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HISTÓRIAS REAIS

Todo dia é segunda-feira

Todo dia é segunda-feira

JOSÉ MARIANO BELTRAME

“O livro de José Mariano Beltrame trata com palavras francas e linguagem direta das várias complexidades de um tema que tem sido muito debatido e pouco entendido no Brasil. Ele alerta sobre o muito que ainda precisa ser feito para que o país enfrente a violência, diminua os erros e crimes policiais, acelere a Justiça e tenha um sistema penal que recupere os presos.

Seu grande mérito é mostrar que não há soluções fáceis nem super-heróis. Todavia o Rio tem uma história para contar que merece ser lida e entendida. O importante é ter em mente que, como em outros processos de avanço brasileiro – como o da estabilização da moeda há 20 anos –, não se podem aceitar retrocessos nem perder a noção do objetivo final. Até porque as UPPs, como o próprio autor do livro diz, são apenas a janela de oportunidade.”

Miriam Leitão

****

José Mariano Beltrame podia ser apenas mais uma presença efêmera na cadeira da Segurança Pública no Rio de Janeiro, afinal nenhum dos seus antecessores durou mais que três anos no cargo. José Mariano podia nunca ter se tornado o secretário Beltrame. Podia ter continuado na Polícia Federal, dedicando a vida a investigar complexos casos de tráfico internacional de drogas pelos quatro cantos do Brasil. Podia nunca ter saído de Santa Maria.

Mas ele estava trabalhando na Polícia Federal no Rio de Janeiro em 2006, quando a segurança pública passava por mais uma crise sem precedentes. Isso mudaria de forma radical a sua história e a da cidade em que escolheu morar.

Beltrame aceitou o desafio de assumir a Secretaria de Segurança e se tornou o mais conhecido – e duradouro – secretário de um estado marcado pela violência. Neste livro, ele divide experiências e angústias, revela bastidores dos momentos mais tensos no cargo e faz um relato minucioso da reunião que antecedeu a ocupação do Complexo do Alemão, em 2010.

Além disso, fala sobre o nascimento das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, que acabaram ficando conhecidas até mesmo fora do Brasil. A primeira delas, em 2008, surgiu da certeza de que era necessário desestabilizar o tráfico em seu próprio território. Uma decisão aparentemente simples, cuja implementação nunca tinha dado certo.

O livro traz as duras batalhas de Beltrame e de sua equipe no combate ao tráfico e às milícias. Relata diversos momentos de ocupações e de como a polícia teve de ser adaptada e aprimorada ao longo do processo. Por outro lado, não se furta a comentar assuntos mais sensíveis, como o futuro das ocupações nas favelas e as críticas à repressão nas recentes manifestações.

Ao contar sua história, José Mariano se revela um homem de caráter ímpar, com um comprometimento raro com a causa pública, algo a que os brasileiros estão muito pouco acostumados.

“O livro de José Mariano Beltrame trata com palavras francas e linguagem direta das várias complexidades de um tema que tem sido muito debatido e pouco entendido no Brasil. Ele alerta sobre o muito que ainda precisa ser feito para que o país enfrente a violência, diminua os erros e crimes policiais, acelere a Justiça e tenha um sistema penal que recupere os presos.

Seu grande mérito é mostrar que não há soluções fáceis nem super-heróis. Todavia o Rio tem uma história para contar que merece ser lida e entendida. O importante é ter em mente que, como em outros processos de avanço brasileiro – como o da estabilização da moeda há 20 anos –, não se podem aceitar retrocessos nem perder a noção do objetivo final. Até porque as UPPs, como o próprio autor do livro diz, são apenas a janela de oportunidade.”

Miriam Leitão

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José Mariano Beltrame podia ser apenas mais uma presença efêmera na cadeira da Segurança Pública no Rio de Janeiro, afinal nenhum dos seus antecessores durou mais que três anos no cargo. José Mariano podia nunca ter se tornado o secretário Beltrame. Podia ter continuado na Polícia Federal, dedicando a vida a investigar complexos casos de tráfico internacional de drogas pelos quatro cantos do Brasil. Podia nunca ter saído de Santa Maria.

Mas ele estava trabalhando na Polícia Federal no Rio de Janeiro em 2006, quando a segurança pública passava por mais uma crise sem precedentes. Isso mudaria de forma radical a sua história e a da cidade em que escolheu morar.

Beltrame aceitou o desafio de assumir a Secretaria de Segurança e se tornou o mais conhecido – e duradouro – secretário de um estado marcado pela violência. Neste livro, ele divide experiências e angústias, revela bastidores dos momentos mais tensos no cargo e faz um relato minucioso da reunião que antecedeu a ocupação do Complexo do Alemão, em 2010.

Além disso, fala sobre o nascimento das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, que acabaram ficando conhecidas até mesmo fora do Brasil. A primeira delas, em 2008, surgiu da certeza de que era necessário desestabilizar o tráfico em seu próprio território. Uma decisão aparentemente simples, cuja implementação nunca tinha dado certo.

O livro traz as duras batalhas de Beltrame e de sua equipe no combate ao tráfico e às milícias. Relata diversos momentos de ocupações e de como a polícia teve de ser adaptada e aprimorada ao longo do processo. Por outro lado, não se furta a comentar assuntos mais sensíveis, como o futuro das ocupações nas favelas e as críticas à repressão nas recentes manifestações.

Ao contar sua história, José Mariano se revela um homem de caráter ímpar, com um comprometimento raro com a causa pública, algo a que os brasileiros estão muito pouco acostumados.

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Ficha técnica
Lançamento 26/03/2014
Título original TODO DIA É SEGUNDA-FEIRA
Tradução
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 208
Peso 330 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0040-1
EAN 9788543100401
Preço R$ 39,90
Ficha técnica e-book
eISBN 9788543100777
Preço R$ 24,99
Selo
Primeira Pessoa
Lançamento 26/03/2014
Título original TODO DIA É SEGUNDA-FEIRA
Tradução
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 208
Peso 330 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0040-1
EAN 9788543100401
Preço R$ 39,90

E-book

eISBN 9788543100777
Preço R$ 24,99

Selo

Primeira Pessoa

Leia um trecho do livro

I. Tudo ou nada no Alemão

De tudo o que vivi nestes anos na Secretaria de Segurança, nada foi tão marcante quanto os episódios desencadeados a partir do dia 25 de novembro de 2010, que culminaram no dia 28. Talvez, para o cidadão comum, a esta altura, as retomadas da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão sejam apenas peças da história recente. Mas para os milhares de servidores públicos envolvidos na operação, aquele momento expressava o próprio sentido de existência da polícia. Uma profissão marcada pela crítica, pelas demandas infinitas, pelo desarranjo de políticas equivocadas e, no caso particular do Rio de Janeiro, pelo assustador poder de fogo dos traficantes escondidos nos morros.

O imponderável nos fez desaguar naquele fim de semana numa situação de tudo ou nada para o secretário de Segurança, para o governo do Rio, para a sociedade fluminense e, até pela proporção que tomou, para a afirmação do Brasil perante o mundo.

A chegada à Vila Cruzeiro provocou uma fuga em massa de bandidos para o Complexo do Alemão, com tudo transmitido ao vivo e a cores pela televisão. Um choque de realidade difícil de entender e de encarar, sobretudo para o carioca de bem que começava a ter esperanças no projeto das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs. Intuitivamente, eu e minha equipe interpretávamos toda aquela expectativa em torno do Alemão como algo muito especial, diferente das outras centenas de operações que havíamos planejado e executado. Em uma única cartada, era ganhar ou colocar a perder as fichas acumuladas em anos de trabalho.

Após a fuga de bandidos da Vila Cruzeiro, no dia 25, caímos numa caótica rotina de avaliação de recursos, construção de cenários e análise de feedback dos policiais em campo. Precisávamos dimensionar nossos limites e a repercussão na sociedade. Foram dois dias de reuniões, nos quais se juntaram à cúpula da Secretaria os chefes das polícias do Rio e os representantes das forças federais – um somatório de recursos, uma coalizão pouco comum pela rapidez da adesão e pela agilidade nas soluções. Tudo indicava que algo inédito estava para acontecer no Rio de Janeiro.

Entre os dias 26 e 27 discutimos diversas estratégias e formas de redução de danos. Uma enxurrada de informações, impossíveis de serem devidamente processadas a tempo. Pode parecer estranho, mas em inteligência policial o excesso às vezes é tão prejudicial quanto a ausência de dados. Ainda assim, no domingo, dia 28, com carta branca do governador Sérgio Cabral, nós entrávamos no Complexo do Alemão e, para surpresa geral, sem disparar um tiro.

É praticamente impossível recuperar todos os detalhes dos bastidores daqueles momentos decisivos. Mas à época concordei com a ideia de gravar algumas horas dessas reuniões. Entendo que a transcrição de determinados pormenores vá contextualizar o acontecido e, em especial, reconhecer o profissionalismo e a capacidade de trabalho das pessoas que participaram ativamente das decisões. Três anos já se passaram: uma eternidade dentro do caldeirão que é a segurança pública do Rio. Alguns seguem fazendo o mesmo trabalho, outros se aposentaram e outros, por motivos diversos, ocupam novos postos. Sou grato a todos eles.

