo bocejando.

Após o culto, várias pessoas vieram me falar que meu sermão tinha sido interessante. Isso, eu sabia muito bem, significava que receberia dez e-mails na manhã de segunda-feira me perguntando se eu tinha levado alguma pancada forte na cabeça recentemente. Não tardou muito para eu ficar um pouco na defensiva.

A gota d’água foi Bill Archer. Dos membros da nossa congregação, ele não é dos que tem mais tato para relacionamentos. Fala alto, vive dando tapas nas costas dos outros e tem uma lendária capacidade de dizer a coisa errada na hora inadequada. Sempre que ele abre a boca, você se pergunta quando o estrago vai começar.

– Já ouvi muitos sermões na minha vida, mas esse devia ganhar um prêmio – disse ele, soltando uma risada ofegante. Bill tem 50 e poucos anos, mas sua pele é inchada e pastosa por causa de muitos e muitos anos fumando um cigarro atrás do outro. – De onde você tirou isso, afinal? Da internet?

Bill correu os olhos esbugalhados pelo grupo de recém-chegados com que eu estava falando para ver se alguém havia achado seus comentários tão hilariantes quanto ele próprio.

No geral, as pessoas me pareceram constrangidas. Um mar de lava psíquica começou a ferver dentro de mim. Teve início nos meus tornozelos, passando pelo meu joelho e peito até chegar ao topo da minha cabeça. Não havia como impedir a erupção. Eu aproximei tanto o meu rosto do de Bill que poderia ter contado os pelos do seu nariz.

– Bill, por que você não vai se sentar e dar um descanso para a sua cabeça? – falei através de dentes cerrados. O sorriso desapareceu de seu rosto. Ele resmungou algo sobre como eu não tinha o menor senso de humor e saiu de fininho. As coisas estavam indo de mal a pior.

Foi uma garotinha de 9 anos chamada Iris Harmon que me fez desmoronar de vez. Eu a batizei quando ela tinha três meses de idade. Sua mãe, Maggie, tinha 35 e acabara de ficar sóbria. Sua madrinha no Alcoólicos Anônimos, que frequentava nossa igreja, disse-lhe que a Putnam Hill talvez fosse um bom lugar para fincar raízes e entrar em contato com um Poder Superior. Maggie tinha formação católica, tendo até estudado em escolas religiosas, mas sua experiência com o catolicismo lhe deixara com um gosto amargo na boca.

– Durante meu Quarto Passo na reabilitação, tive que lidar com meus ressentimentos em relação às freiras que tinham sido minhas professoras – disse-me ela quando nos conhecemos. – Agora, acho que já superei isso. Consigo ir a uma igreja católica, me sentar nos últimos bancos e orar. Gosto do silêncio.

Todos os domingos, durante o café que servíamos após o culto, eu passava horas gravitando em torno dessa frágil ex-dependente do álcool, que cheirava a cigarro e arrependimento. Ela era arisca como um coelho, sempre lançando olhares de um lado para outro, constantemente buscando uma rota de fuga. Um belo domingo, eu estava lhe mostrando o nosso novo centro de confraternização e parei para apresentá-la a um de nossos presbíteros. No meio da conversa, Maggie soltou, com a maior naturalidade, um baita palavrão. Achei que o presbítero fosse ter uma síncope. Mais tarde naquele mesmo ano, Maggie e Iris encontraram Jesus e, embora tenham demorado um pouco para se integrar, com o tempo se tornaram parte da família.

Enterrei Iris quatro dias antes de arruinar minha vida. Ela havia caído de bicicleta, batido com a cabeça no meio-fio e nunca mais acor­dado. Eu estava presente quando Maggie deu aos médicos a permissão para desligarem o respirador. Após alguns dias ouvindo o zumbido e os chiados de máquinas e monitores, um silêncio lúgubre caiu sobre o quarto. O desespero era palpável. Maggie e eu ficamos de mãos dadas e fixamos nossos olhares no corpo pequenino de Iris, uma andorinha de ossos frágeis, na esperança de que o sopro de Deus fosse ressuscitá-la. Mas esse sopro nunca veio. Maggie correu os dedos pelos contornos das pernas magras da filha, sem vida e inertes debaixo dos lençóis brancos, e sussurrou “Ó, minha menina”, como se sua garotinha tivesse apenas batido com a cabeça e voltado correndo para os braços da mãe em busca de consolo. Era um lamento capaz de fazer o universo baixar a cabeça de tristeza.

Maggie se voltou contra mim no estacionamento do hospital.

– Então, onde está Deus agora? – disse ela através de dentes cerrados. – Eu entreguei minha vida para Cristo, fiz tudo o que você mandou. Como Ele pôde fazer isso?

A raiva se acumulava como duas poças nos olhos de Maggie.

Algo me projetou para além de uma fronteira que eu não sabia existir. Em algum lugar nas profundezas da minha alma, vi uma cristaleira cheia de porcelanas antigas tombar para a frente e começar a cair. Pude ver a mim mesmo correndo feito um alucinado para tentar impedir a queda, já sabendo que não conseguiria chegar a tempo. Ela desabou dentro do meu coração com um estrondo ressonante. Lascas de madeira e cacos de porcelana se espalharam pela minha alma enquanto Maggie, tremendo de raiva, esperava ao final de um longo túnel pela minha resposta. Parada em meio aos escombros, uma voz cheia de desprezo sussurrava: prepare-se para perder tudo.

Meu primeiro contato com a fé foi quando eu era calouro na Stockford College, em Danbridge, Massachusetts. Uma linhagem ininterrupta de Falsons havia estudado naquela maravilhosa e tradicional faculdade desde os tempos da Guerra Civil. Tenho uma foto minha ainda bebê nos braços do meu avô, usando o que parecia um suéter de lã com um grande S estampado na frente. Desde o momento em que fui concebido, esperava-se que um dia eu fosse jogar pelos Fighting Cardinals e me tornasse membro da fraternidade Delta Kappa Epsilon.

Duvido que exista lugar mais mágico no mundo do que Stockford no outono. Durante meu primeiro mês lá, eu caminhava pelo campus me perguntando se não teria caído de paraquedas naquele clássico filme da década de 1970, Uma ilha de paz. A longa fileira de carvalhos e bordos antigos, cujas sombras se projetavam sobre a calçada que conduzia à entrada do Garnett Hall, parecia em chamas – suas folhas estavam tão repletas de fogo e glória que a visão delas gerava uma doce melancolia no meu peito. A beleza arrebatadora daquele lugar me fazia ansiar por algo que eu não conseguia descrever, mas que sabia existir.

Durante a semana em que as fraternidades recrutam seus novos membros, conheci uma linda garota chamada Leslie em uma festa. Certa noite, me ofereci para acompanhá-la até o seu dormitório (com intenções nada honradas, devo admitir) e, no caminho, ela me disse que era “cristã”. Ninguém nunca havia me dito algo assim antes, mas não dei importância. Ela era tão bonita que eu continuaria empolgado mesmo se ela dissesse que era um forno elétrico.

– Você precisa conhecer Phil Barclay – disse ela, com todo o entusiasmo incontido de uma animadora de torcidas.

– Quem é ele? – Eu não estava nem um pouco interessado, mas sabia que manter a conversa rolando era fundamental.

– Ele é o novo representante da InterVarsity no campus – disse ela.

– Como assim, ele trabalha no departamento de educação física? – perguntei, achando que tivesse algo a ver com as equipes esportivas da faculdade.

Leslie soltou uma gargalhada.

– Não, a InterVarsity é uma organização cristã. Tenho certeza de que vocês vão se dar muito bem. Venha comigo ao nosso encontro de amanhã à noite que eu o apresento a ele – disse ela, pestanejando de forma sedutora.

Mal sabia eu que estava na mira de uma brilhante evangelista.

Eu não era um candidato muito promissor para essa coisa toda de “renascido em Cristo”. Tinha sido criado na abastada região nordeste do país, não no sul profundo. Era o filho único de pais anglicanos e cosmopolitas que não tinham o menor interesse na Igreja. Minha mãe fora criada por batistas ultraconservadores em uma pequena cidade rural no leste do Colorado, assunto que quase nunca era abordado em nossa casa. Certa vez, eu a ouvi dizer a uma amiga que, quando entrou para a Smith College – uma faculdade liberal só para mulheres em Massachusetts –, graças a uma bolsa de estudos, ela se livrou do jugo da sua “infância religiosa opressora” e abraçou as raízes espirituais de meu pai. Ele dizia que o lado da minha mãe da família era “fanático” por religião e que a ausência de álcool na festa de casamento dos dois ainda era motivo de constrangimento. Eu me lembro da vez em que voltei do internato e perguntei ao meu pai se nossa família era cristã.

– Não, Deus que me livre – disse ele, levando a mão ao peito e olhando para cima. – Somos anglicanos.

Dizer que o casamento dos meus pais foi um desastre seria bondade minha. A vida em nossa casa era como uma cena da peça Longa jornada noite adentro, de Eugene O’Neill. Meu pai era um alcóolatra arrogante que todos os dias, às cinco da tarde, tomava o seu primeiro uísque. Às sete e meia, já estava vagando entorpecido pela casa, esbarrando sem querer nos batentes das portas e balbuciando pedidos de desculpas para ninguém em especial. Às vezes ele topava comigo brincando no chão da sala de estar e parecia confuso, como se quisesse se apresentar àquele pequeno estranho à sua frente. Minha mãe patrulhava a casa como uma verdadeira Amélia, arrumando a bagunça enquanto sonhava acordada com um novo estofado para os sofás. É preciso muita energia mental para sustentar esse tipo de negação.

