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NEGÓCIOS

O poder do fracasso

O poder do fracasso

SARAH LEWIS

Como a capacidade de enfrentar adversidades e se superar é fundamental para o sucesso

Como a capacidade de enfrentar adversidades e se superar é fundamental para o sucesso

Uma obra inspiradora, com potencial para mudar a forma como compreendemos a criatividade e a conquista da excelência.

Muitos dos empreendimentos humanos mais criativos e transformadores – de descobertas que renderam prêmios Nobel a invenções e obras de arte – não surgiram simplesmente por inspiração, mas graças a correções contínuas feitas após tentativas que não deram certo.

Sarah Lewis lança uma nova luz sobre a importância dessas tentativas frustradas e do poder motivador que a “quase vitória” tem sobre a determinação. Ela tece habilmente uma teoria a respeito do que de fato significa falhar e de como o fracasso é essencial para o sucesso.

De pensamentos sobre o improviso do jazz, passando pela luta de Martin Luther King Jr. contra um problema na fala, até as reflexões de Al Gore sobre a perda das eleições presidenciais, ela traça o perfil de várias pessoas que alcançaram a maestria em sua área de atuação seguindo caminhos tortuosos: muitas vezes retrocedendo, perdendo, experimentando e recomeçando como amador.

Usando outros exemplos das mais variadas áreas, como esportes, ciências, artes e empreendedorismo, a autora explora ideias e conceitos que costumam ser ignorados quando se fala da busca pela excelência, entre os quais: o valor da diversão e do lúdico, o momento crucial da escolha entre desistir e persistir, o peso que deve ser dado às críticas e o corajoso papel das vanguardas.

Falhar é uma dádiva, mas é também um mistério, pois pode ser o fim de um plano e o início de possibilidades infinitas. O poder do fracasso é uma celebração da determinação e do espírito humano.

Uma obra inspiradora, com potencial para mudar a forma como compreendemos a criatividade e a conquista da excelência.

Muitos dos empreendimentos humanos mais criativos e transformadores – de descobertas que renderam prêmios Nobel a invenções e obras de arte – não surgiram simplesmente por inspiração, mas graças a correções contínuas feitas após tentativas que não deram certo.

Sarah Lewis lança uma nova luz sobre a importância dessas tentativas frustradas e do poder motivador que a “quase vitória” tem sobre a determinação. Ela tece habilmente uma teoria a respeito do que de fato significa falhar e de como o fracasso é essencial para o sucesso.

De pensamentos sobre o improviso do jazz, passando pela luta de Martin Luther King Jr. contra um problema na fala, até as reflexões de Al Gore sobre a perda das eleições presidenciais, ela traça o perfil de várias pessoas que alcançaram a maestria em sua área de atuação seguindo caminhos tortuosos: muitas vezes retrocedendo, perdendo, experimentando e recomeçando como amador.

Usando outros exemplos das mais variadas áreas, como esportes, ciências, artes e empreendedorismo, a autora explora ideias e conceitos que costumam ser ignorados quando se fala da busca pela excelência, entre os quais: o valor da diversão e do lúdico, o momento crucial da escolha entre desistir e persistir, o peso que deve ser dado às críticas e o corajoso papel das vanguardas.

Falhar é uma dádiva, mas é também um mistério, pois pode ser o fim de um plano e o início de possibilidades infinitas. O poder do fracasso é uma celebração da determinação e do espírito humano.

Compre agora:

Ficha técnica
Lançamento 19/03/2015
Título original
Tradução AFONSO CELSO DA CUNHA
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 256
Peso 400 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0185-9
EAN 9788543101859
Preço R$ 49,90
Ficha técnica e-book
eISBN 9788543101866
Preço R$ 29,99
Lançamento 19/03/2015
Título original
Tradução AFONSO CELSO DA CUNHA
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 256
Peso 400 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0185-9
EAN 9788543101859
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eISBN 9788543101866
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Leia um trecho do livro

O paradoxo do arqueiro

As mulheres da equipe de tiro com arco da Universidade de Colúmbia saltaram de uma van numa tarde fria de primavera, descontraídas. Uma segurava uma casquinha de sorvete na mão direita e um punhado de flechas com penas amarelas na esquerda; outra usava a peiteira, uma espécie de malha por cima da blusa, para proteger os seios do atrito com o arco. O Complexo de Atletismo de Baker, o conjunto de instalações esportivas da universidade, na ponta norte de Manhattan, parecia estar recebendo uma falange de guerreiras despreocupadas.

O encarregado da manutenção da propriedade nem sabia que elas chegariam. Talvez fosse novo no lugar, porque perguntei onde a equipe praticaria e ele me olhou com ar interrogativo. Parecia não acreditar que a universidade realmente tivesse uma equipe esportiva de tiro com arco. Era até compreensível. Eu chegara cedo e os alvos ainda não estavam posicionados. Lançar flechas a quase 250 quilômetros por hora na direção de alvos a cerca de 70 metros de distância exige medidas de segurança rigorosas, razão pela qual a equipe de tiro com arco não se exercita perto de nenhuma outra. O treino desse esporte de alta precisão se dá longe dos olhos do público.

O técnico Derek Davis chegou com as arqueiras, dirigindo uma van cinza, e me cumprimentou com o braço para fora da janela do motorista. Seus dreadlocks grisalhos pendiam abaixo dos ombros, cobertos por uma bandana azul estampada que combinava com o casaco de arqueiro da universidade. Fiquei impressionada ao ver como era um tipo compatível com o clã: sociável e relaxado, mas atento. Pelo telefone, alguns dias antes, ele havia me dito que, de início, se dedicara ao esporte como passatempo, por insistência da esposa, no final da década de 1980 (“mais seguro que bilhar e não envolve álcool”). Desde 2005, liderava a equipe titular e outros times do clube universitário, em parte como especialista em biomecânica, em parte como iogue – na essência, um sábio universitário talhado para a antiga prática de guerra hoje considerada esporte.

