Em busca do tempo presente | Sextante
Livro

Em busca do tempo presente

Kankyo Tannier

Da mesma autora de A magia do silêncio.

Com delicadeza e bom humor, Kankyo Tannier nos ajuda a recuperar o foco, a energia, a intuição e o equilíbrio. Assim, nos abrimos para o momento presente e permitimos que magia da vida se manifeste à nossa volta.

 

E se fosse possível fincar os pés no aqui e agora e finalmente

sentir a vida que pulsa dentro de nós e ao nosso redor,

conectando tudo e todas as coisas?

Neste livro, a monja budista que conquistou o mundo com A magia do silêncio ensina como abrir espaços de calma e presença em nosso dia a dia e apresenta meditações e rituais simples para viver com suavidade e encantamento.

O poder do sorriso – Pratique o sorriso. Se você fingir que está sorrindo, acaba sorrindo de verdade. E em poucos segundos o seu humor muda.

Retorno ao corpo – Pare por um instante e sinta seu corpo: onde dói, onde se sente bem. Essa percepção ancora você no presente e faz com que se sinta vivo, dos pés à cabeça.

O primeiro pensamento – Ao observar seus há­bitos mentais ao despertar, você diminui a influência dos pensamentos negativos e pode seguir seu dia de forma mais leve.

Detox digital – Não tenha medo de enfrentar o mal-estar que surge quando você desliga o celular. Aprender a lidar com as emoções desagradáveis é a chave para a liberdade.

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Ficha técnica
Lançamento 15/09/2020
Título original A La Recherche Du Temps Present
Tradução Dorothée de Bruchard
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 160
Peso 300 g
Acabamento brochura
ISBN 978-65-5564-032-8
EAN 9786555640328
Preço R$ 49,90
Ficha técnica e-book
eISBN 978-65-5564-033-5
Preço R$ 29,99
Lançamento 15/09/2020
Título original A La Recherche Du Temps Present
Tradução Dorothée de Bruchard
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 160
Peso 300 g
Acabamento brochura
ISBN 978-65-5564-032-8
EAN 9786555640328
Preço R$ 49,90

E-book

eISBN 978-65-5564-033-5
Preço R$ 29,99

Leia um trecho do livro

INTRODUÇÃO

 

O porquê deste livro

Uma experiência fundadora

Cerca de 10 anos atrás, eu trabalhava como professora de técnica vocal e estava começando a dar aulas de meditação zen em Estrasburgo. Para evitar muitos deslocamentos, havia alugado um pequeno apartamento no bairro estudantil. Passava dois terços do meu tempo no mosteiro zen e o resto em pleno centro da cidade. Um equilíbrio delicado entre duas vidas, uma experiência singular que me permitia conhecer diferentes universos, diferentes ambientes, assim como testar minha capacidade de adaptação entre um mundo e outro.

No cerne desse contraste, no entanto, começou a surgir um mal-estar. De um lado, havia o mosteiro, com suas meditações diárias, longos períodos de silêncio e uma vida dedicada – segundo a expressão em voga – à “busca do absoluto”. De outro, uma espécie de religião do consumo, da corrida desenfreada, das metas cada vez mais inalcançáveis e do inevitável estresse. E que abismo imenso havia entre essas duas visões de mundo! Pela manhã, eu cantava sutras na capela; duas horas depois estava num daqueles barcos-restaurante degustando um café enquanto lia o jornal com as notícias do dia. Tudo isso em meio a um burburinho de pensamentos que espelhava meu mal-estar emocional.

Refletindo um pouco mais a fundo, o que me incomodava não eram tanto os processos sociais ou a vida urbana moderna – tenho até certo fascínio pelo progresso –, mas a vaga sensação de que a fonte do meu problema estava justamente na formulação dessa dicotomia.

Em suma, eu me sentia completamente perdida!

Como lidar, então, com a aparente incoerência entre essas duas realidades? Essa pergunta me rodeava de manhã até a noite, feito um mantra. Num primeiro momento, resolvi essa contradição à maneira de um avestruz, enfiando a cabeça na areia. Com um sorriso no rosto, fazia de conta que estava tudo bem.

