As bênçãos do meu avô - Sextante
AUTOAJUDA

As bênçãos do meu avô

RACHEL NAOMI REMEN

Histórias de fé, coragem e amor para iluminar nossas vidas

Histórias de fé, coragem e amor para iluminar nossas vidas

 

“Rachel Naomi Remen é um gênio do coração humano. Ela tem muito a nos ensinar sobre a vida, o amor e o processo de cura.” — Daniel Goleman, autor de Inteligência emocional

“Através de uma série de histórias simples mas poderosas, a autora incentiva os leitores a reconhecerem e celebrarem bênçãos inesperadas na própria vida. Um livro excepcional.” — Publishers Weekly

Rachel mostra como os médicos podem ajudar os pacientes a alcançar a cura sendo, em vez de meros técnicos do corpo humano, alquimistas da alma.” — Deepak Chopra, autor de As cinco leis espirituais do sucesso

“Este livro é um triunfo do coração, capaz de curar e inspirar. Um tesouro repleto de amor verdadeiro.” — Jack Kornfield, autor de Você pode ser livre onde estiver

 

 

Uma das pioneiras da prática da medicina que integra a saúde do corpo e da alma, Rachel Naomi Remen conta histórias luminosas de seus pacientes – e seus processos de cura – e de seu avô, um rabino estudioso da Cabala que lhe ensinou a ver a beleza e os mistérios da vida.

Tendo tratado de pacientes terminais e vítimas de doenças crônicas por mais de quarenta anos, suas experiências ampliam a nossa humanidade e nos mostram um caminho para viver com sabedoria, força e integridade.

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Ficha técnica
Lançamento 14/06/2022
Título original My Grandfather's Blessings
Tradução Simone Reisner
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 208
Peso 290 g
Acabamento Brochura
ISBN 978-65-5564-390-9
EAN 9786555643909
Preço R$ 39,90
Ficha técnica e-book
eISBN 978-65-5564-391-6
Preço R$ 24,99
Lançamento 14/06/2022
Título original My Grandfather's Blessings
Tradução Simone Reisner
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 208
Peso 290 g
Acabamento Brochura
ISBN 978-65-5564-390-9
EAN 9786555643909
Preço R$ 39,90

E-book

eISBN 978-65-5564-391-6
Preço R$ 24,99

Leia um trecho do livro

Introdução

 

Quase todas as vezes que vinha me visitar, meu avô me trazia um presente. Nunca eram do tipo que as outras pessoas costumam dar: bonecas, livros, bichinhos de pelúcia. Minhas bonecas e meus bichos de pelúcia já desapareceram há mais de meio século, mas muitos dos presentes do meu avô ainda estão comigo.

Uma vez, ele trouxe um pequeno copo de papel. Olhei lá dentro esperando encontrar algo especial. Estava cheio de terra. Eu não tinha permissão para brincar com terra e, desapontada, expliquei isso a ele. Meu avô sorriu com ternura. Em seguida, pegou um pequenino bule do meu jogo de chá de brinquedo, levou-me até a cozinha e o encheu de água. De volta ao meu quarto, colocou o copo com terra no peitoril da janela e me entregou o bule.

– Se você prometer que vai colocar água no copo todos os dias, alguma coisa pode acontecer – disse ele.

Naquela época eu tinha 4 anos e meu quarto ficava no sexto andar de um prédio em Manhattan. Nada daquilo fez o menor sentido para mim. Olhei para ele com desconfiança.

– Todos os dias, Neshumele – enfatizou.

E eu prometi. No início, curiosa para ver o que aconteceria, cumpri a tarefa sem problemas. Mas, à medida que os dias iam passando e nenhum resultado se apresentava, ficou cada vez mais difícil me lembrar de colocar água no copo. Após uma semana, perguntei ao meu avô se já era hora de parar. Fazendo que não com a cabeça, ele disse:

– Todos os dias, Neshumele.