As jovens sorriram, avaliaram-me de relance e desfilaram à minha frente, enquanto eu as recepcionava de pé junto ao alambrado do local de treinamento. A do sorvete jogou fora a casquinha, que já pingava, e se juntou às outras, que retiravam os apetrechos do porta-malas da van. Falavam não com palavras, mas com números, os escores ou pontuações ideais e os graus em que deveriam se posicionar para acertar os alvos.

Elas se preparavam para o próximo campeonato nacional.1 (Não há homens na equipe titular, apenas nos times do clube universitário.) Fiquei olhando enquanto as arqueiras cuidadosamente armavam arcos compostos ou recurvos – como os usados nos Jogos Olímpicos, cujas pontas se inclinam, afastando-se do corpo –, puxavam a corda e disparavam a flecha, que fazia uma curva e desaparecia no ar até atingir o alvo redondo. Davis não ficava junto à equipe, preferindo manter-se à distância, na retaguarda, talvez avaliando quem poderia precisar de ajuda. Mais ao longe, espalhadas pelas laterais do campo, viam-se caixas de ferramentas, com carretéis, alicates, chaves inglesas, martelos e pregos.

Duas arqueiras se alinharam para lançar. Só uma queria saber os escores. Davis observava com o binóculo a extensão de quase duas quadras de tênis entre elas e os alvos. Uma arqueira disparou a primeira flecha. Só ouvi o som de um chicote estalando no ar.

“Sete, em seis horas.”

“Nove, em duas horas.”

As flechas ainda não estavam agrupadas.

“Dez, alto.”

“Dez, muito alto.”

Em seguida ao disparo seguinte não se ouviu nenhum som.

“Não. Nem olha!”, lamentou-se a arqueira, relaxando e largando o arco. “Acho que nem atingi o alvo.”

“É”, confirmou Davis. “Nem vi onde a flecha caiu.”

Atrás delas, eu tentava me imaginar naquela situação, mas não tinha ideia de como conseguiam atingir o alvo. Cada arqueira calculava a trajetória da flecha – a linha de ascensão, a queda e os deslocamentos laterais durante o percurso –, algo que apenas elas podiam prever no instante exato do disparo. Antes mesmo de considerar a velocidade do vento, é preciso sempre levar em conta algum grau de desvio que ocorre quando a flecha deixa o arco, com certa inclinação em relação ao alvo, para que as penas não toquem a corda. É como se confecciona a flecha. O arqueiro destro mira ligeiramente para a esquerda, a fim de acertar na mosca. Para isso, é preciso se concentrar no alvo em si e no arqueamento provável do voo da flecha, intuindo as muitas variáveis capazes de alterar a trajetória. Os arqueiros mais certeiros chamam esse processo de “foco duplo de visão bipartida”.

O tiro com arco também demanda uma reinvenção constante, pois o praticante se vê como alguém que marca dez, quando na verdade faz apenas nove; como um arqueiro que somente atinge sete, mas pode chegar a oito. Esse é um esporte que gera feedback instantâneo e exato. Classifica os atletas pela maneira como se comparam consigo mesmos segundos antes. Os arqueiros lidam constantemente com a “quase vitória”, quando não atingem exatamente a mosca naquela hora, mas segundos depois, demonstrando que são capazes.

Se o arqueiro errar a mira em menos de meio grau, não acertará o alvo. “Basta mexer a mão um milímetro para mudar tudo, principalmente quando se está a distâncias maiores”, disse Sarah Chai, formada recentemente pela Colúmbia e ex-cocapitã da equipe titular de tiro com arco da universidade.2 À distância-padrão de 75 jardas do alvo, o anel 10, a mosca, parece tão pequeno quanto a cabeça de um palito de fósforo a uns 70 centímetros do olho. Acertar esse oitavo anel é como perfurar um círculo do tamanho do orifício de uma rosquinha a quase 70 metros de distância, sustentando um peso de mais ou menos 22 quilos em cada disparo.

Não é fácil. Depois de bem mais de três horas de prática, duas das mulheres estavam deitadas de costas, atrás da linha de tiro, olhando para o céu. Três horas por dia de concentração total, tentando encontrar o que T. S. Elliot chamava de “ponto morto do mundo em rotação”, exige uma intensidade singular e constante.3 Viver num contexto em que a diferença desprezível de alguns graus acarreta uma alteração substancial no resultado é o que faz de um arqueiro um arqueiro. Significa desenvolver o tipo de precisão que encontramos no mundo natural – como a dos favos das colmeias ou a dos hexágonos perfeitos da Calçada dos Gigantes, na Irlanda. Quando começam a ficar boas, atingindo escores quase sempre acima de 1.350 (do total de 1.440), as arqueiras aprimoram o treinamento, atirando menos, aumentando a concentração e cuidando da respiração, da meditação e da visualização. Uma delas, embora sobrecarregada de provas, ainda assim estava treinando, porque o foco com que se dedica à arquearia a tranquiliza em relação a tudo o mais. “Quando fiz intercâmbio, quase enlouqueci por não poder praticar”, disse. Sem aquela rotina, sentia-se irritada o tempo todo.

Fiquei no campo de treinamento durante três horas. Apesar de toda a vibração de descobrir um novo esporte, foi um pouco monótono, devo admitir. Eu não tinha levado binóculo, e é difícil se concentrar durante três horas no que está à sua frente mas não é percebido com facilidade. Além de tudo, fazia frio. Persisti, porém, para compreender o que eu começava a perceber e com que talvez nunca voltasse a deparar: o pânico do amarelo, ou pânico do alvo – o que acontece quando o arqueiro chega ao ponto de realizar ou superar as próprias expectativas e passa a querer o ouro sem pensar no processo. Em casos extremos, isso significa que num dia acerta na mosca; no dia seguinte, lança a flecha no estacionamento. Não está claro se é como uma aflição temporária, uma espécie de ansiedade com o desempenho ou alguma forma de distonia.4 O que se sabe é que a única maneira de se recuperar plenamente é recomeçar do início, reaprender os movimentos e se concentrar no essencial – respiração, posição, movimentação, liberação e postura. Nenhuma das arqueiras que vi naquele dia parecia sofrer de pânico do alvo. No entanto, poucas o admitem quando são acometidas desse mal.

