Anderson Spider Silva - Sextante
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BIOGRAFIA

Anderson Spider Silva

Anderson Spider Silva

ANDERSON SILVA

Um relato de um campeão nos ringues e na vida

Um relato de um campeão nos ringues e na vida

EDIÇÃO ATUALIZADA COM CAPÍTULO SOBRE A REVANCHE DO SÉCULO CONTRA CHAEL SONNEN

O esporte brasileiro não conhecia um ídolo internacional da envergadura de Anderson Silva desde os tempos de Ayrton Senna e Gustavo Kuerten. Dono de um carisma único, o Aranha foge ao estereótipo do lutador truculento e falastrão. É tranquilo e infalível como Bruce Lee. Suave como um monge budista, é capaz de produzir os nocautes mais espetaculares do UFC e, minutos depois, se curvar em reverência aos adversários. Impávido como Muhammad Ali, não dispensa máscaras nem cremes faciais. Intimida os adversários com o olhar e acolhe os fãs com delicadeza. A voz é de quem sussurra um segredo no ouvido. Por falar em segredos, aqui estão todos eles. Em depoimento ao jornalista Eduardo Ohata, Anderson Silva mostra que a vida pode ser tão perigosa quanto um grande combate. É impossível não reverenciar o ídolo que nocauteou o destino e se tornou um campeão nos ringues e na vida.

****

Anderson Silva é admirador do Homem-Aranha. Assim como seu ídolo dos gibis, foi criado pela tia e enfrentou adversários perigosos. Nenhum tão desafiador quanto o destino, que tantas vezes disse “não” ao menino paulista da Barra Funda que cresceu em Curitiba.

Até deslanchar a carreira de maior lutador do mundo, Anderson foi testado pelas armadilhas que a vida teimava em colocar diante dele. Uma a uma, elas foram vencidas.

Pela primeira vez, os milhões de fãs do Spider terão a oportunidade de ficar cara a cara com o homem, aquele que se viu diante de tantas adversidades e que, como um herói dos quadrinhos, nunca desistiu.

O cartel de vitórias de Anderson Silva não contempla a maior de todas as suas conquistas: o nocaute no destino do menino pobre que venceu sem deixar de respeitar todos os que cruzaram seu caminho.

Nao foi fácil derrotar um inimigo tão poderoso. Anderson perdeu pessoas que amava, foi vítima de racismo e alvo de agressões e de acusações injustas. Por pouco nao se viu obrigado a abandonar a carreira. Quando todas as portas pareciam se fechar, foi ajudado pelo amigo Rodrigo Minotauro, que o acolheu em sua academia. Bastou que a porta do Nogueira Team se abrisse para que a carreira de maior êxito da história do UFC tivesse início.

Anderson Spider Silva é um ídolo que todos vão admirar ainda mais ao conhecer a trajetória de vida que precede a lenda dos octógonos.

EDIÇÃO ATUALIZADA COM CAPÍTULO SOBRE A REVANCHE DO SÉCULO CONTRA CHAEL SONNEN

O esporte brasileiro não conhecia um ídolo internacional da envergadura de Anderson Silva desde os tempos de Ayrton Senna e Gustavo Kuerten. Dono de um carisma único, o Aranha foge ao estereótipo do lutador truculento e falastrão. É tranquilo e infalível como Bruce Lee. Suave como um monge budista, é capaz de produzir os nocautes mais espetaculares do UFC e, minutos depois, se curvar em reverência aos adversários. Impávido como Muhammad Ali, não dispensa máscaras nem cremes faciais. Intimida os adversários com o olhar e acolhe os fãs com delicadeza. A voz é de quem sussurra um segredo no ouvido. Por falar em segredos, aqui estão todos eles. Em depoimento ao jornalista Eduardo Ohata, Anderson Silva mostra que a vida pode ser tão perigosa quanto um grande combate. É impossível não reverenciar o ídolo que nocauteou o destino e se tornou um campeão nos ringues e na vida.

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Anderson Silva é admirador do Homem-Aranha. Assim como seu ídolo dos gibis, foi criado pela tia e enfrentou adversários perigosos. Nenhum tão desafiador quanto o destino, que tantas vezes disse “não” ao menino paulista da Barra Funda que cresceu em Curitiba.

Até deslanchar a carreira de maior lutador do mundo, Anderson foi testado pelas armadilhas que a vida teimava em colocar diante dele. Uma a uma, elas foram vencidas.

Pela primeira vez, os milhões de fãs do Spider terão a oportunidade de ficar cara a cara com o homem, aquele que se viu diante de tantas adversidades e que, como um herói dos quadrinhos, nunca desistiu.

O cartel de vitórias de Anderson Silva não contempla a maior de todas as suas conquistas: o nocaute no destino do menino pobre que venceu sem deixar de respeitar todos os que cruzaram seu caminho.

Nao foi fácil derrotar um inimigo tão poderoso. Anderson perdeu pessoas que amava, foi vítima de racismo e alvo de agressões e de acusações injustas. Por pouco nao se viu obrigado a abandonar a carreira. Quando todas as portas pareciam se fechar, foi ajudado pelo amigo Rodrigo Minotauro, que o acolheu em sua academia. Bastou que a porta do Nogueira Team se abrisse para que a carreira de maior êxito da história do UFC tivesse início.

Anderson Spider Silva é um ídolo que todos vão admirar ainda mais ao conhecer a trajetória de vida que precede a lenda dos octógonos.

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Ficha técnica
Lançamento 14/08/2012
Título original ANDERSON SPIDER SILVA
Tradução
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 192
Peso 200 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-7542-839-9
EAN 9788575428399
Preço R$ 29,90
Ficha técnica e-book
eISBN 9788575428436
Preço R$ 19,99
Selo
Primeira Pessoa
Lançamento 14/08/2012
Título original ANDERSON SPIDER SILVA
Tradução
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 192
Peso 200 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-7542-839-9
EAN 9788575428399
Preço R$ 29,90

E-book

eISBN 9788575428436
Preço R$ 19,99

Selo

Primeira Pessoa

Leia um trecho do livro

Introdução

Anderson “The Spider” Silva! Muitas vezes escutei o locutor me chamar assim. O Homem-Aranha apareceu na minha vida bem antes disso. Adorava suas histórias. Sempre que juntava um dinheirinho, dava um jeito de comprar seus gibis. Essa era minha identidade secreta quando moleque. Peter Parker, Homem-Aranha. Até máquina fotográfica dei um jeito de usar para tornar a coisa mais verdadeira. Minha tia Edith não sabia da minha identidade secreta. Em casa eu era apenas Anderson “Peter Parker” Silva. Fora de casa, me transformava no herói que voava por cima dos carros, dos arranha-céus, das pessoas e de toda a cidade.