Até o dia em que…

Até o dia em que a resposta surgiu, clara como um saber que germina desde a aurora dos tempos: para conciliar minhas duas vidas, seria preciso destilar bolhas de espiritualidade no cotidiano. Em toda parte. Na cidade e no campo. A cada minuto, onde quer que eu estivesse, deveria pousar outro olhar no mundo. Cheio de fervor e – ousemos dizer – contemplação.

Ou ainda, como dizem os mestres zen em sua famosa máxima, implementar esta doutrina: “Ejo Shin Kore Dô” (“O coração de cada dia é o Caminho do Buda”.)

Ufa, que alívio! Eu não estava sendo convocada a lutar contra o mundo e seu progresso nem a comparar, julgar ou condenar, mas a encontrar motivos para celebrá-lo. Uma conclusão que, além de bastante harmoniosa, me convinha perfeitamente.

 

 

Ser em vez de ter

Muitas pessoas vivem essa experiência, consciente ou inconscientemente, quando confrontadas com as incoerências de nossa sociedade contemporânea. Nem tudo nela é negativo, longe disso! Hoje vemos uma melhoria global das condições de vida mundo afora, um maior acesso à água potável, à escolarização, etc. Contudo, é fácil constatar que são flagrantes as desigualdades entre as pessoas – basta um passeio pelo centro de qualquer grande cidade para comprovar esse cenário –, que os recursos naturais estão em risco e que a corrida pelo crescimento muitas vezes se sobrepõe à preservação da natureza ou ao bem-estar dos indivíduos.

De um lado, vê-se uma sociedade que elegeu o poder aquisitivo como parâmetro de vida bem-sucedida e, de outro, seres humanos – não todos, felizmente – tentando dia após dia atingir esse ideal materialista, com a sensação de ter sempre um buraco no bolso. Sem falar na inevitável frustração que isso causa.

O propósito deste livro é, portanto, questionar este paradigma simplista com que a sociedade vem enchendo nossos ouvidos há milênios: para ser feliz, é preciso conseguir aquilo que se deseja, e rápido, em troca de dinheiro líquido e certo (vamos combinar que, em tempos de bitcoin, a expressão “dinheiro líquido e certo” soa deliciosamente antiquada, não é?).

Ter, obter, ganhar – será esse o segredo da felicidade? E se ela se esconder num lugar além disso? De uns anos para cá, essa ideia parece estar se espalhando com rapidez. Aprender a ser em vez de obter. Conectar-se com a Natureza em vez de utilizá-la. Estar na vida em vez de usá-la como palco.

Esse é o motivo, por exemplo, do incrível aumento da procura por locais de retiro espiritual nos últimos tempos. O que leva as pessoas a se isolarem do mundo por dois dias, uma semana ou até mais?

Há o desejo de se livrar do estresse, claro, mas, analisando a questão mais a fundo, o que está à espreita, na verdade, é a sensação de perda de sentido. O tempo parece ter disparado numa corrida sem fim. Então, para ter uma oportunidade de desacelerar, de repor um pouco de ordem no centro do caos ou, pelo menos, conseguir se equilibrar dentro dele, as pessoas decidem viver a experiência de um retiro. Ali aprendem a meditar e descobrem uma série de práticas, como refeições em silêncio, cerimônias tradicionais e diversos rituais.

No entanto, o mais interessante é que, nesses locais preservados, elas têm a oportunidade de se deixar impregnar por uma filosofia de vida fundada em valores de ajuda mútua e atenção ao outro. São inseridas numa espécie de “vida comunitária” que procura dar forma a esta incrível utopia do século XXI: a harmonia entre grupo e indivíduo que coexiste com a tentativa de se conectar a uma dimensão mais ampla. Um verdadeiro sonho!

Mas viver a longo prazo num mosteiro sem dúvida não é para qualquer um, mesmo porque – como boa propagandista do zen que sou – só estou ressaltando aqui os aspectos positivos! O que fazer, então, para levar essas bolhas de paz consigo ao fim do retiro? O que fazer quando chega a hora de voltar para casa? E, melhor, o que fazer quando nem mesmo é possível ter três dias livres para fazer um retiro?