Mesmo assim, algo na arquearia me arrebatou o bastante para me manter atenta. A explicação só me ocorreu ao deixar o local, enquanto eu caminhava pela Broadway. Passei por um marco histórico nacional, uma casa de fazenda colonial, em estilo holandês, de propriedade da família Dyckman. Antigamente ela se situava em meio a uma vasta área de terras que cobria toda a extensão de Manhattan, do rio Hudson ao rio East, mas hoje está aninhada na avenida congestionada, oculta por trás de árvores e folhagens. A incongruência de uma casa de fazenda em plena Broadway me deixou curiosa e então resolvi visitar o local. Aquela foi de fato minha segunda aventura naquele dia. Ver uma equipe de arco e flecha nos tempos modernos foi como admirar uma antiga relíquia, um vestígio de práticas remotas que raramente vemos em ação – não uma competição, onde sempre se destaca um vencedor, mas a busca constante da maestria.

A maestria que presenciei nos campos de tiro com arco não era glamorosa. Percebia-se certa nobreza em tudo aquilo, mas nenhum indício de bajulação. É raro ver a obstinação com esse nível de exatidão, ver o que é preciso para alinhar o corpo com perfeição durante três horas no esforço para compensar a velocidade do vento e acertar o alvo – a busca da excelência na obscuridade. Era uma sucessão infindável de dias na tentativa de conquistar o ouro a que poucos farão jus algum dia. Talvez eu o tenha percebido com mais intensidade do que seria possível em esportes mais populares, como basquete ou futebol, que oferecem mais chances de glória e fama. Passar tantas horas com arco e flecha é uma estranha combinação de marginalidade e seriedade poucas vezes vista.

Havia, porém, outra razão. Quando cada flecha partia rumo ao alvo, as arqueiras se viam entre o sucesso (atingir o 10) e a maestria (saber que o resultado isolado não significava nada se não fosse replicável repetidas vezes). Se eu tivesse que arriscar um palpite, diria que essa tensão entre a busca permanente da maestria e a natureza efêmera do sucesso é, antes de tudo, parte do que gera o pânico do alvo.

Maestria, palavra que não usamos com frequência, não equivale a perfeccionismo – propósito sobre-humano motivado pela preocupação com a maneira como somos vistos pelos outros. Maestria tampouco é o mesmo que sucesso – vitória eventual, pontual. Maestria não é somente a realização de um objetivo, mas, sim, uma linha ascendente, de busca contínua. Exige persistência e resistência.

Com certo distanciamento crítico, somos capazes de ver que muitas de nossas conquistas mais grandiosas – desde descobertas recentes, ganhadoras do Prêmio Nobel, passando por clássicos da literatura, das artes plásticas e da dança, até empreendimentos inovadores revolucionários – foram, na verdade, não proezas revolucionárias, mas correções graduais, ajustes incrementais, com base na experiência adquirida depois do disparo da flecha anterior. Sempre tive enorme curiosidade sobre a maneira como evoluímos, como as pessoas se superam e se destacam a ponto de surpreender o mundo.

Filha única, vivendo no próprio imaginário, eu mergulhava nas histórias da vida dos mais velhos, de meus contemporâneos e dos que hoje atuam no auge da capacidade: pessoas cuja existência era ao mesmo tempo parecida e bem diferente da minha. E não podia evitar uma observação: muitas das coisas que quase todo mundo rejeitaria, esses indivíduos – em geral, inovadores, criadores, inventores – haviam convertido em vantagens inigualáveis. Ainda me lembro do calafrio que senti ao me dar conta da realidade inquestionável de que de fato eu só poderia alcançar a plenitude de minhas capacidades se explorasse territórios desconhecidos e assustadores, permanecendo aberta a novas descobertas ao longo do percurso.

Eu vinha refletindo a respeito disso durante boa parte de minha vida, embora a constatação só tenha ficado mais nítida enquanto escrevia este livro. Aconteceu quando fui a Harvard para um evento de ex-alunos. Bill Fitzsimmons, reitor de admissões havia muito tempo, contou ao público que ele fora expulso da escola no ensino médio. Envolvera-se com más companhias e começara a faltar às aulas. Depois da expulsão, com muita dificuldade, acabou matriculando-se em outra escola, de uma cidade vizinha. O episódio desenvolveu nele certa resiliência, ele disse, e algo que considera fundamental para a própria vida.

“Lembro-me de quando você se matriculou”, garantiu-me o reitor Fitzsimmons quando o cumprimentei pela palestra. E o reafirmou, convencido de que estava certo, ao ver no meu crachá o ano de minha formatura. Ele sorriu e apertou os lábios, como que afastando um pensamento.

Talvez não quisesse revelar algo que ele recordara e que eu havia esquecido: a redação que eu escrevera no processo de admissão sobre a importância e o benefício dos fracassos quando os enfrentei, aos 18 anos, e, em geral, como fatos da vida. Lembrei-me, então, de como escondera o texto de meus pais e até de meu orientador na faculdade, plenamente consciente de que aquilo era um material de “alto risco”. Só o revelei no último minuto, de modo que, caso surgissem objeções, a falta de um texto substituto os obrigasse a me deixar apresentar o que já estava pronto. Minha intenção era explorar por escrito o que eu começava a sentir na vida – que as descobertas, as inovações e os empreendimentos criativos muitas vezes (talvez sempre) ocorrem em condições improváveis.

Em retrospectiva, percebo agora que me interessava por ascensões improváveis porque, na época, eu começava a conviver com a dádiva do que significa ser subestimado. O que acontece quando o mundo em geral presume, antes mesmo de você pronunciar uma palavra que seja, que você irá fracassar – por não se encaixar em certas expectativas – e como certas pessoas convertem essa descrença em vantagem para realizar os próprios sonhos?