Quando Phil Barclay apareceu, foi a primeira vez que me senti “enxergado” por um homem digno de respeito. Li em algum lugar que um jovem que não é admirado por um homem mais velho é pobre. Se isso for verdade, eu me tornara rico pela primeira vez na vida. Nós passávamos longas tardes jogando lacrosse no gramado que havia em frente à minha fraternidade, ou conversando enquanto jantávamos. Ele me ouvia como se cada sílaba que eu falava tivesse importância. Porém, havia uma diferença gritante entre nós dois. Phil tinha os pés firmes no chão, ao passo que eu era um astronauta em gravidade zero, à deriva no espaço. Eu poderia atribuir isso ao fato de ele ser dez anos mais velho, mas sabia que não era o caso. Suas raízes estavam fincadas em outro reino. As minhas não estavam sequer plantadas.

Certa noite, quando estávamos no meu quarto no alojamento da faculdade, Phil me apresentou o evangelho. Parecia tudo tão lógico e simples. A ideia de que eu era objeto do amor de Deus era inebriante.

– Chase, você consegue pensar em algum motivo que o impeça de orar para receber Cristo agora mesmo? – perguntou ele.

Contendo as lágrimas, eu sussurrei:

– Acho que não.

– Tudo o que precisa fazer é entregar seu coração para Jesus. Peça a ele para ser o centro da sua vida.

– Como posso fazer isso?

Phil se sentou ao meu lado na cama.

– Você pode orar comigo e fazê-lo neste exato momento – respondeu ele.

– Em voz alta, você quer dizer? – perguntei, enquanto gotas de suor se formavam na minha testa e escorriam pelas minhas costas.

– Eu posso lhe dizer como é a oração, para que você a faça sozinho – disse ele, num tom de voz tranquilizador.

– E se eu não me lembrar de todas as palavras? – perguntei. Na época, eu estava fazendo um curso chamado As Escrituras Hebraicas como Literatura. Tinha lido os primeiros cinco livros do Antigo Testamento e sabia que irritar Deus era uma péssima ideia.

– Não se preocupe, o importante não são as palavras, mas o que está dentro do seu coração.

Eu não conseguia me imaginar orando em voz alta com outra pessoa, muito menos com um profissional.

– Acho que isto é algo que eu gostaria de fazer sozinho – falei.

Nos degraus de entrada do Jennings Hall, Phil apertou minha mão e disse que me telefonaria no dia seguinte para saber como eu estava. Eram duas da manhã quando saí em direção ao pátio do campus, com as mãos nos bolsos e os ombros tremendo. Estava mais frio do que o normal para o mês de outubro. As pessoas que moravam nos arredores da faculdade tinham abastecido suas lareiras antes de irem para a cama e o cheiro do carvalho em combustão adocicava o ar. Quando olhei para cima, vi a aurora boreal pela primeira vez. Meu avô me falara a respeito dela, mas, ainda assim, eu não estava preparado para a sua beleza – pilares de luz vermelhos, amarelos e verdes pendendo como cortinas do firmamento. Eu me sentei nos degraus da biblioteca da universidade, afogando-me em um mar de lágrimas, e sussurrei um sim para a noite.

Ao longo dos quatro anos seguintes, Phil e eu nos encontramos todas as manhãs de sexta-feira para que ele pudesse me “doutrinar”. Ele me fez crer que, se eu simplesmente reservasse um momento do dia à reflexão, fosse à igreja, pagasse o dízimo, compartilhasse minha fé com outras pessoas e frequentasse um grupo de apoio, seria mais fácil lidar com a vida. Phil chamava a Bíblia de “Manual do Usuário” e, como todo bom manual, seu propósito é explicar o funcionamento da referida máquina. Se você não conseguir encontrar a resposta na Palavra, é porque ainda não procurou o suficiente. Era um grande entusiasta da apologética. Ele me encheu de livros de autores que defendiam a racionalidade da fé e me fez decorar as Quatro Leis Espirituais como se Deus as tivesse dado a Moisés junto com os Dez Mandamentos. Para um jovem que havia crescido no mais completo caos espiritual, essa forma sistematizada de religião era muito atraente – tanto que apostei minha vida nela.

Não tenho dúvidas de que as intenções de Phil eram boas. Tampouco duvido que o Jesus que conquistou meu coração naquela noite de outono ainda seja real. A questão é que, em algum momento do caminho, eu comecei a ansiar por algo sobre o qual Phil nunca havia falado.

Os dias que se seguiram ao funeral de Iris foram muito difíceis para mim. Eu não tinha como desabafar minha dor e confusão. Mal saía de casa ou atendia ao telefone. À noite, bebia uma taça de vinho atrás da outra, na esperança de que isso me ajudasse a dormir, mas a bebida só servia para embaralhar minha mente e deixar meu coração ainda mais pesado. Certo dia, telefonei às três da manhã para Mac, totalmente bêbado, e comecei a deixar uma mensagem chorosa e incoerente em sua secretária eletrônica sobre como eu estava me sentindo sozinho. De repente, fiquei furioso e disse que odiava Deus e minha igreja.

Eu era como um carro desgovernado na estrada, vagando em zigue-zague para lá e para cá, ricocheteando de um acostamento e indo bater no outro, faíscas voando ao meu redor e calotas rolando pelo asfalto. Durante todo esse tempo, conseguia ouvir o barulho do domingo se aproximando, como um zumbido nos trilhos que anuncia a chegada de um trem de carga. Deveria ter sugerido que alguém me substituísse e fizesse o sermão no meu lugar, mas pedir ajuda não fazia o meu estilo. Grande erro.

Quando o domingo chegou, o auditório estava lotado. Toda igreja tem uma ou outra criança que é amada por todos, e Iris era uma delas. As pessoas se abraçaram por mais tempo naquela manhã, e ainda havia gente com olhos vermelhos na plateia. Os fiéis compareceram em peso naquela semana simplesmente porque precisavam estar juntos.

Havia três semanas eu vinha apresentando uma série de mensagens quaresmais sobre as últimas palavras de Jesus. Naquele domingo, pretendia falar sobre o triste momento em que ele diz: “Tenho sede.” Eu passara o verão inteiro preparando aquele sermão: o que pretendia defender era que não tínhamos necessidade de estar sedentos por Deus. Minha premissa era a de que, se examinássemos os indícios bíblicos e os fatos históricos da divindade de Jesus, assim como as provas periciais da ressurreição física, chegaríamos à inevitável conclusão de que o evangelho é verdadeiro. Simplesmente acreditar nesses fatos comprobatórios, fazer a Oração do Pecador e dedicar-se a uma vida de obediência seria suficiente para trazer a água da vida para nossas almas sedentas.

Tudo estava indo muito bem até o terceiro item dessa minha lista. Foi então que as engrenagens começaram a ranger e se soltar. Era o mesmo som de algo se partindo que eu tinha ouvido no estacionamento do hospital com Maggie após a morte de Iris. Dessa vez, no entanto, o estrondo foi ensurdecedor. Baixei os olhos para o texto do meu sermão e, pela primeira vez na vida, compreendi como um disléxico deve se sentir. Era como se todas as palavras em minha página redigida com capricho tivessem se envolvido em um terrível acidente de trânsito. Eu balancei a cabeça, na esperança de que as letras se desembaralhassem e se reorganizassem na forma de ideias coerentes. Senti um nó na garganta e fui invadido por uma onda de frustração e rancor. Não havia mais escapatória. Tentei desesperadamente me recompor e voltar ao roteiro, mas, a essa altura, o avião já estava mergulhando de bico. Por mais que puxasse o manete para trás, eu não conseguiria reverter a queda. Pela segunda vez na vida, comecei a improvisar.

– Depois que enterrei Iris esta semana, algo aconteceu comigo – falei, e minha voz lenta e titubeante era o total oposto da minha impostação normal.

Desejei ter o dom de falar em línguas, em algum idioma do Espírito que pudesse transmitir àquelas pessoas que eu amava o que havia acontecido à minha alma. Olhei para baixo e tive a sensação de que a minha camisa pulsava por causa do meu coração, que batia acelerado. Cheguei a me perguntar se as pessoas conseguiam ouvi-lo bater através do meu microfone de lapela.

– Na noite em que Iris morreu, algo também morreu dentro de mim… ouvi uma voz na minha cabeça… ou melhor, ouvi uma cristaleira cheia de porcelanas desabar em algum lugar bem fundo dentro de mim… minha fé não morreu de repente… aconteceu devagar… tentei de tudo para trazê-la de volta, mas… – Eu me interrompi e tentei recuperar o controle. Tosses nervosas ecoavam pelo auditório.

Zonzo e nauseado, eu me sentei à beira do palco, sabendo que nada do que dizia estava fazendo sentido para ninguém ali, nem sequer para mim. Olhei para pessoas cujos casamentos eu tinha celebrado; casais cujos relacionamentos eu ajudara a reconstruir; crianças que havia batizado; homens e mulheres que trouxera para a fé. Eu estava tomado por um pesar que nunca tinha sentido antes e esperava jamais voltar a sentir. Então, como um alcoólatra durante sua primeira reunião no AA, admitindo em voz alta pela primeira vez que tinha problemas com a bebida, confessei com uma voz angustiada:

– Eu perdi minha fé.

O oxigênio foi sugado do auditório até a última partícula. Baixei os olhos e vi Maggie sentada na primeira fileira, assentindo para mim com um leve sorriso nos lábios. Era como se estivesse incentivando um garotinho em sua primeira peça infantil a continuar, embora ele tivesse esquecido sua fala.

