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Bumerangue

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MICHAEL LEWIS

Uma viagem pela economia do novo terceiro mundo

Uma viagem pela economia do novo terceiro mundo

“Lewis tem um talento maravilhoso para destrinchar histórias complicadas em termos simples e com detalhes impressionantes.” – The Washington Post

 

Para entender as causas da atual crise econômica e seus desdobramentos, o jornalista Michael Lewis embarcou com seu agudo senso de curiosidade para a Europa, onde foi examinar de perto a situação enfrentada em alguns países.

Sua marca registrada é contar histórias importantes por meio de pessoas extraordinárias e, neste livro, ele conversa com políticos conhecidos e poderosos, financistas visionários, acadêmicos notáveis e também com figuras menos ilustres porém igualmente surpreendentes.

Na Grécia, Lewis visitou um monge que descobriu como explorar o capitalismo grego para salvar seu mosteiro falido. Na Islândia, falou com o primeiro-ministro e investigou como pescadores deixaram seu ofício e foram se meter em operações cambiais milionárias. Na Irlanda, conversou com o professor de economia que foi o primeiro a alertar sobre o perigo da bolha imobiliária local. Na Alemanha, teve acesso ao gabinete do vice-ministro das Finanças e procurou entender como os alemães, que ignoraram a oferta de crédito fácil e que são tão avessos ao risco, usaram seu dinheiro para permitir que estrangeiros cometessem loucuras.

De volta para casa, o autor conversou com Arnold Schwarzenegger para saber como ele enfrentou a politicagem que praticamente o impediu de governar e em que momento percebeu que administrava um estado falido. Em sua conclusão, chama atenção para o descontrole da sociedade americana e o crescente sacrifício dos interesses de longo prazo por recompensas imediatas.

O panorama econômico mundial nunca pareceu tão confuso e intimidador. Para nos guiar nesse terreno complexo e movediço, ninguém melhor do que Michael Lewis. Com um dom para explicar estatísticas e mercados, ganhar a confiança de pessoas fascinantes e se maravilhar diante da estupidez humana, ele é um cronista incomparável da exuberância irracional.

****

“Em Bumerangue Lewis mostra mais uma vez por que é o principal jornalista de sua geração.” – Forbes

 

O tsunami de crédito barato que varreu o planeta entre 2002 e 2008 foi mais do que um simples fenômeno financeiro: foi tentação, oferecendo a sociedades inteiras a chance de trazer à tona desejos que até então não podiam ser saciados.

Países como Grécia, Irlanda, Estados Unidos e Islândia se esbaldaram. Mas, em algum momento, a festa acabou, os bancos precisaram ser socorridos e suas dívidas imensas foram transferidas para os governos, que, em certos casos, passaram a apresentar risco real de calote.

Depois de pesquisar e escrever sobre a crise do subprime nos Estados Unidos, Michael Lewis se viu intrigado com o desdobramento do colapso bancário em outras partes do mundo rico e resolveu embarcar numa nova onda: o turismo de desastres financeiros.

Em cada país que visitou, descobriu aspectos que ligavam a forma como a bolha do crédito se desenvolveu às características socioculturais mais fortes de seu povo. Sua principal teoria é a de que, sozinha num quarto escuro com uma pilha de dinheiro, cada nação enlouqueceu à sua maneira.

Os islandeses quiseram parar de pescar e se tornar banqueiros de investimentos. Os gregos manipularam números para entrar na zona do euro e deixaram que o máximo de cidadãos participasse da festa. Os alemães não se sujaram em seu próprio país, mas investiram em quase todos os negócios podres pelo mundo. Os irlandeses imaginaram tornar o país um canteiro de obras, construindo muito mais imóveis do que o necessário à população. E os americanos quiseram viver bem acima de suas posses, endividando a si mesmos, suas cidades e seus estados.

Lewis entrevistou peças-chave como primeiros-ministros, ex-governadores, ministros de Estado e financistas, e conversou com personagens interessantíssimos como monges, bombeiros e manifestantes, traçando um retrato curioso e preocupante de um novo cenário econômico mundial.

“Lewis tem um talento maravilhoso para destrinchar histórias complicadas em termos simples e com detalhes impressionantes.” – The Washington Post

 

Para entender as causas da atual crise econômica e seus desdobramentos, o jornalista Michael Lewis embarcou com seu agudo senso de curiosidade para a Europa, onde foi examinar de perto a situação enfrentada em alguns países.

Sua marca registrada é contar histórias importantes por meio de pessoas extraordinárias e, neste livro, ele conversa com políticos conhecidos e poderosos, financistas visionários, acadêmicos notáveis e também com figuras menos ilustres porém igualmente surpreendentes.

Na Grécia, Lewis visitou um monge que descobriu como explorar o capitalismo grego para salvar seu mosteiro falido. Na Islândia, falou com o primeiro-ministro e investigou como pescadores deixaram seu ofício e foram se meter em operações cambiais milionárias. Na Irlanda, conversou com o professor de economia que foi o primeiro a alertar sobre o perigo da bolha imobiliária local. Na Alemanha, teve acesso ao gabinete do vice-ministro das Finanças e procurou entender como os alemães, que ignoraram a oferta de crédito fácil e que são tão avessos ao risco, usaram seu dinheiro para permitir que estrangeiros cometessem loucuras.

De volta para casa, o autor conversou com Arnold Schwarzenegger para saber como ele enfrentou a politicagem que praticamente o impediu de governar e em que momento percebeu que administrava um estado falido. Em sua conclusão, chama atenção para o descontrole da sociedade americana e o crescente sacrifício dos interesses de longo prazo por recompensas imediatas.

O panorama econômico mundial nunca pareceu tão confuso e intimidador. Para nos guiar nesse terreno complexo e movediço, ninguém melhor do que Michael Lewis. Com um dom para explicar estatísticas e mercados, ganhar a confiança de pessoas fascinantes e se maravilhar diante da estupidez humana, ele é um cronista incomparável da exuberância irracional.

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“Em Bumerangue Lewis mostra mais uma vez por que é o principal jornalista de sua geração.” – Forbes

 

O tsunami de crédito barato que varreu o planeta entre 2002 e 2008 foi mais do que um simples fenômeno financeiro: foi tentação, oferecendo a sociedades inteiras a chance de trazer à tona desejos que até então não podiam ser saciados.