Essa crença se cristalizou na época em que eu frequentava a casa de meus avós maternos, na área rural da Virgínia. A construção de madeira parecia ser sustentada apenas pela perseverança do casal e pelas habilidades artesanais de meu avô. A vida para eles, quando eu estava na casa, girava em torno de três cômodos – a cozinha, a sala de jantar e a sala de estar. Ligando os três cômodos, havia um corredor onde meu avô pintava seu elenco multicolorido de atores humanos e divinos. Ele era faxineiro à noite, músico de jazz o tempo todo e pintor de anúncios nos fins de semana. A mesa da sala de jantar era o lugar onde ele revelava seus sonhos, sempre pautados pelas privações. A realidade do que não queria o ajudava a evocar com mais clareza o que queria, e, assim, também contribuía para forjar o que viria a ser. Acima de tudo, eu não teria escrito este livro sem o exemplo dele.

Naquela sala de Harvard, percebi que, 15 anos depois, eu ainda refletia sobre as maneiras obscuras, mas vitais, como recriamos nosso futuro eu.

Já ouvimos muitas histórias a respeito disso. O compositor Duke Ellington teria dito: “Apenas me dispus a ficar melancólico e a escrever alguns blues.”5 O dramaturgo Tennessee Williams sentia que o “fracasso aparente” o motivava. E acrescentou: “Na noite antes de saírem as críticas, ele me conduz de volta à máquina de escrever. Fico mais disposto a retomar o trabalho do que se tivesse certeza do sucesso.” Muita gente ouviu dizer que Thomas Edison teria afirmado ao assistente, admirado com a perseverança do inventor, depois de zilhões de tentativas infrutíferas de criar a lâmpada incandescente: “Não fracassei, apenas descobri 10 mil maneiras que não funcionaram.”6 “Um mero passar de olhos é suficiente. Nem ao menos um exemplar seria vendido. Nenhum. Nenhum. Muito obrigado…”, é o que se lê na carta de rejeição que a escritora Gertrude Stein recebeu de um editor, em 1912.7

O telégrafo, que deflagrou a revolução da comunicação, foi inventado por um pintor, Samuel F. B. Morse, que transformou a armação de madeira da tela do que lhe parecia uma pintura inútil na primeira máquina a incorporar a nova tecnologia. Em 1930, o boletim de avaliação de um teste para um filme, dos estúdios RKO, com o veredito “Não sabe cantar, não sabe atuar, está ficando careca e dança mais ou menos”, rejeitava ninguém menos que Fred Astaire, que viria a ser um grande astro de Hollywood. Ouvimos muitas histórias de como celebridades como J. K. Rowling, Steve Jobs e Oprah Winfrey encontraram maneiras inusitadas de atingir o ápice de sua capacidade. No entanto, as histórias sobre as vantagens obtidas nos momentos em que o fracasso parecia iminente são, em geral, consideradas lugares-comuns ou, quando muito, situações excepcionais, aplicáveis a apenas poucos privilegiados.

Este livro pretende explorar as vantagens colhidas no solo improvável do esforço criativo. Invenções brilhantes e proezas humanas resultantes do labor – empreendimentos que oferecem ao mundo dádivas da alma do criador – são alcançadas por caminhos amparados pela possibilidade de retrocessos e pelos ganhos inestimáveis que só a experiência é capaz de oferecer. Alguns poderiam dizer que o que denominamos “trabalho” geralmente é uma tarefa diferente. “Trabalho é o que fazemos por hora”, argumenta o escritor Lewis Hyde. Labor, porém, é algo que “impõe o próprio ritmo. Podemos até ser remunerados, mas é difícil quantificá-lo… Escrever um poema, criar um filho, desenvolver um novo cálculo, resolver uma neurose, inventar sob todas as suas formas – tudo isso é labor”.8

Uma distinção comum geralmente considera que a criatividade, a inovação e as descobertas pertencem a uma categoria própria, até privilegiada, de realização humana: a escolha e a experiência de poucos. Nossas histórias, porém, questionam essa segregação. Se cada um de nós tem a capacidade de converter labuta em vantagem, esse processo criativo deve ser crucial para o desbravamento de qualquer território.

O que ganhamos ao observar a maestria, a invenção e a realização é o valor de ideias em geral ignoradas – o poder da rendição, o impulso das “quase vitórias”, o papel crítico do lúdico para promover a inovação e a importância da perseverança e da prática criativa.

Embora esteja no âmago do tema e no título do livro, raramente falarei aqui de fracasso, pois se trata de uma palavra imperfeita. Assim que começamos a transformar a realidade, o termo perde o significado. Ele é sempre fugidio, escapa pelos limites da visão, não só porque é difícil vê-lo sem se retrair, mas também porque, quando nos dispomos a abordá-lo, com frequência damos outro nome aos acontecimentos, como aprendizado, tentativa ou reinvenção, não mais o conceito estático de fracasso. (O termo foi cunhado no século XIX na acepção de falência, bancarrota, aparente beco sem saída, forçado a se adequar à valoração humana.)9 Como ocorre com o pânico do alvo que acomete os arqueiros – com sua experiência sempre sentida, mas quase nunca percebida –, o fenômeno ainda é desconhecido, sendo pouco debatido. Até dispomos de ideias parciais, como resiliência, reinvenção e perseverança, mas não há um termo único para descrever o fato efêmero, ao mesmo tempo reiterado e vital, de que exatamente quando parece ser inverno, é primavera.

Os capítulos que se seguem formam a biografia de uma ideia fundamental que ainda não tem definição. Quando não dispomos de um termo adequado para uma ideia intrinsecamente volátil, referimo-nos a ela por meio de subterfúgios ou evasivas. Há todo tipo de circunstâncias geradoras – tropeços, quedas, colapsos, desastres –, mas a dinâmica inspiradora é interna, pessoal e, muitas vezes, invisível. Como nos lembra o lendário dramaturgo Christopher Fry: “Quem, além de nós mesmos, percebe qualquer diferença entre nossas derrotas e nossas vitórias?”10

É um clichê afirmar simplesmente que aprendemos mais com o fracasso. E não é exatamente verdadeiro. As transformações decorrem de nossas escolhas de como abordar a questão no contexto dos acontecimentos, quer digamos isso para nós mesmos, quer em voz alta.