O tempo passou e pude compreender o porquê do meu fascínio pelo Aranha. Assim como Peter Parker, fui criado por uma tia. O Homem-Aranha foi muitas vezes vítima de injustiças e incompreensões. É um herói mais humano do que os outros. Um cara tão imperfeito que não foi capaz de impedir a morte do próprio tio. Na minha vida, volta e meia me culpei por acontecimentos que eu talvez não tivesse a possibilidade de evitar.

A teia do destino é tão invisível que a gente chega à conclusão de que só mesmo alguém dotado de poderes divinos, um deus de verdade, e não um herói com todas as suas fraquezas, pode estar por trás de tantos fatos que se sucedem e se amontoam de uma maneira que nenhum autor de histórias em quadrinhos poderia imaginar.

A primeira coisa que o Aranha fez quando se viu investido de superpoderes foi subir num ringue. Assim como ele, eu também não desconfiava que fosse capaz de derrotar tantos adversários quando me aventurei no mundo das lutas. Nas páginas deste livro, vou contar uma parte da trajetória do cara que muita gente já viu no octógono, nas campanhas publicitárias, nos talk shows e no cinema. A novidade é que, desta vez, o público vai conhecer um pouco mais da minha vida fora dos ringues. Procurei ser o mais verdadeiro possível sem a fantasia do Spider Silva.

Como diria Peter Parker, um grande poder vem acompanhado de grande responsabilidade. Agora estou diante da responsabilidade de contar a minha própria história.

Espero que todos curtam esta viagem enquanto lanço minha teia pelo passado, presente e futuro de um certo Anderson Silva.

Com vocês, as incríveis aventuras de Anderson Spider Silva!

Capítulo 1

A teia do destino leva a Curitiba

Vivi os primeiros anos de minha infância num quarto de pensão na Barra Funda, em São Paulo. Minha mãe, Vera Lúcia da Silva, minha avó e eu dividíamos alguns poucos metros quadrados.

Ainda bebê, era acordado às 6h e deixado na creche às 7h. Ficava por lá até as 18h. Só então minha mãe me buscava. Era empregada doméstica. Às vezes, nos feriados, eu não tinha onde ficar e ia com ela para o trabalho. Mamãe se parecia comigo. Era magra, alta, esguia. Jamais deixou que faltasse qualquer coisa, apesar de abandonada muito cedo por meu pai. Eu era pequeno quando meus pais se separaram.

O tempo passou e mamãe começou a se relacionar com um homem que enfrentou problemas com a justiça. Eles tiveram dois filhos: George, meu irmão dois anos mais novo, e Jean, o caçula. Por parte de mãe, tenho ainda uma irmã, Aline, nascida anos mais tarde. Mamãe sempre procurou preservar a união da família. Infelizmente, meu padrasto passava mais tempo na prisão do que com a gente. Eu via coisas que me assustavam. Ele tratava mal minha mãe. Fui testemunha de duas ou três agressões. Em mim e em meus irmãos nunca tocou.

Daqueles dias, lembro em especial de um domingo. Bem de manhãzinha, assim que acordamos, mamãe avisou que íamos sair. A notícia animou a mim e a meu irmão Jean. Não perdemos tempo em vestir nossas roupas mais bonitas, aquelas poupadas para os passeios. Tenho a recordação viva de meu irmão usando uma touca. Eu também estava agasalhado, era um dia frio. Já vestidos, soubemos que visitaríamos meu padrasto. Fazia tempo que ele não aparecia em casa.

Meu irmão sentia sua falta. Para ele, o passeio era a oportunidade de matar a saudade. De minha parte, fiquei decepcionado. Ainda me lembrava de como ele tratava mamãe. Apesar dos pesares, um programa, para onde quer que fosse, era melhor do que passar todo o fim de semana num quarto.

Brinquei com meu irmão por todo o percurso do ônibus. Mamãe se mantinha séria. Ao desembarcar, percebi sua tensão. Ela não era a mesma de quando nos levava ao parque ou para visitar suas amigas e filhos, com quem passávamos algumas tardes. Após breve caminhada chegamos a nosso destino. Era um prédio enorme, feio, com um portão grande e malconservado. Havia muita gente na fila, centenas de outras pessoas, em sua maioria mulheres. Também me recordo de crianças em fila para entrar. Estava de mãos dadas com minha mãe, que ainda segurava meu irmão no colo. Por toda parte havia muitos policiais. Dezenas. Armados. Dava para ouvir o choro de alguns meninos e meninas.

– Mãe, que lugar é este? Onde estamos? – perguntei.

– Carandiru – respondeu.

Finalmente entramos. Apaguei da memória detalhes daquela visita que me fez tão mal. Prometi para mim mesmo que era um lugar para onde não retornaria jamais. Hoje, anos depois, reconheço que esse episódio ajudou a formar meu caráter. A tal ponto que fiz questão de passar para meus filhos e sobrinhos o que senti naquele domingo. Fiz isso numa tarde em que combinei de tomar um café com um amigo delegado. Levei as crianças à delegacia, mas elas não nos acompanharam ao bar. Formamos um círculo com algumas cadeiras e, sob o olhar cuidadoso dos carcereiros, deixamos que observassem os presos enquanto me afastava com meu amigo.

Quando voltei do bar, uns 15 ou 20 minutos depois, as crianças estavam chorando, assustadas com o que tinham visto. Era de cortar o coração, mas aprenderam uma lição valiosa.

– Sabem o que é isso? – perguntei sem esperar resposta. As lágrimas escorriam pelos rostos dos meninos. – Isso é o que acontece com quem não obedece pai e mãe. Ou com quem tem a chance de ir para a escola e não quer estudar. Essas pessoas acabam aqui. É isso que vocês querem? – completei.

De novo, não houve resposta. Não precisava. Eu sabia que a mensagem estava entendida. Muita gente não vai concordar com minha atitude. Acredito que esse gesto, na prática, tenha valido mais do que qualquer sermão que pudesse dar. No meu caso, foi uma maneira de transformar algo negativo em positivo.

