A roda da vida - Sextante
Livro
Livro
HISTÓRIAS REAIS

A roda da vida

A roda da vida

ELISABETH KÜBLER-ROSS

“É com muito entusiasmo que recomendo esse livro.” – Brian L. Weiss

 

Elisabeth Kübler-Ross foi uma médica à frente de seu tempo, responsável por mudar a forma como o mundo enxergava a morte. Através de seus vários livros e muitos anos de trabalho dedicados a crianças, pacientes com aids e idosos com doenças terminais, ela trouxe consolo e compreensão para milhões de pessoas que tentavam lidar com a própria morte ou com a de entes queridos.

Neste emocionante relato, a médica conta a história de sua vida e aprofunda sua verdade final: a morte não existe.

Escrita com franqueza e entusiasmo, a autobiografia de Elisabeth reconstitui o desenvolvimento intelectual e espiritual de um destino. As convicções que enfrentaram dogmas, preconceitos e críticas já estavam presentes na menina suíça quando a jovem se viu pela primeira vez diante das injustiças do mundo e jurou acabar com elas.

Do seu trabalho na Polônia devastada pela guerra à sua forma pioneira de aconselhamento terapêutico aos doentes terminais, de seus lendários seminários na Universidade de Chicago sobre a morte e o morrer às suas surpreendentes conversas com os que reviveram depois da morte, cada experiência proporcionou a Elisabeth uma peça do grande quebra-cabeça.

Em uma cultura que trata a morte como tabu, ela desafiou o senso comum ao debater e expor a etapa final da existência para que não tivéssemos mais medo dela.

A roda da vida é uma aventura comovente e inspiradora, um legado à altura de uma vida extraordinária.

“É com muito entusiasmo que recomendo esse livro.” – Brian L. Weiss

 

Elisabeth Kübler-Ross foi uma médica à frente de seu tempo, responsável por mudar a forma como o mundo enxergava a morte. Através de seus vários livros e muitos anos de trabalho dedicados a crianças, pacientes com aids e idosos com doenças terminais, ela trouxe consolo e compreensão para milhões de pessoas que tentavam lidar com a própria morte ou com a de entes queridos.

Neste emocionante relato, a médica conta a história de sua vida e aprofunda sua verdade final: a morte não existe.

Escrita com franqueza e entusiasmo, a autobiografia de Elisabeth reconstitui o desenvolvimento intelectual e espiritual de um destino. As convicções que enfrentaram dogmas, preconceitos e críticas já estavam presentes na menina suíça quando a jovem se viu pela primeira vez diante das injustiças do mundo e jurou acabar com elas.

Do seu trabalho na Polônia devastada pela guerra à sua forma pioneira de aconselhamento terapêutico aos doentes terminais, de seus lendários seminários na Universidade de Chicago sobre a morte e o morrer às suas surpreendentes conversas com os que reviveram depois da morte, cada experiência proporcionou a Elisabeth uma peça do grande quebra-cabeça.

Em uma cultura que trata a morte como tabu, ela desafiou o senso comum ao debater e expor a etapa final da existência para que não tivéssemos mais medo dela.

A roda da vida é uma aventura comovente e inspiradora, um legado à altura de uma vida extraordinária.

Compre agora:

Compartilhe: Email
Ficha técnica
Lançamento 09/01/2017
Título original THE WHEEL OF LIFE
Tradução MARIA LUIZA NEWLANDS SILVEIRA
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 320
Peso 280 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0454-6
EAN 9788543104546
Preço R$ 44,90
Ficha técnica e-book
eISBN 9788575426593
Preço R$ 24,99
Lançamento 09/01/2017
Título original THE WHEEL OF LIFE
Tradução MARIA LUIZA NEWLANDS SILVEIRA
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 320
Peso 280 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0454-6
EAN 9788543104546
Preço R$ 44,90

E-book

eISBN 9788575426593
Preço R$ 24,99

Leia um trecho do livro

1. Nada acontece por acaso

Há anos tenho sido perseguida por certa má reputação. Na verdade, as pessoas costumam me ver como Aquela Senhora que Fala Sobre a Morte e o Morrer. Acreditam que o fato de eu ter passado mais de três décadas fazendo pesquisas sobre a morte e o que acontece depois dela faz de mim uma especialista no assunto. Acho que não entenderam direito.