Naquele dia frio de maio, observando as arqueiras de Colúmbia, percebi por que o aprendizado sem erros não resulta em vitórias certas. Alguns arqueiros podem passar meses praticando a respiração rítmica para soltar a flecha no intervalo entre as batidas cardíacas, repetindo os movimentos, treinando o corpo para conseguir o alinhamento impecável dos ossos e o movimento perfeito da escápula. Começam usando apenas as mãos e uma faixa elástica, bem perto de um alvo muito grande. O objetivo é alcançar quase a perfeição antes de ir afastando o alvo cada vez mais. O triunfo, no entanto, consiste em enfrentar o paradoxo do arqueiro, em manejar o incontrolável: o vento, outras condições climáticas e todas as variáveis sempre imprevisíveis da vida. Ganhar o ouro significa aprender a considerar a curvatura embutida na trajetória para o alvo.

Este livro não é sobre o fio de Ariadne, não é uma linha que nos ajuda a sair de labirintos, qualquer coisa que nos oriente em circunstâncias difíceis. É uma exploração; um apanhado de histórias sobre a capacidade humana; uma investigação, baseada em narrativas, dos fatos que percebemos bem antes de serem confirmados pela ciência. As muitas pessoas que aparecem nestas páginas permitiram que eu narrasse suas jornadas e também me lembraram de algo fundamental, compondo a tese não intencional deste livro. É o processo criativo – impulsor da invenção, da descoberta e da cultura – que nos leva a converter com agilidade o chamado fracasso em uma vantagem insubstituível.

O paradoxo do arqueiro

As mulheres da equipe de tiro com arco da Universidade de Colúmbia saltaram de uma van numa tarde fria de primavera, descontraídas. Uma segurava uma casquinha de sorvete na mão direita e um punhado de flechas com penas amarelas na esquerda; outra usava a peiteira, uma espécie de malha por cima da blusa, para proteger os seios do atrito com o arco. O Complexo de Atletismo de Baker, o conjunto de instalações esportivas da universidade, na ponta norte de Manhattan, parecia estar recebendo uma falange de guerreiras despreocupadas.

O encarregado da manutenção da propriedade nem sabia que elas chegariam. Talvez fosse novo no lugar, porque perguntei onde a equipe praticaria e ele me olhou com ar interrogativo. Parecia não acreditar que a universidade realmente tivesse uma equipe esportiva de tiro com arco. Era até compreensível. Eu chegara cedo e os alvos ainda não estavam posicionados. Lançar flechas a quase 250 quilômetros por hora na direção de alvos a cerca de 70 metros de distância exige medidas de segurança rigorosas, razão pela qual a equipe de tiro com arco não se exercita perto de nenhuma outra. O treino desse esporte de alta precisão se dá longe dos olhos do público.

O técnico Derek Davis chegou com as arqueiras, dirigindo uma van cinza, e me cumprimentou com o braço para fora da janela do motorista. Seus dreadlocks grisalhos pendiam abaixo dos ombros, cobertos por uma bandana azul estampada que combinava com o casaco de arqueiro da universidade. Fiquei impressionada ao ver como era um tipo compatível com o clã: sociável e relaxado, mas atento. Pelo telefone, alguns dias antes, ele havia me dito que, de início, se dedicara ao esporte como passatempo, por insistência da esposa, no final da década de 1980 (“mais seguro que bilhar e não envolve álcool”). Desde 2005, liderava a equipe titular e outros times do clube universitário, em parte como especialista em biomecânica, em parte como iogue – na essência, um sábio universitário talhado para a antiga prática de guerra hoje considerada esporte.

As jovens sorriram, avaliaram-me de relance e desfilaram à minha frente, enquanto eu as recepcionava de pé junto ao alambrado do local de treinamento. A do sorvete jogou fora a casquinha, que já pingava, e se juntou às outras, que retiravam os apetrechos do porta-malas da van. Falavam não com palavras, mas com números, os escores ou pontuações ideais e os graus em que deveriam se posicionar para acertar os alvos.

Elas se preparavam para o próximo campeonato nacional.1 (Não há homens na equipe titular, apenas nos times do clube universitário.) Fiquei olhando enquanto as arqueiras cuidadosamente armavam arcos compostos ou recurvos – como os usados nos Jogos Olímpicos, cujas pontas se inclinam, afastando-se do corpo –, puxavam a corda e disparavam a flecha, que fazia uma curva e desaparecia no ar até atingir o alvo redondo. Davis não ficava junto à equipe, preferindo manter-se à distância, na retaguarda, talvez avaliando quem poderia precisar de ajuda. Mais ao longe, espalhadas pelas laterais do campo, viam-se caixas de ferramentas, com carretéis, alicates, chaves inglesas, martelos e pregos.

Duas arqueiras se alinharam para lançar. Só uma queria saber os escores. Davis observava com o binóculo a extensão de quase duas quadras de tênis entre elas e os alvos. Uma arqueira disparou a primeira flecha. Só ouvi o som de um chicote estalando no ar.

“Sete, em seis horas.”

“Nove, em duas horas.”

As flechas ainda não estavam agrupadas.

“Dez, alto.”

“Dez, muito alto.”

Em seguida ao disparo seguinte não se ouviu nenhum som.

“Não. Nem olha!”, lamentou-se a arqueira, relaxando e largando o arco. “Acho que nem atingi o alvo.”

“É”, confirmou Davis. “Nem vi onde a flecha caiu.”

Atrás delas, eu tentava me imaginar naquela situação, mas não tinha ideia de como conseguiam atingir o alvo. Cada arqueira calculava a trajetória da flecha – a linha de ascensão, a queda e os deslocamentos laterais durante o percurso –, algo que apenas elas podiam prever no instante exato do disparo. Antes mesmo de considerar a velocidade do vento, é preciso sempre levar em conta algum grau de desvio que ocorre quando a flecha deixa o arco, com certa inclinação em relação ao alvo, para que as penas não toquem a corda. É como se confecciona a flecha. O arqueiro destro mira ligeiramente para a esquerda, a fim de acertar na mosca. Para isso, é preciso se concentrar no alvo em si e no arqueamento provável do voo da flecha, intuindo as muitas variáveis capazes de alterar a trajetória. Os arqueiros mais certeiros chamam esse processo de “foco duplo de visão bipartida”.