Voltamos para casa e a visita ao Carandiru continuava viva na minha mente de criança.

 * * *

Meu pai se chamava Juarez da Silva. Era magro e alto como minha mãe e eu. Ele desconfiava que o ambiente familiar em que eu vivia era pesado, mas não tinha cabeça ou estrutura para assumir uma família ou cuidar de um filho. Minha avó também percebia que aquele não era o melhor lar para uma criança. Ela e minha mãe passaram a buscar uma solução. Um dia fui surpreendido por uma visita de minha tia-avó, Edith, que havia criado mamãe. Ela morava em Curitiba. Assim que a vi, corri em sua direção para beijá-la. Era minha madrinha e costumava ser muito carinhosa comigo.

Logo percebi que aquela não seria uma visita comum. Mamãe pediu que minha avó ficasse comigo e com meu irmão e saiu para conversar com minha tia. O assunto era eu. Passando por dificuldades financeiras, mamãe concordou que eu fosse morar com minha tia-avó. Assim teria uma vida melhor, pensava ela.

Ainda sem saber o que se passava, me despedi de minha avó e de minha mãe. Num primeiro momento, imaginei que passaria uns dias com tia Edith em Curitiba. Apesar do abraço mais apertado e das lágrimas de mamãe no meu rosto, não desconfiei que a viagem fosse sem volta.

É incrível que me lembre de tantos detalhes desse dia. Eu tinha apenas 4 anos. Embarcamos no ônibus. Observei minha tia acomodar as malas no bagageiro. Constatei que era muita coisa para alguns dias ou poucas semanas. Abracei tia Edith com força. Permaneci assim até adormecer.

A viagem foi longa e cansativa. Finalmente chegamos a Curitiba. A casa me pareceu enorme. Tão grande quanto uma propriedade no campo. Ficava no bairro da Barreirinha. Meu tio Benedito foi nos buscar na rodoviária. Ele era militar e havia criado três filhos – Sandra, Wilson e Elson, o mais velho, então com cerca de 20 anos. São meus primos, mas me refiro a eles como irmãos.

Minha chegada a Curitiba foi uma terapia para minha tia. Era uma mulher forte, mais enérgica que meu tio. Fisicamente, tinha aquele tipo Big Mama. Havia perdido dois filhos. Uma prima minha, Marili, morreu ao levar um coice de cavalo. Um outro primo, Édson, que seria o mais velho, morreu vítima de acidente num centro fabril onde trabalhava.

Meu tio passava quase o dia todo no quartel, muitas vezes a noite também. Quanto retornava, era por volta das 20h. À época era cabo, mas se aposentou como primeiro-sargento. Lembro dele sempre de farda. Nunca perdeu a imagem de comandante da família. Era uma pessoa sistemática. Para entrar em minha nova casa, era obrigado a tirar os sapatos e me referir a meus tios como “senhor” e “senhora”. Não tinha esse negócio de “já vou…” quando me chamavam. Precisava pedir a “bênção”. Na hora das refeições, os mais velhos sentavam primeiro. Não podia comer de boca aberta, os palavrões eram proibidos e TV só até as 20h. Ainda assim, alguns programas eram vetados. Novela era um deles.

Tio Benedito nunca nos bateu. Sua autoridade estava no olhar. Às vezes, quando eu fazia algo errado, achava que aquele olhar era pior do que uma palmada. Minha tia, sim, de vez em quando recorria a uns petelecos. Meus tios eram altos. Meus primos também. Naquela época, como eu era muito criança, todos pareciam gigantes.

A ficha demorou a cair em Curitiba. Ainda não estava claro que aquele seria meu novo lar, que não moraria mais com minha mãe e minha avó. Aos poucos, pequenos detalhes me fizeram perceber que as coisas não seriam mais as mesmas. Senti uma diferença de tratamento nos primeiros dias, até em atividades corriqueiras, como comer uma fruta. Quando pedi uma maçã a minha madrinha, ela me deu. Olhei para a fruta e para ela de novo:

– Quero comer maçã – protestei.

– Você já ganhou uma maçã – respondeu, firme.

– Quero do jeito que minha mãe “faz” – reclamei com impaciência.

Tentei “ensinar” à tia Edith que, ao me dar a maçã, minha mãe costumava cortar em duas partes, tirar as sementes e raspar o miolo com uma colher.

– Bom, a maçã está aí, lavadinha. Se não quiser assim, não vai comer – disse sem rodeios, pondo fim à discussão.

Foi o bastante para que eu abrisse o berreiro. Não entendia por que se recusava a fazer como eu pedia. Onde estava a madrinha que costumava mimar o sobrinho quando o visitava em São Paulo?

Chorava de saudade da minha mãe. Nas ocasiões em que fazia algo errado e meus primos vinham brigar comigo, eu me defendia: “Você não é meu pai, vou falar para meu pai…” E ouvia de meu primo: “Falar com teu pai!… Teu pai nem está aqui…”

Eu me sentia desprotegido. Na verdade, estava protegido o tempo todo, amado pelos meus tios, por meus primos. Mas era assim que me sentia nos primeiros tempos.

Meus tios conversavam comigo. Eles deixavam claro que meus pais estavam em São Paulo, que eu tinha ido para Curitiba por causa disso, por causa daquilo, enfim, para ter uma vida melhor. Explicavam que não ia faltar nada – nem comida, nem roupa, nada. Apenas me conscientizavam de que seria daquele jeito.

O processo de adaptação foi gradual. Por muito tempo comparei minha nova realidade com os passeios com minha mãe e minha avó em São Paulo. Quando pedíamos algo para comer e o prato chegava, eu dizia: “Não quero mais comer isso.” Então vinha outra coisa, eu dava duas garfadas e soltava outro “não quero mais isso”. Fui uma criança mimada por minha mãe e por minha avó, apesar das dificuldades financeiras. Em São Paulo, duas pessoas me atendiam quando eu gritava.

Minha tia tinha a “manha” para lidar com crianças, já havia criado meus três primos. Ela sabia como tirar os mimos de criança mal-educada. A melhor coisa que me aconteceu foi não ter tido todas as vontades atendidas. Não fosse isso, teria me tornado uma criança sem identidade, terrível.