Países como Grécia, Irlanda, Estados Unidos e Islândia se esbaldaram. Mas, em algum momento, a festa acabou, os bancos precisaram ser socorridos e suas dívidas imensas foram transferidas para os governos, que, em certos casos, passaram a apresentar risco real de calote.

Depois de pesquisar e escrever sobre a crise do subprime nos Estados Unidos, Michael Lewis se viu intrigado com o desdobramento do colapso bancário em outras partes do mundo rico e resolveu embarcar numa nova onda: o turismo de desastres financeiros.

Em cada país que visitou, descobriu aspectos que ligavam a forma como a bolha do crédito se desenvolveu às características socioculturais mais fortes de seu povo. Sua principal teoria é a de que, sozinha num quarto escuro com uma pilha de dinheiro, cada nação enlouqueceu à sua maneira.

Os islandeses quiseram parar de pescar e se tornar banqueiros de investimentos. Os gregos manipularam números para entrar na zona do euro e deixaram que o máximo de cidadãos participasse da festa. Os alemães não se sujaram em seu próprio país, mas investiram em quase todos os negócios podres pelo mundo. Os irlandeses imaginaram tornar o país um canteiro de obras, construindo muito mais imóveis do que o necessário à população. E os americanos quiseram viver bem acima de suas posses, endividando a si mesmos, suas cidades e seus estados.

Lewis entrevistou peças-chave como primeiros-ministros, ex-governadores, ministros de Estado e financistas, e conversou com personagens interessantíssimos como monges, bombeiros e manifestantes, traçando um retrato curioso e preocupante de um novo cenário econômico mundial.

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Ficha técnica
Lançamento 21/01/2011
Título original
Tradução
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 224
Peso 240 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-7542-740-8
EAN 9788575427408
Preço R$ 39,90
Ficha técnica e-book
eISBN 9788575427668
Preço R$ 24,99
Lançamento 21/01/2011
Título original
Tradução
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 224
Peso 240 g
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Leia um trecho do livro

Prefácio

É pior do que se pensa

Este livro começou por acaso enquanto eu trabalhava em outra obra, sobre Wall Street e o desastre financeiro americano de 2008. Eu havia me interessado por um pequeno grupo de investidores que fizeram suas fortunas com o colapso do mercado hipotecário subprime. Em 2004, os maiores bancos de investimentos de Wall Street haviam criado o instrumento de sua própria destruição, o swap de crédito (credit default swap – CDS) sobre o título hipotecário subprime. O swap de crédito permitia aos investidores apostar contra o preço de determinado título – vendê-lo “a descoberto”. Era uma apólice de seguro, mas com um detalhe: o comprador não precisava possuir o ativo segurado. Nenhuma seguradora pode, legalmente, lhe vender um seguro contra incêndio para a casa de outra pessoa, mas os mercados financeiros podem e lhe venderão um seguro contra inadimplência referente aos investimentos de outra pessoa.

Centenas de investidores aplicaram no mercado de swaps de crédito – uma porção de gente achou, mesmo que por acaso, que o boom imobiliário americano alimentado pelo crédito fácil era insustentável –, mas apenas uns 15 mergulharam fundo e apostaram forte que grande parte das finanças americanas entraria em colapso. A maioria desses investidores administrava hedge funds em Londres ou Nova York. Quase todos costumavam evitar os jornalistas. Mas sobre aquele tópico, naquele momento, mostraram-se surpreendentemente acessíveis. Todos haviam experimentado a sensação estranha e isoladora de serem os homens racionais num mundo irracional e, quando falavam de sua experiência, soavam como alguém que estivesse em silêncio num barquinho observando o Titanic colidir com o iceberg.

Algumas daquelas pessoas não tinham inclinação para a solidão e o silêncio. Nesse grupo estava Kyle Bass, o gestor de um hedge fund chamado Hayman Capital, de Dallas. Bass era texano, beirava os 40 e passara os primeiros anos de sua carreira (sete deles no banco de investimentos Bear Stearns) vendendo títulos para empresas de Wall Street. No final de 2006, pegou metade dos US$ 10 milhões que acumulara, levantou mais US$ 500 milhões com outras pessoas, criou seu hedge fund e apostou forte contra o mercado de títulos hipotecários subprime. Depois foi até Nova York alertar seus velhos amigos de que estavam do lado errado de um monte de apostas furadas. Os corretores do Bear Stearns não deram a mínima ao que ele tinha a dizer. “Você se preocupa com a gestão do seu risco. Eu me preocupo com a do nosso”, um deles respondeu.

No final de 2008, quando fui a Dallas ver Bass, o mercado de títulos hipotecários subprime havia desmoronado, levando consigo o Bear Stearns. Ele agora estava rico e, nos círculos de investimentos, um tanto famoso. Mas sua mente já estava mais à frente da ruína dos títulos hipotecários subprime. Tendo realizado seus lucros, um interesse novo o absorvia: os governos. O governo dos Estados Unidos estava, na época, ocupado assumindo em sua própria contabilidade os empréstimos subprime contraídos pelo Bear Stearns e por outros bancos de Wall Street. O Federal Reserve acabaria absorvendo o risco, de uma forma ou de outra, associado a quase US$ 2 trilhões em papéis duvidosos. Suas medidas foram semelhantes às de outros governos do mundo rico e desenvolvido: os empréstimos podres concedidos por financistas com altos salários trabalhando no setor privado estavam sendo absorvidos pelos tesouros nacionais e bancos centrais por toda parte.

Na opinião de Kyle Bass, a crise financeira não havia terminado. Estava simplesmente sendo abafada pela fé pública nos governos ocidentais ricos. Passei um dia ouvindo-o discutir com seus colegas, quase exultantes, aonde aquilo poderia levar. Não estavam mais falando sobre o colapso de uns poucos títulos. Estavam falando sobre o colapso de países.

E eles tinham uma tese de investimento novinha em folha.

