A vida perfeita não existe - Sextante
Livro

A vida perfeita não existe

Daiana Garbin

DA MESMA AUTORA DE FAZENDO AS PAZES COM O CORPO. 

Numa conversa franca e inspiradora, Daiana Garbin fala sobre culpa, vergonha, inveja, raiva, ressentimento, autopunição e apego ao sofrimento, apontando um caminho para aprendermos a abraçar – em vez de negar – as sombras que fazem parte de nós.   

 

“Estamos adoecendo em busca de pertencimento, aprovação, reconhecimento, amor e felicidade. Convido você a conhecer um caminho novo para uma vida possível, que é muito diferente daquela que idealizamos. Esse ca­minho começa por aceitar que não existe vida sem sofrimento, e é a sua relação com a dor que vai lhe ensinar a ser mais feliz.” Daiana Garbin

       

                                    

Em 2016, quando decidiu deixar a carreira de repórter de TV para criar o canal EuVejo, no YouTube, Daiana não imaginava que se tornaria uma das principais vozes a falar sobre transtornos alimentares e problemas de autoimagem no Brasil.

Ao lançar Fazendo as pazes com o corpo, em 2017, ela iniciou uma corajosa discussão sobre a busca por um padrão de beleza inatingível e suas implicações em nossa saúde física e emocional.

Desde então, recebeu milhares de mensagens de pessoas compartilhando suas angústias em relação ao corpo e à insatisfação com a vida. Essas histórias a levaram a questionar: por que nos sentimos tão incompletas e inadequadas?

Em A vida perfeita não existe, Daiana divide conosco sua jornada à procura de respostas. Com base em estudos, pesquisas, entrevistas com especialistas e depoimentos de leitores, ela traça um panorama da frustração que sentimos ao perseguir um tipo de felicidade irreal e mostra como encontrar coragem para adotar uma nova atitude em relação à vida.

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Ficha técnica
Lançamento 19/08/2020
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 160
Peso 250 g
Acabamento brochura
ISBN 978-65-5564-024-3
EAN 9786555640243
Preço R$ 39,90
Ficha técnica e-book
eISBN 978-65-5564-025-0
Preço R$ 24,99
Ficha técnica audiolivro
ISBN 9786555644227
Duração 05h 31min
Locutor Daiana Garbin
Preço US$ 7,99
Lançamento 19/08/2020
Título original
Tradução
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 160
Peso 250 g
Acabamento brochura
ISBN 978-65-5564-024-3
EAN 9786555640243
Preço R$ 39,90

E-book

eISBN 978-65-5564-025-0
Preço R$ 24,99

Audiolivro

ISBN 9786555644227
Duração 05h 31min
Locutor Daiana Garbin
Preço US$ 7,99

Leia um trecho do livro

INTRODUÇÃO

Oi, meu nome é Daiana e por muitos anos me senti insuficiente, inadequada e fracassada. Era como se dentro de mim existisse um buraco impossível de ser preenchido. Sim, eu sei que pode parecer estranho começar um livro assim. Mas, depois de muito refletir, escolhi exatamente essa frase para começar porque sei que você também se sente desse jeito. E provavelmente finge que está feliz, que é segura e realizada, como eu fiz quase a vida toda. Mas só você sabe quanto sofre com a insuficiência, a inadequação e a sensação de desamparo.

Não sei por quê, mas desde muito jovem, não importa onde eu esteja – no supermercado, na rua, no trânsito, em restaurantes, no avião –, sempre que olho para uma pessoa, a primeira coisa que penso é: será que ela é feliz? Qual será a dor dela? Será que ela chorou de tristeza hoje? Será que está angustiada? Tenho mania de não acreditar facilmente na felicidade e achar que todo mundo está sofrendo. Parece que eu sinto. Eu vejo.

Foi graças a esse desejo de falar que eu vejo você, que eu vejo a sua dor, que lancei o canal “EuVejo”, no YouTube, em 2016, e meu primeiro livro, Fazendo as pazes com o corpo, em 2017. Desde então, passei a receber milhares de mensagens de pessoas em sofrimento. Pessoas de todas as idades, condições financeiras, de todos os graus de instrução, de todas as cores e amores. Homens e mulheres extremamente infelizes com a vida que levam. Pessoas sem nenhum estudo e pessoas com pós-doutorado. Todas se sentem da mesma forma: inseguras, inadequadas, fracassadas, infelizes. O que está acontecendo?

Não sou profissional de saúde mental e este livro não é um guia médico ou psicológico. Sou uma curiosa estudiosa e uma mulher que sofre, como você. Então fui em busca de respostas. Obviamente, não encontrei todas as explicações para as causas do sofrimento humano, mas depois de quatro anos de estudos, pesquisas, entrevistas com dezenas de profissionais que investigam a mente humana e da análise de mais de 3 mil depoimentos de pessoas em sofrimento, descobri algumas coisas que quero compartilhar com você.

A primeira delas é que vivemos uma perpétua sensação de insuficiência, o que vou chamar de sensação de inadequação/fracasso/vergonha/culpa/insegurança/vazio/desamparo. Ao longo deste livro, vou mostrar como estamos adoecendo em busca de pertencimento, aprovação, reconhecimento, amor e felicidade. Sim, a gente adoece de tanto tentar ser feliz! Não é curioso? O desejo de reconhecimento nos escraviza. O desejo de afeto, de sermos sempre amadas, nos escraviza. O desejo de estar preenchida nos escraviza porque buscamos a plenitude como a única via possível de felicidade.

Vivemos a ilusão de que um dia nos sentiremos completas, de que estaremos totalmente seguras, protegidas, e só então poderemos gozar da felicidade. Acontece que jamais estaremos plenas, completas, totalmente preenchidas, sem vazios. Somos seres desejantes. Desejamos porque falta algo. Falta algo porque desejamos sempre mais e mais.