O que faço hoje com meus filhos é inspirado no que aprendi com meus tios. Se explico que não dá para fazer alguma coisa, eles entendem. Na casa dos meus tios nada faltava. Mas não se esbanjava, era tudo muito controlado. Eu dispunha apenas de um par de tênis, que usava para ir à escola e sair. Em casa, precisava tirá-lo ao chegar, guardar e calçar chinelos. O primeiro brinquedo “caro” que ganhei foi um carrinho dos Comandos em Ação. Nem era de fricção, era aquele simples mesmo. Os Comandos eram famosos na época e eu entendia que era aquilo que meus tios podiam dar.

Às vezes ficava sozinho no meu mundo, com um pedaço de papel e alguns brinquedos. Só às vezes. Em geral, era uma criança hiperativa. Meus tios quebravam a cabeça para me fazer queimar toda aquela energia. Quando visitava meu pai, uma das brincadeiras era escalar um muro e subir numa laje para alcançar a caixa-d’água da casa. Um dia quebrei a tal da caixa. Para me frear um pouco, minha tia decidiu me matricular numa escola de dança perto de casa. Aos 13 anos, me tornei aluno de balé e sapateado. Ela não sonhava com uma carreira de bailarino para mim. A dança foi só o que encontrou para me manter ocupado.

– Não quero – reclamei, ao saber da notícia.

– Você vai! – ordenou minha tia.

Para ter certeza de que iria mesmo às aulas, ela me acompanhava até a porta da academia. Aconteceu por pouco tempo. Tia Edith logo percebeu que eu encarava a coisa numa boa. O problema é que esse tipo de notícia se espalha, e bem depressa a molecada na escola tomou conhecimento da “novidade”. Passei a ouvir provocações como “E aí, vai pôr colantezinho? Isso é coisa de bichinha, sabia?”. Não dava bola. Graças a Deus, sempre fui muito bem resolvido com essas coisas. Acabei saindo da escola de dança porque não levei a sério. Se tivesse levado, quem sabe não teria me tornado bailarino?

Por causa dessas aulas, quem melhor fazia cover de Michael Jackson nas festinhas era eu. Cheguei a montar um pequeno grupo de dança com meus amigos. Imitávamos as coreografias. A gente pedia a minha tia que costurasse as roupas para dançar. Todo mundo vestido igualzinho, meia branca, calça meia canela. O funk estava na moda. Não era esse funk que faz apologia de coisas erradas. Era o funk da Donna Summer, do próprio Michael Jackson. Meus primos escutavam esse tipo de som, Jackson Five, era um negócio mais dançado.

Foram muitas festinhas. A gente enchia uma mão de talco, outra de purpurina, dançava e jogava para cima. Foi um tempo bem gostoso, me diverti muito. Uma música de que gostava especialmente era “Billie Jean”. Em minha carreira como lutador, ensaiei passos de dança, à Michael Jackson, pouco antes de subir ao ringue. Até hoje, quando participo de programas de auditório, pedem uma demonstração das coreografias. Não perdi a prática porque ainda danço, principalmente quando estou com meu filho Kalyl. Ele adora. Mesmo nos treinamentos, gosto de música.

Embora eu não reconhecesse na época, meus tios, a seu modo, também me cobriam de carinho. Eu dormia no quarto deles. Chegaram a providenciar um berço nos primeiros tempos. Por saberem da situação à qual fui exposto em São Paulo, meus tios e primos moldaram uma forma de me dar todo o amor e o carinho de que precisava.

À medida que eu crescia, meu tio me apresentava às outras regras da casa já aplicadas a meus primos. Ele dizia que homem tinha de acordar cedo, lá pelas 6h. Sempre estávamos de pé antes dele. Meu cotidiano era recheado de atividades para que não ficasse ocioso durante o dia. Ele sempre orientou os filhos a cuidar do lugar onde moravam. Eu acordava, fazia minha cama, capinava o jardim e deixava o quintal limpo. Tio Benedito era dono de uns terrenos no bairro. Montava casas pré-fabricadas e, com o tempo, de alvenaria. O material desmontado ficava guardado no porão de casa. Separávamos pregos em latinhas. Eles eram reutilizados mais tarde conforme seus tamanhos. Minha rotina diária era essa.

Mesmo com uma educação tão rígida, cometi deslizes. Não sou perfeito, nunca disse que era. Certa vez, decidi matar aula. Estudava à noite e, ao lado de alguns amigos, deixei a escola mais cedo. Era a segunda vez que fazia isso. Para nosso azar, fomos parados por policiais. Eles ordenaram que formássemos uma fila. Em meio àquela confusão, ouvi uma voz familiar. “Tudo resolvido”, pensei. Era Elson, meu primo mais velho, militar como tio Benedito. Meu primo não percebeu de cara que era eu. Foi ele que veio me revistar. Assim, longe dos colegas, imaginei que seria mais fácil explicar o que acontecia. Estava certo de que ele nos liberaria. Esbocei um sorriso, olhei para ele. Para minha surpresa, meu primo me mandou encostar na parede.

– Você vai me dar uma geral? Sou eu, seu irmão – argumentei.

– Cala a boca, não tenho irmão vagabundo! Encosta aí e separa as pernas – ordenou.

Fiquei em choque. Estava sendo revistado por meu primo mais velho, com quem havia tomado o café da manhã no início do dia.

Os policiais logo nos liberaram. Não tive coragem de encarar meu primo. Já em casa, fui direto para o quarto. Não contei nada do que havia acontecido a meus tios. Não conseguia dormir. “Que azar”, ruminava. “Com tanto lugar para fazer a ronda, ele tinha de estar perto da escola?” Um grito me jogou para fora da cama. Era meu tio. Quando cheguei à sala, lá estavam ele, de pijama, tia Edith e Elson, recém-chegado.

– Você não vê o duro que damos para que tenha um futuro melhor? Não percebe de onde veio? Quer jogar fora a oportunidade de estudar e ser alguém na vida? Por acaso não sabe que tudo o que fazemos é para seu bem? – perguntou tio Benedito.

Eu fitava o chão, cabeça baixa. Não havia resposta. Quando olhei para o lado, vi algo que jamais gostaria de ter visto. Minha tia observava a cena e chorava. Aquilo foi o que me deixou mais triste e arrependido. Não queria causar dor a quem tinha me acolhido dentro de casa e me devotava tanto amor e carinho. Com o tempo, ela se tornou minha confidente e melhor amiga. Aquele foi um momento difícil.