Foi pensando em todas essas pessoas e estilos de vida que escrevi os capítulos a seguir, nos quais você irá encontrar a água necessária para alimentar seu moinho (de orações, espero!).

 

 

Espiritualidade: uma tentativa de definição

Reintroduzir um pouco de magia no cotidiano

A noção de espiritualidade parece ser uma grande sacola em que cabe tudo, uma espécie de caldeirão onde todos os ingredientes se adaptam a qualquer tipo de molho, o que resulta num delicioso banquete e numa impressionante confusão. Do que, então, estamos falando? A definição que proponho, em pleno século XXI, em que o clima geral é de exaltação à ciência, ao mensurável e ao racional, pode ser um pouco surpreendente.

Para apoiar o que digo (e contar com um ombro amigo), convoquei poetas, artistas e outros saltimbancos, mas também pessoas que fizeram da espontaneidade e do espanto sua marca registrada. Tal como o Sr. Jourdain, protagonista de O burguês ridículo, de Molière, essas almas simples não raro encarnam a espiritualidade sem saber, ocupadas que estão em brincar com a vida.

Dessa festiva reunião emergiu a seguinte definição: viver a espiritualidade é aprender a detectar as gotas de magia que se escondem no cotidiano.

Alguns – os teístas – chamam essa magia de Deus, Alá, Jeová ou Vishnu. Outros celebram o Infinito, o Atman, o Amor ou o Mistério. No reino da espiritualidade, deparamos com expressões como “não separação”, “tudo está em tudo” ou “a Alma do mundo”. Nesses caminhos dançam xamãs, magos e feiticeiros vodus. Sem falar na legião de mestres espirituais, místicos, iogues, sadhus ou guerreiros da luz. Um monte de gente!

Falando de maneira bastante simplista, o ponto em comum desse grupo heterogêneo parece ser o seguinte: para detectar a magia do cotidiano, convém, ao longo da vida, aprender a observar o mundo com delicadeza e determinação.

A magia é uma criança brincando sem ter consciência dos olhares dos outros. Absorta em seu próprio universo, para além do bem e do mal, alheia ao antes e ao depois, ela manifesta uma liberdade inocente. Mas a magia também é o olhar da mãe ou do pai que, de súbito, percebe a espiritualidade daquele momento. Arrancados por alguns instantes do curso ordinário do mundo, pousam os olhos em uma criança, sua criança, que vive em eterna primavera.

A magia é essa viagem ao outro lado do mundo, para um país cuja língua desconhecemos. E é descobrir que, ainda assim, a compreendemos com o coração.

A magia é sair de um túnel escuro e encontrar-se diante de um rio, a tempo de ver o sol brincar nas águas cintilantes.

A espiritualidade é um sorriso fugaz num semblante fechado, um brilho repentino nos olhos de um enfermo.

A espiritualidade é perceber que a passagem das estações segue uma organização milimétrica e minuciosa. Que sua orquestração, com ou sem causa primordial, é uma sinfonia de tirar o fôlego.

A espiritualidade é estar confinado na raiva ou no ressentimento e, de repente, cair na gargalhada.

A espiritualidade é olhar para o céu numa noite clara de verão e avistar uma estrela cadente ao longe, muito longe, tão longe… até ficar tonto.

E para você? Onde começa a espiritualidade? De que maneira ela lhe dá asas para tornar seu cotidiano mais leve?

Você já deve ter criado, espontaneamente, alguns rituais a partir da magia do mundo. Nas páginas deste livro você vai encontrar outros, para experimentar da maneira que achar melhor.

 

 

As três chaves: concentração,
 presença e mistério

Falando de maneira mais pragmática, uma vida espiritual engloba, a meu ver, três elementos. Refiro-me às fadas da Concentração, da Presença e do Mistério. A cada novo sopro de vida, essas fadas se reúnem junto ao berço do recém-nascido a fim de derramar sobre ele sua generosidade. As três sabedorias estão prontas para germinar em cada um de nós, e cabe a nós fazer frutificar esse tesouro.