Eu me forcei a prosseguir:

– Eu costumava ter todas as respostas. Era só abrir a Bíblia e lá estavam elas. Mas a verdade é que elas não estão todas ali… ou, se estão, não consigo encontrá-las. Tentei convencer vocês de que o cristianismo é lógico e objetivo, como se Deus pudesse ser codificado e inserido em arquivos dos quais não pode sair. Sempre que a incerteza batia à porta, eu me escondia debaixo do sofá até ela ir embora. Agora, sou eu quem estou sedento. – Minha garganta estava tão seca que chegava a doer, minha voz estrangulada e rouca. – E o Jesus que conheci por vinte anos não consegue saciá-la.

Eu me levantei.

– E quanto à nossa igreja? Quero dizer, isto é tudo o que há? As pessoas chegam aqui famintas por Deus, então nós as fazemos assinarem um contrato que diz que elas acreditam em tudo o que nós acreditamos para depois domesticá-las. – Eu abri os braços e olhei em direção ao teto. – Putnam Hill: Tudo o Que Você Aprendeu a Esperar de uma Igreja e Muito Menos – anunciei.

Eu estava esgotado. As águas do meu batismo escorriam pelo meu rosto.

Balancei a cabeça.

– Talvez sejamos todos tolos. – E, com isso, arrastei meus pés pelo corredor central e saí pelas portas do auditório.

Quando cheguei ao meu escritório, fechei a porta e me deixei cair no sofá de couro que havia colocado debaixo das grandes janelas que davam vista para o nosso terreno. Na parede atrás da minha mesa, havia uma reprodução de um quadro do pintor americano Thomas Kinkade, que eu ganhara de presente de um casal de idosos após celebrar o casamento deles. Pus-me a observá-lo com um olhar intrigado: a luz quente e idílica, a segurança de uma casa na floresta – era como se tudo aquilo estivesse zombando de mim. Eu via o mundo retratado por aquele quadro como ele era: inexistente.

Alguns minutos depois, a porta do meu escritório se escancarou e o presbítero sênior, Ed Dalton, entrou como um furacão. Ed, que já está aposentado, tinha sido diretor executivo de uma das maiores companhias aéreas do mundo. Ele gostava de dizer que presidir uma reunião de presbíteros era mamão com açúcar se comparado a negociar com sindicatos. Era famoso por não ter papas na língua.

– O que aconteceu lá fora? – perguntou ele.

– Ed, eu…

Antes que pudesse concluir, ele gritou:

– Você perdeu o juízo?

Eu esfreguei os olhos, na esperança de que isso fosse fazê-lo desaparecer.

– Se pudesse apenas me dar um minuto para…

– Vou convocar os presbíteros. Quando podemos encontrar você?

– Não sei bem… – balbuciei. – Acho que preciso de um dia para organizar minhas…

– Amanhã não, hoje.

Eu estava cansado demais para discutir.

– Às seis da tarde?

– Ótimo – aceitou ele, saindo do meu escritório de forma tão tempestuosa quanto havia entrado.

Alguns minutos depois, ouvi o som de passos, seguidos por uma leve batida à porta. Estava certo de que era outro membro do conselho de presbíteros que tinha vindo me dizer poucas e boas, mas, em vez disso, graças a Deus, era Maggie. Seus olhos transbordavam de lágrimas e orgulho.

– Aquele foi o melhor sermão que você já fez.

Então, neste momento de furiosa graça, Maggie me envolveu em seus braços e eu chorei.

Naquela noite, seis dos nossos nove presbíteros vieram ao meu condomínio. Eu passara a tarde inteira me preparando para o momento em que aqueles homens, que eu amava, apareceriam marchando como um bando de corvos pelo caminho de ardósia ladeado de gerânios que conduzia à minha porta da frente. Antes que pudessem tocar a campainha, fui até a porta de tela e a abri em silêncio para eles entrarem.

Nós nos sentamos em círculo na minha sala de estar. Após alguns minutos esperando que alguém introduzisse o assunto, fiz minha melhor tentativa de quebrar o gelo. Até eu fiquei surpreso com o quê de sarcasmo em minha voz. Em questão de poucas horas, meu remorso havia se transformado em raiva e petulância.

– Eu até ofereceria algo para vocês beberem, mas imagino que a pausa para o cafezinho já tenha acabado. – O ar estava carregado de ansiedade.

Ed foi o primeiro a falar. Como presbítero sênior, cabia a ele comandar o ataque.

– Chase, os presbíteros se reuniram algumas horas atrás e decidimos que você precisa se afastar por um tempo. – Eu nunca tinha ouvido Ed falar em um tom tão oficial.

– Quanto tempo? – perguntei.

– Tempo suficiente para você repensar algumas coisas e…

Ele correu os olhos pelo grupo de homens sentado na sala.

– E? – falei.

Ed baixou os olhos para o tapete e soprou o ar por entre os dentes. Ele parecia mais velho do que antes.

– E a igreja decidir o que precisa ser feito. Mesmo antes do que aconteceu hoje, as pessoas já andavam se perguntando se você não deveria ser afastado da Putnam Hill. Veja bem, Chase, ninguém pode negar o fato de que é o fundador desta igreja. Mas você mudou.

Peter Collins, o pediatra mais admirado de Thackeray, falou em seguida. Ele era uma boa alma. Durante anos, me ligava todas as semanas só para perguntar se estava tudo bem na minha vida pessoal.

– Você tem estado estranho há algum tempo, Chase – disse ele.

– Também estamos sabendo das suas consultas com o Dr. McNally – comentou Hal Frick, num tom reprovador. Pelo jeito, a secretária de Mac, Regina, não conseguia ficar calada. – Suas alterações de humor estão assustando os funcionários da igreja, e Deus sabe que você deve um pedido de desculpas a Bill Archer – acrescentou ele. Bill e Hal eram melhores amigos e se mereciam.

Afundei na poltrona.

– Então, o que estão propondo? – Minha raiva estava se transformando em vergonha. Esse era um padrão que eu conhecia muito bem.

Ed prosseguiu.

– Queremos que você tire uma licença. Chip pode cuidar das coisas por aqui enquanto estiver afastado.

Eu não conseguia acreditar. Catorze anos de trabalho árduo deixados nas mãos de um cara que gostava de Debi & Loide.

– E depois? – perguntei.

– Não vamos colocar o carro na frente dos bois, Chase. Quando você voltar, nós nos reuniremos para ver em que pé estamos – respondeu Ed.

Então foi a vez do velho e doce Marvin Ballard. Ele nunca falava muito nesse tipo de reunião, mas, para onde quer que fosse, levava uma presença celestial.

– Sinto muito, Chase – balbuciou ele.

Não me lembro muito bem do que foi dito depois ou do que os outros achavam da proposta. Houve algum debate sobre se eu deveria continuar recebendo meu salário ou não e sobre como seria melhor eu não aparecer no escritório nem continuar em contato com membros da congregação. Imagino que eles estivessem com medo de que eu fosse lançar uma campanha para manter meu emprego e acabasse causando uma cisão na igreja. Quando já não havia mais nada a dizer, eu os acompanhei até a porta. Pensei que o pior já tinha passado, mas Ed se virou para mim e disse:

– Chase, nós dois fundamos esta igreja juntos. Talvez eu nunca tenha lhe dito, mas sempre o amei como um filho. O que você fez hoje partiu o meu coração. Talvez eu devesse ter notado que você estava saindo dos trilhos, mas nunca imaginei que fosse capaz de fazer o que fez hoje. Nunca fiquei tão decepcionado com um homem quanto estou me sentindo em relação a você agora.

Pela primeira vez em nossos 14 anos de amizade, eu vi os olhos de Ed cheios d’água. Foi então que qualquer resquício de rebeldia da minha parte desmoronou. Eu queria ser abraçado por aquele homem enquanto implorava pelo seu perdão. Havia uma bola de demolição fora de controle dentro do meu peito.

– Espero sinceramente que consiga voltar a si – concluiu Ed.

Sem esperar pela minha resposta, ele foi embora. Foi melhor assim. Eu não tinha nada a dizer.

1

“Tendo à metade desta vida chegado,

vi-me nas entranhas de uma floresta escura,

pois o caminho reto perdido estava.

Oh, quão difícil é discernir o que seja

selva tão espessa, selvagem e intrincada,

cuja simples lembrança renova meus medos!”

– Dante, Inferno, Canto I, versos 1-6

Enquanto o voo da Alitalia se preparava para aterrissar em Florença, eu folheava, apreensivo, as páginas do meu exemplar da Divina Comédia. Duas décadas de esquecimento no meu porão úmido haviam rendido ao livro uma camada poeirenta de mofo que pairava no ar ao meu redor. Pude vê-la por um instante, pequenas partículas flutuando preguiçosamente nos raios de sol que entravam pela janela. Não lia a parte dedicada ao Inferno do clássico de Dante desde a época de faculdade. Aos 19 anos, naturalmente, eu tinha ignorado o peso contido naqueles primeiros versos. Agora, relendo-os aos 39, minha vontade era poder telefonar para o escritor italiano e marcar um almoço com ele. Tinha uma longa lista de perguntas para lhe fazer.

Ao examinar a zona rural da Toscana pela janela do avião, eu soube que havia perdido o “caminho reto” e entrado em uma “floresta espessa, selvagem e intrincada”. Duas semanas antes, eu era Chase Falson, o pastor que tinha fundado a maior igreja evangélica contemporânea da Nova Inglaterra. Meus 14 anos de sacerdócio eram uma bem-sucedida história de como fazer uma igreja crescer. Eu me considerava um dos poucos privilegiados que haviam recebido dos céus uma bússola perfeita para servir de guia. Sabia quem era e para onde estava indo. Tinha certeza de que um dia alcançaria todos os meus objetivos na vida. Eu gostava de mim mesmo. Gostava muito.