Não existe o momento mágico em que o vazio deixará de existir, em que você vai parar de desejar, em que o sofrimento vai desaparecer e você vai desfrutar de uma felicidade esfuziante e permanente. O objetivo deste livro é mostrar que isso não vai acontecer. A felicidade absoluta não é possível para o ser humano. No entanto, em geral não temos consciência disso e vivemos em busca da vida perfeita. Isso gera uma constante desestabilização psíquica – basta perceber quantas pessoas tomam ansiolíticos, antidepressivos ou remédios para dormir porque não conseguem lidar com a rotina.

Ficamos completamente cegas em busca dessa felicidade idealizada. Ansiando por uma vida livre de sofrimento e tentando lidar com o medo e a vergonha de não sermos boas o bastante, caímos na perigosa armadilha de desejar algo impossível. Nessa busca insana, estamos fadadas à frustração, porque a “invejável perfeição” e a “invejável felicidade” que almejamos simplesmente não existem.

Precisamos mudar nossa relação com a felicidade e com o sofrimento. A felicidade esfuziante que buscamos existe somente em episódios, assim como a dor e a tristeza. A vida é neutra a maior parte do tempo. Não acontecem coisas extraordinárias nem tragédias todos os dias.

Pense nos últimos sete dias da sua vida. Você vai reparar que teve muito mais de ordinário, comum, simples, neutro do que de incrível, terrível ou extraordinário. Vivemos muito mais tempo na neutralidade do que no prazer absoluto. Não há nada de fascinante ou fora do comum em quase todos os dias na minha vida e aposto que na sua também não. Isso é o que eu chamo de “vida neutra”. Mas eu odiava a vida neutra. Tinha a fantasia de que a “vida perfeita” dos outros era sempre radiante, incrível e extraordinária, e que a minha “vidinha medíocre” era uma droga. A grande mudança aconteceu quando aprendi a ver felicidade na neutralidade, no simples, no comum.

Em meio a nossa rotina neutra, vivemos episódios de muita alegria e de muita dor. O problema é que não aceitamos nem a neutralidade nem o sofrimento. Queremos só a alegria, o prazer, as coisas boas, e é aí que começa a infelicidade. Para chegar à tal “felicidade”, precisamos olhar fundo para o vazio, para a insuficiência, para a inadequação, para a sensação de fracasso, para os sentimentos de culpa, vergonha, ressentimento e inveja.

Este livro é um convite para mergulhar no lugar mais imprevisível, contraditório, ambivalente e, por vezes, assustador em que você já esteve: os seus pensamentos.

Vai doer? Vai. Você vai sentir raiva de mim? Sim, muitas vezes. Provavelmente vai ter vontade de parar de ler. Vai jogar este livro em um canto e dizer que eu sou uma louca invejosa e obsessiva. (O que sou também, mas não só!) Porém, depois de um tempo, você vai pegá-lo novamente e ler até o fim. Eu sei que isso vai acontecer, porque somos mais parecidas do que você imagina.

Em algumas partes vai até achar que foi você quem o escreveu. Sabe por quê? Porque você também sente as mesmas coisas que eu. Você também só quer ser feliz e evitar o sofrimento. Eu sei, eu sinto. Eu vejo você. Todos nós, mulheres e homens, somos iguais no desejo mais profundo e genuíno de amor e felicidade.

Por isso eu gostaria de lhe apresentar uma forma diferente de lidar com o sofrimento. Convido você a conhecer um caminho novo para uma vida possível, factível, que é muito diferente daquela que idealizamos. Esse caminho começa por aceitar que não existe vida sem dor, e, por mais contraditório que possa parecer, é sua relação com a dor que vai lhe ensinar a ser mais feliz.

Este livro não é apenas a minha história. É também a sua história e a de milhares de pessoas que me mandaram mensagens revelando o cenário interior de vergonha, medo, desespero, ódio ou tristeza que estamos vivendo.

Assim como no meu livro anterior, optei por me referir a você sempre no feminino porque a grande maioria do meu público é composta por mulheres. Minha intenção é que você se sinta representada, compreendida, acolhida, como se estivesse entre amigas. No entanto, como trato de sentimentos universais, que rompem as barreiras de gênero e são vivenciados por todos nós, eu gostaria que os homens também se sentissem acolhidos nesta conversa. Eu sei que você que é homem também vai se identificar com muitos sentimentos e situações sobre os quais vamos refletir nas próximas páginas.

Em uma aula no curso Fundamentos da Psicanálise, a professora Salete Abrão disse: “A vida humana não é razoável.” Ouvir essa frase mudou algo dentro de mim. Comecei a estudar para tentar entender o que é ser feliz em uma vida que não é razoável, não é sensata, não é pautada pela razão, exatamente porque, no fundo, pouco entendemos de nós mesmas. Não temos acesso a muitos de nossos sentimentos e pensamentos nem temos controle sobre eles. Fazemos muitas coisas sem saber direito por quê. Diante de uma vida que não é guiada pela razão, acaba sendo fácil transformar nossos dias em uma ladainha de culpa, arrependimentos, raiva, mágoa e inveja, como uma música chiclete, repetindo sempre o mesmo refrão. Viramos escravas dos nossos pensamentos e da nossa incapacidade de nos perdoar e mudar.

Como o ser desejante que sou, escrevi este livro com a intenção de lhe dar coragem para pensar sobre os seus sentimentos e as suas emoções. Para pensar sobre o desamparo, a ausência, a falta. Para questionar que felicidade é essa que você está buscando. Para falar sobre o passado e sobre um caminho de cura que pode surgir a partir de tudo que você já viveu.

Contar a sua história pode aliviar o medo e a vergonha. Os monstros da sua mente vivem no escuro. Quando damos nome a uma dor, quando a colocamos em palavras, trazemos luz para ela, paramos de tentar ignorá-la. O silêncio e a negação não são as únicas opções que você tem. Você não pode curar o que não se permite sentir.

