Por que o budismo funciona - Sextante
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Por que o budismo funciona

Por que o budismo funciona

ROBERT WRIGHT

Como a psicologia evolucionista e a neurociência explicam os benefícios da meditação

Como a psicologia evolucionista e a neurociência explicam os benefícios da meditação

Um dos mais brilhantes escritores americanos, Robert Wright apresenta uma jornada pela psicologia, a filosofia e a meditação para nos mostrar que o budismo detém o segredo para a felicidade duradoura.

A filosofia budista se baseia na afirmação de que nós sofremos – e causamos sofrimento aos outros – porque não vemos o mundo como ele é. E a prática da meditação traz uma promessa radical: é possível aprender a ver o mundo e a nós mesmos com maior clareza e, assim, alcançar uma profunda satisfação.

Nesse livro pioneiro, definido como “sublime” pela revista The New Yorker, Wright afirma que levar essa promessa a sério pode mudar a sua vida, pois diminui o poder que a ansiedade, a culpa e o ódio têm sobre você, além de aumentar sua capacidade de apreciar as outras pessoas e a beleza do mundo.

Com uma aguçada compreensão da evolução humana, ele recorre às últimas descobertas da neurociência e da psicologia para explicar como essa transformação acontece.

Escrito com a sagacidade e a elegância características do autor, este livro estabelece os alicerces para uma vida espiritual num mundo secular e ensina como, numa época de distrações tecnológicas e conflitos sociais, podemos nos salvar de nós mesmos – como indivíduos e como espécie.

 

“Esperei a vida inteira por uma explicação lúcida e fácil de ler sobre o budismo feita por uma mente cética e rigorosa. Aqui está. Esta é uma viagem científica e espiritual diferente de qualquer outra que já fiz.” – Martin Seligman, autor de Felicidade autêntica

“Uma fantástica introdução racional à meditação. Um livro que me fez sorrir um pouco e dar algumas risadas. Um guia irônico, autocrítico e brutalmente empírico sobre como evitar o sofrimento.” – New York Magazine

“O que acontece quando alguém mergulhado na psicologia evolucionista olha o budismo com objetividade? Se essa pessoa é, como Robert Wright, um talentoso escritor, a resposta é este livro surpreendente, agradável, desafiador e potencialmente transformador.” – Peter Singer, autor de Ética prática

Um dos mais brilhantes escritores americanos, Robert Wright apresenta uma jornada pela psicologia, a filosofia e a meditação para nos mostrar que o budismo detém o segredo para a felicidade duradoura.

A filosofia budista se baseia na afirmação de que nós sofremos – e causamos sofrimento aos outros – porque não vemos o mundo como ele é. E a prática da meditação traz uma promessa radical: é possível aprender a ver o mundo e a nós mesmos com maior clareza e, assim, alcançar uma profunda satisfação.

Nesse livro pioneiro, definido como “sublime” pela revista The New Yorker, Wright afirma que levar essa promessa a sério pode mudar a sua vida, pois diminui o poder que a ansiedade, a culpa e o ódio têm sobre você, além de aumentar sua capacidade de apreciar as outras pessoas e a beleza do mundo.

Com uma aguçada compreensão da evolução humana, ele recorre às últimas descobertas da neurociência e da psicologia para explicar como essa transformação acontece.

Escrito com a sagacidade e a elegância características do autor, este livro estabelece os alicerces para uma vida espiritual num mundo secular e ensina como, numa época de distrações tecnológicas e conflitos sociais, podemos nos salvar de nós mesmos – como indivíduos e como espécie.

 

“Esperei a vida inteira por uma explicação lúcida e fácil de ler sobre o budismo feita por uma mente cética e rigorosa. Aqui está. Esta é uma viagem científica e espiritual diferente de qualquer outra que já fiz.” – Martin Seligman, autor de Felicidade autêntica

“Uma fantástica introdução racional à meditação. Um livro que me fez sorrir um pouco e dar algumas risadas. Um guia irônico, autocrítico e brutalmente empírico sobre como evitar o sofrimento.” – New York Magazine

“O que acontece quando alguém mergulhado na psicologia evolucionista olha o budismo com objetividade? Se essa pessoa é, como Robert Wright, um talentoso escritor, a resposta é este livro surpreendente, agradável, desafiador e potencialmente transformador.” – Peter Singer, autor de Ética prática