A segunda semana foi ainda pior, e comecei a me arrepender de ter feito aquela promessa. Quando meu avô apareceu outra vez, tentei devolver-lhe o presente, mas ele se recusou a aceitar, dizendo apenas:

– Todos os dias, Neshumele.

Na terceira semana, comecei a esquecer de colocar água no copo. Geralmente, só me lembrava depois de já estar deitada e, assim, era obrigada a me levantar e cumprir a tarefa no escuro. Mas não deixei de cumpri-la uma única vez. Até que, certa manhã, surgiram duas minúsculas folhas verdes que não estavam lá na noite anterior.

Fiquei perplexa. Dia após dia elas iam se tornando maiores. Eu mal podia esperar para contar ao meu avô, certa de que ele também ficaria surpreso. Mas ele, é claro, não ficou. Com toda delicadeza, vovô me explicou que a vida está em toda parte, escondida nos lugares mais simples e inesperados. Isso me deixou encantada.

– E só precisa de água, vovô?

Afetuosamente, ele tocou o alto da minha cabeça.

– Não, Neshumele. Só precisa da sua lealdade.

Talvez esta tenha sido a minha primeira lição sobre o poder de servir, mas naquela época eu não tinha entendido dessa forma. Meu avô não usaria essas palavras. Ele diria que precisamos nos lembrar de abençoar a vida ao nosso redor e dentro de nós. E diria que, quando nos lembramos de que podemos abençoar a vida, somos capazes de reconstruir o mundo.

 

___________

 

Meu avô era um estudioso da Cabala, os ensinamentos místicos do judaísmo. Meus pais, tios e tias desaprovavam esse estudo, pois achavam que era ligado à magia, muito suspeito. Quando vovô morreu, os velhos livros escritos à mão, com capa de couro, que ele havia estudado todos os dias, simplesmente desapareceram. Nunca descobri o que aconteceu com eles.

De acordo com a Cabala, em algum momento, no início de tudo, o Criador dividiu-se em incontáveis centelhas que se espalharam por todo o Universo. Há uma centelha de Deus em cada ser e em cada objeto, como uma diáspora de bondade. A presença indissociável de Deus no mundo e em nós é observada diariamente nas formas mais simples, despretensiosas e comuns. Os professores da Cabala dizem que Deus pode falar conosco a qualquer instante de seus inúmeros esconderijos. O mundo pode sussurrar em nossos ouvidos ou a centelha de Deus dentro de nós pode sussurrar em nosso coração. Meu avô me ensinou a ouvir.

Recitar uma bênção nos ajuda a reconhecer esses encontros inesperados com Deus. Existem centenas de bênçãos, cada uma manifestando um momento em que despertamos e nos lembramos da natureza sagrada do mundo. Em tais momentos, o céu e a terra se encontram e se cumprimentam, reconhecendo um ao outro.

Existe uma bênção que é repetida sempre que deparamos com algo novo e significativo para a nossa existência. Minha mãe estava presente quando meu avô me conheceu. Logo que nasci, ele foi ao hospital para me visitar na incubadora. Ela me disse que vovô ficou me estudando em silêncio, por um longo tempo, através do vidro do berçário. Fui um bebê prematuro. Preocupada com a possibilidade de ele estar sentindo ansiedade ou mesmo aflição diante do meu tamanho minúsculo e de minha aparência frágil, mamãe quis reconfortá-lo, mas, antes que ela fizesse isso, ele sussurrou algo. Mamãe não conseguiu ouvi-lo e pediu-lhe que falasse de novo. Com um sorriso, meu avô repetiu em hebraico:

– Bendito sejas, ó Deus, nosso pai, Rei do Universo, que nos mantivestes vivos e nos destes amparo, que nos trouxestes inteiros para estar aqui neste momento. Esta é uma bênção de gratidão pela dádiva da vida e foi o início do meu relacionamento com meu avô.