O tiro com arco também demanda uma reinvenção constante, pois o praticante se vê como alguém que marca dez, quando na verdade faz apenas nove; como um arqueiro que somente atinge sete, mas pode chegar a oito. Esse é um esporte que gera feedback instantâneo e exato. Classifica os atletas pela maneira como se comparam consigo mesmos segundos antes. Os arqueiros lidam constantemente com a “quase vitória”, quando não atingem exatamente a mosca naquela hora, mas segundos depois, demonstrando que são capazes.

Se o arqueiro errar a mira em menos de meio grau, não acertará o alvo. “Basta mexer a mão um milímetro para mudar tudo, principalmente quando se está a distâncias maiores”, disse Sarah Chai, formada recentemente pela Colúmbia e ex-cocapitã da equipe titular de tiro com arco da universidade.2 À distância-padrão de 75 jardas do alvo, o anel 10, a mosca, parece tão pequeno quanto a cabeça de um palito de fósforo a uns 70 centímetros do olho. Acertar esse oitavo anel é como perfurar um círculo do tamanho do orifício de uma rosquinha a quase 70 metros de distância, sustentando um peso de mais ou menos 22 quilos em cada disparo.

Não é fácil. Depois de bem mais de três horas de prática, duas das mulheres estavam deitadas de costas, atrás da linha de tiro, olhando para o céu. Três horas por dia de concentração total, tentando encontrar o que T. S. Elliot chamava de “ponto morto do mundo em rotação”, exige uma intensidade singular e constante.3 Viver num contexto em que a diferença desprezível de alguns graus acarreta uma alteração substancial no resultado é o que faz de um arqueiro um arqueiro. Significa desenvolver o tipo de precisão que encontramos no mundo natural – como a dos favos das colmeias ou a dos hexágonos perfeitos da Calçada dos Gigantes, na Irlanda. Quando começam a ficar boas, atingindo escores quase sempre acima de 1.350 (do total de 1.440), as arqueiras aprimoram o treinamento, atirando menos, aumentando a concentração e cuidando da respiração, da meditação e da visualização. Uma delas, embora sobrecarregada de provas, ainda assim estava treinando, porque o foco com que se dedica à arquearia a tranquiliza em relação a tudo o mais. “Quando fiz intercâmbio, quase enlouqueci por não poder praticar”, disse. Sem aquela rotina, sentia-se irritada o tempo todo.

Fiquei no campo de treinamento durante três horas. Apesar de toda a vibração de descobrir um novo esporte, foi um pouco monótono, devo admitir. Eu não tinha levado binóculo, e é difícil se concentrar durante três horas no que está à sua frente mas não é percebido com facilidade. Além de tudo, fazia frio. Persisti, porém, para compreender o que eu começava a perceber e com que talvez nunca voltasse a deparar: o pânico do amarelo, ou pânico do alvo – o que acontece quando o arqueiro chega ao ponto de realizar ou superar as próprias expectativas e passa a querer o ouro sem pensar no processo. Em casos extremos, isso significa que num dia acerta na mosca; no dia seguinte, lança a flecha no estacionamento. Não está claro se é como uma aflição temporária, uma espécie de ansiedade com o desempenho ou alguma forma de distonia.4 O que se sabe é que a única maneira de se recuperar plenamente é recomeçar do início, reaprender os movimentos e se concentrar no essencial – respiração, posição, movimentação, liberação e postura. Nenhuma das arqueiras que vi naquele dia parecia sofrer de pânico do alvo. No entanto, poucas o admitem quando são acometidas desse mal.

Mesmo assim, algo na arquearia me arrebatou o bastante para me manter atenta. A explicação só me ocorreu ao deixar o local, enquanto eu caminhava pela Broadway. Passei por um marco histórico nacional, uma casa de fazenda colonial, em estilo holandês, de propriedade da família Dyckman. Antigamente ela se situava em meio a uma vasta área de terras que cobria toda a extensão de Manhattan, do rio Hudson ao rio East, mas hoje está aninhada na avenida congestionada, oculta por trás de árvores e folhagens. A incongruência de uma casa de fazenda em plena Broadway me deixou curiosa e então resolvi visitar o local. Aquela foi de fato minha segunda aventura naquele dia. Ver uma equipe de arco e flecha nos tempos modernos foi como admirar uma antiga relíquia, um vestígio de práticas remotas que raramente vemos em ação – não uma competição, onde sempre se destaca um vencedor, mas a busca constante da maestria.

A maestria que presenciei nos campos de tiro com arco não era glamorosa. Percebia-se certa nobreza em tudo aquilo, mas nenhum indício de bajulação. É raro ver a obstinação com esse nível de exatidão, ver o que é preciso para alinhar o corpo com perfeição durante três horas no esforço para compensar a velocidade do vento e acertar o alvo – a busca da excelência na obscuridade. Era uma sucessão infindável de dias na tentativa de conquistar o ouro a que poucos farão jus algum dia. Talvez eu o tenha percebido com mais intensidade do que seria possível em esportes mais populares, como basquete ou futebol, que oferecem mais chances de glória e fama. Passar tantas horas com arco e flecha é uma estranha combinação de marginalidade e seriedade poucas vezes vista.

Havia, porém, outra razão. Quando cada flecha partia rumo ao alvo, as arqueiras se viam entre o sucesso (atingir o 10) e a maestria (saber que o resultado isolado não significava nada se não fosse replicável repetidas vezes). Se eu tivesse que arriscar um palpite, diria que essa tensão entre a busca permanente da maestria e a natureza efêmera do sucesso é, antes de tudo, parte do que gera o pânico do alvo.