Uma das virtudes do grupo que se mantém comigo desde 2007 é a de ter construído um ambiente de extrema confiança. O que é reservado se mantém reservado. Eu mesmo tenho apenas conhecimento dos originais dessa gravação e só uma pessoa guarda esse material.

O cenário das gravações é o meu gabinete, onde revirávamos mapas que mostravam as diferentes entradas e os entraves do Complexo. Havíamos entrado no Alemão – não para ocupar – em 2007. Mais de mil homens, 19 mortos e uma eterna polêmica sobre violência policial. Naquela época, por cautela, a polícia só operava nas franjas dos morros; não fazia uma verdadeira incursão na área havia sete anos, segundo relato dos próprios agentes. A passividade transformara as favelas da região em verdadeiros bunkers, quase impenetráveis.

Eu tinha consciência de que a segunda entrada no Complexo durante a minha gestão devia ser definitiva. Na maior parte do tempo, escutei o que os responsáveis pelo setor operacional tinham a dizer e a sugerir. Ao assistir aos vídeos, as imagens lembram aqueles filmes antigos, com generais planejando uma batalha. Na realidade, tratava-se do nosso maior desafio, a retomada da central do crime no Rio. Olhando para trás, me pergunto se hoje eu teria a mesma coragem e ousadia.

26 de novembro de 2010,

um dia após a retomada da Vila Cruzeiro.

O Complexo do Alemão começava a ser cercado. A reunião aconteceu no quarto andar do prédio da Central do Brasil, onde trabalho. Não mais do que 10 pessoas em pé, ao redor de uma mesa com mapas ampliados da região. Além de mim, participavam o subsecretário de Planejamento e Integração Operacional, delegado federal Roberto Sá; o subsecretário de Tecnologia, delegado federal Edval Novaes; o então subsecretário de Inteligência, delegado Rivaldo Barbosa; o coordenador de Comunicação Social da Secretaria, jornalista Dirceu Viana; o então comandante-geral da Polícia Militar do Rio de Janeiro, coronel Mário Sérgio; o então chefe de Polícia Civil, delegado Allan Turnowski; o então comandante do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), coronel Paulo Henrique; o então chefe da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais), delegado Rodrigo Oliveira. Outras pessoas entravam e saíam de acordo com as emergências. Telefones celulares não paravam de tocar. Café, água e torradas. O relógio de corda, que trouxera comigo do Sul, tocava a cada 30 minutos para nos lembrar dos prazos – a variável mais estressante de todas.

Beltrame – Tem muita informação chegando. Qual é o melhor jeito de operar ali?

Paulo Henrique – Nós sairemos da Fazendinha, vamos aproveitar a posição que já temos aqui. Essa área aqui, Nova Brasília, será preciso outra tropa, nós planejamos isso aqui com alguns GATEs (Grupo de Ações Táticas Especiais).

Turnowski – O seu pessoal vai aqui comigo no Coqueiro. A gente vai junto. Aqui a gente vai travar no Areal. Passou do Areal, tomou fogo amigo. O que pra gente agora é indiferente. Tendo vocês aqui, eles vão correr. Aqui por cima tem que tomar também, porque quando entra na Joaquim Queirós, entre as duas, é um vale: se não entrar pela Central, quem está aqui vai morrer. Tem que entrar então pela Central e pelo Coqueiro.

Paulo Henrique – Tem um dado não confirmado que eles bloquearam a ligação da Joaquim Queirós com a Canitar.

Roberto Sá – E essa hipótese de eles estarem com roupa preta, muito parecida com a outra?

Paulo Henrique – Sim. Essa informação já chegou para a gente.

Turnowski – Por isso é importante o adesivo do Bope.

Roberto Sá – A gente tá com equipamento de rádio falando?

Turnowski – Outra coisa: lá dentro não funciona rádio, equipamento, nada. No meio, não funciona. O que fala fácil aqui é o rádio da viatura. Então entrou, tomou, joga a viatura e dá para começar a falar no rádio da viatura e no rádio da Polícia Militar. Aqui fala bem a viatura.

Mário Sérgio (dirigindo-se a Turnowski) – Aqui você não tem fôlego para ficar. Vou botar tropa aqui na Baiana, vou tomar o Adeus. A gente vai desencadear tudo isso ao mesmo tempo; mas minutos, segundos antes de a gente partir, começam a entrar as viaturas que vão entrar no Adeus, pessoal do 22o Batalhão que a gente pode reforçar com alguém para evitar tomar tiro daqui (…) A Baiana é com a gente também (…).

Turnowski – Na última operação, que a gente perdeu policial, o Coqueiro estava deserto. (…) O pessoal foi descer um pouco para Nova Brasília e foi aqui que o policial militar morreu, tomou um tiro na cabeça; então Nova Brasília é um lugar que eles tendem a se esconder. E outra coisa é o Morrão aqui, onde tinha o DPO (Destacamento de Policiamento Ostensivo). O Bope, na última operação, tomou o DPO fingindo que era Policial Militar convencional e aí ganhou aqui em cima, porque, aqui em cima, o PM que vier aqui primeiro toma o Morrão.

Mário Sérgio – Vamos tomar o Morrão também. E o Morrão não tem problema porque o blindado vai lá. (…) De manhã cedo, o helicóptero blindado vai começar a rodar transmitindo informações para quem está em terra. Nós estamos levando a antena da Força Aérea para o 16o Batalhão. Lá vai ser o comando; vai ter que ser de lá.

Beltrame – E se não funcionar?

Mário Sérgio – Ah, funciona… Porque é uma antena para isso mesmo: vamos falar nos rádios da Força Aérea, não nos da Polícia Militar, e vamos transmitir essas informações. Seria importante ter um observador que conhecesse bem a região, que conhecesse bem o terreno, na aeronave, para transmitir essas informações. (…) E esses blindados, 3 mil pés, podem voar tranquilamente, porque suporta.

Rodrigo Oliveira – Qual horário?

Mário Sérgio – Da operação? Pode ser às 8h, que significa 7h no horário normal. Ou, se quiserem fazer no amanhecer, mas acho que a gente precisa de luminosidade para isso.

Rodrigo Oliveira – Lusco-fusco não é bom. Ainda mais nesta situação, com todo mundo cheio de roupa.

Mário Sérgio – Eu acho melhor já 7h ou 8h da manhã.

Paulo Henrique – Esta é uma campanha que sempre foi extensa e vai ser. Acho melhor a partir das 8h para o cara tomar um bom café, fazer um briefing detalhado, passar tudo amarradinho para não ter tiro amigo.

Turnowski – Tá na dúvida, não atira; perde o bandido, mas não mata o colega.

Dirceu – A boataria tá comendo solta no Leblon, de que a Rocinha vai descer. Calma, só estou registrando o estresse da classe média. Ah, um repórter da Reuters tomou um tiro no ombro. Estava lá na Grota.

Turnowski – Pô, tá pedindo também.

Dirceu – Agora vão reclamar o quê? Entrou no lugar errado, no dia errado e na hora errada. As pessoas precisam avaliar melhor os riscos, ter cautela e responsabilidade…

Mário Sérgio – Parecia entregador de comida, estava de boné. Sabe o que ele estava fazendo? Isso é correspondente de guerra.

_____

Tínhamos adotado uma estratégia paralela a fim de enfraquecer os traficantes. A Polícia Civil conseguiu uma série de mandados para prender advogados e familiares que estavam levando informações para o Complexo do Alemão. As provas de envolvimento com o tráfico já eram antigas, de outros episódios. Não havia momento melhor para usá-las.

Beltrame – Saiu uma coisa que acho importante: o desembargador acabou de dar a prisão dos três advogados. Acho que era bom pegar e prender logo. As duas mulheres e os caras.

Turnowski – Excelente. Vou mandar as equipes…

Mário Sérgio – Rodrigo, vamos considerar: 8h todo mundo tem que estar pronto. A partir das 8h, dependendo do que vai surgir. A gente marca ao lado do 16o Batalhão, posiciona todas as tropas lá. O Bope já tá lá, a gente não pode recuar.

Turnowski – Posso dar uma opinião? Acho que a gente tem que marcar um horário de entrada. Cada um sabe onde tem que chegar na hora tal. Você vai fazer um comboio. O último do comboio não vai entrar às 8h, vai entrar diferente. Então cada um vai dar seu jeito.

Mário Sérgio – Tem que definir, então, que esta entrada que está aqui de vocês, a gente está querendo fazer junto com vocês, que é o Coqueiro. A gente vai ficar com vocês, mas a gente vai na frente. Vai ter um blindado aqui. O nosso vai na frente. Quem vai atrás, para no Coqueiro.

_____

Nesse momento, o coronel Álvaro Garcia, chefe do Estado-Maior Operacional, segundo homem na linha de comando da PM, chegou à reunião. Ele estava um pouco assustado com o que vira. O Alemão nunca trouxe boas lembranças para a polícia. Para aumentar a tensão, as informações que chegavam ao meu celular davam conta de um arsenal gigante, o que ficou comprovado dias depois, ao fim da operação, quando mais de 100 fuzis foram apreendidos.