 

___________

 

Meu avô era um homem de muitas bênçãos. Elas foram prescritas há várias gerações, pelos rabinos mais importantes, e cada uma delas é considerada um momento de consciência – um reconhecimento de que a santidade foi encontrada em meio à vida comum. As bênçãos existem não apenas para serem repetidas antes das refeições. Há bênçãos para os momentos em que lavamos as mãos, assistimos ao nascer do sol, perdemos um objeto ou o achamos, para quando algo começa ou termina. Até mesmo a mais simples das funções corporais tem a própria bênção. Meu avô era um rabino ortodoxo e dizia todas elas, batendo de leve em seu chapéu preto, em homenagem a Deus, muitas e muitas vezes, enquanto ia lidando com os menores detalhes da vida diária.

Eu sou filha de dois dedicados socialistas que viam qualquer religião como o “ópio do povo”. Embora essas bênçãos nunca fossem repetidas em minha casa, para mim era natural dizê-las na presença do meu avô. Eu sabia inúmeras delas de cor, mas já me esqueci de todas há muito tempo. Porém, nunca me esqueço da importância de abençoar a vida.

 

___________

 

Quando era criança, eu me via entre duas visões bem diferentes da vida: meu avô e seu sentido da natureza sagrada do mundo, e meus tios, tias e primos e sua postura altamente acadêmica, voltada para a pesquisa. Todos os filhos do meu avô eram médicos ou outros profissionais da saúde, assim como muitos de seus netos. À medida que fui crescendo e o tempo criou uma distância cada vez maior entre nós, meu avô foi se tornando uma ilha de misticismo em meio ao vasto mar de ciência. Ansiosa para alcançar meus objetivos e contribuir com a sociedade, aos poucos eu o fui colocando no fundo da memória, junto com as lembranças da infância. Ele morreu quando eu tinha 7 anos. Muitos anos se passariam até que eu fizesse a conexão entre suas ideias e a medicina. Às vezes, quando estamos diante de situações difíceis, caminhos diferentes acabam nos levando ao mesmo destino. Meu avô abençoava a vida e seus filhos serviam a ela. Mas, no final, esses dois caminhos podem ser um só.

Como jovem médica, eu pensava que servir a vida fosse algo dramático, repleto de ação e de decisões a serem tomadas em segundos. Uma questão de ficar noites sem dormir e passar o tempo em ambulâncias, enganando o anjo da morte. Um papel que só poderia ser desempenhado por pessoas que se prepararam durante muitos anos. Agora sei que esta é a menor parte da natureza do ato de servir. Sei que o serviço é pequeno, silencioso e está em toda parte. Sei que é mais frequente servirmos por sermos quem somos do que por aquilo que sabemos. E que todos servem, estejam conscientes disso ou não.

Abençoamos a vida ao nosso redor com muito mais regularidade do que percebemos. Muitas atitudes simples e comuns podem afetar profundamente os que nos rodeiam: um telefonema inesperado, um leve toque de mão, a generosa disponibilidade para ouvir, um afetuoso piscar de olhos, um sorriso amigo. Podemos abençoar estranhos e ser abençoados por eles. Grandes mensagens vêm em pequenas embalagens. O simples ato de devolver um brinco perdido ou de dar passagem para um carro no trânsito pode ser suficiente para renovar a confiança de uma pessoa na vida.

As bênçãos vêm em formatos tão simples quanto um cumprimento usado normalmente na Índia. Quando se encontram, os indianos abaixam a cabeça e dizem “Namastê”: vejo a centelha divina dentro de você. Com frequência interpretamos mal a aparência das pessoas, sua idade, doença, raiva, mesquinhez, ou estamos apenas ocupados demais para reconhecer que existe bondade e integridade em cada um de nós, mesmo que estejam escondidas. Estamos com muita pressa ou distraídos demais para parar e observá-las. Quando reconhecemos a centelha de Deus no outro, nós a reacendemos com nossa atenção, tornando-a mais forte, ainda que esteja profundamente enterrada há muito tempo. Quando abençoamos alguém, tocamos a bondade guardada nessa pessoa e desejamos que ela se desenvolva.