Desde 2002, algo como um falso boom vinha ocorrendo em grande parte do mundo rico e desenvolvido. O que parecia ser crescimento econômico era alimentado por pessoas contraindo empréstimos que dificilmente conseguiriam saldar: de acordo com seus cálculos aproximados, o endividamento mundial, público e privado, havia mais do que dobrado desde 2002, passando de US$ 84 trilhões para US$ 195 trilhões. “Jamais tivemos esse tipo de acúmulo de dívidas na história mundial”, disse Bass. Os grandes bancos que concederam boa parte do crédito não estavam mais sendo tratados como empresas privadas, mas como extensões de seus governos locais, convencidos de que seriam socorridos em caso de crise.

A dívida pública dos países ricos já atingira o que pareciam ser níveis perigosamente altos e, em reação à crise, vinha crescendo depressa. Mas a dívida pública daqueles países já não era a dívida pública oficial. Em termos práticos, incluía as dívidas do sistema bancário de cada país, que, no caso de outra crise, seriam transferidas para o governo. “A primeira coisa que tentamos descobrir”, contou Bass, “foi o tamanho daqueles sistemas bancários, sobretudo em relação às receitas dos governos. Levamos uns quatro meses para coletar os dados. Ninguém dispunha deles.”

As cifras alcançaram totais espantosos: a Irlanda, por exemplo, com seus grandes e crescentes déficits anuais, havia acumu­lado dívidas mais de 25 vezes maiores que sua arrecadação fiscal anual. Espanha e França haviam acumulado dívidas mais de 10 vezes superiores à sua arrecadação anual. Historicamente, esses níveis de endividamento público haviam levado ao calote governamental. A respeito disso, Bass comentou: “Eis a única saída que vejo para esses países: começarem a acumular superávits orçamentários reais. E isso acontecerá no dia de São Nunca.

Mesmo assim, ele se perguntava se algo lhe escapara. “Fui atrás de alguém que conhecesse a história dos calotes governamentais”, ele disse. Encontrou o maior expert no assunto, um professor de Harvard chamado Kenneth Rogoff, que, por acaso, estava preparando, com a colega Carmen Reinhart, um livro sobre a história dos colapsos financeiros nacionais: Oito séculos de delírios financeiros – Desta vez é diferente. “Mostramos os números a Rogoff”, contou Bass, “e ele simplesmente os olhou, depois reclinou-se em sua cadeira e disse: ‘Não consigo acreditar que a coisa esteja tão ruim.’ E eu retruquei: ‘Espere aí. Você é o maior especialista do mundo em balanços governamentais. Lecionou em Princeton com Ben Bernanke. Apresentou Larry Summers à segunda esposa dele. Se você não está por dentro disso, quem está?’”

Com isso, Bass chegou à sua nova tese de investimentos: a crise das hipotecas subprime era mais sintoma do que causa. Os problemas sociais e econômicos mais profundos que lhe deram origem persistiam. No momento em que os investidores acordassem para essa realidade, deixariam de considerar os governos das grandes nações ocidentais essencialmente livres de riscos e exigiriam taxas de juros maiores para emprestar dinheiro a eles. Quando as taxas de juros de seus empréstimos subissem, esses governos mergulhariam mais fundo na dívida, acarretando novos aumentos nas taxas de juros daqueles empréstimos. Em alguns casos mais alarmantes – Grécia, Irlanda, Japão – as taxas de juros nem precisariam subir muito para os orçamentos serem consumidos em sua totalidade pelos pagamentos de juros da dívida. “Por exemplo”, disse Bass, “se o Japão tivesse que contrair empréstimos às taxas da França, a carga dos juros sozinha levaria o governo à falência.”

No momento em que os mercados financeiros percebessem esse fato, o sentimento dos investidores mudaria. No momento em que o sentimento dos investidores mudasse, esses governos se tornariam inadimplentes. (“Uma vez que você perde a confiança, não a recupera. Simples assim.”) A crise financeira de 2008 foi sustada somente porque os investidores acreditaram que os governos poderiam contrair os empréstimos que quisessem para salvar seus bancos. O que aconteceria quando os próprios governos perdessem a credibilidade?

Havia outra crise financeira maior à espreita – a única dúvida na cabeça de Kyle Bass era quando ela iria estourar. No final de 2008, ele achou que a Grécia seria o primeiro país a entrar em crise, talvez desencadeando um colapso do euro. Pensou que aquilo poderia acontecer dentro de dois anos, mas não tinha certeza da data. “Digamos que leve cinco anos em vez de dois”, ele disse. “Digamos que leve sete anos. Devo esperar até que a crise mostre a cara antes de me posicionar ou devo me posicionar agora? A resposta é: agora. Porque, no momento em que as pessoas passam a achar que o calote nacional é uma possibilidade, já fica caro. Se você aguarda, precisa pagar mais pelo menor risco.”

Quando nos encontramos, ele acabara de comprar seus primeiros swaps de crédito dos países que, segundo ele e sua equipe de analistas, apresentavam as menores probabilidades de conseguir saldar suas dívidas: Grécia, Irlanda, Itália, Suíça,
Portugal e Espanha. Fez aquelas apostas com as poucas grandes corretoras de Wall Street que achavam que o governo dificilmen-
te deixaria falirem – Goldman Sachs, J. P. Morgan e Morgan Stanley –, mas, duvidando de sua capacidade de suportarem uma crise mais séria, exigiu que dessem garantia colateral às transações todo dia. Os preços que pagou pelo seguro contra a inadimplência, em retrospecto, parecem baratos demais. O seguro contra a inadimplência do governo grego lhe custou 11 pontos base, por exemplo. Ou seja, para segurar US$ 1 milhão de títulos do governo grego contra a inadimplência, a Hayman Capital pagou um prêmio de US$ 1.100 por ano. Bass pensou que, quando a Grécia se tornasse inadimplente, o que seria inevitável, o país se veria forçado a não pagar cerca de 70% da dívida – o que significa que cada aposta de US$ 1.100 retornaria US$ 700.000.