Álvaro – Alemão está quase impossível; está muito, muito ruim. Ficamos parados para atravessar uma rua ali umas três horas. Apesar do Exército. Pesado pra cacete.

Mário Sérgio – Teve gente ferida lá?

Álvaro – Um do Exército tomou um tiro na perna.

Mário Sérgio – Não estava dentro do blindado?

Álvaro – Não, fora. Na rua.

Turnowski – É melhor que a gente entre amanhã (sábado).

Álvaro – Tinha que ter entrado hoje mais cedo, ou ontem, quando eles fugiram.

Beltrame – A essa hora não dá mais, a gente vai entrar amanhã.

Mário Sérgio – Mas vai ser amanhã.

Álvaro – Hoje eles estão pesados pra cacete. Mas a gente sabe que eles estão largados, que estão pressionados. Eles estão meio perdidos.

Roberto Sá – Recebi agora a informação de um funcionário da Prefeitura que mora lá dizendo números talvez exagerados, aproximadamente 500 pessoas com tripé, quadripé, armamentos pesados. Tem duas ruas em especial com gasolina e óleo para não passar o carro; e a Canitar e a Antônio Austregésilo, essas, então, tiro saturado.

Mário Sérgio – A aeronave vai estar voando alto e vai dando tiro naquelas lajes.

Rodrigo – Passaram dois hoje lá. Estava passando muito alto. Se voar naquela altura, não tem acuidade visual para o tiro, não.

Turnowski – O lance é passar e vruuuuuum! Blindado é quase para chamar a atenção. Não tem como combater.

Rodrigo – Se a aeronave da Aeronáutica voar como estava voando hoje, eles não vão enxergar.

Mário Sérgio – Ontem nós usamos os carros deles com os pilotos deles. A aeronave vai ter que dar poder de fogo, tá combinado.

Beltrame – Acho que tem que ver como é que é isso.

Álvaro – Mas tem que ver a que altura eles vão fazer isso.

Rodrigo – Não vai ter acuidade visual. Vai ser igual a gente está vendo neste mapa aqui. Vai ser exatamente assim.

Turnowski – Eu acho o seguinte: o maior problema do Alemão não é o combate. O combate vai ser igual ao da Vila Cruzeiro. Eles vão correr. O grande problema do Alemão é você estar aqui e tomar um tiro de um alvo que está colocado. Porque esse negócio de que vão ficar lá na laje quando desembarcar… Por que é que não ficaram na Vila Cruzeiro? A minha preocupação é que você está andando aí, de repente, buff, caiu morto, porque lá do outro lado o cara botou um tiro colocado.

Mário Sérgio – Estava falando o seguinte: dois blindados da Marinha, eles andam juntos. Aí entrava a Core com a tropa do Bope por essa via que dá acesso à Comlurb. Passou o primeiro blindado do Coqueiro, ele vai para o antigo destacamento da Polícia Militar. Ali é entrar, tentar aquelas lajes. Aquelas lajes são boas (…) Pois passou do Coqueiro e chegou ao destacamento, fica com duas regiões tomadas que não têm mais como fazer tiro na nossa tropa aqui embaixo, pode fazer de dentro de alguma casa ou de alguma coisa assim. Laje mais alta eles não vão ter.

Roberto Sá – Tem que ter muita informação antes de tomar decisão. A informação tem que checar.

Beltrame – Chegada a hora, se precisar, vai progredir aos poucos…

Mário Sérgio – Depois que a gente conseguir pegar uma peça alta, um apartamento, um troço qualquer, o negócio é ir consolidando isso.

Beltrame – Tem que fazer esse briefing e coordenar mais na Polícia Civil, que deve voar mais baixo que os da Aeronáutica.

Mário Sérgio (ao telefone) – Eles disseram a quantos pés vão voar? Deixa eu falar com o brigadeiro. Brigadeiro, a gente está falando dessa questão.

Beltrame – Até hoje eu acho que a gente tinha que fazer uma coordenação para ver quem está responsável por um tipo de supervisão deste trabalho, quem está vistoriando, se estão vistoriando, não sabemos quem é quem.

Mário Sérgio – Secretário, vou encontrar agora esse coronel para dizer que a gente tem que ter cobertura de fogo, ele tem que voar a uma altura, a aeronave é blindada, uma altura que permita dar tiro com segurança.

Roberto Sá – Delegacia: a gente tem que estar decidido para onde vai levar a ocorrência para não bater cabeça.

Turnowski – Vou botar uma delegacia especializada que receba todo mundo, perto ou longe, é vai e volta, porque delegacia da área pode dar tumulto (…).Vou montar um cartório só para as ocorrências.

_____

Na noite do dia 26, sexta-feira, o governador Sérgio Cabral me ligou. Fez isso com todo o cuidado, pois não desejava aumentar a pressão. Foi além: reuniu seus secretários e assessores diretos e se deslocou até o meu gabinete. Não queria saber dos detalhes, tínhamos total autonomia para executar o plano. Ele apenas foi reforçar seu voto de confiança, para que ficássemos tranquilos, pois, ao final, a sociedade iria reconhecer o que estávamos fazendo. Horas depois, tive de avisá-lo que adiaríamos a operação por mais um dia.

Nas primeiras horas do dia 27, sábado, várias informações foram captadas pelo setor de Inteligência. Havíamos montado uma grande sala, num andar abaixo do meu, para reunir e organizar tudo o que chegava pelas mais diversas fontes: informantes, escutas, colaboradores.

Tenho para mim que a grande movimentação nas ruas do entorno do Complexo, a presença ostensiva das Forças Armadas, o bombardeio de notícias pela imprensa e a crescente indignação da sociedade contribuíram para arrefecer os ânimos dos traficantes diante de um inevitável confronto. Ainda assim, não havia garantias de que poderíamos evitar o banho de sangue.

Um novo ingrediente havia entrado na pauta: circulou a tese de uma possível rendição dos traficantes acuados no Complexo. Ou seja, alguns dos bandidos mais perigosos do Brasil estariam dando sinais de fraqueza. A sinceridade da proposta nunca me convenceu, mas decidimos dar uma chance para evitar uma batalha campal. O comandante da Polícia Militar à época, coronel Mário Sérgio, foi o maior entusiasta da ideia.

De certa forma, parecia que o passar do tempo nos era favorável, pois as pessoas em casa poderiam refletir melhor e entender quão crítico era o momento para o Rio de Janeiro. Para reforçar essa estratégia de transparência, despachei o subsecretário Edval Novaes para uma missão pouco comum na polícia. Ele passou mais de uma hora na internet, respondendo e explicando diretamente para a população, por meio das mídias sociais, o que estávamos fazendo e a importância do que estava para acontecer. No dia da retomada, foi a minha vez. Alcançamos uma audiência enorme.

Na véspera, com tudo pronto, descobri que uma batalha silenciosa estava em andamento. Combinara com Rita, minha esposa, Dirceu Viana, meu assessor, e a esposa dele de tomar uma cerveja no restaurante da Livraria da Travessa, em Ipanema. Havia dias não conseguíamos um minuto para relaxar e ter uma conversa leve. Já havíamos passado e repassado os cenários ao limite da sanidade e era necessário um respiro, uma visita ao mundo dos normais. Para nossa surpresa, as portas se fecharam quando pisamos na calçada, ainda por volta das 22h. As ruas do bairro estavam completamente desertas. Os boatos de que traficantes da Rocinha iriam fazer um grande arrastão na Zona Sul levaram a livraria e muitos restaurantes a encerrar o expediente bem antes do horário. Ali o desafio era de outra natureza. Não só a guerra do tiro, mas também a guerra da confiança precisava ser vencida. E ambas eram árduas.

O esforço logístico de deslocamento dos policiais em todo esse cenário era tão grande que concluímos que, como o cerco estava garantido, o melhor para a tropa e para a organização era adiar a entrada no Complexo por mais um dia. No sábado, dia 27, estávamos todos novamente debruçados sobre mapas e informes de difícil confirmação. O Dia D ficara para o domingo.

27 de novembro de 2010,
véspera da retomada do Complexo do Alemão.

Roberto Sá (ao telefone) – Se for acontecer essa rendição, tem que ser hoje. Amanhã a gente tem que entrar. Hoje, antes do entardecer. (Dirigindo-se às pessoas da reunião): Um mediador tá dizendo que o Fabiano tá cagado.

Beltrame – Falaram com o Fabiano?

Roberto Sá – Mas quem mora na favela passa do lado do traficante.

Beltrame – O cara sabe onde está o criminoso número um do Rio de Janeiro, quiçá do Brasil…

Roberto Sá – Estão tentando fazer o que a gente está tentando pela mídia: convencer os caras a se entregarem.

Beltrame – Tem que parar com esse leva e traz até as 21h.