Nos anos que se seguiram, meus tios e primos, quando mais precisei, estiveram ao meu lado e compraram minhas brigas. Aquele núcleo familiar está comigo todos os dias ainda hoje. É engraçado pensar que ficava aborrecido quando me davam uma dura. Hoje, já adulto, ligo para dizer onde estou e o que tenho feito.

O amor daquela família unida não me impedia de sentir falta de meus pais. Certa vez, minha mãe foi a Curitiba me buscar. Estava acompanhada do marido.

– Você não vai tirar ele daqui – anunciou tia Edith.

– Ninguém vai levar ele daqui – reforçou tio Benedito, que sentiu alguma coisa estranha no companheiro da minha mãe.

Minha mãe não me tirou dali, mas aos 12 anos decidi morar com meu pai. Ou melhor, com meu pai, minha madrasta, Márcia, e minhas duas irmãs por parte de pai: Erika, então com 9 anos, e Fabiana, de 7 anos. (Mais tarde nasceu meu terceiro irmão por parte de pai, Cristian.) Vivi com eles por um ano. Foi naquele período de adolescente rebelde por que passam tantos jovens. Meu pai atribuía às dificuldades financeiras a decisão de me abandonar tempos atrás.

Até hoje recordo os primeiros presentes que meu pai me deu: uma bola de futebol e um par de luvas de boxe. Não fiz muito uso da bola, mas o João Bobo sofreu com as luvinhas de criança. Infelizmente, os presentes se perderam com o tempo e não os carrego mais comigo.

Um dia meus tios foram me visitar. Tia Edith percebeu que eu não estava bem.

– Quer ir embora? – perguntou ela sem cerimônia diante de meu pai e de sua mulher – Se quiser, arruma tuas coisas e vamos – completou.

Não pensei duas vezes. Saí da sala, juntei todos os brinquedos e fiz minha mala. Não me dava mal com meu pai, apenas não me sentia tão bem na casa dele como na casa da minha tia. Ele chegava tarde do emprego de contador, eu o via muito pouco. Também sentia falta de meus amigos e primos em Curitiba, da casa com aquele quintal enorme.

De alguma forma, meu pai e eu sempre estamos separados. É difícil explicar o porquê. Há ocasiões em que fico dias em São Paulo (onde ele mora). Quero falar com ele, mas acabo não telefonando. Por quê? Não sei ao certo. Nós nos dávamos bem, mas ao voltar para Curitiba perdi a vontade de viver com ele. Eu o visitava nas férias, nada mais.

Quando retornei para a casa dos meus tios, após um ano fora, meu quarto estava do jeito que eu havia deixado. Aquela casa era minha identidade, minha vida. Ainda hoje é assim. Todos os dias me fortaleço ao pensar no amor que recebi de meus tios e meus primos. Eles são minhas referências de união familiar.

Introdução

Anderson “The Spider” Silva! Muitas vezes escutei o locutor me chamar assim. O Homem-Aranha apareceu na minha vida bem antes disso. Adorava suas histórias. Sempre que juntava um dinheirinho, dava um jeito de comprar seus gibis. Essa era minha identidade secreta quando moleque. Peter Parker, Homem-Aranha. Até máquina fotográfica dei um jeito de usar para tornar a coisa mais verdadeira. Minha tia Edith não sabia da minha identidade secreta. Em casa eu era apenas Anderson “Peter Parker” Silva. Fora de casa, me transformava no herói que voava por cima dos carros, dos arranha-céus, das pessoas e de toda a cidade.

O tempo passou e pude compreender o porquê do meu fascínio pelo Aranha. Assim como Peter Parker, fui criado por uma tia. O Homem-Aranha foi muitas vezes vítima de injustiças e incompreensões. É um herói mais humano do que os outros. Um cara tão imperfeito que não foi capaz de impedir a morte do próprio tio. Na minha vida, volta e meia me culpei por acontecimentos que eu talvez não tivesse a possibilidade de evitar.

A teia do destino é tão invisível que a gente chega à conclusão de que só mesmo alguém dotado de poderes divinos, um deus de verdade, e não um herói com todas as suas fraquezas, pode estar por trás de tantos fatos que se sucedem e se amontoam de uma maneira que nenhum autor de histórias em quadrinhos poderia imaginar.

A primeira coisa que o Aranha fez quando se viu investido de superpoderes foi subir num ringue. Assim como ele, eu também não desconfiava que fosse capaz de derrotar tantos adversários quando me aventurei no mundo das lutas. Nas páginas deste livro, vou contar uma parte da trajetória do cara que muita gente já viu no octógono, nas campanhas publicitárias, nos talk shows e no cinema. A novidade é que, desta vez, o público vai conhecer um pouco mais da minha vida fora dos ringues. Procurei ser o mais verdadeiro possível sem a fantasia do Spider Silva.

Como diria Peter Parker, um grande poder vem acompanhado de grande responsabilidade. Agora estou diante da responsabilidade de contar a minha própria história.

Espero que todos curtam esta viagem enquanto lanço minha teia pelo passado, presente e futuro de um certo Anderson Silva.

Com vocês, as incríveis aventuras de Anderson Spider Silva!

Capítulo 1

A teia do destino leva a Curitiba

Vivi os primeiros anos de minha infância num quarto de pensão na Barra Funda, em São Paulo. Minha mãe, Vera Lúcia da Silva, minha avó e eu dividíamos alguns poucos metros quadrados.

Ainda bebê, era acordado às 6h e deixado na creche às 7h. Ficava por lá até as 18h. Só então minha mãe me buscava. Era empregada doméstica. Às vezes, nos feriados, eu não tinha onde ficar e ia com ela para o trabalho. Mamãe se parecia comigo. Era magra, alta, esguia. Jamais deixou que faltasse qualquer coisa, apesar de abandonada muito cedo por meu pai. Eu era pequeno quando meus pais se separaram.

O tempo passou e mamãe começou a se relacionar com um homem que enfrentou problemas com a justiça. Eles tiveram dois filhos: George, meu irmão dois anos mais novo, e Jean, o caçula. Por parte de mãe, tenho ainda uma irmã, Aline, nascida anos mais tarde. Mamãe sempre procurou preservar a união da família. Infelizmente, meu padrasto passava mais tempo na prisão do que com a gente. Eu via coisas que me assustavam. Ele tratava mal minha mãe. Fui testemunha de duas ou três agressões. Em mim e em meus irmãos nunca tocou.