Sentir.

Quando damos nome a uma dor, quando
a colocamos em palavras, trazemos luz para ela,
paramos de tentar ignorá-la. O silêncio e a negação
não são as únicas opções que você tem. Você
não pode curar o que não se permite sentir.

 

Escrevi este livro para lhe dar coragem de sentir a ambiguidade que é ser humano. A coragem de sentir a dor, de abraçá-la, de acolhê-la e não ser escrava dela (existe uma diferença enorme nisso). Coragem que eu não tinha e aprendi a ter. Uma pessoa só começa a se sentir livre e em paz quando aceita que existe dor em seu coração.

Também escrevi este livro para lhe dar coragem de sentir a neutralidade. A paz e a calma têm muito mais em comum com a neutralidade do que com a explosão de alegria que você idealiza viver 24 horas por dia.

Sei que tudo isso está parecendo muito estranho. Com tantos livros, gurus e vídeos ensinando o caminho para a felicidade plena, a vida perfeita, o sucesso absoluto, o “seja o melhor”, “seja superior”, “seja um vencedor”, “seja tudo que quiser”, um livro que diz para aceitar uma vida neutra, com alguns episódios de felicidade, parece pouco, né? Muito simplório, talvez? Será?

Mas, se você ainda está com este livro nas mãos, é porque guarda uma intenção muito forte de olhar para si mesma e entrar em contato com algo inquieto, angustiante, doloroso que se esconde aí dentro. Existem milhões de livros para ler e você escolheu este! Aqui nós teremos uma conversa franca de coração para coração.

A sua mente racional, acostumada a determinados padrões de pensamento, presa a conceitos definitivos de sucesso e fracasso, de certo e errado, de felicidade e infelicidade, não vai entender nada. Ela vai querer julgar essa experiência antes mesmo de você se permitir vivenciá-la. Abra o seu coração, tente tirar os filtros que cegam você e procure ler este livro com receptividade e curiosidade, evitando se julgar a cada linha. Não prometo receita de felicidade nem nada dessas bobagens. Proponho, sim, uma viagem com muitas perguntas. Nem sempre teremos todas as respostas, mas descobriremos o poder transformador de um ponto de interrogação.

Há um lugar secreto dentro de nós

 

Ali estamos nuas

 

Ali dentro mora o que somos em
estado bruto

 

Mora a diferença entre o que penso,
falo, sinto e faço

 

Sem recalque, sem filtro, só o desejo,
o impulso, puro, livre

 

Ali está o que é impublicável

 

É para esse lugar secreto que vamos
olhar agora

CAPÍTULO 1

INVEJA, VORACIDADE E A
DESVALORIZAÇÃO DE SI MESMA

 

Você não vai gostar muito do que vou dizer agora, e é por isso que preciso dizer. É sobre aquilo que você não revela para absolutamente ninguém, mas sente, pensa e sofre. É sobre quem é você em estado bruto. É sobre o que acontece dentro de sua mente. É sobre o diálogo interno, com todos os pensamentos e sentimentos que não gostaríamos de ter, mas temos, e de que nos envergonhamos. Aquilo que tentamos esconder é o que mais precisamos aprender a tocar, olhar e compreender.

Antes de tudo, saiba que você não está sozinha. Todo mundo tem o que autores como Nietzsche, Freud, Jung, Robert Louis Stevenson chamam de “lado sombrio, obscuro”. Eu gosto de pensar também em “lado humano bruto, primitivo”. Olhar para as sombras do nosso eu, encarar nossos pensamentos, sentimentos e desejos brutos, é extremamente doloroso, mas é o único caminho possível para viver melhor. Expor esses pensamentos não seria loucura? Bem, já perdi o medo de ser considerada louca.

Há quatro anos, quando revelei que sofria de transtorno alimentar e que vivi mais de 20 anos em guerra com meu corpo e com a comida, duas coisas aconteceram: primeiro, me julgaram e me ofenderam com as piores palavras que um ser humano é capaz de usar para magoar outro. Depois, milhares de pessoas me agradeceram por ter falado abertamente sobre uma doença mental que paralisa a vida de tanta gente. Recebi, e recebo até hoje, mensagens e e-mails longos com a história de vida de pessoas que viram no meu sofrimento um local seguro para encarar a própria dor e buscar ajuda.

Meu primeiro livro, Fazendo as pazes com o corpo, se tornou um best-seller, participei de mais de 50 entrevistas nos principais veículos de comunicação do país e fui convidada para dar palestras em universidades, congressos, empresas e eventos em todo o Brasil. Por tudo isso, não tenho mais medo de falar sobre o sofrimento e o lado obscuro da nossa condição humana.

Eu descobri nos últimos anos que sou invejosa, controladora, voraz, possessiva, ciumenta. Sinto ódio, raiva, guardo rancor, tenho uma dificuldade imensa de perdoar quem me feriu e de lidar com as frustrações e com o fracasso. Sim, sou tudo isso e muito mais. E você? Não me diga que nunca sentiu inveja, raiva, ciúme; que nunca julgou ninguém nem teve pensamentos dos quais se envergonha.

Tudo bem, pode negar. Eu neguei tudo isso durante muito tempo, até aprender a admitir e aceitar que sou assim. Demorei muitos anos para entender que todo ser humano experimenta esses sentimentos em alguns momentos da vida (ou a vida toda). Hoje compreendo a nossa humanidade comum e compartilhada, a necessidade de falar sobre isso, de admitir que todos temos esses sentimentos.

Precisamos conversar sobre aquilo que nos corrói por dentro, e é pelo sentimento de que mais me envergonho que vamos começar: a inveja. Eu escrevo estas palavras com lágrimas nos olhos; lágrimas de vergonha por sentir inveja, e lágrimas de alívio por ter a coragem de admitir que sinto isso. Vamos refletir sobre o potencial destrutivo que a inveja pode ter na nossa vida, mesmo sem a gente perceber.