Turnowski – Só que essa solução ontem, os mediadores estavam à 1h15 falando no radinho que iriam se entregar (…) Hoje de manhã, quando eles colam no Mário com a mesma conversa, ele está com autorização para fazer. Se eles não saírem do morro, quem deu autorização para ficar? Aí o Mário já está no problema dele. Eu pulei fora sabe a que horas? Às duas da tarde (…)

Dirceu Viana – Vou ver se consigo espalhar para os jornalistas que a gente conseguiu um monte de óculos de visão noturna. Tem gente me ligando.

Roberto Sá – Escureceu, não se entregou, acabou.

Beltrame – A Inteligência tá passando, com várias informações batendo, de que eles estão nas casas do Mineiro…

Roberto Sá – A informação que chegou aqui. Alguém que mandou pra alguém que mandou pra gente: os traficantes vão entregar 30 pessoas com ficha limpa. Os caras vão ser ameaçados se não se entregarem. E com todo o alvoroço vão tentar vazar.

Turnowski – Tive essa informação mais cedo: tá saindo que eles vão usar isso para ganhar tempo. Então é o que a gente falou aqui: se não tiver mandado e arma, pode se entregar. Vai ficar preso o quê? Três dias? Cinco dias? Um mês até o interrogatório? Vai sair. Pro cara, é bom negócio.

Dirceu – De qualquer forma, tem que ter um padrão no procedimento para mostrar pra todo mundo que prendeu, nem que depois o juiz mande soltar.

Turnowski – Vou fazer isso na Polinter, peço para o pessoal fazer lá. Depois que reunir 30, me avisa que mando pra uma delegacia; ponho os 30 presos num flagrante só.

Beltrame (ao telefone com o general do Exército) – Não sei se o senhor quer vir aqui, a operação tá nascendo amanhã de manhã. Diretrizes, locais de acesso dos policiais, vias que vão ser utilizadas, o senhor quer vir pra cá? É um prazer, então pode vir pra cá. Me diga uma coisa: é que chegam informações de várias naturezas para a gente, o que chegou para nós é que não estariam cobertos todos os pontos dos 40 pontos, não sei se isso procede. Estão? Ah, que bom, que bom. Inicialmente, um barulho aéreo às 6h, 6h30 e às 8h, a tropa progride, era isso que queria dar ciência.

Beltrame – Outra coisa que ele estava dizendo é que, a partir das 6h não passa ninguém, então, se a Polícia Civil ou a Militar tiver P2 com arma, não vai passar. Então não sei se vai operar desse jeito, se levar alguém, vai segurar.

O coronel Mário Sérgio chega à reunião.

Mário Sérgio – Vamos fazer inquietação a noite toda. Mas tem todo o trânsito desnecessário. Cheguei lá agora e ainda estava aberta. Mandei fechar, proibi todo e qualquer táxi de entrar, então não tem trânsito na área. Só está na área quem está trabalhando e os jornalistas, como você pediu (para Dirceu). (…) Eu mandei comprar spray branco e vou distribuir para cada comandante de fração meu. Qualquer fuzil que for apreendido vai tomar logo uma talagada de spray branco para poder saber. Quem olhar um cara saindo com qualquer coisa de spray branco na mochila, é coisa apreendida.

(…)

Roberto Sá – Só vai entrar depois que a aeronave cumprir o papel dela.

Paulo Henrique – Comandante, vamos fazer o seguinte: concentração às 7h, o deslocamento vai se iniciar um pouco antes das 8h.

Mário Sérgio – Eu não gostei desse horário. Achei esse horário tarde demais.

Rodrigo – Mas se entrar antes da aeronave, vai ter tiro amigo.

Mário Sérgio – Só vai entrar quando ele der a volta.

Turnowski – Se botar o policial na ponta, se for o cara de tropa de elite, ele começar a tomar tiro, ele não vai ficar, ele não vai ficar, ele vai entrar.

Paulo Henrique – Ligaram para o comandante da Marinha, e ele cedeu o carro.

Mário Sérgio – A Light não sei se fez isso, a Prefeitura. Pedi que colocassem holofotes.

Paulo Henrique – O que ele pode fazer é apagar uns 10 minutos.

Dirceu Viana – Tem de convencê-los a desistir na guerra psicológica. Se puder fazer um auê…

Paulo Henrique – Aí é um auê.

_____

Entra na sala o general Adriano Pereira Júnior, que, na época, era comandante militar do Leste e deu suporte decisivo ao cerco. O Exército ficou responsável por fechar mais da metade das saídas do Complexo.

Mário Sérgio – General, é óbvio, uma série de providências são necessárias para que nós possamos ter esse assalto amanhã. Nós temos o Exército cercando diversos pontos, a Polícia Federal, a própria Polícia Militar, a Polícia Civil, neste esforço de cerco amanhã. Nós temos uma atividade coordenada antes de entrar propriamente no Alemão, porque o lado de cá, Baiana e Adeus, são dois pontos de comandamento que a gente precisa tomar que estão sob o domínio do Comando Vermelho. Aqui na Baiana não é assim muito expressivo, mas no Morro do Adeus eles têm muitos fuzis, então nós, de manhã, temos um assalto cedo aqui pela manhã, vamos tomar esse ponto e aqui vai ser o meu princípio, depois que eles tomarem, eu vou me estabelecer aqui. Nós temos aqui nesta área, eles vão poder se entregar, se render, caso queiram sair com as armas levantadas. É um ponto onde só existe participação de pessoas que estão trabalhando, o próprio Exército, os fuzileiros, a própria polícia e os jornalistas também vão tendo acesso a isso que tá aqui. Se houver essa rendição, é possível que venha um deslocamento em massa de curiosos, coisas assim. Nós vamos tentar controlar como polícia, mas é importante que o Exército esteja em condições também de impedir essa fuga em massa para cá. É uma solicitação que faço ao senhor.

Paulo Henrique – Esses fogos para tentar tirar as posições deles de vantagem sobre as lajes, a informação que se tem é que muitas lajes têm muito armamento, pessoas com uma condição de tiro muito boa. Então vai ser feito, três aeronaves fazendo disparos aqui. Terminada essa sessão, a gente vai ter o status para a invasão. Enquanto o fogo está acontecendo, as tropas vão se aproximando. A operação tem que ser feita por setores muito bem definidos. Joaquim Queirós, Central e Paranhos. A Polícia Civil vai fazer direção subindo. Isso aqui é uma elevação. Esta estrada foi por onde fugiu o pessoal da Vila Cruzeiro. Essa subida é do Coqueiro (…). E a gente vai desdobrando com vários objetivos até o limite da nossa área operacional, que é a Canitar. Outro ponto importante para nós da Fazendinha até o Morrão da Fazendinha, que é parte dominante nesta área, um dos objetivos do Bope. No outro flanco, utilizando até a vantagem que nós temos de acessar pela Vila Cruzeiro, nós vamos tomar alguns pontos passando por cima dos mineiros, como já fizemos ontem; chegamos aqui ontem, fizemos alguns disparos.

Beltrame – Aqui é você que vai estar? Tenho informação boa de que tem uns bandidos armados que estão aqui.

Paulo Henrique – Eu só vou descer depois que tiver tomado o Morrão. Porque, se descer aqui com o Morrão ainda sob controle deles, fogo direto.

Rodrigo – Quais são as grandes dificuldades que a gente tem aqui no Complexo? São várias. Combate aproximado ali, como em qualquer outra comunidade, a gente está pra lá de acostumado. A dificuldade que se tem aqui, para você progredir aqui, você tá tomando tiro a um campo de distância, então, se a gente não tomar essas elevações maiores e irradiar para o flanco das encostas, o pessoal vai ser atingido não pelo combate frontal, mas pelo tiro que está vindo de 100, 200 metros de distância. Isso é um complicador, porque atiram de dentro de casa… E dentro da progressão do Bope e da Polícia Militar, que veio pelo lado de cá. Os dois pontos mais altos são a Central e o Morrão. Exatamente nesta área passa uma torre de alta tensão. De resto é isso, 8h entrando, a gente vai tomar esses pontos, depois nossos objetivos, depois é de casa em casa, casa em casa…

General Adriano – Nossa preocupação é que chegou lá, são 8h, quem é que vai estar aqui, como é que vocês vão chegar? Se o Bope vai chegar pela Vila Cruzeiro… De repente, cessa o fogo de vocês, porque nós estamos aqui dentro e está uma lenha. E a coordenação nem é comigo. Tem que fazer com o oficial. Se puder passar para o pessoal operacional de lá… Eu acho que era excelente, era necessário para evitar (…). A operação em si eu vejo muito bem planejada, mas que pode haver um fogo amigo, um troço desse.

Mário Sérgio – Eu estava fora. Aí ele colocou uma preocupação que vou discutir agora. Depois que a gente entrar e o pau cantar, vai de um camarada meter a roupa da PM ou sair com um colete da Polícia Civil com um fuzil nas costas. A gente tem que definir agora qual é a conduta, porque você pode abordar o cara. Olhou, não tem aquele aspecto de polícia – e às vezes tem policial que não tem aspecto de polícia tanto na minha corporação quanto na Civil –, o que o Exército vai fazer? A minha sugestão é que aborde.