A Concentração é a capacidade, muitíssimo útil, de focar nossa atenção por completo no que estamos vivendo. É minuciosamente descrita em diversos livros, sejam budistas ou não. É como uma espécie de pré-requisito para uma caminhada. É a mochila que arrumamos antes da escalada, é o momento em que impermeabilizamos os sapatos para andar na chuva. Alguns textos deste livro serão dedicados a esse estado de ancoramento no aqui e no agora, sem o qual a espiritualidade pode rapidamente se perder na crença ou na imaginação.

A Presença, também chamada de Observação (kan, em japonês; sim, como meu nome, kan-kyo) ou vipassana (em páli), é a abertura, o espaço, a faculdade de enxergar para além do prisma da personalidade. É aquele momento em que já não estamos aprisionados na nossa cabeça ou no nosso sistema habitual de reflexão.

Para começar a perceber a existência de outra forma de se relacionar com o mundo, eis uma pequena experiência: no lugar onde você está agora, feche os olhos por um instante (depois de ler as linhas que seguem). Onde estão os seus pensamentos? Na sua cabeça? Lá fora? De onde eles vêm? No que você pensará daqui a cinco minutos? E responda a esta pergunta, das mais filosóficas: quem está pensando?

Terceira chave para uma vida espiritual: o acesso ao Mistério. Se a experiência acima não lhe soou suficientemente estranha ou metafísica, vamos além! Várias tradições convergem para o tema do desconhecido. O que é a vida? Por que estamos neste mundo? O que acontece depois da morte se é que existe algo depois dela…? Milhares de perguntas permeiam a vida espiritual, tremulando sobre nós como bandeirinhas coloridas. Títulos de obras místicas, como A nuvem do não saber, A dança da alma e Chama viva do amor, alimentam nossa sede do desconhecido, não é mesmo?

 

 

Este livro não é…

… um livro de desenvolvimento pessoal
 no sentido comum

Então sejamos claros: longe de mim criticar a busca espiritual. A meu ver, ela é primordial, e até necessária. Quando as pessoas ficam serenas e encontram seus referenciais, quando assumem suas emoções, quando suas palavras refletem sabedoria e doçura, o mundo fica melhor. Assim, incentivo fortemente a exploração da psique.

Por outro lado, quando as pessoas ficam o tempo todo focadas em seu interior, muitas vezes ocorre um estreitamento do campo de visão. Uma espécie de contração do ser sobre si mesmo, como um caracol com as antenas sempre voltadas para dentro, correndo o risco de se chocar contra o mundo.

Por vezes, constata-se ainda certa tendência à hiperpsicologização. Para algumas pessoas, qualquer acontecimento da vida se torna objeto de análise, de dissertação, de racionalização. Tudo é pretexto para tecer relações entre as coisas, para procurar causas. Algumas descobertas são acertadas, sem dúvida. Mas a que preço? Enquanto pensávamos, a vida passava despercebida diante de nós.

Conforme escrevo, me vem uma lembrança. Estou com 7 anos, acampando com meus pais. Certa noite, deitada no escuro na minha barraca, sinto de repente um terrível medo da morte. E se eu morresse naquela noite, durante o sono? E se não acordasse mais? O pavor me invade profundamente, impregna meu corpo inteiro. É quase insuportável. Então me ocorre, como única escapatória: “Pense, pense bem, você vai encontrar uma solução.” E o cérebro se põe a trabalhar. Toda a energia se concentra então nesta tarefa: analisar, pensar, refletir, com o cenho franzido e o corpo tenso. Não me lembro do resultado de minhas circunvoluções mentais. Acabei caindo no sono por conta do cansaço. Mas esse acontecimento foi determinante. Naquele dia, pela primeira vez, tentei encontrar uma solução analítica para um problema emocional. O dia em que o intelecto começou a se animar. Sete anos: a idade da razão, com sua procissão de preocupações e enxaquecas intensas.