Muita gente tem preconceito contra os evangélicos. Todo Natal, meu tio Bob me recebia com um martíni em uma das mãos e um charuto cubano dos grandes na outra. Ele me dava um tapa nas costas e gritava: “Olhem só quem chegou! É o Sr. Evangélico!”

Durante muitos anos, foi praticamente impossível colocar os termos Nova Inglaterra e evangélico na mesma frase. Meu professor de História da Igreja me disse que Jonathan Edwards certa vez se referiu a essa região do nordeste dos Estados Unidos como “o cemitério dos pastores”. Por mais desanimador que parecesse, isso não me impediu de dar ouvidos à minha vocação e seguir rumo ao leste quando terminei o seminário. Meus três amigos mais próximos mal conseguiram acreditar quando lhes contei sobre minha decisão de fundar uma igreja em Thackeray, no estado de Connecticut, uma cidade-dormitório a cerca de 50 quilômetros de Wall Street.

– Você enlouqueceu? Até Deus tem medo do nordeste dos Estados Unidos – disseram.

Eu ri.

– Não é tão ruim quanto parece. Eu cresci naquela área – expliquei.

– Mas você poderia ir para alguma daquelas megaigrejas, com templos enormes e milhares de fiéis, na Califórnia ou em Chicago – argumentaram eles.

Para dizer a verdade, eu não estava interessado em trabalhar para nenhuma igreja fundada por outra pessoa. Queria ser o pioneiro que “desvendou o segredo” para conquistar o espiritualmente inóspito nordeste dos Estados Unidos, o herói que levou a causa de Cristo à região do país mais resistente ao evangelho. Ingênuo que era, eu estava certo de que conhecia a cultura local bem o suficiente para cativar aqueles indivíduos formados pelas melhores universidades americanas, cujas casas ficavam discretamente escondidas atrás de muros de pedra e portões de ferro forjado. É muita arrogância, eu sei, mas era assim que eu pensava.

De qualquer forma, consegui. Fundei uma igreja que, de acordo com a última contagem, era visitada por mais de três mil fiéis todos os domingos – uma façanha hercúlea em uma região do mundo que suspeita de tudo o que seja grande ou novo.

Agora que posso olhar para trás, vejo que a Igreja Comunitária de Putnam foi construída com base na minha crença em um Deus que pudesse ser controlado e explicado racionalmente. Eu possuía uma fé tão inabalável em minha teologia evangélica conservadora que consegui conquistar até mesmo alguns dos moradores mais céticos. Depois de anos cumprindo jornadas de trabalho de setenta horas semanais, a Putnam Hill se tornou uma igreja repleta de jovens executivos e suas famílias, muitos dos quais haviam se convertido por causa da decepção com o fato de a felicidade não ser um dos opcionais de seus carros esportivos.

Dez dias atrás, esse mundo havia sido virado pelo avesso. Agora lá estava eu, no meio de uma licença compulsória, olhando para os telhados de terracota que salpicavam as colinas da Toscana cada vez mais próximas. E o mais provável era que, quando voltasse para casa, eu estivesse desempregado.

Agora sei que chegar ao auge de uma crise espiritual diante de mil pessoas não é algo muito inteligente. Olhando para trás, eu deveria ter percebido que estava à beira de um grande abismo existencial. Havia dois anos que correntes subterrâneas de dúvida vinham se infiltrando no poço das minhas certezas mais arraigadas. A estrutura que sustentava todo o meu sistema de crenças estava abalada, como se alguma força invisível tentasse derrubá-la.

Três meses antes de a vaca ir para o brejo, eu tinha começado a me consultar com o Dr. Alistair McNally, conhecido como Mac, um psiquiatra de 65 anos e o único terapeuta competente em um raio de 50 quilômetros de Thackeray. Nascido e criado em Dublin, Mac tinha um senso de humor desbocado e ostentava uma cabeleira branca e desgrenhada. Ele é o único analista que conheço que não tem aquela mania irritante de ficar fazendo “hummm” quando você conta algum detalhe doloroso sobre a sua vida. Tampouco insiste em manter contato visual como se estivesse tentando controlar sua mente. É apenas um sujeito comum que tem muito mais experiência de vida do que eu – e gosto dele. A secretária de Mac, Regina, frequenta nossa igreja, então eu costumava encontrá-lo fora do consultório sob o pretexto de jogarmos squash no clube. Minhas alterações de humor estavam rapidamente se tornando motivo para fofocas na congregação. A última coisa de que eu precisava era que as pessoas descobrissem que eu estava me consultando com um psiquiatra.

Um dia, depois de eu ter perdido três partidas de squash seguidas para ele, nós nos sentamos no chão em frente à quadra, tentando recuperar o fôlego.

– Então, como você está esta semana? – perguntou ele.

– Na verdade, estou me sentindo pior do que na semana passada – respondi com um suspiro. – Ainda não consigo dormir e engordei um quilo e meio. Mas, pelo menos, adquiri um novo hobby.

– Qual?

– Me irritar no trânsito.

Mac riu.

– Então, o que você faz quando não consegue dormir?

– Quer dizer, quando não estou com a cara enfiada na TV, tomando litros de sorvete?

Meu analista tornou a rir.

– Isso.

– Passo bastante tempo olhando para o teto, questionando tudo em que acreditei nos últimos vinte anos. Não consigo entender como isso foi acontecer. Eu costumava ser um poço de certezas, tinha resposta para tudo. Então, quando menos percebo, sou o Bertrand Russell. Alguém deu uma rasteira na minha fé.

– E que “fé” seria essa? – perguntou ele com seu sotaque irlandês.

– Do tipo que não tem complicações – respondi. – Seguir Jesus costumava ser tão simples. No dia em que atravessei o palco para pegar meu diploma do seminário, eu achava que tinha entendido basicamente tudo o que há para entender sobre Deus. Tudo em que acreditava estava embalado, catalogado e guardado em seu devido lugar.

Mac secou a testa com uma toalha.

– Ou seja, uma teologia sem conversa fiada – sugeriu ele.

– Como assim?

– O tipo de religião em que só os fatos interessam – disse Mac.

– É, durante vinte anos isso funcionou muito bem para mim. Agora, tenho mais perguntas do que respostas.

– E que perguntas são essas?

– Perguntas perigosas – respondi, meio brincando, meio a sério.

Mac sorriu.

– Me dê um exemplo.

– Está bem: por que eu tenho esta impressão incômoda de que estou lendo um roteiro teológico escrito por outra pessoa? Esta é a minha fé, ou eu me deixei convencer quando era mais novo sem realmente pensar no assunto? Por que sinto vergonha de ter dúvidas e questionar as coisas? Minha fé costumava ser tão cheia de vida, agora parece tão sem graça… Você nem imagina como isso me deixa furioso.

– Por quê? – perguntou Mac.

– Eu fui enganado – falei, batucando minha raquete no chão.

– Por quem?

– É difícil dizer ao certo. Por toda a subcultura cristã, imagino. Aquela pequena fatia do mundo costumava ser tudo de que eu precisava. Agora, acho que ela promete muito e oferece pouco em troca.

Há meses que qualquer coisa remotamente parecida com evange­lismo me embrulhava o estômago. Eu costumava devorar aqueles livros que prometiam uma vida espiritual mais gratificante em três passos simples. Frequentava congressos de pastores em que celebridades davam palestras que pareciam mais espetáculos do que eventos religiosos. Recebera por correio não muito tempo antes a propaganda de um seminário organi­zado por uma daquelas igrejas enormes com milhares de membros sobre evangelização e como conquistar mais fiéis. O tema da convenção era: “Vença a Batalha por Jesus!” A mala direta trazia uma imagem do pastor responsável pelo evento segurando a Bíblia ao lado de um tanque do exército.

Alguns anos antes, eu ficara chocado quando um colega de seminário se converteu ao catolicismo porque tinha a sensação de que os evangélicos haviam transformado Jesus em uma espécie de McDonald’s. Eu estava começando a compreender o que ele queria dizer.

– Não acho que a raiva seja a raiz do seu problema – disse Mac. – Ela está escondendo outra emoção.

– Qual? – perguntei.

– Medo.

– Medo de quê?

– Você tem medo de que, se não encontrar uma nova maneira de seguir Jesus, talvez tenha que abandonar o ringue – respondeu ele.

Mac se levantou para pegar um copo d’água do bebedouro. Era um pouco constrangedor levar uma surra tão grande no squash de um cara com aquelas pernas branquelas e finas, aquela pança e aquele traseiro murcho.

– Como estão indo as coisas na igreja? – perguntou Mac.

– Estou dando um curso para a nossa turma de jovens adultos chamado Verdade Absoluta na Era do Relativismo.

– E como está indo?

– Não muito bem. Tenho a sensação de estar respondendo a perguntas que ninguém está fazendo.

– Nem você? – perguntou ele, num tom de voz gentil.

Encolhi os ombros.

– Talvez. O mais desanimador é que nossos fiéis de 20, 30 e poucos anos estão abandonando a congregação.

– Alguma ideia do motivo?

– Outro dia chamei um deles para conversar e perguntei por que isso estava acontecendo. Ele me disse que eu tinha “certezas demais” e que os nossos cultos de domingo eram muito superficiais. Todos estão indo para alguma nova igreja moderninha em Bridgewater, onde todo mundo parece gostar de velas e cavanhaques.

Mac se sentou no chão para se alongar.