“As pessoas não acreditam que um país desenvolvido possa dar calote, já que nunca vimos isso acontecer em nossa época”, afirmou Bass. “E ninguém quer perder tempo prestando atenção nisso. Nem mesmo nossos próprios investidores. Eles olham para nós e dizem: ‘Sim, vocês acertaram na questão dos subprimes. Mas, como estão sempre de olho nesses eventos raríssimos, acham que são mais frequentes do que realmente são.’ Só que eu não procurei essa posição. Vinha tentando entender como o mundo estava funcionando e descobri aquilo.” Agora que ele entendia como o mundo estava funcionando, não conseguia conceber como uma pessoa em seu juízo perfeito podia não estar se preparando para uma catástrofe financeira maior. “Poderá não ser o fim do mundo”, ele disse. “Mas muitas pessoas vão perder um dinheirão. Meu objetivo é não ser uma delas.”

Ele era bastante persuasivo. E também bastante surpreendente. Estamos falando de um sujeito sentado num escritório em Dallas, no Texas, fazendo previsões catastróficas sobre o futuro de países onde nem colocara os pés: como ele poderia prever o possível comportamento de um bando de gente que não conhecia? Enquanto expunha suas ideias, tive uma sensação que já tivera muitas vezes, ao ouvir pessoas que parecem perfeitamente convencidas de eventos incertos. Uma parte de mim foi arrebatada por seu argumento e começou a temer que o mundo estivesse prestes a desmoronar. A outra parte suspeitou de que ele pudesse estar louco.

– Isso é ótimo – comentei, porém já estava começando a pensar no voo que precisava pegar. – Mas, mesmo que você esteja certo, o que uma pessoa normal pode fazer a respeito?

Ele me fitou como se acabasse de vislumbrar algo interessante: o homem mais burro do mundo.

– O que você responde à sua mãe quando ela pergunta onde deve investir dinheiro? – perguntei.

– Em armas e ouro – respondeu ele simplesmente.

Então ele estava louco.

– Mas não ouro futuro – continuou. – Você precisa de ouro físico.

Bass explicou que, quando a próxima crise chegasse, o mercado futuro de ouro provavelmente entraria em colapso, já que havia mais contratos futuros em aberto do que ouro disponível. Pessoas que acreditavam possuir ouro descobririam que possuíam apenas folhas de papel. Ele abriu a gaveta da escrivaninha, apanhou uma grande barra de ouro e a deixou cair sobre o tampo.

– Compramos um montão deste negócio.

Àquela altura, eu estava dando risadinhas nervosas e olhando para a porta. O futuro é bem mais difícil de prever do que as pessoas em Wall Street gostariam que você acreditasse. Um homem como Kyle Bass, que acertara tão em cheio sobre o futuro ao prever o colapso do mercado de títulos hipotecários subprime, poderia se enganar ao achar que tinha um talento para prever todos os tipos de outras coisas complicadas. De qualquer modo, eu estava interessado demais em tentar entender o que acabara de acontecer nos Estados Unidos para me preocupar com o que iria acontecer no resto do mundo. Aquilo me parecia, no momento, uma questão trivial. Bass, por sua vez, havia perdido um pouco o interesse pelo que acabara de ocorrer em seu país, porque achou que o que iria estourar fora de lá era bem mais importante. Pedi licença e me despedi de Dallas. Quando escrevi o outro livro, deixei Kyle Bass só no rascunho.

E então o mundo financeiro começou a mudar de novo – exatamente como Kyle Bass havia previsto. Países inteiros começaram a ir à bancarrota. O que pareceu de início uma história predominantemente de Wall Street tornou-se uma história que envolvia cada nação que travara algum contato significativo com Wall Street. Escrevi o livro sobre a crise das hipotecas subprime dos Estados Unidos e as pessoas que haviam ganhado uma fortuna com ela, mas passei a viajar àqueles outros lugares, só para ver o que estava acontecendo. Confesso que viajava com uma dúvida torturante: como foi que um gestor de hedge funds de Dallas chegou a cogitar esses estranhos eventos?

Dois anos e meio depois, em julho de 2011, retornei a Dallas para fazer a Kyle Bass aquela pergunta. Os swaps de crédito da Grécia haviam subido de 11 pontos base para 2.300. A Grécia estava na iminência de dar o calote da dívida pública. Irlanda e Portugal tinham precisado de enormes socorros financeiros. E Espanha e Itália, antes vistas como nações essencialmente fora de risco, estavam à beira do colapso econômico. Para piorar, o Ministério das Finanças do Japão ia enviar uma delegação aos Estados Unidos para visitar os grandes fundos de investimentos em títulos, como Pimco e BlackRock, em busca de alguém disposto a comprar meio trilhão de dólares em títulos de 10 anos do governo japonês. “Este é um cenário no qual nenhum investidor contemporâneo apostou antes”, Bass disse. “Nossas maiores posições agora são Japão e França. Se e quando os dominós caírem, o pior caso, de longe, é o da França. Só espero que os Estados Unidos não desmoronem primeiro. Apostei todo meu dinheiro que não irão. Meu maior temor é estar enganado sobre a ordem dos eventos. Mas estou convencido de qual será o resultado final.”

Ele ainda possuía pilhas de barras de ouro e platina que haviam mais ou menos dobrado de valor, mas continuava em busca de fontes de riqueza sólidas como uma proteção contra o que supunha que seria a degradação iminente das moedas fiduciárias. Níqueis (moedas de 5 centavos de dólar), por exemplo.

– O metal presente em 1 níquel vale 6,8 centavos de dólar – afirmou ele. – Sabia disso?

Eu não sabia.

– Acabei de comprar 1 milhão de dólares em níqueis – disse ele, e depois, talvez sentindo que eu não conseguia fazer a conta, completou: – Vinte milhões de níqueis.

– Você comprou 20 milhões de níqueis?

– É isso aí.

– Como se compra 20 milhões de níqueis?

– Na verdade, é bem difícil – respondeu Bass.

Depois explicou que teve que ligar para seu banco e convencer o gerente a encomendar 20 milhões de níqueis para ele. O banco enfim providenciara os níqueis, mas o Federal Reserve tinha suas próprias dúvidas. “Parece que o Fed ligou para meu contato no banco”, ele contou. “Perguntaram ao cara: ‘Para que você quer todos esses níqueis?’ Aí ele ligou para mim e eu respondi que simplesmente gostava de níqueis.”