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Ficha técnica
Lançamento 01/10/2018
Título original WHY BUDDHISM IS TRUE
Tradução CLAUDIO CARINA
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 304
Peso 390 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0636-6
EAN 9788543106366
Preço R$ 44,90
Ficha técnica e-book
eISBN 9788543106373
Preço R$ 24,99
Lançamento 01/10/2018
Título original WHY BUDDHISM IS TRUE
Tradução CLAUDIO CARINA
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 304
Peso 390 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0636-6
EAN 9788543106366
Preço R$ 44,90

E-book

eISBN 9788543106373
Preço R$ 24,99

Leia um trecho do livro

Nota ao leitor

Qualquer livro que se proponha tratar do budismo deve apresentar ao longo do texto algumas das diretrizes que pretende seguir. Então vamos resolver logo esse assunto:

Não vou falar sobre as partes “sobrenaturais” ou mais exóticas e metafísicas do budismo – reencarnação, por exemplo –, e sim sobre as mais naturalistas: as ideias que se encaixam perfeitamente na psicologia e na filosofia modernas. Vou falar sobre algumas das afirmações mais extraordinárias, até mesmo radicais, do budismo – afirmações que, se levadas a sério, podem revolucionar sua visão de si mesmo e do mundo. A intenção deste livro é fazer com que você encare essas afirmações com seriedade.

Obviamente sei que não há um budismo único, mas várias tradições budistas que diferem em todos os tipos de doutrinas. Porém este livro enfoca uma espécie de “núcleo comum” – uma série de ideias fundamentais encontradas nas principais tradições budistas, ainda que apresentem diferentes graus de ênfase e assumam uma forma distinta em cada uma delas.

Não vou entrar nas partes exageradamente detalhadas da psicologia e da filosofia budista. Por exemplo, o Abhidhamma Pitaka, uma coletânea dos primeiros textos budistas, afirma que há 89 tipos de consciência, 12 dos quais são perniciosos. Você deve ficar aliviado ao saber que este livro não vai dedicar suas páginas à tentativa de avaliar essa afirmação.

Estou ciente de que a palavra verdade é delicada, e afirmar a verdade de qualquer coisa – principalmente se o assunto inclui ideias profundas da filosofia ou da psicologia – é um negócio complicado. De fato, uma grande lição do budismo é que devemos desconfiar da intuição de que nossa maneira ordinária de perceber o mundo nos traz a verdade sobre ele. Alguns dos primeiros textos budistas chegam ao ponto de duvidar que algo como a “verdade” exista. Por outro lado, no seu mais famoso sermão, o Buda estabelece o que se chama comumente de “As Quatro Nobres Verdades”. Assim, não é que a palavra verdade não tenha lugar nas discussões sobre o pensamento budista. De qualquer forma, vou tentar proceder com humildade e sutileza ao apresentar meu argumento de que o diagnóstico budista sobre a condição humana está fundamentalmente correto e que suas prescrições são profundamente válidas, urgentes e importantes.

Afirmar a validade das ideias fundamentais do budismo não diz nada sobre outras tradições espirituais ou filosóficas. Às vezes haverá uma tensão lógica entre uma ideia budista e uma de outra tradição, mas nem sempre. O Dalai Lama já disse: “Não tente usar o que você aprende com o budismo para ser um budista melhor; use para ser melhor no que você já é.”

– Robert Wright

1. Tomando a pílula vermelha

Apesar do risco de dramatizar em excesso a condição humana: você já assistiu ao filme Matrix?

É sobre um sujeito chamado Neo (interpretado por Keanu Reeves), que descobre estar vivendo em um mundo de sonho. A vida que pensava estar levando é, na verdade, uma elaborada alucinação que ele tem enquanto, sem o seu conhecimento, seu corpo físico real está dentro de um casulo pegajoso do tamanho de um caixão. Ele está em um entre muitos casulos, fileiras e fileiras deles, cada um contendo um ser humano absorto em um sonho. Essas pessoas foram colocadas lá por senhores robôs e receberam vidas de sonho para se sentirem em paz.