Este livro não faria sentido se eu dissesse que a inveja pode estar destruindo a sua vida sem contar que ela quase destruiu a minha. Quando descobri esse sentimento em mim e comecei a estudar o tema, percebi quanto da minha vida eu perdi por ficar invejando os outros e me comparando com eles. A minha perpétua sensação de insuficiência vinha da profunda inveja que se instalou em mim desde a infância.

 

Quando descobri esse sentimento em mim
e comecei a estudar o tema, percebi quanto da
minha vida eu perdi por ficar invejando
os outros e me comparando com eles.

 

 

O dia em que descobri que sou invejosa

Foi em meados de 2018, durante uma sessão de análise. Eu estava contando para a minha psicanalista sobre uma situação que havia acontecido muitos anos antes e como aquilo havia gerado uma onda de sentimentos ambíguos em mim.

Em 2006, eu ainda morava no Rio Grande do Sul e trabalhava como produtora, repórter e apresentadora em uma emissora de rádio quando fui chamada para fazer um teste para ser apresentadora na RBS TV. Desde que comecei a faculdade de jornalismo, os professores diziam que eu levava muito jeito para a carreira televisiva. Passei então a desenhar mentalmente um plano: trabalharia alguns anos em rádio, para adquirir experiência, depois tentaria ser repórter de televisão, para um dia ser apresentadora.

Meu maior sonho naquela época era apresentar o JA, o Jornal do Almoço, telejornal da RBS TV em Caxias do Sul. Eu me imaginava naquela bancada lendo as notícias do dia, conversando com os repórteres e fazendo comentários sobre a política e a economia da região. Mas eu tinha noção de que estava no meu primeiro emprego em rádio e que haveria um longo caminho de aprendizado e experiência antes de estar apta para um cargo de apresentadora de TV. Mesmo assim, criei muita expectativa sobre o teste. Procurei uma fonoaudióloga para me ajudar a melhorar a voz, treinava na frente do espelho. Ao mesmo tempo que eu sabia que não estava pronta para o cargo, tinha a esperança de ser contratada.

Participei do teste e estava confiante! Dias depois, o então chefe da RBS TV me ligou para comunicar que eu havia me saído muito bem, mas não tinha sido escolhida. Outra repórter seria a apresentadora. Na hora falei: “Tudo bem, ela merece!” Era uma jornalista que eu conhecia, havia sido minha colega em algumas disciplinas da faculdade, era muito competente, inteligente e realmente merecia o cargo.

Fui para casa muito triste naquele dia, refletindo sobre onde eu tinha errado, no que ela era melhor do que eu, o que eu deveria fazer para melhorar… essas coisas que a gente pensa quando perde uma grande oportunidade de trabalho. Mas, enfim, segui a minha vida. Em pouco tempo esqueci o ocorrido e tudo voltou ao normal.

Até que chegou o dia da estreia dela como apresentadora.

Quando eu a vi na TV, comecei a sentir uma pressão no peito, como se algo extremamente pesado estivesse pressionando o meu tórax. De repente, aquela pressão se transformou em um nó apertado na altura do coração. Era angústia misturada com raiva, e aquele nó ia ficando cada vez mais sufocante. Assim que o jornal acabou, desliguei a TV e fui tomar um banho. Entrei no chuveiro e comecei a chorar copiosamente. Sentei no chão, abracei as pernas e chorei de soluçar, como uma criança desesperada. Chorava porque eu queria muito aquilo. Chorava porque ver a minha colega naquele lugar que eu tanto desejava me causava uma dor dilacerante. Eu não conseguia suportar, parecia que meu peito ia explodir de tanta dor e tristeza.

Eu tinha vontade de arrancá-la do estúdio à força e me colocar no lugar dela. Quando me dei conta desses pensamentos, chorei mais ainda – de vergonha. Vergonha por desejar tirar algo de alguém e querer para mim. Mas era incontrolável… Era uma sensação de que haviam tomado algo que me pertencia. Algo que eu merecia e que “deveria” ser meu. Eu chorava cada vez mais de tristeza, raiva, desamparo, vergonha e culpa, tudo misturado. Quando não tinha mais lágrimas para chorar, saí do banho e segui em frente, tentando nunca mais pensar naquele dia.

Em 2018, naquela fatídica sessão de análise, esse episódio já esquecido voltou à tona. Quando contei a história em detalhes, minha analista perguntou: “Daiana, qual seria o nome disso que você sentiu?” Eu respondi: “Tristeza, raiva, ciúme.” Note que não usei a palavra “inveja”. Afinal, eu não era invejosa! Não poderia ser! Eu pensava: “Jamais senti inveja em toda a minha vida! Não sou assim, nunca fui. Não, não e não, não sou invejosa. Inveja é uma coisa horrível!” Ela insistiu e pediu que eu descrevesse melhor a sensação de querer arrancar minha colega do estúdio e tomar o lugar dela. Eu hesitei, depois comecei a chorar; não queria falar em voz alta a palavra “inveja”. Eu não podia sentir aquilo, afinal é um sentimento hostil, agressivo. Queria ser uma pessoa boa, e, na minha cabeça, pessoas boas não sentem inveja. Mas acabei percebendo que o que senti naquele momento foi, sim, inveja. Chorei muito, não conseguia me perdoar por algo tão terrível. Como assim eu sou invejosa? Sou uma pessoa má?

Como assim eu sou invejosa?
Sou uma pessoa má?