Roberto Sá – Ia dar uma sugestão agora. Cada fração de tropa vai ter seu comandante, todo comandante vai lá e pergunta quem é o seu comandante. O cara que for abordado…

General Adriano – Isso, junto com nosso bloqueio tem que botar um policial.

Mário Sérgio – Em cada bloqueio vai ser difícil. São muitas unidades.

General Adriano – Na nossa avaliação, nós teríamos alguém que está sabendo, que está falando com essa operação. Olha, tá acontecendo isso, tá vindo do beco. O Bope está descendo pela rua tal. Vocês estão planejando, mas vocês sabem muito bem que, de repente, vai haver uma conduta, uma oportunidade de perseguição. Tem que chegar um contato lá para a tropa… Se eu ouvir depois, de repente, a tua tropa tá aqui, tá com algum problema, tem que escoar pra cá, aí o oficial de ligação informa… Como vocês vão operar não é problema nosso, problema nosso é como vamos poder integrar a nossa posição.

Beltrame – Bom, gente, isso aqui não vai resolver o problema do Rio de Janeiro, mas das batalhas que nós temos, eu lhe garanto, general, que a gente ganhou a pior. Guerra tem mais um monte. Tem um prenúncio de, se vencer isso aqui, é um prenúncio muito positivo.

General Adriano – Tem que continuar. (…) É uma tremenda responsabilidade isso, tá se vendo no mundo todo. Agora essa operação a repercussão que teve a Vila Cruzeiro foi maravilhosa. (…) O pessoal não sabe o que é morar numa área dominada. O pessoal não sabe o que é ouvir o relato do soldado chegando no quartel chorando, contando o que aconteceu à noite. Não sabe o que é favela dominada. A população é submetida. Chegar e falar: esta casa hoje é ponto de venda, sai da casa. Uma porção de gente acha que o traficante até ajuda a comunidade. Não é nem assistencialista; nada.

Mário Sérgio – De manhã, eu tenho que ir ao 41o Batalhão dar o recado para a tropa. Vou ter um briefing operacional e um briefing disciplinar para a tropa. Vou dizer para eles que quem eu pegar fazendo besteira eu vou expulsar com tropa formada, que a minha corregedoria tá toda lá, então vou avisar… Vou fazer algo que em 20 anos não tem na polícia, que é expulsão com tropa formada se eu pegar gente fazendo besteira.

Beltrame – É uma experiência nova para todos nós.

General Adriano – Todos nós estamos aprendendo. Nós mesmos, internamente, estamos aprendendo um monte de coisa lá. O que vamos levar de mais vantagem é o aprendizado que nós estamos tendo aí. E totalmente diferente a região de fato do Haiti. No Haiti, a favela é tudo pátio, plano.

Beltrame – Não tenho dúvida de que hoje à noite vai ser o último suspiro…

I. Tudo ou nada no Alemão

De tudo o que vivi nestes anos na Secretaria de Segurança, nada foi tão marcante quanto os episódios desencadeados a partir do dia 25 de novembro de 2010, que culminaram no dia 28. Talvez, para o cidadão comum, a esta altura, as retomadas da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão sejam apenas peças da história recente. Mas para os milhares de servidores públicos envolvidos na operação, aquele momento expressava o próprio sentido de existência da polícia. Uma profissão marcada pela crítica, pelas demandas infinitas, pelo desarranjo de políticas equivocadas e, no caso particular do Rio de Janeiro, pelo assustador poder de fogo dos traficantes escondidos nos morros.

O imponderável nos fez desaguar naquele fim de semana numa situação de tudo ou nada para o secretário de Segurança, para o governo do Rio, para a sociedade fluminense e, até pela proporção que tomou, para a afirmação do Brasil perante o mundo.

A chegada à Vila Cruzeiro provocou uma fuga em massa de bandidos para o Complexo do Alemão, com tudo transmitido ao vivo e a cores pela televisão. Um choque de realidade difícil de entender e de encarar, sobretudo para o carioca de bem que começava a ter esperanças no projeto das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs. Intuitivamente, eu e minha equipe interpretávamos toda aquela expectativa em torno do Alemão como algo muito especial, diferente das outras centenas de operações que havíamos planejado e executado. Em uma única cartada, era ganhar ou colocar a perder as fichas acumuladas em anos de trabalho.

Após a fuga de bandidos da Vila Cruzeiro, no dia 25, caímos numa caótica rotina de avaliação de recursos, construção de cenários e análise de feedback dos policiais em campo. Precisávamos dimensionar nossos limites e a repercussão na sociedade. Foram dois dias de reuniões, nos quais se juntaram à cúpula da Secretaria os chefes das polícias do Rio e os representantes das forças federais – um somatório de recursos, uma coalizão pouco comum pela rapidez da adesão e pela agilidade nas soluções. Tudo indicava que algo inédito estava para acontecer no Rio de Janeiro.

Entre os dias 26 e 27 discutimos diversas estratégias e formas de redução de danos. Uma enxurrada de informações, impossíveis de serem devidamente processadas a tempo. Pode parecer estranho, mas em inteligência policial o excesso às vezes é tão prejudicial quanto a ausência de dados. Ainda assim, no domingo, dia 28, com carta branca do governador Sérgio Cabral, nós entrávamos no Complexo do Alemão e, para surpresa geral, sem disparar um tiro.

É praticamente impossível recuperar todos os detalhes dos bastidores daqueles momentos decisivos. Mas à época concordei com a ideia de gravar algumas horas dessas reuniões. Entendo que a transcrição de determinados pormenores vá contextualizar o acontecido e, em especial, reconhecer o profissionalismo e a capacidade de trabalho das pessoas que participaram ativamente das decisões. Três anos já se passaram: uma eternidade dentro do caldeirão que é a segurança pública do Rio. Alguns seguem fazendo o mesmo trabalho, outros se aposentaram e outros, por motivos diversos, ocupam novos postos. Sou grato a todos eles.

Uma das virtudes do grupo que se mantém comigo desde 2007 é a de ter construído um ambiente de extrema confiança. O que é reservado se mantém reservado. Eu mesmo tenho apenas conhecimento dos originais dessa gravação e só uma pessoa guarda esse material.

O cenário das gravações é o meu gabinete, onde revirávamos mapas que mostravam as diferentes entradas e os entraves do Complexo. Havíamos entrado no Alemão – não para ocupar – em 2007. Mais de mil homens, 19 mortos e uma eterna polêmica sobre violência policial. Naquela época, por cautela, a polícia só operava nas franjas dos morros; não fazia uma verdadeira incursão na área havia sete anos, segundo relato dos próprios agentes. A passividade transformara as favelas da região em verdadeiros bunkers, quase impenetráveis.

Eu tinha consciência de que a segunda entrada no Complexo durante a minha gestão devia ser definitiva. Na maior parte do tempo, escutei o que os responsáveis pelo setor operacional tinham a dizer e a sugerir. Ao assistir aos vídeos, as imagens lembram aqueles filmes antigos, com generais planejando uma batalha. Na realidade, tratava-se do nosso maior desafio, a retomada da central do crime no Rio. Olhando para trás, me pergunto se hoje eu teria a mesma coragem e ousadia.

26 de novembro de 2010,

um dia após a retomada da Vila Cruzeiro.

O Complexo do Alemão começava a ser cercado. A reunião aconteceu no quarto andar do prédio da Central do Brasil, onde trabalho. Não mais do que 10 pessoas em pé, ao redor de uma mesa com mapas ampliados da região. Além de mim, participavam o subsecretário de Planejamento e Integração Operacional, delegado federal Roberto Sá; o subsecretário de Tecnologia, delegado federal Edval Novaes; o então subsecretário de Inteligência, delegado Rivaldo Barbosa; o coordenador de Comunicação Social da Secretaria, jornalista Dirceu Viana; o então comandante-geral da Polícia Militar do Rio de Janeiro, coronel Mário Sérgio; o então chefe de Polícia Civil, delegado Allan Turnowski; o então comandante do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), coronel Paulo Henrique; o então chefe da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais), delegado Rodrigo Oliveira. Outras pessoas entravam e saíam de acordo com as emergências. Telefones celulares não paravam de tocar. Café, água e torradas. O relógio de corda, que trouxera comigo do Sul, tocava a cada 30 minutos para nos lembrar dos prazos – a variável mais estressante de todas.

Beltrame – Tem muita informação chegando. Qual é o melhor jeito de operar ali?

Paulo Henrique – Nós sairemos da Fazendinha, vamos aproveitar a posição que já temos aqui. Essa área aqui, Nova Brasília, será preciso outra tropa, nós planejamos isso aqui com alguns GATEs (Grupo de Ações Táticas Especiais).

Turnowski – O seu pessoal vai aqui comigo no Coqueiro. A gente vai junto. Aqui a gente vai travar no Areal. Passou do Areal, tomou fogo amigo. O que pra gente agora é indiferente. Tendo vocês aqui, eles vão correr. Aqui por cima tem que tomar também, porque quando entra na Joaquim Queirós, entre as duas, é um vale: se não entrar pela Central, quem está aqui vai morrer. Tem que entrar então pela Central e pelo Coqueiro.