A única coisa incontestável em meu trabalho é a importância da vida.

Sempre digo que a morte pode ser uma das maiores experiências que se pode ter. Se você vive bem cada dia de sua vida, não tem
o que temer.

Talvez este, que certamente é meu último livro, torne isso mais claro. Poderá também despertar novas perguntas e quem sabe até mesmo fornecer algumas respostas.

Hoje, aqui sentada nesta sala cheia de flores de minha casa em Scottsdale, Arizona, os últimos setenta anos de minha vida me parecem extraordinários. Aquela menina criada na Suíça jamais poderia prever, nem em seus sonhos mais extravagantes – e eles eram bastante extravagantes –, que acabaria sendo a autora mundialmente famosa de Sobre a morte e o morrer, um livro que, ao explorar o trecho final da vida, lançou-me no centro de uma controvérsia médica e teológica. Muito menos poderia imaginar que passaria o resto de seus dias explicando que a morte não existe.

Com os pais que tive, eu deveria ter sido uma dona de casa suíça boa e piedosa. Em vez disso, acabei vindo para o Sudoeste norte-americano e sendo uma psiquiatra obstinada, escritora e conferencista, que se comunica com espíritos de um mundo onde acredita haver muito mais amor e glória do que no nosso. A medicina moderna se tornou uma espécie de profeta que oferece uma vida sem dores. Isso é absurdo. A única coisa que conheço capaz de curar realmente as pessoas é o amor incondicional.

Alguns de meus pontos de vista são pouco convencionais. Por exemplo, ao longo dos últimos anos, sofri meia dúzia de derrames. Meus médicos primeiro me fizeram advertências e em seguida me imploraram que deixasse de fumar, tomar café e comer chocolate. Mas ainda me permito esses pequenos prazeres. Por que não? É a minha vida.

É como tenho vivido desde sempre. Se sou independente, aferrada às minhas opiniões e meus modos de ser, se estou um pouco fora dos padrões, e daí? É assim que sou.

Isoladas, as peças às vezes parecem não se encaixar bem umas nas outras.

Mas aprendi com a experiência que na vida nada acontece por acaso. As coisas que aconteceram comigo tinham de acontecer.

Era meu destino trabalhar com doentes terminais. Não tive escolha quando deparei com meu primeiro paciente com aids. Achei que precisava viajar mais de 400 mil quilômetros todo ano para coordenar seminários que ajudavam as pessoas a lidar com os aspectos mais dolorosos da vida, da morte e da transição de uma fase para outra. Mais tarde, senti o impulso de comprar uma fazenda de 120 hectares numa região rural da Virgínia, onde criei meu próprio centro de tratamento, com planos de adotar bebês com aids. E, embora seja difícil admitir, vejo que era meu destino ser obrigada a sair daquele lugar idílico.

Em 1985, depois de anunciar minha intenção de adotar bebês soropositivos, tornei-me a pessoa mais desprezada de todo o vale de Shenandoah, e, apesar de ter logo abandonado meus planos, havia um grupo de homens que fez de tudo, exceto me matar, para eu ir embora. Atiravam em minhas janelas e alvejavam meus animais. Enviavam uma espécie de mensagem que tornava perigosa e desagradável a vida naquele lugar deslumbrante. Mas ali era o meu lar e eu teimosamente me recusei a deixá-lo.

Havia me mudado dez anos antes para a fazenda, que ficava em Head Waters, na Virgínia. A fazenda concretizava todos os meus sonhos e coloquei ali todo o dinheiro que ganhara com livros e conferências para transformar esses sonhos em realidade. Ergui ali minha casa, um chalé nas proximidades e uma casa de fazenda. Construí um centro de tratamento onde realizava seminários, o que me permitiu reduzir meu frenético programa de viagens. Estava planejando adotar os bebês, para que eles pudessem desfrutar dos dias que lhes restavam em meio ao esplendor da vida ao ar livre no campo.