 

 Eu entendia a inveja como uma espécie de raiva, um impulso de tirar algo de uma pessoa ou destruí-lo. Um sentimento abominável que eu não queria para mim. Depois daquela sessão, passei a ter consciência de todas as vezes em que a inveja me visitou ao longo da vida. E não foram poucas…

A primeira lembrança que surgiu foi de um fato ocorrido quando eu tinha 5 ou 6 anos. Eu estava com uma vizinha, da minha idade, na esquina da minha casa em Farroupilha, no interior do Rio Grande do Sul. Minha amiguinha tinha ganhado um conjunto lindo de panelinhas cor-de-rosa e me convidou para brincar. Quando peguei um pouco de terra e grama para fazer a comida, ela disse algo como: “Não encoste nas minhas panelas! Te chamei para você olhar. Eu brinco e você fica só olhando.” É claro que não me lembro exatamente das palavras dela, mas lembro muito bem que eu não podia brincar. Havia sido convidada somente para olhar enquanto ela se deliciava com seu brinquedo novo.

Fui tomada por uma raiva tão grande que joguei, com toda a força, as panelinhas novas dela no barranco que havia perto de onde a gente estava. E fui para casa, cheia de razão, pensando: “Se eu não vou brincar, ela também não vai!” A menina foi correndo e chorando contar para a mãe dela o que eu havia aprontado. A mãe da menina foi lá em casa, na hora, falar com a minha mãe. Tomei uma bronca daquelas, tive que pedir desculpas e fiquei de castigo. Decidi contar essa história porque é importante notar que o meu impulso primitivo, aos 5 ou 6 anos, foi o de destruir, quebrar, aniquilar aquilo que eu desejei ter mas não pude.

Lembro de outra situação, aos 8 anos. Eu era a “primeira prenda mirim” da minha região – um concurso tradicional na cultura gaúcha que envolve provas de conhecimentos gerais, simpatia e habilidades artísticas – e estava participando da etapa seguinte, para eleger a primeira prenda mirim do estado. Esse título daria à ganhadora o status de guria mais inteligente e simpática do Rio Grande do Sul, e eu estava determinada a ser essa campeã. Na época, era o título máximo que uma menina de 8 anos poderia conquistar!

Eu havia começado a participar de concursos de primeira prenda naquele ano e nunca tinha experimentado uma derrota sequer em nenhuma etapa. Estudei muito, muito mesmo, para aquele concurso. Chegava da escola e passava o resto do dia estudando. Treinei muito a dança, o canto e a declamação de poesias. Eu estava muito preparada, tinha certeza de que ficaria entre as três finalistas.

No dia marcado, fui muito bem na entrevista e nas provas, mas mesmo assim perdi o concurso: fiquei em sexto lugar. Quando anunciaram o resultado e eu entendi que não seria a primeira prenda mirim do Rio Grande do Sul, senti muita raiva. Chorando, eu perguntava para a minha mãe: “Por que, mãe? O que elas têm que eu não tenho?!” Minha vontade era correr até o palco, derrubar a guria que tinha ganhado a faixa e o troféu e pegar aquele título que “deveria ser meu”. Sim, eu, uma criança de 8 anos, senti vontade de derrubar outra criança de um palco e arrancar dela algo que eu entendia como meu. (Calma, eu não fiz nada disso. Voltamos para o hotel e passei o resto da noite chorando, até dormir.)

Neste momento estou rindo de mim mesma ao contar essas situações que vivi. Rindo do meu narcisismo, da minha arrogância de achar que ninguém poderia ser melhor do que eu ou ter algo que eu não tinha. E rindo também porque, em muitos momentos da minha vida adulta, me peguei pensando em agir exatamente como a Daiana de 5, 6 ou 8 anos. Dentro de mim ainda existe essa menina invejosa, arrogante, impulsiva, possessiva, ciumenta e voraz que não admite perder nem ser privada de algo que deseja.

Hoje compreendo que foi por não saber lidar com esses sentimentos primitivos que a sensação de inadequação/fracasso/vergonha/culpa/insegurança/vazio/desamparo foi tão presente em toda a minha vida. Ela me causou tanto sofrimento que cheguei a desenvolver um transtorno alimentar porque eu realmente achava que iria “curar” esse vazio sendo cada vez mais magra. Eu não tinha clareza de que a minha percepção de ser inadequada, fracassada e insuficiente existia porque eu vivia me comparando, invejando e me desqualificando. Eu não tinha recursos emocionais para entender isso.

Descobrir que tenho um impulso de pensar de forma tão primitiva e infantil transformou a minha vida. Essa descoberta me fez refletir mais sobre cada um dos meus pensamentos e atitudes. Olhar para essa Daiana me tornou uma mulher capaz de rir de mim mesma ao me perceber agindo como uma criança, capaz de acolher os sentimentos que não posso mudar e, principalmente, capaz de mudar a forma como reajo ao que me causa sofrimento.

É doloroso olhar para as sombras do nosso eu

A dificuldade de aceitar os sentimentos condenáveis ou proibidos surge porque queremos negar, veementemente, que somos assim. Negamos para nós mesmas! Eu tentei negar que sentia inveja. Inveja, cobiça, era tudo misturado em um emaranhado de sentimentos que me fazia sofrer muito. Depois da minha descoberta, passei a ter consciência e clareza de todas as vezes em que a inveja surge, e passei a acolher, suavizar e deixar ir embora esse sentimento que eu não quero para mim. Esse reconhecimento é fundamental para aprendermos a questionar e a dar novo sentido àquilo que a gente sente.

Compreendi que precisava me dar “permissão” para sentir inveja, assim como raiva, ódio, ciúme, rancor e todas as emoções negativas que fazem parte da condição humana e que inevitavelmente vamos sentir muitas vezes ao longo da vida. Entendi também que, junto com a “permissão para sentir”, vem a responsabilidade de encarar a parte obscura de nós mesmas. É libertador quando você se permite acolher suas emoções, porque só assim desenvolve o poder de elaborar o que está sentindo, para então deixar o sentimento ir embora. Perceba como precisamos, antes de tudo, ter consciência do que estamos vivendo.

 

Compreendi que precisava me dar “permissão” para
sentir inveja, assim como raiva, ódio, ciúme, rancor
e todas as emoções negativas que fazem parte da
condição humana e que inevitavelmente vamos
sentir muitas vezes ao longo da vida.