Maestria, palavra que não usamos com frequência, não equivale a perfeccionismo – propósito sobre-humano motivado pela preocupação com a maneira como somos vistos pelos outros. Maestria tampouco é o mesmo que sucesso – vitória eventual, pontual. Maestria não é somente a realização de um objetivo, mas, sim, uma linha ascendente, de busca contínua. Exige persistência e resistência.

Com certo distanciamento crítico, somos capazes de ver que muitas de nossas conquistas mais grandiosas – desde descobertas recentes, ganhadoras do Prêmio Nobel, passando por clássicos da literatura, das artes plásticas e da dança, até empreendimentos inovadores revolucionários – foram, na verdade, não proezas revolucionárias, mas correções graduais, ajustes incrementais, com base na experiência adquirida depois do disparo da flecha anterior. Sempre tive enorme curiosidade sobre a maneira como evoluímos, como as pessoas se superam e se destacam a ponto de surpreender o mundo.

Filha única, vivendo no próprio imaginário, eu mergulhava nas histórias da vida dos mais velhos, de meus contemporâneos e dos que hoje atuam no auge da capacidade: pessoas cuja existência era ao mesmo tempo parecida e bem diferente da minha. E não podia evitar uma observação: muitas das coisas que quase todo mundo rejeitaria, esses indivíduos – em geral, inovadores, criadores, inventores – haviam convertido em vantagens inigualáveis. Ainda me lembro do calafrio que senti ao me dar conta da realidade inquestionável de que de fato eu só poderia alcançar a plenitude de minhas capacidades se explorasse territórios desconhecidos e assustadores, permanecendo aberta a novas descobertas ao longo do percurso.

Eu vinha refletindo a respeito disso durante boa parte de minha vida, embora a constatação só tenha ficado mais nítida enquanto escrevia este livro. Aconteceu quando fui a Harvard para um evento de ex-alunos. Bill Fitzsimmons, reitor de admissões havia muito tempo, contou ao público que ele fora expulso da escola no ensino médio. Envolvera-se com más companhias e começara a faltar às aulas. Depois da expulsão, com muita dificuldade, acabou matriculando-se em outra escola, de uma cidade vizinha. O episódio desenvolveu nele certa resiliência, ele disse, e algo que considera fundamental para a própria vida.

“Lembro-me de quando você se matriculou”, garantiu-me o reitor Fitzsimmons quando o cumprimentei pela palestra. E o reafirmou, convencido de que estava certo, ao ver no meu crachá o ano de minha formatura. Ele sorriu e apertou os lábios, como que afastando um pensamento.

Talvez não quisesse revelar algo que ele recordara e que eu havia esquecido: a redação que eu escrevera no processo de admissão sobre a importância e o benefício dos fracassos quando os enfrentei, aos 18 anos, e, em geral, como fatos da vida. Lembrei-me, então, de como escondera o texto de meus pais e até de meu orientador na faculdade, plenamente consciente de que aquilo era um material de “alto risco”. Só o revelei no último minuto, de modo que, caso surgissem objeções, a falta de um texto substituto os obrigasse a me deixar apresentar o que já estava pronto. Minha intenção era explorar por escrito o que eu começava a sentir na vida – que as descobertas, as inovações e os empreendimentos criativos muitas vezes (talvez sempre) ocorrem em condições improváveis.

Em retrospectiva, percebo agora que me interessava por ascensões improváveis porque, na época, eu começava a conviver com a dádiva do que significa ser subestimado. O que acontece quando o mundo em geral presume, antes mesmo de você pronunciar uma palavra que seja, que você irá fracassar – por não se encaixar em certas expectativas – e como certas pessoas convertem essa descrença em vantagem para realizar os próprios sonhos?

Essa crença se cristalizou na época em que eu frequentava a casa de meus avós maternos, na área rural da Virgínia. A construção de madeira parecia ser sustentada apenas pela perseverança do casal e pelas habilidades artesanais de meu avô. A vida para eles, quando eu estava na casa, girava em torno de três cômodos – a cozinha, a sala de jantar e a sala de estar. Ligando os três cômodos, havia um corredor onde meu avô pintava seu elenco multicolorido de atores humanos e divinos. Ele era faxineiro à noite, músico de jazz o tempo todo e pintor de anúncios nos fins de semana. A mesa da sala de jantar era o lugar onde ele revelava seus sonhos, sempre pautados pelas privações. A realidade do que não queria o ajudava a evocar com mais clareza o que queria, e, assim, também contribuía para forjar o que viria a ser. Acima de tudo, eu não teria escrito este livro sem o exemplo dele.

Naquela sala de Harvard, percebi que, 15 anos depois, eu ainda refletia sobre as maneiras obscuras, mas vitais, como recriamos nosso futuro eu.

Já ouvimos muitas histórias a respeito disso. O compositor Duke Ellington teria dito: “Apenas me dispus a ficar melancólico e a escrever alguns blues.”5 O dramaturgo Tennessee Williams sentia que o “fracasso aparente” o motivava. E acrescentou: “Na noite antes de saírem as críticas, ele me conduz de volta à máquina de escrever. Fico mais disposto a retomar o trabalho do que se tivesse certeza do sucesso.” Muita gente ouviu dizer que Thomas Edison teria afirmado ao assistente, admirado com a perseverança do inventor, depois de zilhões de tentativas infrutíferas de criar a lâmpada incandescente: “Não fracassei, apenas descobri 10 mil maneiras que não funcionaram.”6 “Um mero passar de olhos é suficiente. Nem ao menos um exemplar seria vendido. Nenhum. Nenhum. Muito obrigado…”, é o que se lê na carta de rejeição que a escritora Gertrude Stein recebeu de um editor, em 1912.7

O telégrafo, que deflagrou a revolução da comunicação, foi inventado por um pintor, Samuel F. B. Morse, que transformou a armação de madeira da tela do que lhe parecia uma pintura inútil na primeira máquina a incorporar a nova tecnologia. Em 1930, o boletim de avaliação de um teste para um filme, dos estúdios RKO, com o veredito “Não sabe cantar, não sabe atuar, está ficando careca e dança mais ou menos”, rejeitava ninguém menos que Fred Astaire, que viria a ser um grande astro de Hollywood. Ouvimos muitas histórias de como celebridades como J. K. Rowling, Steve Jobs e Oprah Winfrey encontraram maneiras inusitadas de atingir o ápice de sua capacidade. No entanto, as histórias sobre as vantagens obtidas nos momentos em que o fracasso parecia iminente são, em geral, consideradas lugares-comuns ou, quando muito, situações excepcionais, aplicáveis a apenas poucos privilegiados.