A vida simples da fazenda era tudo para mim. Nada era mais relaxante depois de uma longa viagem de avião do que chegar ao caminho sinuoso que levava à minha casa. O sossego da noite tinha um efeito mais calmante do que o de uma pílula para dormir. Acordava com uma sinfonia de sons de vacas, cavalos, galinhas, porcos, burros, lhamas… Toda a barulhenta bicharada dando-me boas-vindas. Os campos desdobravam-se até onde minha vista podia alcançar, cintilando sob o orvalho fresco da manhã. Árvores antigas ofereciam sua sabedoria silenciosa.

Havia trabalho de verdade a fazer. Minhas mãos ficavam sujas. Tocavam a terra, a água. Trabalhavam com a matéria-prima da vida.

Minha vida.

Minha alma estava ali.

Então, no dia 6 de outubro de 1994, puseram fogo na minha casa.

Ela queimou por inteiro e não restou nada. Todos os meus papéis foram destruídos. Tudo o que eu tinha transformou-se em cinzas.

Eu estava correndo pelo aeroporto de Baltimore, tentando pegar um avião de volta para casa, quando recebi a notícia de que tudo estava em chamas. A pessoa amiga que me contou isso insistiu que eu não fosse direto para lá, pelo menos naquele momento. Mas já tinham me dito para não seguir a carreira de médica, para não falar com pacientes terminais, para não abrir um hospital para pacientes com aids na prisão e, toda vez, eu teimosamente fiz o que achava certo, em vez de o que esperavam de mim. Dessa vez não foi diferente.

Todo mundo enfrenta momentos difíceis na vida. Quanto mais momentos difíceis enfrentamos, mais crescemos e aprendemos.

O avião seguiu zunindo. Logo, eu estava no banco de trás do carro de um amigo, correndo pelas estradas escuras do campo. Era quase meia-noite. A alguns quilômetros, vislumbrei os primeiros sinais da fumaça e das chamas. Destacavam-se contra o céu inteiramente negro. Dava para ver que era um grande incêndio. De perto, a casa, ou o que restava dela, mal se distinguia através das labaredas. Comparei a cena com estar no meio do inferno. Os bombeiros disseram que nunca tinham visto nada igual. O calor intenso manteve-os a distância a noite toda e pela manhã adentro.

Bem tarde, naquela primeira noite, procurei abrigo numa fazenda vizinha que costumava receber hóspedes. Preparei uma xícara de café, acendi um cigarro e refleti sobre aquela minha tremenda perda pessoal na fornalha enraivecida que um dia fora a minha casa. Era devastadora, atordoante, acima de qualquer compreensão. A lista incluía os diários que meu pai escrevera sobre a minha infância, meus papéis e diários pessoais, umas vinte mil anotações relacionadas à minha pesquisa sobre a vida depois da morte, minha coleção de arte nativa norte-americana, fotografias, roupas… tudo.

Por 24 horas, fiquei em estado de choque. Não sabia como reagir, se chorava, gritava, brandia os punhos para Deus ou apenas ficava pasma com a dureza da mão do destino.

As adversidades somente nos tornam mais fortes.

As pessoas sempre me perguntam como é a morte. Digo-lhes que é sublime. É a coisa mais fácil que terão de fazer.

A vida é dura. A vida é luta.

Viver é como ir para a escola. Dão a você muitas lições para estudar. Quanto mais você aprende, mais difíceis ficam as lições.

Aquela experiência foi uma dessas lições. Já que não adiantava negar a perda, eu a aceitei. O que mais poderia fazer? De qualquer forma, era só um monte de coisas, e, mesmo que fossem importantes ou tivessem valor sentimental, nada que pudesse ser comparado ao valor da vida. Eu estava ilesa. Meus dois filhos, crescidos, Kenneth e Barbara, estavam vivos. Um bando de idiotas queimara minha casa com tudo o que estava dentro, mas não tinha conseguido me destruir.

Quando aprendemos as lições, a dor se vai.