E depois? Depois transcorreram décadas até eu começar a inverter o processo!

A espiritualidade propõe um caminho levemente distinto: o de uma vida vivida em vez de analisada.

É claro que a busca e a reflexão – assim como as emoções, que enriquecem a experiência cotidiana – têm seu lugar. Mas é preciso aprender a vivê-las por inteiro, sem tentar fugir através da análise ou da intelectualização. Dessa forma, o ser humano pode passar do fechamento (foco exclusivo em si mesmo, proteção) para a abertura (surgimento de uma sensação de aceitação e unidade).

 

Um novo método para aprimorar
a si mesmo

As práticas de desenvolvimento pessoal também nos convidam, de modo geral, a buscar uma melhor versão de nós mesmos. Aqui, no entanto, o ponto de partida é um pouco distinto. Nossa premissa é a seguinte: você é maravilhoso do jeito que é! Você é esplêndido, único, mágico e talentoso. Você é um poema luminoso, uma pedra preciosa, um sino tibetano. Como formulava Shakyamuni, há 2.600 anos: “Todos os seres possuem a Natureza de Buda.” Ou seja, todos são Budas. Não é ótimo?

“Só que alguns são mais e outros menos, claro”, cochicha minha vizinha um tantinho maliciosa. Não, nada disso! Sem querer entrar num otimismo beatífico, a natureza grandiosa e vibrante de cada indivíduo pode se revelar a todo momento, desde que a brisa da contemplação erga os véus da racionalidade, dos pensamentos e das opiniões.

O que aparece, então? Dê uma olhada… Você não vai se decepcionar!

 

 

Uma coletânea de crenças
ou especulações

“O que acontece depois da morte?” A essa pergunta-chave Buda respondia com um mutismo absoluto, o que ficou conhecido como “silêncio de Buda”. Ele convidava os praticantes a atentarem para a vida atual em toda a sua efervescência, sem se preocupar com o depois. “Aqui e agora”, ou a arte de ser coerente com sua doutrina até os mínimos detalhes!

Da mesma forma, tentaremos evitar neste livro um acúmulo de crenças ou conteúdos imaginários, mesmo que alguns pensamentos sejam bem atraentes. Vez ou outra vou expor algumas intuições, mas tomando o cuidado de deixar isso bem claro. Ainda assim, fique atento (conto com leitores responsáveis!), pois desde criança tenho uma alma decididamente mística e certa tendência à elucubração poético-metafísica. Então desconfie se eu começar a falar em duendes, fadas ou aparições!

De modo geral, as linhas a seguir são mais um convite à observação e à experimentação do que uma profissão de fé. Não confie cegamente em tudo que digo, faça esse teste. E torne-se, assim, “sua própria lanterna” no caminho da espiritualidade.

 

 

Os benefícios de uma vida espiritual

Antes de prosseguir, para que serve a espiritualidade?

 

Para devolver sentido à vida

Como já falamos, se o sentido da vida se limitar ao hedonismo, há um grande risco de acabarmos presos ao trabalho – só para pôr a comida na mesa –, tendo por único objetivo as próximas férias. Ou de passar a vida pulando de um hobby a outro, de uma série da Netflix para a seguinte, sem nunca buscar aquilo que, lá no fundo, realmente nos faz vibrar.

Já a espiritualidade, ao contrário, anda de mãos dadas com essa chama pequenina que levamos no coração e com a intensidade da vida. Ela expressa um jeito de estarmos no mundo cheios de uma confiança sorridente.

A espiritualidade pode surgir logo após aquele momento trágico em que constatamos que nossa vida já não nos agrada. No momento em que, onde quer que nosso olhar pouse, não há mais nada que o faça brilhar. Quando estamos infelizes, desiludidos, sem esperança… Para os mestres zen, este é o exato momento em que começam as coisas sérias. Vá até o cerne da carência, enfrente o real com a confiança de um cavaleiro sem armadura. E comece a instituir todos esses rituais que podem aproximá-lo de si mesmo.