Tudo o que está sendo gerado em nós mesmos e no mundo precisa ser abençoado. Meu avô acreditava que Deus fez todas as coisas:

– Depende de nós fortalecê-las, alimentá-las e libertá-las sempre que for possível, Neshumele – disse-me ele. – As bênçãos fortalecem e alimentam a vida da mesma maneira que a água.

 

___________

 

Certa vez uma mulher me disse que não sentia necessidade de procurar os que estavam ao seu redor porque rezava todas as noites. Isso era o bastante. Mas enquanto uma prece trata do relacionamento com Deus, uma bênção trata do relacionamento com a centelha de Deus que existe no interior do outro. Deus pode não precisar tanto da nossa atenção quanto a pessoa ao nosso lado no ônibus, ou atrás de nós na fila do supermercado. Todos os indivíduos são importantes, assim como abençoá-los. Quando abençoamos o outro, oferecemos a ele um refúgio contra um mundo indiferente.

Todos nós temos a capacidade de abençoar a vida. O poder de nossas bênçãos não diminui com a idade ou com alguma doença. Pelo contrário, elas se tornam mais poderosas à medida que envelhecemos. Sobreviveram à batalha da nossa experiência. Pode ser que tenhamos empreendido uma longa e árdua viagem ao lugar onde é possível nos lembrarmos novamente de quem somos. O fato de termos viajado e lembrado traz esperança àqueles que abençoamos. Talvez com o tempo eles também sejam capazes de recordar esse lugar que fica além da competição e da luta, o lugar onde pertencemos uns aos outros.

Uma bênção não é algo que uma pessoa oferece à outra. Uma bênção é um momento de encontro, um certo tipo de relacionamento no qual as pessoas envolvidas lembram e reconhecem sua verdadeira natureza e seu real valor, fortalecendo a plenitude uma da outra. Cultivando essa plenitude nos nossos relacionamentos, oferecemos ao outro a oportunidade de ser inteiro sem nenhum constrangimento e de tornar- -se um abrigo contra tudo aquilo que não seja genuíno dentro dele e ao seu redor. Fazemos com que o outro seja capaz de saber quem ele é.

Aprendi isso primeiramente com pessoas que estavam morrendo. Elas haviam tornado suas relações com o próximo mais verdadeiras, pois só viam sentido naquilo que era autêntico. Essas pessoas tinham deixado de utilizar artifícios para mudar o seu modo de ser e conseguir aprovação. Assim, permitiam que os outros também removessem suas máscaras. A aceitação dessas pessoas me permitiu ver algo que estava quase esquecido. Em sua presença percebi que muitas de minhas próprias mudanças haviam me tornado menor e, de certa maneira, mais fraca. Partes de mim, que eu havia censurado e escondido por muitos anos, foram desejadas e até solicitadas por aqueles que estavam à beira da morte. Senti a minha vida abençoada por aquelas pessoas. Sem nenhum constrangimento, percebi que se expandia e retomava seus reais tamanho, forma e poder. Levei muito tempo para compreender que não é preciso estar morrendo para abençoar o outro dessa maneira.

Aqueles que abençoam e servem a vida encontram uma força, um lugar do qual sentem fazer parte, um abrigo contra uma vida sem sentido, vazia e solitária. Abençoar a vida nos aproxima uns dos outros e de nosso eu verdadeiro. Quando as pessoas são abençoadas, descobrem que sua vida é importante, que há algo nelas digno de receber uma bênção. E quando abençoamos o outro, descobrimos que isso também é válido para nós.