Esta minha vida, que de certa maneira começou pelo mundo afora, foi muitas coisas, mas nunca foi fácil. Isso é um fato, não uma queixa. Aprendi que não há alegria sem dificuldades. Não existe prazer sem dor. Saberíamos o que é o bem-estar da paz sem as angústias da guerra? Se não fossem as doenças, será que perceberíamos que nossa humanidade está ameaçada? Se não houvesse a morte, apreciaríamos a vida? Se não existisse o ódio, saberíamos que nosso objetivo supremo é o amor?

Como gosto de dizer: “Se protegêssemos os cânions dos vendavais, nunca veríamos a beleza de seus relevos.”

Confesso que aquela noite de outubro em 1994 foi uma dessas ocasiões em que é difícil encontrar beleza. Mas no decorrer de minha vida eu já estivera em encruzilhadas semelhantes, buscando no horizonte algo quase impossível de se enxergar. Nesses momentos, ou você cai no negativismo e procura atribuir a culpa a alguém ou opta pela recuperação e por continuar a amar. Como acredito que o único propósito de nossa existência é crescer, não tive dificuldade em tomar uma decisão.

Assim, alguns dias depois do incêndio, dirigi-me à cidade, comprei uma muda de roupas e preparei-me para o que viria em seguida.

De certa forma, esta é a história de minha vida.

1. Nada acontece por acaso

Há anos tenho sido perseguida por certa má reputação. Na verdade, as pessoas costumam me ver como Aquela Senhora que Fala Sobre a Morte e o Morrer. Acreditam que o fato de eu ter passado mais de três décadas fazendo pesquisas sobre a morte e o que acontece depois dela faz de mim uma especialista no assunto. Acho que não entenderam direito.

A única coisa incontestável em meu trabalho é a importância da vida.

Sempre digo que a morte pode ser uma das maiores experiências que se pode ter. Se você vive bem cada dia de sua vida, não tem
o que temer.

Talvez este, que certamente é meu último livro, torne isso mais claro. Poderá também despertar novas perguntas e quem sabe até mesmo fornecer algumas respostas.

Hoje, aqui sentada nesta sala cheia de flores de minha casa em Scottsdale, Arizona, os últimos setenta anos de minha vida me parecem extraordinários. Aquela menina criada na Suíça jamais poderia prever, nem em seus sonhos mais extravagantes – e eles eram bastante extravagantes –, que acabaria sendo a autora mundialmente famosa de Sobre a morte e o morrer, um livro que, ao explorar o trecho final da vida, lançou-me no centro de uma controvérsia médica e teológica. Muito menos poderia imaginar que passaria o resto de seus dias explicando que a morte não existe.

Com os pais que tive, eu deveria ter sido uma dona de casa suíça boa e piedosa. Em vez disso, acabei vindo para o Sudoeste norte-americano e sendo uma psiquiatra obstinada, escritora e conferencista, que se comunica com espíritos de um mundo onde acredita haver muito mais amor e glória do que no nosso. A medicina moderna se tornou uma espécie de profeta que oferece uma vida sem dores. Isso é absurdo. A única coisa que conheço capaz de curar realmente as pessoas é o amor incondicional.

Alguns de meus pontos de vista são pouco convencionais. Por exemplo, ao longo dos últimos anos, sofri meia dúzia de derrames. Meus médicos primeiro me fizeram advertências e em seguida me imploraram que deixasse de fumar, tomar café e comer chocolate. Mas ainda me permito esses pequenos prazeres. Por que não? É a minha vida.

É como tenho vivido desde sempre. Se sou independente, aferrada às minhas opiniões e meus modos de ser, se estou um pouco fora dos padrões, e daí? É assim que sou.

Isoladas, as peças às vezes parecem não se encaixar bem umas nas outras.

Mas aprendi com a experiência que na vida nada acontece por acaso. As coisas que aconteceram comigo tinham de acontecer.