Este livro pretende explorar as vantagens colhidas no solo improvável do esforço criativo. Invenções brilhantes e proezas humanas resultantes do labor – empreendimentos que oferecem ao mundo dádivas da alma do criador – são alcançadas por caminhos amparados pela possibilidade de retrocessos e pelos ganhos inestimáveis que só a experiência é capaz de oferecer. Alguns poderiam dizer que o que denominamos “trabalho” geralmente é uma tarefa diferente. “Trabalho é o que fazemos por hora”, argumenta o escritor Lewis Hyde. Labor, porém, é algo que “impõe o próprio ritmo. Podemos até ser remunerados, mas é difícil quantificá-lo… Escrever um poema, criar um filho, desenvolver um novo cálculo, resolver uma neurose, inventar sob todas as suas formas – tudo isso é labor”.8

Uma distinção comum geralmente considera que a criatividade, a inovação e as descobertas pertencem a uma categoria própria, até privilegiada, de realização humana: a escolha e a experiência de poucos. Nossas histórias, porém, questionam essa segregação. Se cada um de nós tem a capacidade de converter labuta em vantagem, esse processo criativo deve ser crucial para o desbravamento de qualquer território.

O que ganhamos ao observar a maestria, a invenção e a realização é o valor de ideias em geral ignoradas – o poder da rendição, o impulso das “quase vitórias”, o papel crítico do lúdico para promover a inovação e a importância da perseverança e da prática criativa.

Embora esteja no âmago do tema e no título do livro, raramente falarei aqui de fracasso, pois se trata de uma palavra imperfeita. Assim que começamos a transformar a realidade, o termo perde o significado. Ele é sempre fugidio, escapa pelos limites da visão, não só porque é difícil vê-lo sem se retrair, mas também porque, quando nos dispomos a abordá-lo, com frequência damos outro nome aos acontecimentos, como aprendizado, tentativa ou reinvenção, não mais o conceito estático de fracasso. (O termo foi cunhado no século XIX na acepção de falência, bancarrota, aparente beco sem saída, forçado a se adequar à valoração humana.)9 Como ocorre com o pânico do alvo que acomete os arqueiros – com sua experiência sempre sentida, mas quase nunca percebida –, o fenômeno ainda é desconhecido, sendo pouco debatido. Até dispomos de ideias parciais, como resiliência, reinvenção e perseverança, mas não há um termo único para descrever o fato efêmero, ao mesmo tempo reiterado e vital, de que exatamente quando parece ser inverno, é primavera.

Os capítulos que se seguem formam a biografia de uma ideia fundamental que ainda não tem definição. Quando não dispomos de um termo adequado para uma ideia intrinsecamente volátil, referimo-nos a ela por meio de subterfúgios ou evasivas. Há todo tipo de circunstâncias geradoras – tropeços, quedas, colapsos, desastres –, mas a dinâmica inspiradora é interna, pessoal e, muitas vezes, invisível. Como nos lembra o lendário dramaturgo Christopher Fry: “Quem, além de nós mesmos, percebe qualquer diferença entre nossas derrotas e nossas vitórias?”10

É um clichê afirmar simplesmente que aprendemos mais com o fracasso. E não é exatamente verdadeiro. As transformações decorrem de nossas escolhas de como abordar a questão no contexto dos acontecimentos, quer digamos isso para nós mesmos, quer em voz alta.

Naquele dia frio de maio, observando as arqueiras de Colúmbia, percebi por que o aprendizado sem erros não resulta em vitórias certas. Alguns arqueiros podem passar meses praticando a respiração rítmica para soltar a flecha no intervalo entre as batidas cardíacas, repetindo os movimentos, treinando o corpo para conseguir o alinhamento impecável dos ossos e o movimento perfeito da escápula. Começam usando apenas as mãos e uma faixa elástica, bem perto de um alvo muito grande. O objetivo é alcançar quase a perfeição antes de ir afastando o alvo cada vez mais. O triunfo, no entanto, consiste em enfrentar o paradoxo do arqueiro, em manejar o incontrolável: o vento, outras condições climáticas e todas as variáveis sempre imprevisíveis da vida. Ganhar o ouro significa aprender a considerar a curvatura embutida na trajetória para o alvo.

Este livro não é sobre o fio de Ariadne, não é uma linha que nos ajuda a sair de labirintos, qualquer coisa que nos oriente em circunstâncias difíceis. É uma exploração; um apanhado de histórias sobre a capacidade humana; uma investigação, baseada em narrativas, dos fatos que percebemos bem antes de serem confirmados pela ciência. As muitas pessoas que aparecem nestas páginas permitiram que eu narrasse suas jornadas e também me lembraram de algo fundamental, compondo a tese não intencional deste livro. É o processo criativo – impulsor da invenção, da descoberta e da cultura – que nos leva a converter com agilidade o chamado fracasso em uma vantagem insubstituível.

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Sarah Lewis

Sobre o autor

Sarah Lewis

Crítica da Faculdade de Artes da Universidade Yale. Atua como curadora de arte, tendo passagens pela Tate Modern e pelo MoMA. Graduou-se pela Universidade Harvard, tem mestrado pela Universidade Oxford e doutorado pela Universidade Yale. Sarah foi convocada pelo presidente Obama para trabalhar no Comitê de Políticas para as Artes e entrou em 2010 para a lista anual da revista The Oprah Magazine, que reúne as mulheres mais poderosas do mundo.

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