Daqueles dias, lembro em especial de um domingo. Bem de manhãzinha, assim que acordamos, mamãe avisou que íamos sair. A notícia animou a mim e a meu irmão Jean. Não perdemos tempo em vestir nossas roupas mais bonitas, aquelas poupadas para os passeios. Tenho a recordação viva de meu irmão usando uma touca. Eu também estava agasalhado, era um dia frio. Já vestidos, soubemos que visitaríamos meu padrasto. Fazia tempo que ele não aparecia em casa.

Meu irmão sentia sua falta. Para ele, o passeio era a oportunidade de matar a saudade. De minha parte, fiquei decepcionado. Ainda me lembrava de como ele tratava mamãe. Apesar dos pesares, um programa, para onde quer que fosse, era melhor do que passar todo o fim de semana num quarto.

Brinquei com meu irmão por todo o percurso do ônibus. Mamãe se mantinha séria. Ao desembarcar, percebi sua tensão. Ela não era a mesma de quando nos levava ao parque ou para visitar suas amigas e filhos, com quem passávamos algumas tardes. Após breve caminhada chegamos a nosso destino. Era um prédio enorme, feio, com um portão grande e malconservado. Havia muita gente na fila, centenas de outras pessoas, em sua maioria mulheres. Também me recordo de crianças em fila para entrar. Estava de mãos dadas com minha mãe, que ainda segurava meu irmão no colo. Por toda parte havia muitos policiais. Dezenas. Armados. Dava para ouvir o choro de alguns meninos e meninas.

– Mãe, que lugar é este? Onde estamos? – perguntei.

– Carandiru – respondeu.

Finalmente entramos. Apaguei da memória detalhes daquela visita que me fez tão mal. Prometi para mim mesmo que era um lugar para onde não retornaria jamais. Hoje, anos depois, reconheço que esse episódio ajudou a formar meu caráter. A tal ponto que fiz questão de passar para meus filhos e sobrinhos o que senti naquele domingo. Fiz isso numa tarde em que combinei de tomar um café com um amigo delegado. Levei as crianças à delegacia, mas elas não nos acompanharam ao bar. Formamos um círculo com algumas cadeiras e, sob o olhar cuidadoso dos carcereiros, deixamos que observassem os presos enquanto me afastava com meu amigo.

Quando voltei do bar, uns 15 ou 20 minutos depois, as crianças estavam chorando, assustadas com o que tinham visto. Era de cortar o coração, mas aprenderam uma lição valiosa.

– Sabem o que é isso? – perguntei sem esperar resposta. As lágrimas escorriam pelos rostos dos meninos. – Isso é o que acontece com quem não obedece pai e mãe. Ou com quem tem a chance de ir para a escola e não quer estudar. Essas pessoas acabam aqui. É isso que vocês querem? – completei.

De novo, não houve resposta. Não precisava. Eu sabia que a mensagem estava entendida. Muita gente não vai concordar com minha atitude. Acredito que esse gesto, na prática, tenha valido mais do que qualquer sermão que pudesse dar. No meu caso, foi uma maneira de transformar algo negativo em positivo.

Voltamos para casa e a visita ao Carandiru continuava viva na minha mente de criança.

 * * *

Meu pai se chamava Juarez da Silva. Era magro e alto como minha mãe e eu. Ele desconfiava que o ambiente familiar em que eu vivia era pesado, mas não tinha cabeça ou estrutura para assumir uma família ou cuidar de um filho. Minha avó também percebia que aquele não era o melhor lar para uma criança. Ela e minha mãe passaram a buscar uma solução. Um dia fui surpreendido por uma visita de minha tia-avó, Edith, que havia criado mamãe. Ela morava em Curitiba. Assim que a vi, corri em sua direção para beijá-la. Era minha madrinha e costumava ser muito carinhosa comigo.

Logo percebi que aquela não seria uma visita comum. Mamãe pediu que minha avó ficasse comigo e com meu irmão e saiu para conversar com minha tia. O assunto era eu. Passando por dificuldades financeiras, mamãe concordou que eu fosse morar com minha tia-avó. Assim teria uma vida melhor, pensava ela.

Ainda sem saber o que se passava, me despedi de minha avó e de minha mãe. Num primeiro momento, imaginei que passaria uns dias com tia Edith em Curitiba. Apesar do abraço mais apertado e das lágrimas de mamãe no meu rosto, não desconfiei que a viagem fosse sem volta.

É incrível que me lembre de tantos detalhes desse dia. Eu tinha apenas 4 anos. Embarcamos no ônibus. Observei minha tia acomodar as malas no bagageiro. Constatei que era muita coisa para alguns dias ou poucas semanas. Abracei tia Edith com força. Permaneci assim até adormecer.

A viagem foi longa e cansativa. Finalmente chegamos a Curitiba. A casa me pareceu enorme. Tão grande quanto uma propriedade no campo. Ficava no bairro da Barreirinha. Meu tio Benedito foi nos buscar na rodoviária. Ele era militar e havia criado três filhos – Sandra, Wilson e Elson, o mais velho, então com cerca de 20 anos. São meus primos, mas me refiro a eles como irmãos.

Minha chegada a Curitiba foi uma terapia para minha tia. Era uma mulher forte, mais enérgica que meu tio. Fisicamente, tinha aquele tipo Big Mama. Havia perdido dois filhos. Uma prima minha, Marili, morreu ao levar um coice de cavalo. Um outro primo, Édson, que seria o mais velho, morreu vítima de acidente num centro fabril onde trabalhava.

Meu tio passava quase o dia todo no quartel, muitas vezes a noite também. Quanto retornava, era por volta das 20h. À época era cabo, mas se aposentou como primeiro-sargento. Lembro dele sempre de farda. Nunca perdeu a imagem de comandante da família. Era uma pessoa sistemática. Para entrar em minha nova casa, era obrigado a tirar os sapatos e me referir a meus tios como “senhor” e “senhora”. Não tinha esse negócio de “já vou…” quando me chamavam. Precisava pedir a “bênção”. Na hora das refeições, os mais velhos sentavam primeiro. Não podia comer de boca aberta, os palavrões eram proibidos e TV só até as 20h. Ainda assim, alguns programas eram vetados. Novela era um deles.