Era meu destino trabalhar com doentes terminais. Não tive escolha quando deparei com meu primeiro paciente com aids. Achei que precisava viajar mais de 400 mil quilômetros todo ano para coordenar seminários que ajudavam as pessoas a lidar com os aspectos mais dolorosos da vida, da morte e da transição de uma fase para outra. Mais tarde, senti o impulso de comprar uma fazenda de 120 hectares numa região rural da Virgínia, onde criei meu próprio centro de tratamento, com planos de adotar bebês com aids. E, embora seja difícil admitir, vejo que era meu destino ser obrigada a sair daquele lugar idílico.

Em 1985, depois de anunciar minha intenção de adotar bebês soropositivos, tornei-me a pessoa mais desprezada de todo o vale de Shenandoah, e, apesar de ter logo abandonado meus planos, havia um grupo de homens que fez de tudo, exceto me matar, para eu ir embora. Atiravam em minhas janelas e alvejavam meus animais. Enviavam uma espécie de mensagem que tornava perigosa e desagradável a vida naquele lugar deslumbrante. Mas ali era o meu lar e eu teimosamente me recusei a deixá-lo.

Havia me mudado dez anos antes para a fazenda, que ficava em Head Waters, na Virgínia. A fazenda concretizava todos os meus sonhos e coloquei ali todo o dinheiro que ganhara com livros e conferências para transformar esses sonhos em realidade. Ergui ali minha casa, um chalé nas proximidades e uma casa de fazenda. Construí um centro de tratamento onde realizava seminários, o que me permitiu reduzir meu frenético programa de viagens. Estava planejando adotar os bebês, para que eles pudessem desfrutar dos dias que lhes restavam em meio ao esplendor da vida ao ar livre no campo.

A vida simples da fazenda era tudo para mim. Nada era mais relaxante depois de uma longa viagem de avião do que chegar ao caminho sinuoso que levava à minha casa. O sossego da noite tinha um efeito mais calmante do que o de uma pílula para dormir. Acordava com uma sinfonia de sons de vacas, cavalos, galinhas, porcos, burros, lhamas… Toda a barulhenta bicharada dando-me boas-vindas. Os campos desdobravam-se até onde minha vista podia alcançar, cintilando sob o orvalho fresco da manhã. Árvores antigas ofereciam sua sabedoria silenciosa.

Havia trabalho de verdade a fazer. Minhas mãos ficavam sujas. Tocavam a terra, a água. Trabalhavam com a matéria-prima da vida.

Minha vida.

Minha alma estava ali.

Então, no dia 6 de outubro de 1994, puseram fogo na minha casa.

Ela queimou por inteiro e não restou nada. Todos os meus papéis foram destruídos. Tudo o que eu tinha transformou-se em cinzas.

Eu estava correndo pelo aeroporto de Baltimore, tentando pegar um avião de volta para casa, quando recebi a notícia de que tudo estava em chamas. A pessoa amiga que me contou isso insistiu que eu não fosse direto para lá, pelo menos naquele momento. Mas já tinham me dito para não seguir a carreira de médica, para não falar com pacientes terminais, para não abrir um hospital para pacientes com aids na prisão e, toda vez, eu teimosamente fiz o que achava certo, em vez de o que esperavam de mim. Dessa vez não foi diferente.

Todo mundo enfrenta momentos difíceis na vida. Quanto mais momentos difíceis enfrentamos, mais crescemos e aprendemos.

O avião seguiu zunindo. Logo, eu estava no banco de trás do carro de um amigo, correndo pelas estradas escuras do campo. Era quase meia-noite. A alguns quilômetros, vislumbrei os primeiros sinais da fumaça e das chamas. Destacavam-se contra o céu inteiramente negro. Dava para ver que era um grande incêndio. De perto, a casa, ou o que restava dela, mal se distinguia através das labaredas. Comparei a cena com estar no meio do inferno. Os bombeiros disseram que nunca tinham visto nada igual. O calor intenso manteve-os a distância a noite toda e pela manhã adentro.