Bass apanhou uma foto de seus níqueis e a mostrou para mim. Ali estavam, empilhados em enormes pallets de madeira, num cofre-forte da Brink’s (empresa de custódia e transporte de valores) no centro de Dallas.

“Fique sabendo que nos próximos dois anos vão mudar o teor metálico do níquel”, ele disse. “Você devia ligar para seu banco e comprar alguns agora.”

Kyle Bass não parece ser o tipo de pessoa que adora ficar sentado no escritório olhando para a tela do computador. Ele gosta da incerteza e de não ficar acomodado. Subimos no seu utilitário Hummer, decorado com adesivos (“Deus abençoe nossas tropas, especialmente nossos atiradores de elite”). O veículo barulhento nos levou à área rural montanhosa do Texas. Lá, graças à fortuna ganha com a crise do subprime, Kyle Bass adquirira o que parecia um forte: uma casa de 3.700 metros quadrados em um rancho gigantesco no meio do nada, com seu próprio suprimento de água e um arsenal de armas automáticas, fuzis de precisão e explosivos para equipar um batalhão. Naquela noite percorremos sua propriedade montados no seu jipe do Exército americano, atirando com fuzis militares ultramodernos, equipados com miras infravermelhas, contra os castores que ele via como uma ameaça aos seus cursos d’água.

– Você pode comprar estes explosivos pela internet – explicou ele, enquanto sacolejávamos pelos morros amarelos. – Funcionam por reação molecular. O FedEx entrega essas coisas sem problema.

Os poucos castores que sobreviveram ao ataque noturno inicial de fuzil, ao acordarem, veriam seus diques pulverizados.

– Não parece uma briga justa – comentei.

– Os castores são roedores – argumentou.

Seja lá o que estivesse fazendo, dava para ver que estava se divertindo. Ele passara dois anos e meio observando o sistema financeiro global e seus dirigentes confirmarem sua visão negativa. Aquilo não o desanimou. O fato de ter se concentrado em eventos aparentemente incompreensíveis o empolgava. “Não estou determinado a ser pessimista”, ele disse. “Acho que isso é algo pelo qual precisamos passar. É uma expiação. Uma expiação pelos pecados do passado.”

Outra vez um gestor de hedge fund tivera mais ou menos razão e o mundo estivera mais ou menos errado. Aquele pareceu o momento ideal para fazer a pergunta que me atormentara por mais de dois anos. Aqui está você, eu disse sem meias palavras, um gestor de hedge fund provinciano de Dallas, que passou toda a vida adulta a um raio de poucos quilômetros deste lugar. Você não fala outras línguas. Raramente viaja ao exterior. É superpatriota: sua principal causa filantrópica são os veteranos de guerra feridos. Conhece poucos estrangeiros. Como foi que lhe ocorreu começar a criar teorias sobre o futuro financeiro desses países distantes?

– Foi por causa da Islândia – respondeu ele. – Sempre me interessei por aquele país.

– Por quê?

– Você já jogou War? – indagou. – Eu adorava jogar War. Sempre concentrava meus exércitos na Islândia. Dava para atacar qualquer um de lá.

A crença de que ele poderia atacar qualquer um da Islândia foi o que levou Kyle Bass a aprender tudo o que pudesse sobre esse país e a prestar uma atenção especial quando algo acontecia por lá. Ele descobriu, por exemplo, que a Islândia era considerada pelos geógrafos um exemplo de país com um talento especial para sobreviver em condições ambientais adversas. “Vivíamos dizendo: ‘Estes bancos estão falidos.’ Mas o governo não parava de salvar os bancos”, ele disse. “E, em meio a tudo isso, a Islândia quebrou. Fiquei intrigado. Após mil anos fazendo tudo certo e superando todos aqueles obstáculos naturais, como eles foram errar tão feio?”

Eu tinha a minha resposta. Seu interesse fora iniciado por um jogo de tabuleiro. Estava terminando com outro tipo de jogo de tabuleiro. E a Islândia era, outra vez, um bom lugar para se começar.

Prefácio

É pior do que se pensa

Este livro começou por acaso enquanto eu trabalhava em outra obra, sobre Wall Street e o desastre financeiro americano de 2008. Eu havia me interessado por um pequeno grupo de investidores que fizeram suas fortunas com o colapso do mercado hipotecário subprime. Em 2004, os maiores bancos de investimentos de Wall Street haviam criado o instrumento de sua própria destruição, o swap de crédito (credit default swap – CDS) sobre o título hipotecário subprime. O swap de crédito permitia aos investidores apostar contra o preço de determinado título – vendê-lo “a descoberto”. Era uma apólice de seguro, mas com um detalhe: o comprador não precisava possuir o ativo segurado. Nenhuma seguradora pode, legalmente, lhe vender um seguro contra incêndio para a casa de outra pessoa, mas os mercados financeiros podem e lhe venderão um seguro contra inadimplência referente aos investimentos de outra pessoa.

Centenas de investidores aplicaram no mercado de swaps de crédito – uma porção de gente achou, mesmo que por acaso, que o boom imobiliário americano alimentado pelo crédito fácil era insustentável –, mas apenas uns 15 mergulharam fundo e apostaram forte que grande parte das finanças americanas entraria em colapso. A maioria desses investidores administrava hedge funds em Londres ou Nova York. Quase todos costumavam evitar os jornalistas. Mas sobre aquele tópico, naquele momento, mostraram-se surpreendentemente acessíveis. Todos haviam experimentado a sensação estranha e isoladora de serem os homens racionais num mundo irracional e, quando falavam de sua experiência, soavam como alguém que estivesse em silêncio num barquinho observando o Titanic colidir com o iceberg.

Algumas daquelas pessoas não tinham inclinação para a solidão e o silêncio. Nesse grupo estava Kyle Bass, o gestor de um hedge fund chamado Hayman Capital, de Dallas. Bass era texano, beirava os 40 e passara os primeiros anos de sua carreira (sete deles no banco de investimentos Bear Stearns) vendendo títulos para empresas de Wall Street. No final de 2006, pegou metade dos US$ 10 milhões que acumulara, levantou mais US$ 500 milhões com outras pessoas, criou seu hedge fund e apostou forte contra o mercado de títulos hipotecários subprime. Depois foi até Nova York alertar seus velhos amigos de que estavam do lado errado de um monte de apostas furadas. Os corretores do Bear Stearns não deram a mínima ao que ele tinha a dizer. “Você se preocupa com a gestão do seu risco. Eu me preocupo com a do nosso”, um deles respondeu.