Paulo Henrique – Tem um dado não confirmado que eles bloquearam a ligação da Joaquim Queirós com a Canitar.

Roberto Sá – E essa hipótese de eles estarem com roupa preta, muito parecida com a outra?

Paulo Henrique – Sim. Essa informação já chegou para a gente.

Turnowski – Por isso é importante o adesivo do Bope.

Roberto Sá – A gente tá com equipamento de rádio falando?

Turnowski – Outra coisa: lá dentro não funciona rádio, equipamento, nada. No meio, não funciona. O que fala fácil aqui é o rádio da viatura. Então entrou, tomou, joga a viatura e dá para começar a falar no rádio da viatura e no rádio da Polícia Militar. Aqui fala bem a viatura.

Mário Sérgio (dirigindo-se a Turnowski) – Aqui você não tem fôlego para ficar. Vou botar tropa aqui na Baiana, vou tomar o Adeus. A gente vai desencadear tudo isso ao mesmo tempo; mas minutos, segundos antes de a gente partir, começam a entrar as viaturas que vão entrar no Adeus, pessoal do 22o Batalhão que a gente pode reforçar com alguém para evitar tomar tiro daqui (…) A Baiana é com a gente também (…).

Turnowski – Na última operação, que a gente perdeu policial, o Coqueiro estava deserto. (…) O pessoal foi descer um pouco para Nova Brasília e foi aqui que o policial militar morreu, tomou um tiro na cabeça; então Nova Brasília é um lugar que eles tendem a se esconder. E outra coisa é o Morrão aqui, onde tinha o DPO (Destacamento de Policiamento Ostensivo). O Bope, na última operação, tomou o DPO fingindo que era Policial Militar convencional e aí ganhou aqui em cima, porque, aqui em cima, o PM que vier aqui primeiro toma o Morrão.

Mário Sérgio – Vamos tomar o Morrão também. E o Morrão não tem problema porque o blindado vai lá. (…) De manhã cedo, o helicóptero blindado vai começar a rodar transmitindo informações para quem está em terra. Nós estamos levando a antena da Força Aérea para o 16o Batalhão. Lá vai ser o comando; vai ter que ser de lá.

Beltrame – E se não funcionar?

Mário Sérgio – Ah, funciona… Porque é uma antena para isso mesmo: vamos falar nos rádios da Força Aérea, não nos da Polícia Militar, e vamos transmitir essas informações. Seria importante ter um observador que conhecesse bem a região, que conhecesse bem o terreno, na aeronave, para transmitir essas informações. (…) E esses blindados, 3 mil pés, podem voar tranquilamente, porque suporta.

Rodrigo Oliveira – Qual horário?

Mário Sérgio – Da operação? Pode ser às 8h, que significa 7h no horário normal. Ou, se quiserem fazer no amanhecer, mas acho que a gente precisa de luminosidade para isso.

Rodrigo Oliveira – Lusco-fusco não é bom. Ainda mais nesta situação, com todo mundo cheio de roupa.

Mário Sérgio – Eu acho melhor já 7h ou 8h da manhã.

Paulo Henrique – Esta é uma campanha que sempre foi extensa e vai ser. Acho melhor a partir das 8h para o cara tomar um bom café, fazer um briefing detalhado, passar tudo amarradinho para não ter tiro amigo.

Turnowski – Tá na dúvida, não atira; perde o bandido, mas não mata o colega.

Dirceu – A boataria tá comendo solta no Leblon, de que a Rocinha vai descer. Calma, só estou registrando o estresse da classe média. Ah, um repórter da Reuters tomou um tiro no ombro. Estava lá na Grota.

Turnowski – Pô, tá pedindo também.

Dirceu – Agora vão reclamar o quê? Entrou no lugar errado, no dia errado e na hora errada. As pessoas precisam avaliar melhor os riscos, ter cautela e responsabilidade…

Mário Sérgio – Parecia entregador de comida, estava de boné. Sabe o que ele estava fazendo? Isso é correspondente de guerra.

_____

Tínhamos adotado uma estratégia paralela a fim de enfraquecer os traficantes. A Polícia Civil conseguiu uma série de mandados para prender advogados e familiares que estavam levando informações para o Complexo do Alemão. As provas de envolvimento com o tráfico já eram antigas, de outros episódios. Não havia momento melhor para usá-las.

Beltrame – Saiu uma coisa que acho importante: o desembargador acabou de dar a prisão dos três advogados. Acho que era bom pegar e prender logo. As duas mulheres e os caras.

Turnowski – Excelente. Vou mandar as equipes…

Mário Sérgio – Rodrigo, vamos considerar: 8h todo mundo tem que estar pronto. A partir das 8h, dependendo do que vai surgir. A gente marca ao lado do 16o Batalhão, posiciona todas as tropas lá. O Bope já tá lá, a gente não pode recuar.

Turnowski – Posso dar uma opinião? Acho que a gente tem que marcar um horário de entrada. Cada um sabe onde tem que chegar na hora tal. Você vai fazer um comboio. O último do comboio não vai entrar às 8h, vai entrar diferente. Então cada um vai dar seu jeito.

Mário Sérgio – Tem que definir, então, que esta entrada que está aqui de vocês, a gente está querendo fazer junto com vocês, que é o Coqueiro. A gente vai ficar com vocês, mas a gente vai na frente. Vai ter um blindado aqui. O nosso vai na frente. Quem vai atrás, para no Coqueiro.

_____

Nesse momento, o coronel Álvaro Garcia, chefe do Estado-Maior Operacional, segundo homem na linha de comando da PM, chegou à reunião. Ele estava um pouco assustado com o que vira. O Alemão nunca trouxe boas lembranças para a polícia. Para aumentar a tensão, as informações que chegavam ao meu celular davam conta de um arsenal gigante, o que ficou comprovado dias depois, ao fim da operação, quando mais de 100 fuzis foram apreendidos.

Álvaro – Alemão está quase impossível; está muito, muito ruim. Ficamos parados para atravessar uma rua ali umas três horas. Apesar do Exército. Pesado pra cacete.

Mário Sérgio – Teve gente ferida lá?

Álvaro – Um do Exército tomou um tiro na perna.

Mário Sérgio – Não estava dentro do blindado?

Álvaro – Não, fora. Na rua.

Turnowski – É melhor que a gente entre amanhã (sábado).

Álvaro – Tinha que ter entrado hoje mais cedo, ou ontem, quando eles fugiram.

Beltrame – A essa hora não dá mais, a gente vai entrar amanhã.

Mário Sérgio – Mas vai ser amanhã.

Álvaro – Hoje eles estão pesados pra cacete. Mas a gente sabe que eles estão largados, que estão pressionados. Eles estão meio perdidos.

Roberto Sá – Recebi agora a informação de um funcionário da Prefeitura que mora lá dizendo números talvez exagerados, aproximadamente 500 pessoas com tripé, quadripé, armamentos pesados. Tem duas ruas em especial com gasolina e óleo para não passar o carro; e a Canitar e a Antônio Austregésilo, essas, então, tiro saturado.

Mário Sérgio – A aeronave vai estar voando alto e vai dando tiro naquelas lajes.

Rodrigo – Passaram dois hoje lá. Estava passando muito alto. Se voar naquela altura, não tem acuidade visual para o tiro, não.

Turnowski – O lance é passar e vruuuuuum! Blindado é quase para chamar a atenção. Não tem como combater.

Rodrigo – Se a aeronave da Aeronáutica voar como estava voando hoje, eles não vão enxergar.

Mário Sérgio – Ontem nós usamos os carros deles com os pilotos deles. A aeronave vai ter que dar poder de fogo, tá combinado.

Beltrame – Acho que tem que ver como é que é isso.

Álvaro – Mas tem que ver a que altura eles vão fazer isso.

Rodrigo – Não vai ter acuidade visual. Vai ser igual a gente está vendo neste mapa aqui. Vai ser exatamente assim.

Turnowski – Eu acho o seguinte: o maior problema do Alemão não é o combate. O combate vai ser igual ao da Vila Cruzeiro. Eles vão correr. O grande problema do Alemão é você estar aqui e tomar um tiro de um alvo que está colocado. Porque esse negócio de que vão ficar lá na laje quando desembarcar… Por que é que não ficaram na Vila Cruzeiro? A minha preocupação é que você está andando aí, de repente, buff, caiu morto, porque lá do outro lado o cara botou um tiro colocado.

Mário Sérgio – Estava falando o seguinte: dois blindados da Marinha, eles andam juntos. Aí entrava a Core com a tropa do Bope por essa via que dá acesso à Comlurb. Passou o primeiro blindado do Coqueiro, ele vai para o antigo destacamento da Polícia Militar. Ali é entrar, tentar aquelas lajes. Aquelas lajes são boas (…) Pois passou do Coqueiro e chegou ao destacamento, fica com duas regiões tomadas que não têm mais como fazer tiro na nossa tropa aqui embaixo, pode fazer de dentro de alguma casa ou de alguma coisa assim. Laje mais alta eles não vão ter.

Roberto Sá – Tem que ter muita informação antes de tomar decisão. A informação tem que checar.