– Talvez outros pastores na cidade estejam passando pelo mesmo problema. Já conversou com eles?

– Fui a um encontro de pastores na semana passada.

Mac revirou os olhos e deu uma risadinha. Aquele grupo era de lascar.

– Como foi? – perguntou ele.

– Um desastre. Um palestrante ficou falando sem parar sobre a guerra de culturas e sobre como deveríamos orar para os Estados Unidos “redescobrirem a fé dos seus pais fundadores”.

– Ai, ai… – disse ele, soltando um suspiro.

– Depois os pastores conservadores se juntaram para falar sobre a der­rocada do país rumo a um “abismo moral” e sobre como precisavam convencer os membros das suas congregações a votarem nos republicanos. Quando passei pela mesa dos liberais, eu os ouvi falando sobre como eles precisavam impedir que os “evangélicos fascistas” tomassem conta do país – desabafei.

– E o que você fez?

– Devia ter ido embora, mas parei por alguns minutos na mesa dos conservadores.

– E então?

– O clima ali estava tão deprimente que eu tentei trazer um pouco de humor para a conversa. Então falei: “Talvez devêssemos construir abrigos subterrâneos e armazenar comida enlatada para o apocalipse.”

Mac arregalou os olhos.

– Como eles reagiram?

– Ficaram me olhando tão feio que eu achei que fosse cair duro.

As gargalhadas do meu analista ecoaram pelo corredor.

– Sério, Mac, estou de saco cheio de todo esse conflito entre conservadores e liberais teológicos, dessa história de mocinhos e bandidos. Todos eles acreditam que são os donos da verdade. Todas as manhãs tenho vontade de escancarar a janela e gritar: “Diga-me que existe algo mais! Não pode ser só isso!”

Ficamos alguns minutos sentados, ouvindo as bolas ricochetearem nas paredes da quadra. De vez em quando, ouvíamos alguém xingar por ter cometido algum erro.

Mac se levantou.

– Você já assistiu a O show de Truman? – perguntou ele.

– Aquele filme com o Jim Carrey?

– Isso. Por que não o aluga? Podemos falar sobre ele na nossa próxima conversa.

Eu me levantei devagar. Tinha rompido um dos ligamentos do joelho direito quando ainda estava na escola e esquecera minha joelheira em casa.

– Está bem – respondi, intrigado com aquele “dever de casa”.

– Vou passar três semanas fora, visitando minha mãe. Ligo quando voltar para marcarmos nossa próxima consulta.

– Com essas palavras, Mac segurou a porta da quadra para mim e fomos embora.

No sábado à noite, Chip, o pastor do ministério estudantil da minha igreja, encarregado de orientar os jovens em idade escolar, veio até minha casa para comer uma pizza e assistir a O show de Truman. Quando o assunto é pregar para a juventude, Chip tem tudo o que um pastor sênior poderia querer e mais. Ele é bonito, carismático, atlético, toca violão e os pais acham que ele é capaz de fazer milagres. Só tem uma coisa que me irrita nele: sempre que alguém aparece, ele se levanta e grita “E aí, cara!”, indo abraçar a pessoa como se não a visse há um tempão. Digo por experiência própria: ele faz isso comigo umas cinco vezes por dia.

Eu sabia que Chip estava começando a ficar impaciente. Ele tem 32 anos e vem dando sinais de que não quer trabalhar com jovens por muito mais tempo. A simples ideia de substituí-lo, no entanto, me dá arrepios.

Mac tinha razão. O show de Truman é excelente. Jim Carrey interpreta Truman Burbank, um cara que cresce em uma cidade idílica numa pequena ilha chamada Seahaven. O que Truman não sabe é que ele é o astro do reality show há mais tempo no ar em toda a história da televisão. A ilha é um gigantesco estúdio, seus amigos e sua família são atores, e cinco mil câmeras escondidas capturam cada movimento seu no mundo exterior. Aos poucos, Truman começa a perceber que alguma coisa está errada. Ele pressente que há algo além de Seahaven e, apesar dos esforços de todos para mantê-lo na ilha, fica cada vez mais determinado a sair dali e descobrir a verdade. Certo dia, escapa em um pequeno barco, atravessa uma tempestade violenta e dá de cara com um muro do estúdio pintado para parecer o horizonte. Enquanto tateia o muro em busca de uma maneira de atravessá-lo, descobre uma porta e se vê obrigado a tomar uma decisão: voltar à sua vida perfeita na ilha ou atravessar a porta em direção ao que quer que esteja à sua espera do outro lado? Na última cena do filme, Truman deixa para trás a única realidade que conhece na vida e descobre o mundo real que existe lá fora.

– Que filme incrível, hein? – comentei, desligando a TV.

Chip encolheu os ombros.

– É, até que foi legal.

Eu olhei para ele.

– Como assim “legal”? O filme tem várias camadas de simbolismo e significado – argumentei.

– Não é tão bom quanto Coração valente. Além disso, gosto mais das comédias do Jim Carrey. Debi & Loide é hilário – respondeu ele com a boca cheia de pizza.

Eu me levantei.

– Está falando sério? Este filme é sobre a busca pela verdade, pela transcendência, por uma realidade mais elevada. Debi & Loide nem se compara – retruquei.

– Você já viu essa comédia? – perguntou ele.

Fiquei vermelho na mesma hora.

– Não, mas…

Chip se levantou e começou a tatear os bolsos em busca das chaves do seu carro.

– É que não me pareceu muito verossímil – disse ele. – Por que Truman iria querer abandonar a ilha?

– Você só pode estar brincando… – falei, sem acreditar no que ele estava dizendo.

– Ele tinha uma vida ótima.

Estava começando a me perguntar se Chip e eu tínhamos visto o mesmo filme. Na verdade, eu já estava até me questionando se ambos vivíamos na mesma galáxia.

– Mas, Chip… como ele poderia continuar na ilha? Era tudo uma grande mentira!

– Você não viu como a mulher dele era gata?

– Chip, acorde! – gritei.

Ele fechou a cara e cruzou os braços sobre o peito.

– Chase, que bicho mordeu você nos últimos dias? Já estou cansado de ser tratado como um idiota. Você me perguntou o que eu tinha achado do filme, e eu respondi – disse ele.

Ele tinha razão. Eu andava pegando pesado ultimamente. E sabia por quê. Chip simbolizava tudo com que eu vinha me ressentindo. Ele seguia à risca todas as políticas da igreja. Nunca questionava nada e tinha uma resposta pronta para cada questão que o universo lhe apresentasse. Eu o acompanhei até a porta com o rabo entre as pernas.

– Desculpe, Chip. Tenho me sentido meio esgotado nos últimos tempos – admiti, arrependido.

– Tudo bem – disse ele, mas dava para perceber que não era verdade. – É melhor eu ir andando. Tenho um dia cheio amanhã – falou, bocejando. – Falei para a garotada do ensino médio que eles poderiam raspar minha cabeça se eu não levantasse dinheiro suficiente para financiar nossa viagem de missão ao México. Vários deles disseram que vão levar seus amigos de fora da igreja para ver.

Depois que ele foi embora, fui para a cama e, pela enésima noite consecutiva, tive dificuldades para pegar no sono. Fiquei repassando os momentos mais importantes do filme na minha cabeça sem parar. Não era preciso ser nenhum gênio para descobrir por que Mac tinha sugerido que eu o assistisse. Eu era o Truman. Havia começado a suspeitar que existia algo além da ilha de evangelismo na qual passara os meus últimos vinte anos. Estava diante do mesmo tipo de escolha: ficar nessa ilha, agarrado a um relacionamento com Deus que me parecia cada vez mais insosso e insatisfatório, ou deixá-la para trás e ter a confiança de que havia outras maneiras de segui-lo. Continuar a conduzir a nossa igreja por um caminho do qual eu vinha duvidando, ou dar as costas para ele e tentar encontrar outros rumos. Por um instante, me senti repleto de esperança e entusiasmo – mas, então, uma voz que dizia “que coisa mais feia…” surgiu na minha cabeça. A ideia de abandonar minha pequena ilha me aterrorizava. Comecei a ficar desesperado.

– Jesus, me ajude – orei. – Parte de mim quer abandonar a ilha, enquanto outra parte não consegue imaginar a vida em nenhum outro lugar.

Puxando as cobertas sobre a cabeça, caí lentamente no sono e passei a noite sonhando com barcos furados e oceanos ferventes.

Na manhã seguinte, fiz algo na igreja que nunca havia feito antes. Talvez o filme tivesse me inspirado a dar a cara a tapa e me arriscar. Eu estava pregando sobre a questão da adoração quando, perto do final da minha men­sagem, me desviei do roteiro e comecei a improvisar. Já havia feito isso, é claro, mudando uma ou outra frase, mas dessa vez estava fugindo totalmente do assunto.

– Eu tenho me perguntado várias coisas ultimamente. E se Deus não for tão previsível e explicável quanto gostaríamos de pensar? Eu me lembro de quando li O urso, de William Faulkner, durante o meu primeiro ano de faculdade. Nessa história, um jovem chamado Ike McCaslin está caçando um urso que sempre lhe escapa e que é um símbolo do Deus todo-poderoso. Depois de várias tentativas frustradas, ele percebe que, se quiser ver o animal, terá que largar sua arma e sua bússola e ficar indefeso a céu aberto. Por um breve momento, a criatura gloriosa surge na clareira, olha por sobre o ombro para Ike e então torna a se embrenhar na floresta, como um peixe desaparecendo nas profundezas de um lago – sussurrei.