Não servimos o fraco ou o vencido. Servimos a plenitude uns dos outros e da própria vida. A parte dentro de você que eu sirvo é a mesma que é fortalecida dentro de mim no momento em que sirvo. Diferente do que acontece quando ajudamos, reparamos e resgatamos, o servir é mútuo. Há muitas maneiras de servir e fortalecer a vida ao nosso redor: por meio da amizade, da paternidade ou do trabalho, da gentileza, da compreensão, da generosidade ou da aceitação. E também por meio da filantropia, do nosso exemplo, nosso encorajamento, da nossa ativa participação, nossa crença. Não importa como o façamos, o ato de servir nos abençoará.

Quando oferecemos nossas bênçãos com generosidade, a luz do mundo ganha força ao nosso redor e dentro de nós. A Cabala refere-se às tarefas humanas coletivas como o Tikun Olam: nós amparamos e reformamos o mundo.

___________

 

Quando eu era criança, adorava a história da Arca de Noé, a melhor entre as que vovô contava. Uma vez ele me deu um livro de colorir com desenhos de todos os animais, aos pares, com Noé e a esposa parecidos com Papai e Mamãe Noel, porém vestidos de maneira diferente. Passamos horas colo[1]rindo aquele livro juntos, e foi assim que, aos quase 4 anos, aprendi os nomes de vários animais. Também discutimos a história em detalhes, refletindo sobre a surpreendente ideia de que até mesmo Deus às vezes comete erros e precisa providenciar uma enchente para poder começar tudo outra vez.

O último desenho do livro era um lindo arco-íris.

– Isso representa uma promessa entre Deus e o homem, Neshumele – explicou meu avô.

Depois da enchente, Deus prometeu a Noé e a todos nós que aquilo nunca mais aconteceria.

Mas eu não me convenceria facilmente. Tudo havia começado porque as pessoas foram más.

– Mesmo se formos muito desobedientes, vovô? – eu quis logo saber.

Ele achou graça:

– É o que essa história diz. – Ele ficou pensativo. – Mas existem outras histórias.

Encantada, pedi que me contasse mais uma.

A história que vovô escolheu era muito antiga, da época do profeta Isaías. É a lenda do Lamed Vavnik. Nessa história, Deus nos diz que permitirá que o mundo continue se a cada momento existir um mínimo de 36 pessoas boas. Pessoas que tenham sensibilidade pelo sofrimento, que é parte da condição humana. Esses 36 indivíduos são chamados de Lamed Vavniks. Se em qualquer momento existirem menos de 36 deles, o mundo terá fim.

– Você conhece essa gente, vovô? – perguntei, certa de que a resposta seria sim. Mas ele fez que não com a cabeça.

– Não, Neshumele. Somente Deus sabe quem são os Lamed Vavniks. Até mesmo os próprios Lamed desconhecem o seu papel na continuidade do mundo e não há ninguém que saiba. Eles respondem ao sofrimento não porque querem salvar o mundo, mas porque o sofrimento do outro os toca e tem importância.

Os Lamed Vavniks podem ser alfaiates ou professores universitários, milionários ou indigentes, líderes poderosos ou vítimas indefesas. Isso não é importante, e sim a sua capacidade de sentir o sofrimento coletivo da raça humana e de ser sensível ao sofrimento do próximo.

– E como ninguém sabe quem eles são, Neshumele, qualquer pessoa que você encontrar pode ser uma das 36 para quem Deus preserva o mundo. É importante tratar cada pessoa como se ela fosse uma delas.

Sentei-me e passei um longo tempo pensando naquela história. Era diferente do relato sobre a Arca de Noé. O arco-íris significava que sempre haveria um final feliz, exatamente como nos contos que meu pai lia para mim na hora de dormir. Mas a história do vovô não fazia nenhuma promessa. Deus pediu algo ao povo em troca da dádiva da vida e ainda estava pedindo.

De repente, percebi que não tinha ideia do que poderia ser. Se havia tanto dependendo disso, deveria ser algo muito difícil, que exigisse enorme sacrifício. E se os Lamed Vavniks não conseguissem fazê-lo? O que aconteceria?

– Como os Lamed Vavniks lidam com o sofrimento, vovô? – perguntei, ansiosa. – O que eles precisam fazer?