Bem tarde, naquela primeira noite, procurei abrigo numa fazenda vizinha que costumava receber hóspedes. Preparei uma xícara de café, acendi um cigarro e refleti sobre aquela minha tremenda perda pessoal na fornalha enraivecida que um dia fora a minha casa. Era devastadora, atordoante, acima de qualquer compreensão. A lista incluía os diários que meu pai escrevera sobre a minha infância, meus papéis e diários pessoais, umas vinte mil anotações relacionadas à minha pesquisa sobre a vida depois da morte, minha coleção de arte nativa norte-americana, fotografias, roupas… tudo.

Por 24 horas, fiquei em estado de choque. Não sabia como reagir, se chorava, gritava, brandia os punhos para Deus ou apenas ficava pasma com a dureza da mão do destino.

As adversidades somente nos tornam mais fortes.

As pessoas sempre me perguntam como é a morte. Digo-lhes que é sublime. É a coisa mais fácil que terão de fazer.

A vida é dura. A vida é luta.

Viver é como ir para a escola. Dão a você muitas lições para estudar. Quanto mais você aprende, mais difíceis ficam as lições.

Aquela experiência foi uma dessas lições. Já que não adiantava negar a perda, eu a aceitei. O que mais poderia fazer? De qualquer forma, era só um monte de coisas, e, mesmo que fossem importantes ou tivessem valor sentimental, nada que pudesse ser comparado ao valor da vida. Eu estava ilesa. Meus dois filhos, crescidos, Kenneth e Barbara, estavam vivos. Um bando de idiotas queimara minha casa com tudo o que estava dentro, mas não tinha conseguido me destruir.

Quando aprendemos as lições, a dor se vai.

Esta minha vida, que de certa maneira começou pelo mundo afora, foi muitas coisas, mas nunca foi fácil. Isso é um fato, não uma queixa. Aprendi que não há alegria sem dificuldades. Não existe prazer sem dor. Saberíamos o que é o bem-estar da paz sem as angústias da guerra? Se não fossem as doenças, será que perceberíamos que nossa humanidade está ameaçada? Se não houvesse a morte, apreciaríamos a vida? Se não existisse o ódio, saberíamos que nosso objetivo supremo é o amor?

Como gosto de dizer: “Se protegêssemos os cânions dos vendavais, nunca veríamos a beleza de seus relevos.”

Confesso que aquela noite de outubro em 1994 foi uma dessas ocasiões em que é difícil encontrar beleza. Mas no decorrer de minha vida eu já estivera em encruzilhadas semelhantes, buscando no horizonte algo quase impossível de se enxergar. Nesses momentos, ou você cai no negativismo e procura atribuir a culpa a alguém ou opta pela recuperação e por continuar a amar. Como acredito que o único propósito de nossa existência é crescer, não tive dificuldade em tomar uma decisão.

Assim, alguns dias depois do incêndio, dirigi-me à cidade, comprei uma muda de roupas e preparei-me para o que viria em seguida.

De certa forma, esta é a história de minha vida.

LEIA MAIS

Elisabeth Kübler-Ross

Sobre o autor

Elisabeth Kübler-Ross

A médica que mudou a maneira como o mundo pensava sobre a morte e o morrer. Através de seus vários livros e muitos anos de trabalho com crianças, pacientes de AIDS e idosos portadores de doenças fatais, Kübler-Ross trouxe consolo e compreensão para milhões de pessoas que tentavam lidar com a própria morte ou com a de entes queridos. Em uma cultura determinada a varrer a morte para debaixo do tapete e escondê-la ali, Kübler-Ross desafiou o senso comum ao trazer e expor essa etapa final da existência para que não tivéssemos mais medo dela. Dra. Kübler-Ross faleceu no dia 24 de agosto de 2004.

VER PERFIL COMPLETO

Gosta da Editora Sextante?

Assine a nossa newsletter e receba as novidades.

Administração, negócios e economia
Autoajuda
Bem-estar, espiritualidade e mindfulness
Biografias, crônicas e histórias reais
Lançamentos do mês
Mais vendidos
Audiolivros
Selecionar todas
Administração, negócios e economia Lançamentos do mês
Autoajuda Mais vendidos
Bem-estar, espiritualidade e mindfulness Audiolivros
Biografias, crônicas e histórias reais Selecionar todas