No final de 2008, quando fui a Dallas ver Bass, o mercado de títulos hipotecários subprime havia desmoronado, levando consigo o Bear Stearns. Ele agora estava rico e, nos círculos de investimentos, um tanto famoso. Mas sua mente já estava mais à frente da ruína dos títulos hipotecários subprime. Tendo realizado seus lucros, um interesse novo o absorvia: os governos. O governo dos Estados Unidos estava, na época, ocupado assumindo em sua própria contabilidade os empréstimos subprime contraídos pelo Bear Stearns e por outros bancos de Wall Street. O Federal Reserve acabaria absorvendo o risco, de uma forma ou de outra, associado a quase US$ 2 trilhões em papéis duvidosos. Suas medidas foram semelhantes às de outros governos do mundo rico e desenvolvido: os empréstimos podres concedidos por financistas com altos salários trabalhando no setor privado estavam sendo absorvidos pelos tesouros nacionais e bancos centrais por toda parte.

Na opinião de Kyle Bass, a crise financeira não havia terminado. Estava simplesmente sendo abafada pela fé pública nos governos ocidentais ricos. Passei um dia ouvindo-o discutir com seus colegas, quase exultantes, aonde aquilo poderia levar. Não estavam mais falando sobre o colapso de uns poucos títulos. Estavam falando sobre o colapso de países.

E eles tinham uma tese de investimento novinha em folha.

Desde 2002, algo como um falso boom vinha ocorrendo em grande parte do mundo rico e desenvolvido. O que parecia ser crescimento econômico era alimentado por pessoas contraindo empréstimos que dificilmente conseguiriam saldar: de acordo com seus cálculos aproximados, o endividamento mundial, público e privado, havia mais do que dobrado desde 2002, passando de US$ 84 trilhões para US$ 195 trilhões. “Jamais tivemos esse tipo de acúmulo de dívidas na história mundial”, disse Bass. Os grandes bancos que concederam boa parte do crédito não estavam mais sendo tratados como empresas privadas, mas como extensões de seus governos locais, convencidos de que seriam socorridos em caso de crise.

A dívida pública dos países ricos já atingira o que pareciam ser níveis perigosamente altos e, em reação à crise, vinha crescendo depressa. Mas a dívida pública daqueles países já não era a dívida pública oficial. Em termos práticos, incluía as dívidas do sistema bancário de cada país, que, no caso de outra crise, seriam transferidas para o governo. “A primeira coisa que tentamos descobrir”, contou Bass, “foi o tamanho daqueles sistemas bancários, sobretudo em relação às receitas dos governos. Levamos uns quatro meses para coletar os dados. Ninguém dispunha deles.”

As cifras alcançaram totais espantosos: a Irlanda, por exemplo, com seus grandes e crescentes déficits anuais, havia acumu­lado dívidas mais de 25 vezes maiores que sua arrecadação fiscal anual. Espanha e França haviam acumulado dívidas mais de 10 vezes superiores à sua arrecadação anual. Historicamente, esses níveis de endividamento público haviam levado ao calote governamental. A respeito disso, Bass comentou: “Eis a única saída que vejo para esses países: começarem a acumular superávits orçamentários reais. E isso acontecerá no dia de São Nunca.

Mesmo assim, ele se perguntava se algo lhe escapara. “Fui atrás de alguém que conhecesse a história dos calotes governamentais”, ele disse. Encontrou o maior expert no assunto, um professor de Harvard chamado Kenneth Rogoff, que, por acaso, estava preparando, com a colega Carmen Reinhart, um livro sobre a história dos colapsos financeiros nacionais: Oito séculos de delírios financeiros – Desta vez é diferente. “Mostramos os números a Rogoff”, contou Bass, “e ele simplesmente os olhou, depois reclinou-se em sua cadeira e disse: ‘Não consigo acreditar que a coisa esteja tão ruim.’ E eu retruquei: ‘Espere aí. Você é o maior especialista do mundo em balanços governamentais. Lecionou em Princeton com Ben Bernanke. Apresentou Larry Summers à segunda esposa dele. Se você não está por dentro disso, quem está?’”

Com isso, Bass chegou à sua nova tese de investimentos: a crise das hipotecas subprime era mais sintoma do que causa. Os problemas sociais e econômicos mais profundos que lhe deram origem persistiam. No momento em que os investidores acordassem para essa realidade, deixariam de considerar os governos das grandes nações ocidentais essencialmente livres de riscos e exigiriam taxas de juros maiores para emprestar dinheiro a eles. Quando as taxas de juros de seus empréstimos subissem, esses governos mergulhariam mais fundo na dívida, acarretando novos aumentos nas taxas de juros daqueles empréstimos. Em alguns casos mais alarmantes – Grécia, Irlanda, Japão – as taxas de juros nem precisariam subir muito para os orçamentos serem consumidos em sua totalidade pelos pagamentos de juros da dívida. “Por exemplo”, disse Bass, “se o Japão tivesse que contrair empréstimos às taxas da França, a carga dos juros sozinha levaria o governo à falência.”

No momento em que os mercados financeiros percebessem esse fato, o sentimento dos investidores mudaria. No momento em que o sentimento dos investidores mudasse, esses governos se tornariam inadimplentes. (“Uma vez que você perde a confiança, não a recupera. Simples assim.”) A crise financeira de 2008 foi sustada somente porque os investidores acreditaram que os governos poderiam contrair os empréstimos que quisessem para salvar seus bancos. O que aconteceria quando os próprios governos perdessem a credibilidade?

Havia outra crise financeira maior à espreita – a única dúvida na cabeça de Kyle Bass era quando ela iria estourar. No final de 2008, ele achou que a Grécia seria o primeiro país a entrar em crise, talvez desencadeando um colapso do euro. Pensou que aquilo poderia acontecer dentro de dois anos, mas não tinha certeza da data. “Digamos que leve cinco anos em vez de dois”, ele disse. “Digamos que leve sete anos. Devo esperar até que a crise mostre a cara antes de me posicionar ou devo me posicionar agora? A resposta é: agora. Porque, no momento em que as pessoas passam a achar que o calote nacional é uma possibilidade, já fica caro. Se você aguarda, precisa pagar mais pelo menor risco.”