 

 

É preciso uma dose monstruosa de coragem para admitir: sou invejosa, possessiva, ciumenta, sinto ódio, raiva e muitas coisas ruins às vezes. Só consigo escrever sobre isso porque hoje sei que ser assim não me torna uma pessoa má. Pelo contrário. Entrar em contato com meu lado bruto, primitivo e obscuro me tornou uma pessoa mais consciente e calma, me permitiu observar, nomear e sentir em vez de ser engolida pelo sofrimento que esses sentimentos geram, e assim desenvolvi a possibilidade de tocar minhas sombras com aceitação, bondade e menos julgamento.

Admitir para mim mesma que sinto essas coisas, entender que todo ser humano também sente e que isso faz parte da complexa teia de sentimentos, emoções e pensamentos que constitui a nossa psique, me libertou da prisão emocional em que eu vivia.

Tive o privilégio de aprender que todos somos bons e maus, ambíguos, contraditórios. Somos uma coexistência de sentimentos completamente opostos, uma explosão de desejos e recalques, vontades e proibições. Somos seres complexos e inexplicáveis. Compaixão, generosidade, empatia, alegria, gentileza, amor, solidariedade, inveja, mágoa, egoísmo, ciúme, possessividade, agressividade, tristeza, ódio, raiva, rancor – somos tudo isso em camadas muito complexas. E aquilo que tentamos esconder, que queremos negar a todo custo e com que evitamos entrar em contato é o que mais precisamos aprender a tocar. É da negação ou do desconhecimento de nossos pensamentos e sentimentos brutos, primitivos e por vezes obscuros que vem grande parte do nosso sofrimento emocional.

Inveja consciente e inveja inconsciente

Como é possível ser feliz e gostar de si mesma se você define a sua felicidade e o seu valor com base em tudo que você não tem e os outros têm? Nesse raciocínio, você está condenada à infelicidade eterna, porque sempre haverá coisas que alguém tem e você não. Assim como sempre haverá algo que você tem e os outros não, mas não costumamos pensar nisso. Nosso pensamento está sempre naquilo que não somos e não temos.

Durante mais de 20 anos, fui prisioneira da sensação de inadequação/ fracasso/vergonha/culpa/insegurança/vazio/desamparo. Sabe por quê? Não por ser uma coitadinha, vítima da vida, e sim porque eu não sabia viver de outra forma que não fosse invejando os outros e me comparando a eles. Eu só não percebia isso.

A etimologia da palavra “inveja” vem do latim invidia, do verbo invidere. É formada por in (dentro de) + videre (olhar), o que significa um olhar que penetra, vai para dentro do outro.1 Certamente você vai se lembrar de expressões como “mau-olhado”, “olho-grande”, “olhar de seca pimenteira”. Inveja é o olhar que penetra o outro e “seca” aquilo que ele tem e você deseja. Nessa simples descrição já podemos perceber o potencial destrutivo desse sentimento, não para a pessoa que você inveja, e sim para você mesma. A inveja se manifesta quando o desejo de ter algo é substituído por uma ânsia de que o outro não o tenha. É como se o outro tirasse o que é seu, ocupasse o seu lugar. A inveja é uma mescla de ódio, ressentimento e da sensação de que algo se tornou inalcançável.

 

A inveja se manifesta quando o desejo
de ter algo é substituído por uma
ânsia de que o outro não o tenha.

 

 

A psicanalista Melanie Klein, referência no estudo psicanalítico da inveja e autora do livro Inveja e gratidão (1957), desenvolveu a teoria segundo a qual esse sentimento aparece como componente fundamental na constituição de qualquer ser humano. Ele surge a partir da primeira falta que vivenciamos com a sensação de desamparo disparada no nosso nascimento. Para Klein, começamos a sentir inveja na nossa relação primária com a mãe e nas primeiras vivências de privação e separação que existem na relação mãe-filho. Portanto, só estaríamos completamente livres da inveja se não nos faltasse nada, mas, como sempre falta algo, sempre sentiremos inveja de alguma forma.

Não temos como negar a vastidão e a complexidade da inveja na condição humana, por isso é primordial compreendermos como esse sentimento impacta negativamente a nossa vida. Melanie Klein escreveu no livro citado:

Tenho dado uma ênfase particular à qualidade de destruição e estrago da inveja, na medida em que ela interfere na construção de uma relação segura com o objeto bom interno e externo, solapa o sentimento de gratidão e, de muitas maneiras, obscurece a distinção entre bom e mau.2

 

A “qualidade de destruição” significa que, ao invejar alguém, somos tomadas por uma tristeza/raiva enorme de apreciar algo no outro e não o ter, o que leva à autodepreciação, ao ódio por nós mesmas e ao ressentimento. As pessoas muito ressentidas com a vida estão sempre se comparando com alguém mais bonito, mais rico, mais inteligente, mais “perfeito”, como eu fazia o tempo todo. Assim, a pessoa tomada pela inveja é sempre insaciável e se sente permanentemente vazia, fracassada, porque existe uma conexão íntima entre inveja, ciúme, voracidade e fracasso.

Se uma pessoa é insaciável, ou seja, se nada é suficiente para atender ao seu desejo, ela não consegue usufruir o que a vida lhe dá, porque é sempre menos do que aquilo que quer ter. Dessa forma, ela vive em um abismo, sufocada pela angústia e pela sensação de vazio, em busca de algo que nem sabe ao certo o que é. Muitas vezes estamos vivendo, sem perceber, no abismo que criamos para nós mesmas.

Hoje percebo quanto de inveja, consciente e inconsciente, havia na minha relação doentia com a comida. Uma vez que a pessoa paralisada pela inveja se sente sempre vazia, insaciável e voraz, ela pode usar a comida para tentar preencher esse abismo que se criou dentro dela. Às vezes é pelo alimento que tentamos preencher o vazio deixado por outras faltas. Muita gente usa as drogas, o álcool, o jogo ou o sexo com essa mesma finalidade.