 

 

Para se lançar numa longa viagem

A questão do sentido da vida costuma surgir quando estamos perdidos. Há manuais para tudo hoje em dia, para aprender chinês em cinco semanas, pintar a sala, dobrar lençóis com elástico, etc., mas o manual para encontrar o sentido da vida infelizmente não existe.

Isso porque, paradoxalmente, trata-se mais de buscar do que de encontrar.

Com certeza os leitores mais racionais e perfeccionistas até estremeceram ao ler essa frase.

Mas é isso mesmo: enveredar pela vida espiritual é começar uma viagem, e sem GPS. Em vez da bússola moderna, você vai encontrar um antiquíssimo mapa do tesouro. Uma espécie de pergaminho, sobre o qual muitos outros viajantes já se debruçaram ao longo dos milênios. A viagem que você está prestes a empreender é uma história antiga… e isso é ótimo! Essa jornada tem sua fonte ao pé das montanhas do Atlas, na matriz da humanidade, em todos aqueles lugares do planeta onde pessoas se puseram a orar, invocar, queimar mirra e incenso.

Então, nos momentos em que sua vida parecer meio vazia ou sem sentido, diga: “Querida, arrume as malas! É hora de viajar!”

 

 

Quem são os viajantes?

A quem se dirige este livro?

 

Aos viajantes do absoluto.

Aos aventureiros do cotidiano.

Aos poetas escondidos.

Às pessoas que nunca encontram a outra meia do par.

Àqueles que se sentem bem pequenininhos quando olham para o céu.

Às crianças crescidas dispostas a voltar a brincar.

Àqueles capazes de soltar as amarras do pensamento.

À minha vizinha que rega as plantas.

Àquele senhor que passeia com seu cachorro.

À Clotilde, que assiste a documentários sobre os segredos das pirâmides.

Àqueles que, na aula de ioga, aguardam a hora da meditação.

Às pessoas aqui e acolá, juntas, sob as mesmas estrelas.

A você, que pegou este livro por acaso, como um encontro.

 

 

Quem deve deixar este livro
de lado imediatamente 😉

Cuidado! Se você não se identificou com ninguém da lista anterior, fique atento! Pode ser que este livro não seja mesmo para você. Talvez tenha sido um presente de um amigo, da sua esposa ou do seu marido, ou quem sabe de outra pessoa. É possível que esse alguém tivesse a intenção, mesmo que secreta, de inserir um pouco de espiritualidade na sua vida. Ou seja, de incentivá-lo a mudar. Não caia nessa! Você acha melhor ler bula de remédio do que as elucubrações de uma monja budista? Tudo bem, você tem esse direito! Largue este livro e proclame alto e bom som – ou não – seu amor pelo materialismo.

Quando ficar bem rico, você poderá fazer uma doação para a fundação em prol dos animais que vou criar em breve.

 

 

E que comece a viagem…

Partir para a aventura: a espiritualidade no cotidiano

 

“Partir para a aventura”: está aí uma expressão que sempre me fez sonhar. Com o passar dos anos, surge um sentido profundo, bem distante da ideia de fuga ou inconsciência. À medida que a areia escorre na ampulheta e o cabelo vai ficando grisalho, partir para a aventura já não significa um convite para se atirar em algo sem pensar ou largar tudo e, num rompante, seguir para o outro lado do mundo.

Partir para a aventura é retornar às fontes.

É explorar o tempo presente.

Partir para a aventura é abrir escancaradamente as portas de cada dia, com total confiança na vida.

É deixar a bandeira do invisível se desdobrar sobre cada acontecimento do cotidiano e surpreender-se com isso.

Partir para a aventura, sem bagagem, sem ideal, sem ideias preconcebidas, é se ver boquiaberto diante de um gato adormecido e dar-se o tempo de vê-lo respirar.

Numa vida espiritual, a aventura se vive aqui, no imediato, na incandescência do presente. E, diante da jornada, o viajante pega a estrada em sentido inverso. Com o coração a tiracolo, parte em descoberta dos mundos submersos da consciência, em busca do “eu” que incessantemente lhe escapa.