Enquanto falava, me perguntei por que não tinha feito isso antes. Estava vibrando por dentro; sangue e adrenalina corriam pelas minhas veias. Aquela era a minha versão do famoso discurso “Eu tenho um sonho”, de Martin Luther King. Continuei falando por vários minutos, então apresentei minha conclusão.

– E se, de vez em quando, silenciássemos a bateria e as guitarras, desligássemos os projetores e o aparelho de som e esperássemos, em silêncio, que Deus saia da floresta? Será que temos fé suficiente para acreditar que ele surgirá para a nossa comunidade?

Eu estava embevecido. Falava de uma parte da minha alma que sempre soubera existir, mas que até o momento não fazia ideia de como acessar. O que disse estava longe de ser perfeito, mas era a expressão mais perfeita de mim mesmo. Imaginei um grupo de membros da congregação extasiados me erguendo em seus ombros e me carregando pelo auditório enquanto entoavam meu nome. Teria me contentado até mesmo com uma breve salva de palmas contidas. Mas, em vez disso, enquanto eu falava, era como se tivessem injetado doses cavalares de anestésico nos rostos da plateia. Dava para ouvir o universo bocejando.

Após o culto, várias pessoas vieram me falar que meu sermão tinha sido interessante. Isso, eu sabia muito bem, significava que receberia dez e-mails na manhã de segunda-feira me perguntando se eu tinha levado alguma pancada forte na cabeça recentemente. Não tardou muito para eu ficar um pouco na defensiva.

A gota d’água foi Bill Archer. Dos membros da nossa congregação, ele não é dos que tem mais tato para relacionamentos. Fala alto, vive dando tapas nas costas dos outros e tem uma lendária capacidade de dizer a coisa errada na hora inadequada. Sempre que ele abre a boca, você se pergunta quando o estrago vai começar.

– Já ouvi muitos sermões na minha vida, mas esse devia ganhar um prêmio – disse ele, soltando uma risada ofegante. Bill tem 50 e poucos anos, mas sua pele é inchada e pastosa por causa de muitos e muitos anos fumando um cigarro atrás do outro. – De onde você tirou isso, afinal? Da internet?

Bill correu os olhos esbugalhados pelo grupo de recém-chegados com que eu estava falando para ver se alguém havia achado seus comentários tão hilariantes quanto ele próprio.

No geral, as pessoas me pareceram constrangidas. Um mar de lava psíquica começou a ferver dentro de mim. Teve início nos meus tornozelos, passando pelo meu joelho e peito até chegar ao topo da minha cabeça. Não havia como impedir a erupção. Eu aproximei tanto o meu rosto do de Bill que poderia ter contado os pelos do seu nariz.

– Bill, por que você não vai se sentar e dar um descanso para a sua cabeça? – falei através de dentes cerrados. O sorriso desapareceu de seu rosto. Ele resmungou algo sobre como eu não tinha o menor senso de humor e saiu de fininho. As coisas estavam indo de mal a pior.

Foi uma garotinha de 9 anos chamada Iris Harmon que me fez desmoronar de vez. Eu a batizei quando ela tinha três meses de idade. Sua mãe, Maggie, tinha 35 e acabara de ficar sóbria. Sua madrinha no Alcoólicos Anônimos, que frequentava nossa igreja, disse-lhe que a Putnam Hill talvez fosse um bom lugar para fincar raízes e entrar em contato com um Poder Superior. Maggie tinha formação católica, tendo até estudado em escolas religiosas, mas sua experiência com o catolicismo lhe deixara com um gosto amargo na boca.

– Durante meu Quarto Passo na reabilitação, tive que lidar com meus ressentimentos em relação às freiras que tinham sido minhas professoras – disse-me ela quando nos conhecemos. – Agora, acho que já superei isso. Consigo ir a uma igreja católica, me sentar nos últimos bancos e orar. Gosto do silêncio.

Todos os domingos, durante o café que servíamos após o culto, eu passava horas gravitando em torno dessa frágil ex-dependente do álcool, que cheirava a cigarro e arrependimento. Ela era arisca como um coelho, sempre lançando olhares de um lado para outro, constantemente buscando uma rota de fuga. Um belo domingo, eu estava lhe mostrando o nosso novo centro de confraternização e parei para apresentá-la a um de nossos presbíteros. No meio da conversa, Maggie soltou, com a maior naturalidade, um baita palavrão. Achei que o presbítero fosse ter uma síncope. Mais tarde naquele mesmo ano, Maggie e Iris encontraram Jesus e, embora tenham demorado um pouco para se integrar, com o tempo se tornaram parte da família.

Enterrei Iris quatro dias antes de arruinar minha vida. Ela havia caído de bicicleta, batido com a cabeça no meio-fio e nunca mais acor­dado. Eu estava presente quando Maggie deu aos médicos a permissão para desligarem o respirador. Após alguns dias ouvindo o zumbido e os chiados de máquinas e monitores, um silêncio lúgubre caiu sobre o quarto. O desespero era palpável. Maggie e eu ficamos de mãos dadas e fixamos nossos olhares no corpo pequenino de Iris, uma andorinha de ossos frágeis, na esperança de que o sopro de Deus fosse ressuscitá-la. Mas esse sopro nunca veio. Maggie correu os dedos pelos contornos das pernas magras da filha, sem vida e inertes debaixo dos lençóis brancos, e sussurrou “Ó, minha menina”, como se sua garotinha tivesse apenas batido com a cabeça e voltado correndo para os braços da mãe em busca de consolo. Era um lamento capaz de fazer o universo baixar a cabeça de tristeza.

Maggie se voltou contra mim no estacionamento do hospital.

– Então, onde está Deus agora? – disse ela através de dentes cerrados. – Eu entreguei minha vida para Cristo, fiz tudo o que você mandou. Como Ele pôde fazer isso?

A raiva se acumulava como duas poças nos olhos de Maggie.

Algo me projetou para além de uma fronteira que eu não sabia existir. Em algum lugar nas profundezas da minha alma, vi uma cristaleira cheia de porcelanas antigas tombar para a frente e começar a cair. Pude ver a mim mesmo correndo feito um alucinado para tentar impedir a queda, já sabendo que não conseguiria chegar a tempo. Ela desabou dentro do meu coração com um estrondo ressonante. Lascas de madeira e cacos de porcelana se espalharam pela minha alma enquanto Maggie, tremendo de raiva, esperava ao final de um longo túnel pela minha resposta. Parada em meio aos escombros, uma voz cheia de desprezo sussurrava: prepare-se para perder tudo.

Meu primeiro contato com a fé foi quando eu era calouro na Stockford College, em Danbridge, Massachusetts. Uma linhagem ininterrupta de Falsons havia estudado naquela maravilhosa e tradicional faculdade desde os tempos da Guerra Civil. Tenho uma foto minha ainda bebê nos braços do meu avô, usando o que parecia um suéter de lã com um grande S estampado na frente. Desde o momento em que fui concebido, esperava-se que um dia eu fosse jogar pelos Fighting Cardinals e me tornasse membro da fraternidade Delta Kappa Epsilon.

Duvido que exista lugar mais mágico no mundo do que Stockford no outono. Durante meu primeiro mês lá, eu caminhava pelo campus me perguntando se não teria caído de paraquedas naquele clássico filme da década de 1970, Uma ilha de paz. A longa fileira de carvalhos e bordos antigos, cujas sombras se projetavam sobre a calçada que conduzia à entrada do Garnett Hall, parecia em chamas – suas folhas estavam tão repletas de fogo e glória que a visão delas gerava uma doce melancolia no meu peito. A beleza arrebatadora daquele lugar me fazia ansiar por algo que eu não conseguia descrever, mas que sabia existir.

Durante a semana em que as fraternidades recrutam seus novos membros, conheci uma linda garota chamada Leslie em uma festa. Certa noite, me ofereci para acompanhá-la até o seu dormitório (com intenções nada honradas, devo admitir) e, no caminho, ela me disse que era “cristã”. Ninguém nunca havia me dito algo assim antes, mas não dei importância. Ela era tão bonita que eu continuaria empolgado mesmo se ela dissesse que era um forno elétrico.

– Você precisa conhecer Phil Barclay – disse ela, com todo o entusiasmo incontido de uma animadora de torcidas.

– Quem é ele? – Eu não estava nem um pouco interessado, mas sabia que manter a conversa rolando era fundamental.

– Ele é o novo representante da InterVarsity no campus – disse ela.

– Como assim, ele trabalha no departamento de educação física? – perguntei, achando que tivesse algo a ver com as equipes esportivas da faculdade.

Leslie soltou uma gargalhada.

– Não, a InterVarsity é uma organização cristã. Tenho certeza de que vocês vão se dar muito bem. Venha comigo ao nosso encontro de amanhã à noite que eu o apresento a ele – disse ela, pestanejando de forma sedutora.

Mal sabia eu que estava na mira de uma brilhante evangelista.

Eu não era um candidato muito promissor para essa coisa toda de “renascido em Cristo”. Tinha sido criado na abastada região nordeste do país, não no sul profundo. Era o filho único de pais anglicanos e cosmopolitas que não tinham o menor interesse na Igreja. Minha mãe fora criada por batistas ultraconservadores em uma pequena cidade rural no leste do Colorado, assunto que quase nunca era abordado em nossa casa. Certa vez, eu a ouvi dizer a uma amiga que, quando entrou para a Smith College – uma faculdade liberal só para mulheres em Massachusetts –, graças a uma bolsa de estudos, ela se livrou do jugo da sua “infância religiosa opressora” e abraçou as raízes espirituais de meu pai. Ele dizia que o lado da minha mãe da família era “fanático” por religião e que a ausência de álcool na festa de casamento dos dois ainda era motivo de constrangimento. Eu me lembro da vez em que voltei do internato e perguntei ao meu pai se nossa família era cristã.