Muitas pessoas que me escreveram por sofrerem de transtorno alimentar relatam que viveram privações na relação primária com a mãe. É nessa relação que aprendemos – ou não – a amar e ser amados. Falhas e vazios nessa necessidade básica de amor materno podem gerar outras necessidades para o resto da vida. A pessoa procura desesperadamente ser amada, buscando em todas as suas relações compensar a falta básica do amor da mãe. Isso não significa necessariamente que a mãe não a tenha amado, e sim que, por algum motivo, a pessoa sente que não foi amada o suficiente. Pode ser uma necessidade de amor real ou imaginária.

A inveja está relacionada com o desamparo, a ausência e a privação, por isso muitas vezes não percebemos quando ela se manifesta. Sabemos que sofremos, mas não entendemos direito o porquê. A psicanalista Elisa Maria de Ulhoa Cintra, autora de vários livros e estudiosa de Klein, explica que a inveja atua de forma silenciosa na dinâmica intrapsíquica, ou seja, muitas vezes você não sabe conscientemente que sente inveja. É a chamada “inveja inconsciente”, que é bastante destrutiva exatamente porque não sabemos que a sentimos. Cintra ressalta:

(…) sempre que houver perturbações na capacidade de viver o prazer e na capacidade de trabalhar e criar, é possível levantar a hipótese de algum estrago provocado pelo – às vezes bastante silencioso – trabalho da inveja. E um dos maiores problemas dos indivíduos movidos (e paralisados) pela inveja inconsciente é a existência de um superego invejoso que ataca e destrói todas as tentativas de fazer reparações e criar. Esses pacientes contam com uma voz interior que insinua a inutilidade de todos os esforços… de maneira que acabam condenando ao fracasso os movimentos de interesse e realização no mundo.3

 

 

A inveja está relacionada com o desamparo, a
ausência e a privação, por isso muitas vezes não
percebemos quando ela se manifesta. Sabemos que
sofremos, mas não entendemos direito o porquê.

 

 

Quantas vezes você se percebeu incapaz de vivenciar o prazer? Incapaz de desfrutar de bons momentos, de trabalhar, criar, desenvolver aquele projeto que tinha tudo para dar certo? Quantas oportunidades perdeu por ficar paralisada pela certeza de que daria errado? Quantas vezes a sua voz interior fez você acreditar que era inútil, uma fraude? Quando somos movidas pela inveja inconsciente, temos um superego invejoso que nos ataca. É a voz interior que diz que somos inadequadas, insuficientes, que nenhum esforço vai dar certo e que seremos sempre fracassadas.

Sem perceber, a pessoa tomada pela inveja vive uma necessidade inconsciente de punição com um aumento da desvalorização do próprio eu, que leva a um processo autodestrutivo. É o círculo vicioso da diminuição de si mesma.

Um exemplo desse doloroso processo é retratado no filme Amadeus, de Milos Forman, lançado no Brasil em 1984. O clássico é inspirado na vida dos compositores Wolfgang Amadeus Mozart e Antonio Salieri, mas a história sobre a possível rivalidade entre eles é considerada fictícia. O filme começa em 1823, quando Salieri, já idoso, tenta o suicídio. Ele é internado em um hospício, recebe a visita de um padre e eles iniciam uma longa conversa sobre seu relacionamento com Mozart.

Salieri, que era compositor oficial do imperador, confessa ao padre que, quando Mozart entrou para a corte, ele foi consumido por ódio e inveja porque o jovem era um prodígio. Criava composições brilhantes com muita facilidade e tinha um talento incomparável. Ao perceber que perderia seu espaço na corte, Salieri passou a fazer de tudo para prejudicar Mozart. Mas, ao mesmo tempo que sentia inveja, raiva e ódio, Salieri admirava profundamente o talento do rapaz. Desejava criar obras tão perfeitas quanto Mozart, entretanto foi tomado pela inveja e passou todos os seus dias ressentido, sentindo-se fracassado, e isso o levou a tentar acabar com a própria vida. É o retrato do perigoso círculo vicioso autodestrutivo da inveja.

A inveja é um sinal

Se você vive nesse círculo vicioso, procure investigar seus sentimentos. Quando sentimos inveja, estamos recebendo um sinal muito importante, porque aquilo que você inveja no outro é o que mais deseja. É o sinal daquilo que não suportamos na nossa vida e procuramos na vida do outro.

Nesse sentido, uma reflexão transformadora é: O que estou procurando na vida daqueles que invejo?

Tudo que julgamos nos outros também é um sinal. A inveja e o julgamento estão na estrutura do desejo, porque a inveja é um desejo insaciável. É o traço voraz do desejo, e exatamente por isso a inveja inconsciente pode se manifestar por meio da negação e/ou da desvalorização do outro. A inveja também é a negação de um desejo oculto ou um ataque depreciativo ao outro, quando o outro tem – ou é – aquilo que desejamos.

Um exemplo: uma mulher de 34 anos, que vou chamar de Annie, me contou que julga ferozmente as mulheres que expõem o corpo de biquíni ou de lingerie nas redes sociais. Annie confidenciou que se deu conta de que agia assim porque, no fundo, tinha um anseio profundo de se sentir desejada, mas sentia muita vergonha disso. Depois de anos de casamento, ela percebeu que não despertava mais desejo no marido e sentia muita falta de um olhar lascivo por parte de um homem. Para se proteger do próprio desejo, ela julgava como “indecentes e putas” as mulheres capazes de fazer o que ela sentia vontade mas não conseguia. Annie escreveu:

“Não quero ser considerada puta, mas tenho o desejo de mostrar meu corpo. Não sei como lidar com isso, tenho vergonha, portanto falo para todo mundo que acho um absurdo aquelas mulheres seminuas no Instagram; digo que acho isso coisa de mulher sem valor. Na verdade, descobri que acho lindo e sinto inveja porque queria ter a coragem e a liberdade delas.”