Beltrame – Chegada a hora, se precisar, vai progredir aos poucos…

Mário Sérgio – Depois que a gente conseguir pegar uma peça alta, um apartamento, um troço qualquer, o negócio é ir consolidando isso.

Beltrame – Tem que fazer esse briefing e coordenar mais na Polícia Civil, que deve voar mais baixo que os da Aeronáutica.

Mário Sérgio (ao telefone) – Eles disseram a quantos pés vão voar? Deixa eu falar com o brigadeiro. Brigadeiro, a gente está falando dessa questão.

Beltrame – Até hoje eu acho que a gente tinha que fazer uma coordenação para ver quem está responsável por um tipo de supervisão deste trabalho, quem está vistoriando, se estão vistoriando, não sabemos quem é quem.

Mário Sérgio – Secretário, vou encontrar agora esse coronel para dizer que a gente tem que ter cobertura de fogo, ele tem que voar a uma altura, a aeronave é blindada, uma altura que permita dar tiro com segurança.

Roberto Sá – Delegacia: a gente tem que estar decidido para onde vai levar a ocorrência para não bater cabeça.

Turnowski – Vou botar uma delegacia especializada que receba todo mundo, perto ou longe, é vai e volta, porque delegacia da área pode dar tumulto (…).Vou montar um cartório só para as ocorrências.

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Na noite do dia 26, sexta-feira, o governador Sérgio Cabral me ligou. Fez isso com todo o cuidado, pois não desejava aumentar a pressão. Foi além: reuniu seus secretários e assessores diretos e se deslocou até o meu gabinete. Não queria saber dos detalhes, tínhamos total autonomia para executar o plano. Ele apenas foi reforçar seu voto de confiança, para que ficássemos tranquilos, pois, ao final, a sociedade iria reconhecer o que estávamos fazendo. Horas depois, tive de avisá-lo que adiaríamos a operação por mais um dia.

Nas primeiras horas do dia 27, sábado, várias informações foram captadas pelo setor de Inteligência. Havíamos montado uma grande sala, num andar abaixo do meu, para reunir e organizar tudo o que chegava pelas mais diversas fontes: informantes, escutas, colaboradores.

Tenho para mim que a grande movimentação nas ruas do entorno do Complexo, a presença ostensiva das Forças Armadas, o bombardeio de notícias pela imprensa e a crescente indignação da sociedade contribuíram para arrefecer os ânimos dos traficantes diante de um inevitável confronto. Ainda assim, não havia garantias de que poderíamos evitar o banho de sangue.

Um novo ingrediente havia entrado na pauta: circulou a tese de uma possível rendição dos traficantes acuados no Complexo. Ou seja, alguns dos bandidos mais perigosos do Brasil estariam dando sinais de fraqueza. A sinceridade da proposta nunca me convenceu, mas decidimos dar uma chance para evitar uma batalha campal. O comandante da Polícia Militar à época, coronel Mário Sérgio, foi o maior entusiasta da ideia.

De certa forma, parecia que o passar do tempo nos era favorável, pois as pessoas em casa poderiam refletir melhor e entender quão crítico era o momento para o Rio de Janeiro. Para reforçar essa estratégia de transparência, despachei o subsecretário Edval Novaes para uma missão pouco comum na polícia. Ele passou mais de uma hora na internet, respondendo e explicando diretamente para a população, por meio das mídias sociais, o que estávamos fazendo e a importância do que estava para acontecer. No dia da retomada, foi a minha vez. Alcançamos uma audiência enorme.

Na véspera, com tudo pronto, descobri que uma batalha silenciosa estava em andamento. Combinara com Rita, minha esposa, Dirceu Viana, meu assessor, e a esposa dele de tomar uma cerveja no restaurante da Livraria da Travessa, em Ipanema. Havia dias não conseguíamos um minuto para relaxar e ter uma conversa leve. Já havíamos passado e repassado os cenários ao limite da sanidade e era necessário um respiro, uma visita ao mundo dos normais. Para nossa surpresa, as portas se fecharam quando pisamos na calçada, ainda por volta das 22h. As ruas do bairro estavam completamente desertas. Os boatos de que traficantes da Rocinha iriam fazer um grande arrastão na Zona Sul levaram a livraria e muitos restaurantes a encerrar o expediente bem antes do horário. Ali o desafio era de outra natureza. Não só a guerra do tiro, mas também a guerra da confiança precisava ser vencida. E ambas eram árduas.

O esforço logístico de deslocamento dos policiais em todo esse cenário era tão grande que concluímos que, como o cerco estava garantido, o melhor para a tropa e para a organização era adiar a entrada no Complexo por mais um dia. No sábado, dia 27, estávamos todos novamente debruçados sobre mapas e informes de difícil confirmação. O Dia D ficara para o domingo.

27 de novembro de 2010,
véspera da retomada do Complexo do Alemão.

Roberto Sá (ao telefone) – Se for acontecer essa rendição, tem que ser hoje. Amanhã a gente tem que entrar. Hoje, antes do entardecer. (Dirigindo-se às pessoas da reunião): Um mediador tá dizendo que o Fabiano tá cagado.

Beltrame – Falaram com o Fabiano?

Roberto Sá – Mas quem mora na favela passa do lado do traficante.

Beltrame – O cara sabe onde está o criminoso número um do Rio de Janeiro, quiçá do Brasil…

Roberto Sá – Estão tentando fazer o que a gente está tentando pela mídia: convencer os caras a se entregarem.

Beltrame – Tem que parar com esse leva e traz até as 21h.

Turnowski – Só que essa solução ontem, os mediadores estavam à 1h15 falando no radinho que iriam se entregar (…) Hoje de manhã, quando eles colam no Mário com a mesma conversa, ele está com autorização para fazer. Se eles não saírem do morro, quem deu autorização para ficar? Aí o Mário já está no problema dele. Eu pulei fora sabe a que horas? Às duas da tarde (…)

Dirceu Viana – Vou ver se consigo espalhar para os jornalistas que a gente conseguiu um monte de óculos de visão noturna. Tem gente me ligando.

Roberto Sá – Escureceu, não se entregou, acabou.

Beltrame – A Inteligência tá passando, com várias informações batendo, de que eles estão nas casas do Mineiro…

Roberto Sá – A informação que chegou aqui. Alguém que mandou pra alguém que mandou pra gente: os traficantes vão entregar 30 pessoas com ficha limpa. Os caras vão ser ameaçados se não se entregarem. E com todo o alvoroço vão tentar vazar.

Turnowski – Tive essa informação mais cedo: tá saindo que eles vão usar isso para ganhar tempo. Então é o que a gente falou aqui: se não tiver mandado e arma, pode se entregar. Vai ficar preso o quê? Três dias? Cinco dias? Um mês até o interrogatório? Vai sair. Pro cara, é bom negócio.

Dirceu – De qualquer forma, tem que ter um padrão no procedimento para mostrar pra todo mundo que prendeu, nem que depois o juiz mande soltar.

Turnowski – Vou fazer isso na Polinter, peço para o pessoal fazer lá. Depois que reunir 30, me avisa que mando pra uma delegacia; ponho os 30 presos num flagrante só.

Beltrame (ao telefone com o general do Exército) – Não sei se o senhor quer vir aqui, a operação tá nascendo amanhã de manhã. Diretrizes, locais de acesso dos policiais, vias que vão ser utilizadas, o senhor quer vir pra cá? É um prazer, então pode vir pra cá. Me diga uma coisa: é que chegam informações de várias naturezas para a gente, o que chegou para nós é que não estariam cobertos todos os pontos dos 40 pontos, não sei se isso procede. Estão? Ah, que bom, que bom. Inicialmente, um barulho aéreo às 6h, 6h30 e às 8h, a tropa progride, era isso que queria dar ciência.

Beltrame – Outra coisa que ele estava dizendo é que, a partir das 6h não passa ninguém, então, se a Polícia Civil ou a Militar tiver P2 com arma, não vai passar. Então não sei se vai operar desse jeito, se levar alguém, vai segurar.

O coronel Mário Sérgio chega à reunião.

Mário Sérgio – Vamos fazer inquietação a noite toda. Mas tem todo o trânsito desnecessário. Cheguei lá agora e ainda estava aberta. Mandei fechar, proibi todo e qualquer táxi de entrar, então não tem trânsito na área. Só está na área quem está trabalhando e os jornalistas, como você pediu (para Dirceu). (…) Eu mandei comprar spray branco e vou distribuir para cada comandante de fração meu. Qualquer fuzil que for apreendido vai tomar logo uma talagada de spray branco para poder saber. Quem olhar um cara saindo com qualquer coisa de spray branco na mochila, é coisa apreendida.

(…)

Roberto Sá – Só vai entrar depois que a aeronave cumprir o papel dela.

Paulo Henrique – Comandante, vamos fazer o seguinte: concentração às 7h, o deslocamento vai se iniciar um pouco antes das 8h.

Mário Sérgio – Eu não gostei desse horário. Achei esse horário tarde demais.

Rodrigo – Mas se entrar antes da aeronave, vai ter tiro amigo.