Meu avô sorriu com doçura.

– Ah, Neshumele, eles não precisam fazer nada. Eles respondem a todo sofrimento com solidariedade. Sem solidariedade, o mundo não pode continuar. Nossa solidariedade abençoa e sustenta o mundo.

 

___________

 

Dispor de uma solidariedade maior pode exigir que enfrentemos os valores fundamentais de nossa cultura. Valorizamos a supremacia e o controle, cultivamos a autossuficiência, a competência, a independência. Mas, à sombra desses valores, está uma profunda rejeição à nossa plenitude humana. Como indivíduos e como cultura, desenvolvemos um certo desprezo por tudo, em nós mesmos e no outro, que tenha necessidades e sofra. O mundo não é gentil.

À medida que a vida se torna mais fria e dura, lutamos para criar lugares seguros, para nós mesmos e para aqueles que amamos, por intermédio de nosso aprendizado, nossas habilidades, nosso dinheiro. Estabelecemos esses lugares em nossas casas, em nossos escritórios e até em nossos carros. Esses lugares nos deixam isolados uns dos outros. Lugares que separam as pessoas nunca serão seguros o bastante. Talvez nosso único refúgio esteja na bondade uns dos outros.

Num mundo altamente tecnológico, podemos esquecer nossa bondade e passar a valorizar nossas habilidades e proficiência. Mas não é isso que vai reconstruir o mundo. O futuro pode depender menos de nossas habilidades e mais de nossa lealdade à vida.

Lembrar-se de como abençoar um ao outro é mais importante hoje do que em qualquer outra época. A solução para a destrutibilidade deste mundo não está na ampliação dos conhecimentos tecnológicos. Para reconstruir o mundo teremos que encontrar uma ligação profunda com a vida ao nosso redor, teremos que substituir a busca constante por conhecimentos específicos cada vez mais profundos pela capacidade de favorecer a vida. Já foi dito que levamos milhares de anos para reconhecer e defender o valor de uma única vida humana. O que resta é compreender que o valor de qualquer vida humana é limitado, a não ser que haja algo nela que represente o benefício do outro e dela mesma. Uma mulher que vive em Pinson, no Alabama, mandou-me uma citação do Êxodo que meu avô teria adorado: “Onde quer que eu seja lembrado pelo que sou, virei a vocês e os abençoarei.” A bênção que iremos receber quando tivermos nos lembrado de como abençoar a vida novamente poderá ser nada menos do que a própria vida.

Aprendi muito sobre abençoar e servir a vida com as pessoas que recebo no meu consultório, talvez porque o câncer force as pessoas a irem de encontro à sua vulnerabilidade de maneira tão profunda que elas alcançam um ponto de onde conseguem perceber que tal vulnerabilidade é um traço comum a todos nós. Uma vez que se tem essa visão, é impossível deixar de reagir a ela. Já testemunhei tantas pessoas emergirem de seus encontros com grandes perdas trazendo com elas um altruísmo e uma solidariedade muito mais espontâneos do que os que experimentavam antes que me questiono se abençoar a vida não seria um último passo de algum processo natural para curar o sofrimento. Uma bênção é um abrigo, uma religação com um lugar dentro de nós onde somos coesos e inteiros. Uma lembrança de quem somos.

 

___________

 

Um de meus pacientes, um advogado civil que quase morreu de câncer, me contou, muitos anos mais tarde, que aquela experiência o havia capacitado a descobrir um poder inesperado:

– Encontro nas pessoas algo que encontrei em mim mesmo. Algo que luta para vencer obstáculos e viver de maneira plena. Posso ver sua luta e falar sua língua. Assim, posso fortalecê-lo… – interrompeu-se, com um ar pensativo – como os outros o fortaleceram em mim. Minha mulher me disse que finalmente consegui abrir meu coração. Talvez, mas não foi bem isso que aconteceu. – E fez outra pausa. – Parece estranho, mas acho que posso abençoar a vida das outras pessoas e ser abençoado por elas. Eu o faço no meu trabalho, mas isso vai mais além. Agora, fico com a impressão de que é a coisa mais importante que posso fazer.