Quando nos encontramos, ele acabara de comprar seus primeiros swaps de crédito dos países que, segundo ele e sua equipe de analistas, apresentavam as menores probabilidades de conseguir saldar suas dívidas: Grécia, Irlanda, Itália, Suíça,
Portugal e Espanha. Fez aquelas apostas com as poucas grandes corretoras de Wall Street que achavam que o governo dificilmen-
te deixaria falirem – Goldman Sachs, J. P. Morgan e Morgan Stanley –, mas, duvidando de sua capacidade de suportarem uma crise mais séria, exigiu que dessem garantia colateral às transações todo dia. Os preços que pagou pelo seguro contra a inadimplência, em retrospecto, parecem baratos demais. O seguro contra a inadimplência do governo grego lhe custou 11 pontos base, por exemplo. Ou seja, para segurar US$ 1 milhão de títulos do governo grego contra a inadimplência, a Hayman Capital pagou um prêmio de US$ 1.100 por ano. Bass pensou que, quando a Grécia se tornasse inadimplente, o que seria inevitável, o país se veria forçado a não pagar cerca de 70% da dívida – o que significa que cada aposta de US$ 1.100 retornaria US$ 700.000.

“As pessoas não acreditam que um país desenvolvido possa dar calote, já que nunca vimos isso acontecer em nossa época”, afirmou Bass. “E ninguém quer perder tempo prestando atenção nisso. Nem mesmo nossos próprios investidores. Eles olham para nós e dizem: ‘Sim, vocês acertaram na questão dos subprimes. Mas, como estão sempre de olho nesses eventos raríssimos, acham que são mais frequentes do que realmente são.’ Só que eu não procurei essa posição. Vinha tentando entender como o mundo estava funcionando e descobri aquilo.” Agora que ele entendia como o mundo estava funcionando, não conseguia conceber como uma pessoa em seu juízo perfeito podia não estar se preparando para uma catástrofe financeira maior. “Poderá não ser o fim do mundo”, ele disse. “Mas muitas pessoas vão perder um dinheirão. Meu objetivo é não ser uma delas.”

Ele era bastante persuasivo. E também bastante surpreendente. Estamos falando de um sujeito sentado num escritório em Dallas, no Texas, fazendo previsões catastróficas sobre o futuro de países onde nem colocara os pés: como ele poderia prever o possível comportamento de um bando de gente que não conhecia? Enquanto expunha suas ideias, tive uma sensação que já tivera muitas vezes, ao ouvir pessoas que parecem perfeitamente convencidas de eventos incertos. Uma parte de mim foi arrebatada por seu argumento e começou a temer que o mundo estivesse prestes a desmoronar. A outra parte suspeitou de que ele pudesse estar louco.

– Isso é ótimo – comentei, porém já estava começando a pensar no voo que precisava pegar. – Mas, mesmo que você esteja certo, o que uma pessoa normal pode fazer a respeito?

Ele me fitou como se acabasse de vislumbrar algo interessante: o homem mais burro do mundo.

– O que você responde à sua mãe quando ela pergunta onde deve investir dinheiro? – perguntei.

– Em armas e ouro – respondeu ele simplesmente.

Então ele estava louco.

– Mas não ouro futuro – continuou. – Você precisa de ouro físico.

Bass explicou que, quando a próxima crise chegasse, o mercado futuro de ouro provavelmente entraria em colapso, já que havia mais contratos futuros em aberto do que ouro disponível. Pessoas que acreditavam possuir ouro descobririam que possuíam apenas folhas de papel. Ele abriu a gaveta da escrivaninha, apanhou uma grande barra de ouro e a deixou cair sobre o tampo.

– Compramos um montão deste negócio.

Àquela altura, eu estava dando risadinhas nervosas e olhando para a porta. O futuro é bem mais difícil de prever do que as pessoas em Wall Street gostariam que você acreditasse. Um homem como Kyle Bass, que acertara tão em cheio sobre o futuro ao prever o colapso do mercado de títulos hipotecários subprime, poderia se enganar ao achar que tinha um talento para prever todos os tipos de outras coisas complicadas. De qualquer modo, eu estava interessado demais em tentar entender o que acabara de acontecer nos Estados Unidos para me preocupar com o que iria acontecer no resto do mundo. Aquilo me parecia, no momento, uma questão trivial. Bass, por sua vez, havia perdido um pouco o interesse pelo que acabara de ocorrer em seu país, porque achou que o que iria estourar fora de lá era bem mais importante. Pedi licença e me despedi de Dallas. Quando escrevi o outro livro, deixei Kyle Bass só no rascunho.

E então o mundo financeiro começou a mudar de novo – exatamente como Kyle Bass havia previsto. Países inteiros começaram a ir à bancarrota. O que pareceu de início uma história predominantemente de Wall Street tornou-se uma história que envolvia cada nação que travara algum contato significativo com Wall Street. Escrevi o livro sobre a crise das hipotecas subprime dos Estados Unidos e as pessoas que haviam ganhado uma fortuna com ela, mas passei a viajar àqueles outros lugares, só para ver o que estava acontecendo. Confesso que viajava com uma dúvida torturante: como foi que um gestor de hedge funds de Dallas chegou a cogitar esses estranhos eventos?

Dois anos e meio depois, em julho de 2011, retornei a Dallas para fazer a Kyle Bass aquela pergunta. Os swaps de crédito da Grécia haviam subido de 11 pontos base para 2.300. A Grécia estava na iminência de dar o calote da dívida pública. Irlanda e Portugal tinham precisado de enormes socorros financeiros. E Espanha e Itália, antes vistas como nações essencialmente fora de risco, estavam à beira do colapso econômico. Para piorar, o Ministério das Finanças do Japão ia enviar uma delegação aos Estados Unidos para visitar os grandes fundos de investimentos em títulos, como Pimco e BlackRock, em busca de alguém disposto a comprar meio trilhão de dólares em títulos de 10 anos do governo japonês. “Este é um cenário no qual nenhum investidor contemporâneo apostou antes”, Bass disse. “Nossas maiores posições agora são Japão e França. Se e quando os dominós caírem, o pior caso, de longe, é o da França. Só espero que os Estados Unidos não desmoronem primeiro. Apostei todo meu dinheiro que não irão. Meu maior temor é estar enganado sobre a ordem dos eventos. Mas estou convencido de qual será o resultado final.”