Tio Benedito nunca nos bateu. Sua autoridade estava no olhar. Às vezes, quando eu fazia algo errado, achava que aquele olhar era pior do que uma palmada. Minha tia, sim, de vez em quando recorria a uns petelecos. Meus tios eram altos. Meus primos também. Naquela época, como eu era muito criança, todos pareciam gigantes.

A ficha demorou a cair em Curitiba. Ainda não estava claro que aquele seria meu novo lar, que não moraria mais com minha mãe e minha avó. Aos poucos, pequenos detalhes me fizeram perceber que as coisas não seriam mais as mesmas. Senti uma diferença de tratamento nos primeiros dias, até em atividades corriqueiras, como comer uma fruta. Quando pedi uma maçã a minha madrinha, ela me deu. Olhei para a fruta e para ela de novo:

– Quero comer maçã – protestei.

– Você já ganhou uma maçã – respondeu, firme.

– Quero do jeito que minha mãe “faz” – reclamei com impaciência.

Tentei “ensinar” à tia Edith que, ao me dar a maçã, minha mãe costumava cortar em duas partes, tirar as sementes e raspar o miolo com uma colher.

– Bom, a maçã está aí, lavadinha. Se não quiser assim, não vai comer – disse sem rodeios, pondo fim à discussão.

Foi o bastante para que eu abrisse o berreiro. Não entendia por que se recusava a fazer como eu pedia. Onde estava a madrinha que costumava mimar o sobrinho quando o visitava em São Paulo?

Chorava de saudade da minha mãe. Nas ocasiões em que fazia algo errado e meus primos vinham brigar comigo, eu me defendia: “Você não é meu pai, vou falar para meu pai…” E ouvia de meu primo: “Falar com teu pai!… Teu pai nem está aqui…”

Eu me sentia desprotegido. Na verdade, estava protegido o tempo todo, amado pelos meus tios, por meus primos. Mas era assim que me sentia nos primeiros tempos.

Meus tios conversavam comigo. Eles deixavam claro que meus pais estavam em São Paulo, que eu tinha ido para Curitiba por causa disso, por causa daquilo, enfim, para ter uma vida melhor. Explicavam que não ia faltar nada – nem comida, nem roupa, nada. Apenas me conscientizavam de que seria daquele jeito.

O processo de adaptação foi gradual. Por muito tempo comparei minha nova realidade com os passeios com minha mãe e minha avó em São Paulo. Quando pedíamos algo para comer e o prato chegava, eu dizia: “Não quero mais comer isso.” Então vinha outra coisa, eu dava duas garfadas e soltava outro “não quero mais isso”. Fui uma criança mimada por minha mãe e por minha avó, apesar das dificuldades financeiras. Em São Paulo, duas pessoas me atendiam quando eu gritava.

Minha tia tinha a “manha” para lidar com crianças, já havia criado meus três primos. Ela sabia como tirar os mimos de criança mal-educada. A melhor coisa que me aconteceu foi não ter tido todas as vontades atendidas. Não fosse isso, teria me tornado uma criança sem identidade, terrível.

O que faço hoje com meus filhos é inspirado no que aprendi com meus tios. Se explico que não dá para fazer alguma coisa, eles entendem. Na casa dos meus tios nada faltava. Mas não se esbanjava, era tudo muito controlado. Eu dispunha apenas de um par de tênis, que usava para ir à escola e sair. Em casa, precisava tirá-lo ao chegar, guardar e calçar chinelos. O primeiro brinquedo “caro” que ganhei foi um carrinho dos Comandos em Ação. Nem era de fricção, era aquele simples mesmo. Os Comandos eram famosos na época e eu entendia que era aquilo que meus tios podiam dar.

Às vezes ficava sozinho no meu mundo, com um pedaço de papel e alguns brinquedos. Só às vezes. Em geral, era uma criança hiperativa. Meus tios quebravam a cabeça para me fazer queimar toda aquela energia. Quando visitava meu pai, uma das brincadeiras era escalar um muro e subir numa laje para alcançar a caixa-d’água da casa. Um dia quebrei a tal da caixa. Para me frear um pouco, minha tia decidiu me matricular numa escola de dança perto de casa. Aos 13 anos, me tornei aluno de balé e sapateado. Ela não sonhava com uma carreira de bailarino para mim. A dança foi só o que encontrou para me manter ocupado.

– Não quero – reclamei, ao saber da notícia.

– Você vai! – ordenou minha tia.

Para ter certeza de que iria mesmo às aulas, ela me acompanhava até a porta da academia. Aconteceu por pouco tempo. Tia Edith logo percebeu que eu encarava a coisa numa boa. O problema é que esse tipo de notícia se espalha, e bem depressa a molecada na escola tomou conhecimento da “novidade”. Passei a ouvir provocações como “E aí, vai pôr colantezinho? Isso é coisa de bichinha, sabia?”. Não dava bola. Graças a Deus, sempre fui muito bem resolvido com essas coisas. Acabei saindo da escola de dança porque não levei a sério. Se tivesse levado, quem sabe não teria me tornado bailarino?

Por causa dessas aulas, quem melhor fazia cover de Michael Jackson nas festinhas era eu. Cheguei a montar um pequeno grupo de dança com meus amigos. Imitávamos as coreografias. A gente pedia a minha tia que costurasse as roupas para dançar. Todo mundo vestido igualzinho, meia branca, calça meia canela. O funk estava na moda. Não era esse funk que faz apologia de coisas erradas. Era o funk da Donna Summer, do próprio Michael Jackson. Meus primos escutavam esse tipo de som, Jackson Five, era um negócio mais dançado.

Foram muitas festinhas. A gente enchia uma mão de talco, outra de purpurina, dançava e jogava para cima. Foi um tempo bem gostoso, me diverti muito. Uma música de que gostava especialmente era “Billie Jean”. Em minha carreira como lutador, ensaiei passos de dança, à Michael Jackson, pouco antes de subir ao ringue. Até hoje, quando participo de programas de auditório, pedem uma demonstração das coreografias. Não perdi a prática porque ainda danço, principalmente quando estou com meu filho Kalyl. Ele adora. Mesmo nos treinamentos, gosto de música.

Embora eu não reconhecesse na época, meus tios, a seu modo, também me cobriam de carinho. Eu dormia no quarto deles. Chegaram a providenciar um berço nos primeiros tempos. Por saberem da situação à qual fui exposto em São Paulo, meus tios e primos moldaram uma forma de me dar todo o amor e o carinho de que precisava.