Mário Sérgio – Só vai entrar quando ele der a volta.

Turnowski – Se botar o policial na ponta, se for o cara de tropa de elite, ele começar a tomar tiro, ele não vai ficar, ele não vai ficar, ele vai entrar.

Paulo Henrique – Ligaram para o comandante da Marinha, e ele cedeu o carro.

Mário Sérgio – A Light não sei se fez isso, a Prefeitura. Pedi que colocassem holofotes.

Paulo Henrique – O que ele pode fazer é apagar uns 10 minutos.

Dirceu Viana – Tem de convencê-los a desistir na guerra psicológica. Se puder fazer um auê…

Paulo Henrique – Aí é um auê.

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Entra na sala o general Adriano Pereira Júnior, que, na época, era comandante militar do Leste e deu suporte decisivo ao cerco. O Exército ficou responsável por fechar mais da metade das saídas do Complexo.

Mário Sérgio – General, é óbvio, uma série de providências são necessárias para que nós possamos ter esse assalto amanhã. Nós temos o Exército cercando diversos pontos, a Polícia Federal, a própria Polícia Militar, a Polícia Civil, neste esforço de cerco amanhã. Nós temos uma atividade coordenada antes de entrar propriamente no Alemão, porque o lado de cá, Baiana e Adeus, são dois pontos de comandamento que a gente precisa tomar que estão sob o domínio do Comando Vermelho. Aqui na Baiana não é assim muito expressivo, mas no Morro do Adeus eles têm muitos fuzis, então nós, de manhã, temos um assalto cedo aqui pela manhã, vamos tomar esse ponto e aqui vai ser o meu princípio, depois que eles tomarem, eu vou me estabelecer aqui. Nós temos aqui nesta área, eles vão poder se entregar, se render, caso queiram sair com as armas levantadas. É um ponto onde só existe participação de pessoas que estão trabalhando, o próprio Exército, os fuzileiros, a própria polícia e os jornalistas também vão tendo acesso a isso que tá aqui. Se houver essa rendição, é possível que venha um deslocamento em massa de curiosos, coisas assim. Nós vamos tentar controlar como polícia, mas é importante que o Exército esteja em condições também de impedir essa fuga em massa para cá. É uma solicitação que faço ao senhor.

Paulo Henrique – Esses fogos para tentar tirar as posições deles de vantagem sobre as lajes, a informação que se tem é que muitas lajes têm muito armamento, pessoas com uma condição de tiro muito boa. Então vai ser feito, três aeronaves fazendo disparos aqui. Terminada essa sessão, a gente vai ter o status para a invasão. Enquanto o fogo está acontecendo, as tropas vão se aproximando. A operação tem que ser feita por setores muito bem definidos. Joaquim Queirós, Central e Paranhos. A Polícia Civil vai fazer direção subindo. Isso aqui é uma elevação. Esta estrada foi por onde fugiu o pessoal da Vila Cruzeiro. Essa subida é do Coqueiro (…). E a gente vai desdobrando com vários objetivos até o limite da nossa área operacional, que é a Canitar. Outro ponto importante para nós da Fazendinha até o Morrão da Fazendinha, que é parte dominante nesta área, um dos objetivos do Bope. No outro flanco, utilizando até a vantagem que nós temos de acessar pela Vila Cruzeiro, nós vamos tomar alguns pontos passando por cima dos mineiros, como já fizemos ontem; chegamos aqui ontem, fizemos alguns disparos.

Beltrame – Aqui é você que vai estar? Tenho informação boa de que tem uns bandidos armados que estão aqui.

Paulo Henrique – Eu só vou descer depois que tiver tomado o Morrão. Porque, se descer aqui com o Morrão ainda sob controle deles, fogo direto.

Rodrigo – Quais são as grandes dificuldades que a gente tem aqui no Complexo? São várias. Combate aproximado ali, como em qualquer outra comunidade, a gente está pra lá de acostumado. A dificuldade que se tem aqui, para você progredir aqui, você tá tomando tiro a um campo de distância, então, se a gente não tomar essas elevações maiores e irradiar para o flanco das encostas, o pessoal vai ser atingido não pelo combate frontal, mas pelo tiro que está vindo de 100, 200 metros de distância. Isso é um complicador, porque atiram de dentro de casa… E dentro da progressão do Bope e da Polícia Militar, que veio pelo lado de cá. Os dois pontos mais altos são a Central e o Morrão. Exatamente nesta área passa uma torre de alta tensão. De resto é isso, 8h entrando, a gente vai tomar esses pontos, depois nossos objetivos, depois é de casa em casa, casa em casa…

General Adriano – Nossa preocupação é que chegou lá, são 8h, quem é que vai estar aqui, como é que vocês vão chegar? Se o Bope vai chegar pela Vila Cruzeiro… De repente, cessa o fogo de vocês, porque nós estamos aqui dentro e está uma lenha. E a coordenação nem é comigo. Tem que fazer com o oficial. Se puder passar para o pessoal operacional de lá… Eu acho que era excelente, era necessário para evitar (…). A operação em si eu vejo muito bem planejada, mas que pode haver um fogo amigo, um troço desse.

Mário Sérgio – Eu estava fora. Aí ele colocou uma preocupação que vou discutir agora. Depois que a gente entrar e o pau cantar, vai de um camarada meter a roupa da PM ou sair com um colete da Polícia Civil com um fuzil nas costas. A gente tem que definir agora qual é a conduta, porque você pode abordar o cara. Olhou, não tem aquele aspecto de polícia – e às vezes tem policial que não tem aspecto de polícia tanto na minha corporação quanto na Civil –, o que o Exército vai fazer? A minha sugestão é que aborde.

Roberto Sá – Ia dar uma sugestão agora. Cada fração de tropa vai ter seu comandante, todo comandante vai lá e pergunta quem é o seu comandante. O cara que for abordado…

General Adriano – Isso, junto com nosso bloqueio tem que botar um policial.

Mário Sérgio – Em cada bloqueio vai ser difícil. São muitas unidades.

General Adriano – Na nossa avaliação, nós teríamos alguém que está sabendo, que está falando com essa operação. Olha, tá acontecendo isso, tá vindo do beco. O Bope está descendo pela rua tal. Vocês estão planejando, mas vocês sabem muito bem que, de repente, vai haver uma conduta, uma oportunidade de perseguição. Tem que chegar um contato lá para a tropa… Se eu ouvir depois, de repente, a tua tropa tá aqui, tá com algum problema, tem que escoar pra cá, aí o oficial de ligação informa… Como vocês vão operar não é problema nosso, problema nosso é como vamos poder integrar a nossa posição.

Beltrame – Bom, gente, isso aqui não vai resolver o problema do Rio de Janeiro, mas das batalhas que nós temos, eu lhe garanto, general, que a gente ganhou a pior. Guerra tem mais um monte. Tem um prenúncio de, se vencer isso aqui, é um prenúncio muito positivo.

General Adriano – Tem que continuar. (…) É uma tremenda responsabilidade isso, tá se vendo no mundo todo. Agora essa operação a repercussão que teve a Vila Cruzeiro foi maravilhosa. (…) O pessoal não sabe o que é morar numa área dominada. O pessoal não sabe o que é ouvir o relato do soldado chegando no quartel chorando, contando o que aconteceu à noite. Não sabe o que é favela dominada. A população é submetida. Chegar e falar: esta casa hoje é ponto de venda, sai da casa. Uma porção de gente acha que o traficante até ajuda a comunidade. Não é nem assistencialista; nada.

Mário Sérgio – De manhã, eu tenho que ir ao 41o Batalhão dar o recado para a tropa. Vou ter um briefing operacional e um briefing disciplinar para a tropa. Vou dizer para eles que quem eu pegar fazendo besteira eu vou expulsar com tropa formada, que a minha corregedoria tá toda lá, então vou avisar… Vou fazer algo que em 20 anos não tem na polícia, que é expulsão com tropa formada se eu pegar gente fazendo besteira.

Beltrame – É uma experiência nova para todos nós.

General Adriano – Todos nós estamos aprendendo. Nós mesmos, internamente, estamos aprendendo um monte de coisa lá. O que vamos levar de mais vantagem é o aprendizado que nós estamos tendo aí. E totalmente diferente a região de fato do Haiti. No Haiti, a favela é tudo pátio, plano.

Beltrame – Não tenho dúvida de que hoje à noite vai ser o último suspiro…

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José Mariano Beltrame

Sobre o autor

José Mariano Beltrame

Um dos idealizadores do projeto Unidade de Polícia Pacificadora, as UPPs, aplicadas no estado do Rio de Janeiro e com possível expansão para o estado de Pernambuco e outros. Em novembro de 2010 foi um dos principais articuladores da operação de tomadas das favelas da Vila Cruzeiro e na sequência, da invasão do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, em 2007. Nesta operação foi realizada a apreensão de mais de 42 toneladas de maconha, 330 kg de cocaína, crack, armamentos pesados, grande quantidade de munições, carros e motos, além da desarticulação no tráfico de drogas com a prisão de diversos chefes do narcotráfico.

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