 

Annie negava o desejo e depreciava outras mulheres como forma de se proteger do próprio desejo. Note que ela nem se dava conta de que agia assim. Muitas vezes fazemos isso sem perceber. Comparamos, avaliamos, julgamos, depreciamos o tempo todo. Agimos no piloto automático, sem pensar sobre o que esse julgamento diz sobre nós mesmas. O que vai libertar você da vergonha e da inveja é, primeiro, ter consciência do que sente, e, segundo, tentar compreender o que o seu julgamento e a sua inveja querem lhe mostrar.

É muito poderoso poder dizer “Eu sinto inveja”. Parece que a inveja começa a se desfazer no momento em que você admite que a sente. Claro, não queremos nos conformar em sentir inveja, pelo contrário! Quando você admite ter um sentimento que considera negativo, pode buscar caminhos para suavizá-lo. Mas como? Não podemos curar o que não sabemos que sentimos. É impossível mudar algo que nem sabemos nomear. Admitir a inveja é o primeiro passo, porque você a naturaliza e deixa de reprimi-la. É importante também compreender que, como seres humanos, nós sentimos tudo – coisas boas e coisas ruins. E precisamos nos permitir sentir tudo isso, pois só assim podemos aprender a ressignificar os sentimentos e a lidar com o que nos incomoda.

 

É muito poderoso poder dizer “Eu sinto inveja”.
Parece que a inveja começa a se desfazer no
momento em que você admite que a sente.

 

Alguns pensadores, como Nietzsche, ressaltam que existe uma ambiguidade na ideia de inveja. Na Antiguidade, os gregos concebiam a inveja como uma forma de admiração, não havia uma conotação vergonhosa ou destrutiva. Diante disso você se torna capaz de refletir: qual é o impacto da inveja na sua vida? Quantas vezes confundiu admiração com inveja? Já prejudicou alguém por inveja?

Gentilmente, tente se tornar consciente das situações e dos pensamentos em que a inveja esteve presente. Todas as nossas emoções negativas – a raiva, o ciúme, a inveja, o ódio, o ressentimento e até a indiferença – servem para nos ensinar alguma coisa sobre nós mesmas.

Inveja e gratidão

Outra forma de suavizar a inveja é por meio da gratidão. Melanie Klein fala do “jogo da inveja e gratidão”. Enquanto a gratidão é o reconhecimento por ter recebido algo, a inveja é a impossibilidade de receber. O invejoso nunca consegue se sentir grato porque acha que jamais recebe o suficiente da vida. Quando a pessoa invejosa consegue perceber que tem conquistas, que tem valor, que não é inútil, quando descobre algum sentido para a sua existência, ela passa a sentir mais gratidão e menos inveja. Ela se sente fortalecida e assim libera a capacidade de amor e gratidão que estava sufocada pela força destruidora da inveja.

Foi assim que eu aprendi. Ao me observar enquanto julgava e invejava os outros, descobri que tudo dizia respeito a mim! Eu apontava no outro algo que doía de forma insuportável dentro de mim. Eu criticava na vida do outro o que era intolerável na minha própria vida. Esse aprendizado me libertou e ainda me liberta todas as vezes que vejo que estou prestes a repetir esse comportamento. Respiro fundo e digo a mim mesma: “Isso é seu, Daiana. Não projete nos outros.”

Ao me observar enquanto julgava e invejava
os outros, descobri que tudo dizia respeito a mim!
Eu apontava no outro algo que doía de forma
insuportável dentro de mim. Eu criticava na vida do
outro o que era intolerável na minha própria vida.

 

Você já parou para refletir que talvez aquela moça que postou uma foto de biquíni no Instagram sinta-se tão insegura e desprotegida que a forma que ela encontrou para afastar a sensação de desamparo foi mostrar-se livre e segura na rede social? Ou talvez ela simplesmente goste de se sentir desejada! Quem sabe o que se passa por trás de uma foto? Não sabemos absolutamente nada sobre os sentimentos dos outros.

Quero convidar você a analisar todos os pontos em que se julga e se envergonha. Possivelmente você vai descobrir que essas coisas são as mesmas que inveja ou critica nas outras pessoas. Quando fazemos isso, estamos usando um mecanismo de defesa que tenta expulsar de dentro de nós algo que dói, algo que não suportamos e acabamos atribuindo ao outro.

Quando a vida parece ruir diante da angústia de não gostar de quem somos, da aparência que temos e da inveja que sentimos, quando a vergonha que temos de nós mesmas se torna insuportável, precisamos descobrir um caminho para não adoecer. Eu acredito que esse caminho é aprender a olhar para dentro e elaborar as sombras da nossa personalidade. É ter a responsabilidade de entrar em contato com nossos sentimentos brutos, primitivos e obscuros. Ao longo do livro ainda vamos conversar muito sobre fracasso, culpa e vazio, mas antes disso temos que falar sobre o sentimento de humilhação que conhecemos por vergonha. E veremos como a inveja está intimamente ligada ao fato de sentirmos vergonha de quem somos.

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Daiana Garbin

Sobre o autor

Daiana Garbin

DAIANA GARBIN é jornalista e escritora. Começou a carreira como locutora de rádio aos 18 anos e, aos 24, estreou no jornalismo televisivo, atuando como repórter, editora, produtora e apresentadora. Durante 8 anos trabalhou como repórter na Rede Globo, em São Paulo. Em abril de 2016, pediu demissão para criar o EuVejo, canal no YouTube  em que discute questões relacionadas a saúde mental, transtornos alimentares e meditação. Em outubro de 2017, lançou seu primeiro livro, Fazendo as pazes com o corpo, pela Editora Sextante.

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