– Não, Deus que me livre – disse ele, levando a mão ao peito e olhando para cima. – Somos anglicanos.

Dizer que o casamento dos meus pais foi um desastre seria bondade minha. A vida em nossa casa era como uma cena da peça Longa jornada noite adentro, de Eugene O’Neill. Meu pai era um alcóolatra arrogante que todos os dias, às cinco da tarde, tomava o seu primeiro uísque. Às sete e meia, já estava vagando entorpecido pela casa, esbarrando sem querer nos batentes das portas e balbuciando pedidos de desculpas para ninguém em especial. Às vezes ele topava comigo brincando no chão da sala de estar e parecia confuso, como se quisesse se apresentar àquele pequeno estranho à sua frente. Minha mãe patrulhava a casa como uma verdadeira Amélia, arrumando a bagunça enquanto sonhava acordada com um novo estofado para os sofás. É preciso muita energia mental para sustentar esse tipo de negação.

Quando Phil Barclay apareceu, foi a primeira vez que me senti “enxergado” por um homem digno de respeito. Li em algum lugar que um jovem que não é admirado por um homem mais velho é pobre. Se isso for verdade, eu me tornara rico pela primeira vez na vida. Nós passávamos longas tardes jogando lacrosse no gramado que havia em frente à minha fraternidade, ou conversando enquanto jantávamos. Ele me ouvia como se cada sílaba que eu falava tivesse importância. Porém, havia uma diferença gritante entre nós dois. Phil tinha os pés firmes no chão, ao passo que eu era um astronauta em gravidade zero, à deriva no espaço. Eu poderia atribuir isso ao fato de ele ser dez anos mais velho, mas sabia que não era o caso. Suas raízes estavam fincadas em outro reino. As minhas não estavam sequer plantadas.

Certa noite, quando estávamos no meu quarto no alojamento da faculdade, Phil me apresentou o evangelho. Parecia tudo tão lógico e simples. A ideia de que eu era objeto do amor de Deus era inebriante.

– Chase, você consegue pensar em algum motivo que o impeça de orar para receber Cristo agora mesmo? – perguntou ele.

Contendo as lágrimas, eu sussurrei:

– Acho que não.

– Tudo o que precisa fazer é entregar seu coração para Jesus. Peça a ele para ser o centro da sua vida.

– Como posso fazer isso?

Phil se sentou ao meu lado na cama.

– Você pode orar comigo e fazê-lo neste exato momento – respondeu ele.

– Em voz alta, você quer dizer? – perguntei, enquanto gotas de suor se formavam na minha testa e escorriam pelas minhas costas.

– Eu posso lhe dizer como é a oração, para que você a faça sozinho – disse ele, num tom de voz tranquilizador.

– E se eu não me lembrar de todas as palavras? – perguntei. Na época, eu estava fazendo um curso chamado As Escrituras Hebraicas como Literatura. Tinha lido os primeiros cinco livros do Antigo Testamento e sabia que irritar Deus era uma péssima ideia.

– Não se preocupe, o importante não são as palavras, mas o que está dentro do seu coração.

Eu não conseguia me imaginar orando em voz alta com outra pessoa, muito menos com um profissional.

– Acho que isto é algo que eu gostaria de fazer sozinho – falei.

Nos degraus de entrada do Jennings Hall, Phil apertou minha mão e disse que me telefonaria no dia seguinte para saber como eu estava. Eram duas da manhã quando saí em direção ao pátio do campus, com as mãos nos bolsos e os ombros tremendo. Estava mais frio do que o normal para o mês de outubro. As pessoas que moravam nos arredores da faculdade tinham abastecido suas lareiras antes de irem para a cama e o cheiro do carvalho em combustão adocicava o ar. Quando olhei para cima, vi a aurora boreal pela primeira vez. Meu avô me falara a respeito dela, mas, ainda assim, eu não estava preparado para a sua beleza – pilares de luz vermelhos, amarelos e verdes pendendo como cortinas do firmamento. Eu me sentei nos degraus da biblioteca da universidade, afogando-me em um mar de lágrimas, e sussurrei um sim para a noite.

Ao longo dos quatro anos seguintes, Phil e eu nos encontramos todas as manhãs de sexta-feira para que ele pudesse me “doutrinar”. Ele me fez crer que, se eu simplesmente reservasse um momento do dia à reflexão, fosse à igreja, pagasse o dízimo, compartilhasse minha fé com outras pessoas e frequentasse um grupo de apoio, seria mais fácil lidar com a vida. Phil chamava a Bíblia de “Manual do Usuário” e, como todo bom manual, seu propósito é explicar o funcionamento da referida máquina. Se você não conseguir encontrar a resposta na Palavra, é porque ainda não procurou o suficiente. Era um grande entusiasta da apologética. Ele me encheu de livros de autores que defendiam a racionalidade da fé e me fez decorar as Quatro Leis Espirituais como se Deus as tivesse dado a Moisés junto com os Dez Mandamentos. Para um jovem que havia crescido no mais completo caos espiritual, essa forma sistematizada de religião era muito atraente – tanto que apostei minha vida nela.

Não tenho dúvidas de que as intenções de Phil eram boas. Tampouco duvido que o Jesus que conquistou meu coração naquela noite de outono ainda seja real. A questão é que, em algum momento do caminho, eu comecei a ansiar por algo sobre o qual Phil nunca havia falado.

Os dias que se seguiram ao funeral de Iris foram muito difíceis para mim. Eu não tinha como desabafar minha dor e confusão. Mal saía de casa ou atendia ao telefone. À noite, bebia uma taça de vinho atrás da outra, na esperança de que isso me ajudasse a dormir, mas a bebida só servia para embaralhar minha mente e deixar meu coração ainda mais pesado. Certo dia, telefonei às três da manhã para Mac, totalmente bêbado, e comecei a deixar uma mensagem chorosa e incoerente em sua secretária eletrônica sobre como eu estava me sentindo sozinho. De repente, fiquei furioso e disse que odiava Deus e minha igreja.

Eu era como um carro desgovernado na estrada, vagando em zigue-zague para lá e para cá, ricocheteando de um acostamento e indo bater no outro, faíscas voando ao meu redor e calotas rolando pelo asfalto. Durante todo esse tempo, conseguia ouvir o barulho do domingo se aproximando, como um zumbido nos trilhos que anuncia a chegada de um trem de carga. Deveria ter sugerido que alguém me substituísse e fizesse o sermão no meu lugar, mas pedir ajuda não fazia o meu estilo. Grande erro.

Quando o domingo chegou, o auditório estava lotado. Toda igreja tem uma ou outra criança que é amada por todos, e Iris era uma delas. As pessoas se abraçaram por mais tempo naquela manhã, e ainda havia gente com olhos vermelhos na plateia. Os fiéis compareceram em peso naquela semana simplesmente porque precisavam estar juntos.

Havia três semanas eu vinha apresentando uma série de mensagens quaresmais sobre as últimas palavras de Jesus. Naquele domingo, pretendia falar sobre o triste momento em que ele diz: “Tenho sede.” Eu passara o verão inteiro preparando aquele sermão: o que pretendia defender era que não tínhamos necessidade de estar sedentos por Deus. Minha premissa era a de que, se examinássemos os indícios bíblicos e os fatos históricos da divindade de Jesus, assim como as provas periciais da ressurreição física, chegaríamos à inevitável conclusão de que o evangelho é verdadeiro. Simplesmente acreditar nesses fatos comprobatórios, fazer a Oração do Pecador e dedicar-se a uma vida de obediência seria suficiente para trazer a água da vida para nossas almas sedentas.

Tudo estava indo muito bem até o terceiro item dessa minha lista. Foi então que as engrenagens começaram a ranger e se soltar. Era o mesmo som de algo se partindo que eu tinha ouvido no estacionamento do hospital com Maggie após a morte de Iris. Dessa vez, no entanto, o estrondo foi ensurdecedor. Baixei os olhos para o texto do meu sermão e, pela primeira vez na vida, compreendi como um disléxico deve se sentir. Era como se todas as palavras em minha página redigida com capricho tivessem se envolvido em um terrível acidente de trânsito. Eu balancei a cabeça, na esperança de que as letras se desembaralhassem e se reorganizassem na forma de ideias coerentes. Senti um nó na garganta e fui invadido por uma onda de frustração e rancor. Não havia mais escapatória. Tentei desesperadamente me recompor e voltar ao roteiro, mas, a essa altura, o avião já estava mergulhando de bico. Por mais que puxasse o manete para trás, eu não conseguiria reverter a queda. Pela segunda vez na vida, comecei a improvisar.

– Depois que enterrei Iris esta semana, algo aconteceu comigo – falei, e minha voz lenta e titubeante era o total oposto da minha impostação normal.

Desejei ter o dom de falar em línguas, em algum idioma do Espírito que pudesse transmitir àquelas pessoas que eu amava o que havia acontecido à minha alma. Olhei para baixo e tive a sensação de que a minha camisa pulsava por causa do meu coração, que batia acelerado. Cheguei a me perguntar se as pessoas conseguiam ouvi-lo bater através do meu microfone de lapela.

– Na noite em que Iris morreu, algo também morreu dentro de mim… ouvi uma voz na minha cabeça… ou melhor, ouvi uma cristaleira cheia de porcelanas desabar em algum lugar bem fundo dentro de mim… minha fé não morreu de repente… aconteceu devagar… tentei de tudo para trazê-la de volta, mas… – Eu me interrompi e tentei recuperar o controle. Tosses nervosas ecoavam pelo auditório.