Ele ainda possuía pilhas de barras de ouro e platina que haviam mais ou menos dobrado de valor, mas continuava em busca de fontes de riqueza sólidas como uma proteção contra o que supunha que seria a degradação iminente das moedas fiduciárias. Níqueis (moedas de 5 centavos de dólar), por exemplo.

– O metal presente em 1 níquel vale 6,8 centavos de dólar – afirmou ele. – Sabia disso?

Eu não sabia.

– Acabei de comprar 1 milhão de dólares em níqueis – disse ele, e depois, talvez sentindo que eu não conseguia fazer a conta, completou: – Vinte milhões de níqueis.

– Você comprou 20 milhões de níqueis?

– É isso aí.

– Como se compra 20 milhões de níqueis?

– Na verdade, é bem difícil – respondeu Bass.

Depois explicou que teve que ligar para seu banco e convencer o gerente a encomendar 20 milhões de níqueis para ele. O banco enfim providenciara os níqueis, mas o Federal Reserve tinha suas próprias dúvidas. “Parece que o Fed ligou para meu contato no banco”, ele contou. “Perguntaram ao cara: ‘Para que você quer todos esses níqueis?’ Aí ele ligou para mim e eu respondi que simplesmente gostava de níqueis.”

Bass apanhou uma foto de seus níqueis e a mostrou para mim. Ali estavam, empilhados em enormes pallets de madeira, num cofre-forte da Brink’s (empresa de custódia e transporte de valores) no centro de Dallas.

“Fique sabendo que nos próximos dois anos vão mudar o teor metálico do níquel”, ele disse. “Você devia ligar para seu banco e comprar alguns agora.”

Kyle Bass não parece ser o tipo de pessoa que adora ficar sentado no escritório olhando para a tela do computador. Ele gosta da incerteza e de não ficar acomodado. Subimos no seu utilitário Hummer, decorado com adesivos (“Deus abençoe nossas tropas, especialmente nossos atiradores de elite”). O veículo barulhento nos levou à área rural montanhosa do Texas. Lá, graças à fortuna ganha com a crise do subprime, Kyle Bass adquirira o que parecia um forte: uma casa de 3.700 metros quadrados em um rancho gigantesco no meio do nada, com seu próprio suprimento de água e um arsenal de armas automáticas, fuzis de precisão e explosivos para equipar um batalhão. Naquela noite percorremos sua propriedade montados no seu jipe do Exército americano, atirando com fuzis militares ultramodernos, equipados com miras infravermelhas, contra os castores que ele via como uma ameaça aos seus cursos d’água.

– Você pode comprar estes explosivos pela internet – explicou ele, enquanto sacolejávamos pelos morros amarelos. – Funcionam por reação molecular. O FedEx entrega essas coisas sem problema.

Os poucos castores que sobreviveram ao ataque noturno inicial de fuzil, ao acordarem, veriam seus diques pulverizados.

– Não parece uma briga justa – comentei.

– Os castores são roedores – argumentou.

Seja lá o que estivesse fazendo, dava para ver que estava se divertindo. Ele passara dois anos e meio observando o sistema financeiro global e seus dirigentes confirmarem sua visão negativa. Aquilo não o desanimou. O fato de ter se concentrado em eventos aparentemente incompreensíveis o empolgava. “Não estou determinado a ser pessimista”, ele disse. “Acho que isso é algo pelo qual precisamos passar. É uma expiação. Uma expiação pelos pecados do passado.”

Outra vez um gestor de hedge fund tivera mais ou menos razão e o mundo estivera mais ou menos errado. Aquele pareceu o momento ideal para fazer a pergunta que me atormentara por mais de dois anos. Aqui está você, eu disse sem meias palavras, um gestor de hedge fund provinciano de Dallas, que passou toda a vida adulta a um raio de poucos quilômetros deste lugar. Você não fala outras línguas. Raramente viaja ao exterior. É superpatriota: sua principal causa filantrópica são os veteranos de guerra feridos. Conhece poucos estrangeiros. Como foi que lhe ocorreu começar a criar teorias sobre o futuro financeiro desses países distantes?

– Foi por causa da Islândia – respondeu ele. – Sempre me interessei por aquele país.

– Por quê?

– Você já jogou War? – indagou. – Eu adorava jogar War. Sempre concentrava meus exércitos na Islândia. Dava para atacar qualquer um de lá.

A crença de que ele poderia atacar qualquer um da Islândia foi o que levou Kyle Bass a aprender tudo o que pudesse sobre esse país e a prestar uma atenção especial quando algo acontecia por lá. Ele descobriu, por exemplo, que a Islândia era considerada pelos geógrafos um exemplo de país com um talento especial para sobreviver em condições ambientais adversas. “Vivíamos dizendo: ‘Estes bancos estão falidos.’ Mas o governo não parava de salvar os bancos”, ele disse. “E, em meio a tudo isso, a Islândia quebrou. Fiquei intrigado. Após mil anos fazendo tudo certo e superando todos aqueles obstáculos naturais, como eles foram errar tão feio?”

Eu tinha a minha resposta. Seu interesse fora iniciado por um jogo de tabuleiro. Estava terminando com outro tipo de jogo de tabuleiro. E a Islândia era, outra vez, um bom lugar para se começar.

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Michael Lewis

Sobre o autor

Michael Lewis

Jornalista e autor de vários livros de não ficção. É redator da revista Vanity Fair e escreve artigos para o The New York Times. Seus livros incluem A nova novidade (Companhia das Letras), O jogo da mentira (Campus Elsevier), The Blind Side (adaptado para o cinema com o título Um sonho possível) e Moneyball(também adaptado para o cinema, com lançamento previsto para 2011). Ele mora em Berkeley, na Califórnia, com a mulher e os três filhos.

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