Pronto. É isso! A espiritualidade é aventurar-se! E aventurar-se no coração do cotidiano.

No entanto, pensando de maneira mais objetiva, além de observar os gatos dormindo, o que se pode fazer para ter uma vida espiritual?

É isso que você vai descobrir ao longo destas páginas, em crônicas por vezes sérias, por vezes bem-humoradas, extraídas da vida real. Em cada uma delas há uma experiência concreta, seguida de uma proposta de exercício.

E como a espiritualidade está à espreita em cada uma destas páginas, os “exercícios” vão se tornar “rituais”. Percebe a diferença?

 

 

Instituir rituais

Ritual. A imagem que me vem à mente quando ouço essa palavra é a de uma maga celebrando o solstício de verão na mítica Floresta de Brocéliande, cenário mágico das lendas arturianas.

Ela acende uma fogueira de sete essências: sete espécies de árvores ou arbustos que simbolizam as diferentes energias. Não houve sacrifício: os ramos foram reunidos no chão, à tarde, durante um passeio cheio de fervor e concentração. A preparação foi demorada e minuciosa. Os elementos do ritual foram se estabelecendo ao longo daquelas semanas; como se toda a energia tivesse se voltado para este dia, atraída para um vórtice. A maga se move pela cena, suas vestes esvoaçantes ao sabor do vento. Está concentrada e age com harmoniosa desenvoltura, em total consonância com o que a rodeia.

Mais tarde, nesta noite, o fogo liberará seu poder. Contudo, não é possível fazer mais do que isso, a experiência é secreta… e os ensinamentos, reservados apenas aos presentes.

Seguindo a linha da maga, três elementos podem aparecer:

  • Os rituais recriam nosso vínculo com a Natureza e as estações do ano. Este, me parece, é um dos pontos- -chave que vão presidir a evolução do ser humano nos próximos anos. Reatar os laços com a Mãe Natureza. O movimento já começou, e este livro, assim espero, vai contribuir para fortalecê-lo, em prol de uma vida mais simples, mais saudável e mais conectada.
  • Rituais requerem envolvimento, esforço, preparação. Por isso sugiro que sejam instituídos aos poucos, sem forçar. Comece por aqueles que mais o atraem e lhe dão prazer. Aprender com prazer, e brincando, é o método mais eficaz!
  • A maioria dos rituais deve ser mantida a longo prazo, a fim de liberar todos os seus poderes e benefícios. Nesse sentido, mais valem pequenos esforços contínuos do que grandes impulsos que perdem o fôlego pouco antes da reta de chegada.

 

Você, o alquimista

Os rituais que você encontrará aqui são, em sua maioria, tirados do budismo zen. Em alguns casos, essa filiação é clara (ritual de meditação zen, zazen), já em outros é mais remota. Embora essas práticas tenham origem numa espiritualidade ancestral, não requerem nenhum pertencimento religioso. O mestre Taisen Deshimaru se referia ao zen como a “religião antes das religiões”. Queria expressar, com isso, uma espécie de universalidade ou transversalidade, um espaço de encontro, para além dos rótulos.

Foi a partir dessa ideia que escrevi este livro. Espero que, com esta leitura, você possa se tornar o alquimista.

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Kankyo Tannier

Sobre o autor

Kankyo Tannier

KANKYO TANNIER é uma monja budista da tradição zen e está sendo chamada de “a nova voz do budismo” por difundir a filosofia milenar com uma abordagem leve. Ela viveu por mais de quinze anos no mosteiro Ryumonji, na Alsácia, França, antes de se estabelecer em uma floresta próxima, cercada de árvores e animais. Formada em direito, professora de canto e oratória, hipnoterapeuta e cuidadora voluntária de cavalos, Kankyo oferece oficinas de meditação, escreve um blog sobre a espiritualidade cotidiana (dailyzen.fr), já palestrou no TEDX e mantém um blog no HuffingtonPost da França. Uma monja moderna que se dedica a espalhar ensinamentos para que todos conquistem uma vida mais tranquila e feliz. É autora de A magia do silêncio.    

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