Zonzo e nauseado, eu me sentei à beira do palco, sabendo que nada do que dizia estava fazendo sentido para ninguém ali, nem sequer para mim. Olhei para pessoas cujos casamentos eu tinha celebrado; casais cujos relacionamentos eu ajudara a reconstruir; crianças que havia batizado; homens e mulheres que trouxera para a fé. Eu estava tomado por um pesar que nunca tinha sentido antes e esperava jamais voltar a sentir. Então, como um alcoólatra durante sua primeira reunião no AA, admitindo em voz alta pela primeira vez que tinha problemas com a bebida, confessei com uma voz angustiada:

– Eu perdi minha fé.

O oxigênio foi sugado do auditório até a última partícula. Baixei os olhos e vi Maggie sentada na primeira fileira, assentindo para mim com um leve sorriso nos lábios. Era como se estivesse incentivando um garotinho em sua primeira peça infantil a continuar, embora ele tivesse esquecido sua fala.

Eu me forcei a prosseguir:

– Eu costumava ter todas as respostas. Era só abrir a Bíblia e lá estavam elas. Mas a verdade é que elas não estão todas ali… ou, se estão, não consigo encontrá-las. Tentei convencer vocês de que o cristianismo é lógico e objetivo, como se Deus pudesse ser codificado e inserido em arquivos dos quais não pode sair. Sempre que a incerteza batia à porta, eu me escondia debaixo do sofá até ela ir embora. Agora, sou eu quem estou sedento. – Minha garganta estava tão seca que chegava a doer, minha voz estrangulada e rouca. – E o Jesus que conheci por vinte anos não consegue saciá-la.

Eu me levantei.

– E quanto à nossa igreja? Quero dizer, isto é tudo o que há? As pessoas chegam aqui famintas por Deus, então nós as fazemos assinarem um contrato que diz que elas acreditam em tudo o que nós acreditamos para depois domesticá-las. – Eu abri os braços e olhei em direção ao teto. – Putnam Hill: Tudo o Que Você Aprendeu a Esperar de uma Igreja e Muito Menos – anunciei.

Eu estava esgotado. As águas do meu batismo escorriam pelo meu rosto.

Balancei a cabeça.

– Talvez sejamos todos tolos. – E, com isso, arrastei meus pés pelo corredor central e saí pelas portas do auditório.

Quando cheguei ao meu escritório, fechei a porta e me deixei cair no sofá de couro que havia colocado debaixo das grandes janelas que davam vista para o nosso terreno. Na parede atrás da minha mesa, havia uma reprodução de um quadro do pintor americano Thomas Kinkade, que eu ganhara de presente de um casal de idosos após celebrar o casamento deles. Pus-me a observá-lo com um olhar intrigado: a luz quente e idílica, a segurança de uma casa na floresta – era como se tudo aquilo estivesse zombando de mim. Eu via o mundo retratado por aquele quadro como ele era: inexistente.

Alguns minutos depois, a porta do meu escritório se escancarou e o presbítero sênior, Ed Dalton, entrou como um furacão. Ed, que já está aposentado, tinha sido diretor executivo de uma das maiores companhias aéreas do mundo. Ele gostava de dizer que presidir uma reunião de presbíteros era mamão com açúcar se comparado a negociar com sindicatos. Era famoso por não ter papas na língua.

– O que aconteceu lá fora? – perguntou ele.

– Ed, eu…

Antes que pudesse concluir, ele gritou:

– Você perdeu o juízo?

Eu esfreguei os olhos, na esperança de que isso fosse fazê-lo desaparecer.

– Se pudesse apenas me dar um minuto para…

– Vou convocar os presbíteros. Quando podemos encontrar você?

– Não sei bem… – balbuciei. – Acho que preciso de um dia para organizar minhas…

– Amanhã não, hoje.

Eu estava cansado demais para discutir.

– Às seis da tarde?

– Ótimo – aceitou ele, saindo do meu escritório de forma tão tempestuosa quanto havia entrado.

Alguns minutos depois, ouvi o som de passos, seguidos por uma leve batida à porta. Estava certo de que era outro membro do conselho de presbíteros que tinha vindo me dizer poucas e boas, mas, em vez disso, graças a Deus, era Maggie. Seus olhos transbordavam de lágrimas e orgulho.

– Aquele foi o melhor sermão que você já fez.

Então, neste momento de furiosa graça, Maggie me envolveu em seus braços e eu chorei.

Naquela noite, seis dos nossos nove presbíteros vieram ao meu condomínio. Eu passara a tarde inteira me preparando para o momento em que aqueles homens, que eu amava, apareceriam marchando como um bando de corvos pelo caminho de ardósia ladeado de gerânios que conduzia à minha porta da frente. Antes que pudessem tocar a campainha, fui até a porta de tela e a abri em silêncio para eles entrarem.

Nós nos sentamos em círculo na minha sala de estar. Após alguns minutos esperando que alguém introduzisse o assunto, fiz minha melhor tentativa de quebrar o gelo. Até eu fiquei surpreso com o quê de sarcasmo em minha voz. Em questão de poucas horas, meu remorso havia se transformado em raiva e petulância.

– Eu até ofereceria algo para vocês beberem, mas imagino que a pausa para o cafezinho já tenha acabado. – O ar estava carregado de ansiedade.

Ed foi o primeiro a falar. Como presbítero sênior, cabia a ele comandar o ataque.

– Chase, os presbíteros se reuniram algumas horas atrás e decidimos que você precisa se afastar por um tempo. – Eu nunca tinha ouvido Ed falar em um tom tão oficial.

– Quanto tempo? – perguntei.

– Tempo suficiente para você repensar algumas coisas e…

Ele correu os olhos pelo grupo de homens sentado na sala.

– E? – falei.

Ed baixou os olhos para o tapete e soprou o ar por entre os dentes. Ele parecia mais velho do que antes.

– E a igreja decidir o que precisa ser feito. Mesmo antes do que aconteceu hoje, as pessoas já andavam se perguntando se você não deveria ser afastado da Putnam Hill. Veja bem, Chase, ninguém pode negar o fato de que é o fundador desta igreja. Mas você mudou.

Peter Collins, o pediatra mais admirado de Thackeray, falou em seguida. Ele era uma boa alma. Durante anos, me ligava todas as semanas só para perguntar se estava tudo bem na minha vida pessoal.

– Você tem estado estranho há algum tempo, Chase – disse ele.

– Também estamos sabendo das suas consultas com o Dr. McNally – comentou Hal Frick, num tom reprovador. Pelo jeito, a secretária de Mac, Regina, não conseguia ficar calada. – Suas alterações de humor estão assustando os funcionários da igreja, e Deus sabe que você deve um pedido de desculpas a Bill Archer – acrescentou ele. Bill e Hal eram melhores amigos e se mereciam.

Afundei na poltrona.

– Então, o que estão propondo? – Minha raiva estava se transformando em vergonha. Esse era um padrão que eu conhecia muito bem.

Ed prosseguiu.

– Queremos que você tire uma licença. Chip pode cuidar das coisas por aqui enquanto estiver afastado.

Eu não conseguia acreditar. Catorze anos de trabalho árduo deixados nas mãos de um cara que gostava de Debi & Loide.

– E depois? – perguntei.

– Não vamos colocar o carro na frente dos bois, Chase. Quando você voltar, nós nos reuniremos para ver em que pé estamos – respondeu Ed.

Então foi a vez do velho e doce Marvin Ballard. Ele nunca falava muito nesse tipo de reunião, mas, para onde quer que fosse, levava uma presença celestial.

– Sinto muito, Chase – balbuciou ele.

Não me lembro muito bem do que foi dito depois ou do que os outros achavam da proposta. Houve algum debate sobre se eu deveria continuar recebendo meu salário ou não e sobre como seria melhor eu não aparecer no escritório nem continuar em contato com membros da congregação. Imagino que eles estivessem com medo de que eu fosse lançar uma campanha para manter meu emprego e acabasse causando uma cisão na igreja. Quando já não havia mais nada a dizer, eu os acompanhei até a porta. Pensei que o pior já tinha passado, mas Ed se virou para mim e disse:

– Chase, nós dois fundamos esta igreja juntos. Talvez eu nunca tenha lhe dito, mas sempre o amei como um filho. O que você fez hoje partiu o meu coração. Talvez eu devesse ter notado que você estava saindo dos trilhos, mas nunca imaginei que fosse capaz de fazer o que fez hoje. Nunca fiquei tão decepcionado com um homem quanto estou me sentindo em relação a você agora.

Pela primeira vez em nossos 14 anos de amizade, eu vi os olhos de Ed cheios d’água. Foi então que qualquer resquício de rebeldia da minha parte desmoronou. Eu queria ser abraçado por aquele homem enquanto implorava pelo seu perdão. Havia uma bola de demolição fora de controle dentro do meu peito.

– Espero sinceramente que consiga voltar a si – concluiu Ed.

Sem esperar pela minha resposta, ele foi embora. Foi melhor assim. Eu não tinha nada a dizer.

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Ian Morgan Cron

Sobre o autor

Ian Morgan Cron

Palestrante, psicoterapeuta e pastor-adjunto da Igreja Cristã Episcopal de Greenwich, no estado americano de Connecticut. Formou-se pelo Bowdoin College e estudou também no Denver Seminary e no New York Theological Seminary. Está concluindo o doutorado em espiritualidade cristã na Universidade Fordham. Ian mora com a mulher e os três filhos, e eles dividem seu tempo entre o Tennessee e Vermont.


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