Uma amiga me contou sobre suas primeiras horas após saber que seu filho mais velho morrera afogado. Ela havia descido as escadas para tomar chá e uma outra mulher, também sofrendo imensa dor, censurou-a, perguntando como ela conseguia tomar chá num momento como aquele.

– Até aquele instante, Rachel, eu tinha sido uma pessoa sempre temerosa de fazer algo errado, sempre hesitante e cheia de dúvidas sobre a mais simples atitude. Porém, quando ela falou comigo, subitamente tive certeza de que, em relação àquele fato, eu não estava fazendo nada errado: tudo aquilo me levara a um lugar de tanta profundidade que qualquer coisa que eu fizesse, dissesse, pensasse ou sentisse em resposta seria verdadeiro. Era um acontecimento que ultrapassava todas as regras, todos os julgamentos. Era completamente meu.

Seu processo de cura foi longo, levou mais de 18 anos. Agora ela trabalha com grupos de pacientes que sofrem de câncer, ajudando-os a vencer seus sofrimentos e perdas para, assim, poderem conectar-se outra vez com seu lugar interior, onde são coesos e inteiros. A esse respeito, ela disse:

– Para mim, a perda do meu filho passou de um acontecimento único para algo que ficou entrelaçado ao tecido do meu ser. Estará sempre presente em mim, é parte do meu trabalho, parte da minha experiência. Tendo experimentado tal sofrimento, uma dor tão profunda, não tenho mais medo de voltar lá. Estive naquele lugar, fiquei ali e voltei, o conheço muito bem. De alguma maneira, sobrevivi a ele. Acho que as pessoas que participam dos meus grupos sabem disso. Sabem que não tenho mais medo. Se é o que precisamos fazer, isso nos permite ir até aquele lugar de dor e sofrimento, reconhecer nossas perdas e seu profundo significado. Acho que esse fato traz uma certa segurança ao ambiente.

Ela fez uma pausa para refletir e prosseguiu:

– Voltar lá é também uma reafirmação, pois é um lugar de enorme significado para mim. Às vezes, é como se eu estivesse junto do meu filho outra vez, nos momentos em que a sala fica tomada daquela mesma dor.

 

___________

 

Os 37 anos em que venho trabalhando como médica me mostraram que tudo em nossa vida – alegrias, fracassos, amores e até as doenças – pode se tornar uma maneira de servir. Já vi pessoas usando qualquer coisa para abençoar a vida.

Uma tarde, já muito doente, meu avô falou comigo a respeito da morte. Ele me revelou que estava morrendo:

– O que isso quer dizer, vovô? – perguntei, preocupada e aflita.

– Eu vou para um outro lugar, Neshumele. Para mais perto de Deus.

Fiquei atônita.

– E eu vou poder visitar você lá?

– Não, mas eu vou cuidar de você e abençoar aqueles que a abençoarem.

Quase 55 anos se passaram. Desde então, minha vida tem sido abençoada por muitas pessoas. Cada uma delas recebe as bênçãos do meu avô.

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Rachel Naomi Remen

Sobre o autor

Rachel Naomi Remen

RACHEL NAOMI REMEN nasceu em 1938. É professora de medicina alternativa e leciona no Centro Osher de Medicina Integrativa da Universidade da Califórnia, em São Francisco. Cofundadora do Commonweal Cancer Help Program e fundadora do Institute for the Study of Health & Illness, é autora também de Histórias que curam e O paciente como ser humano.     A Dra. Remen foi uma das primeiras a reconhecer e documentar o impacto psicológico e espiritual do câncer nos pacientes e em suas famílias. Através de suas palestras, já fez milhares de pessoas saberem que todos têm o poder da cura.

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