À medida que eu crescia, meu tio me apresentava às outras regras da casa já aplicadas a meus primos. Ele dizia que homem tinha de acordar cedo, lá pelas 6h. Sempre estávamos de pé antes dele. Meu cotidiano era recheado de atividades para que não ficasse ocioso durante o dia. Ele sempre orientou os filhos a cuidar do lugar onde moravam. Eu acordava, fazia minha cama, capinava o jardim e deixava o quintal limpo. Tio Benedito era dono de uns terrenos no bairro. Montava casas pré-fabricadas e, com o tempo, de alvenaria. O material desmontado ficava guardado no porão de casa. Separávamos pregos em latinhas. Eles eram reutilizados mais tarde conforme seus tamanhos. Minha rotina diária era essa.

Mesmo com uma educação tão rígida, cometi deslizes. Não sou perfeito, nunca disse que era. Certa vez, decidi matar aula. Estudava à noite e, ao lado de alguns amigos, deixei a escola mais cedo. Era a segunda vez que fazia isso. Para nosso azar, fomos parados por policiais. Eles ordenaram que formássemos uma fila. Em meio àquela confusão, ouvi uma voz familiar. “Tudo resolvido”, pensei. Era Elson, meu primo mais velho, militar como tio Benedito. Meu primo não percebeu de cara que era eu. Foi ele que veio me revistar. Assim, longe dos colegas, imaginei que seria mais fácil explicar o que acontecia. Estava certo de que ele nos liberaria. Esbocei um sorriso, olhei para ele. Para minha surpresa, meu primo me mandou encostar na parede.

– Você vai me dar uma geral? Sou eu, seu irmão – argumentei.

– Cala a boca, não tenho irmão vagabundo! Encosta aí e separa as pernas – ordenou.

Fiquei em choque. Estava sendo revistado por meu primo mais velho, com quem havia tomado o café da manhã no início do dia.

Os policiais logo nos liberaram. Não tive coragem de encarar meu primo. Já em casa, fui direto para o quarto. Não contei nada do que havia acontecido a meus tios. Não conseguia dormir. “Que azar”, ruminava. “Com tanto lugar para fazer a ronda, ele tinha de estar perto da escola?” Um grito me jogou para fora da cama. Era meu tio. Quando cheguei à sala, lá estavam ele, de pijama, tia Edith e Elson, recém-chegado.

– Você não vê o duro que damos para que tenha um futuro melhor? Não percebe de onde veio? Quer jogar fora a oportunidade de estudar e ser alguém na vida? Por acaso não sabe que tudo o que fazemos é para seu bem? – perguntou tio Benedito.

Eu fitava o chão, cabeça baixa. Não havia resposta. Quando olhei para o lado, vi algo que jamais gostaria de ter visto. Minha tia observava a cena e chorava. Aquilo foi o que me deixou mais triste e arrependido. Não queria causar dor a quem tinha me acolhido dentro de casa e me devotava tanto amor e carinho. Com o tempo, ela se tornou minha confidente e melhor amiga. Aquele foi um momento difícil.

Nos anos que se seguiram, meus tios e primos, quando mais precisei, estiveram ao meu lado e compraram minhas brigas. Aquele núcleo familiar está comigo todos os dias ainda hoje. É engraçado pensar que ficava aborrecido quando me davam uma dura. Hoje, já adulto, ligo para dizer onde estou e o que tenho feito.

O amor daquela família unida não me impedia de sentir falta de meus pais. Certa vez, minha mãe foi a Curitiba me buscar. Estava acompanhada do marido.

– Você não vai tirar ele daqui – anunciou tia Edith.

– Ninguém vai levar ele daqui – reforçou tio Benedito, que sentiu alguma coisa estranha no companheiro da minha mãe.

Minha mãe não me tirou dali, mas aos 12 anos decidi morar com meu pai. Ou melhor, com meu pai, minha madrasta, Márcia, e minhas duas irmãs por parte de pai: Erika, então com 9 anos, e Fabiana, de 7 anos. (Mais tarde nasceu meu terceiro irmão por parte de pai, Cristian.) Vivi com eles por um ano. Foi naquele período de adolescente rebelde por que passam tantos jovens. Meu pai atribuía às dificuldades financeiras a decisão de me abandonar tempos atrás.

Até hoje recordo os primeiros presentes que meu pai me deu: uma bola de futebol e um par de luvas de boxe. Não fiz muito uso da bola, mas o João Bobo sofreu com as luvinhas de criança. Infelizmente, os presentes se perderam com o tempo e não os carrego mais comigo.

Um dia meus tios foram me visitar. Tia Edith percebeu que eu não estava bem.

– Quer ir embora? – perguntou ela sem cerimônia diante de meu pai e de sua mulher – Se quiser, arruma tuas coisas e vamos – completou.

Não pensei duas vezes. Saí da sala, juntei todos os brinquedos e fiz minha mala. Não me dava mal com meu pai, apenas não me sentia tão bem na casa dele como na casa da minha tia. Ele chegava tarde do emprego de contador, eu o via muito pouco. Também sentia falta de meus amigos e primos em Curitiba, da casa com aquele quintal enorme.

De alguma forma, meu pai e eu sempre estamos separados. É difícil explicar o porquê. Há ocasiões em que fico dias em São Paulo (onde ele mora). Quero falar com ele, mas acabo não telefonando. Por quê? Não sei ao certo. Nós nos dávamos bem, mas ao voltar para Curitiba perdi a vontade de viver com ele. Eu o visitava nas férias, nada mais.

Quando retornei para a casa dos meus tios, após um ano fora, meu quarto estava do jeito que eu havia deixado. Aquela casa era minha identidade, minha vida. Ainda hoje é assim. Todos os dias me fortaleço ao pensar no amor que recebi de meus tios e meus primos. Eles são minhas referências de união familiar.

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Anderson Silva

Sobre o autor

Anderson Silva

Mais conhecido como Anderson Silva ou Spider nasceu em São Paulo, no dia 14 de abril de 1975. É um lutador brasileiro de artes marciais mistas ou MMA, da sigla em inglês, e ex-Campeão Peso Médio do UFC. Anderson conquistou 17 vitórias seguidas e 10 defesas de título consecutivas e é até hoje o dono da maior sequência de vitórias e de títulos defendidos do UFC. Spider é considerado o melhor lutador da história pelo presidente do UFC, Dana White.

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