O dilema enfrentado por Neo – continuar vivendo uma ilusão ou despertar para a realidade – é representada na famosa cena da “pílula vermelha”. Neo foi contatado por rebeldes que entraram em seu sonho (ou, para ser mais exato, cujos avatares entraram em seu sonho). O líder dos rebeldes, Morpheus (interpretado por Laurence Fishburne), explica a situação a ele: “Você é um escravo, Neo. Como todos os outros, você nasceu em um cativeiro, em uma prisão que não pode provar, ver ou tocar – uma prisão para a sua mente.” A prisão é chamada de Matrix, mas não há como explicar a Neo o que, em última instância, ela é. A única maneira de entendê-la por completo, diz Morpheus, é “ver por si mesmo”. Ele então lhe oferece duas pílulas, uma vermelha e outra azul. Neo pode tomar a azul e retornar ao seu mundo de sonho ou tomar a vermelha e romper o véu de ilusão. Neo escolhe a pílula vermelha.

Trata-se de uma escolha radical: uma vida de ilusão e escravidão ou uma vida de clareza e liberdade. Na verdade, é uma escolha tão drástica que é possível pensar que só poderia mesmo fazer parte de um filme de Hollywood, que as escolhas que fazemos sobre como viver a vida são menos importantes e mais triviais que essa. No entanto, quando foi lançado, várias pessoas viram no filme o reflexo de uma escolha que elas realmente haviam feito.

Essas são as que você poderia chamar de budistas do Ocidente – em sua maioria, pessoas de países ocidentais que não foram criadas como budistas, mas que, a certa altura, adotaram essa filosofia. Ao menos uma versão dela, despojada de alguns elementos sobrenaturais encontrados na variedade asiática, como a crença na reencarnação e em diversas deidades. Esse budismo ocidental se concentra em um aspecto da prática budista que na Ásia é mais comum entre monges do que entre leigos: a meditação, juntamente com a imersão na filosofia budista. (Duas das concepções ocidentais mais comuns sobre o budismo – o fato de ser ateísta e de girar em torno da meditação – estão equivocadas, pois a maioria dos budistas na Ásia acredita em deuses, embora não em um Deus criador onipotente, e não medita.)

Muito antes de assistir a Matrix, esses budistas ocidentais já estavam convencidos de que o mundo, tal como um dia o conheceram, era uma espécie de ilusão – não uma alucinação completa, mas uma imagem seriamente distorcida da realidade que, por sua vez, distorcia sua maneira de enxergar a vida, com consequências ruins para eles mesmos e para as pessoas ao seu redor. Agora eles sentiam que, graças à meditação e à filosofia budista, estavam vendo as coisas de maneira mais clara. Para essas pessoas, Matrix pareceu uma alegoria apropriada da transição pela qual tinham passado e por isso ficou conhecido como um “filme do dharma”. A palavra dharma tem diversos significados, inclusive os ensinamentos do Buda e o caminho que os budistas devem seguir em decorrência desses ensinamentos. Na esteira de Matrix, surgiu então uma nova expressão no lugar de “eu sigo o dharma”: “Eu tomei a pílula vermelha.”

Assisti a Matrix em 1999, assim que foi lançado. Alguns meses depois, descobri que eu tinha uma espécie de conexão com o filme. Os diretores da obra, os irmãos Wachowski, pediram que Keanu Reeves lesse três livros como preparação para interpretar Neo, um dos quais eu havia escrito alguns anos antes: O animal moral – Por que somos como somos: a nova ciência da psicologia evolucionista.

Não sei bem que tipo de relação os diretores viram entre meu livro e Matrix. Mas sei qual eu vejo. A psicologia evolucionista pode ser definida de várias maneiras, e a defini em meu livro da seguinte forma: é o estudo de como o cérebro humano foi projetado – pela seleção natural – para nos ludibriar e até mesmo nos escravizar.

Não me entendam mal: a seleção natural tem suas virtudes e é melhor ser fruto dela do que não ser – o que, até onde posso dizer, são as duas opções oferecidas pelo universo. Ser um produto da evolução de forma nenhuma é apenas uma história de escravidão e ilusão. Nosso cérebro evoluído nos empodera de várias maneiras e muitas vezes nos agracia com uma visão essencialmente fidedigna da realidade.

Ainda assim, no fim das contas, a seleção natural se preocupa com apenas uma coisa (se “preocupa”, entre aspas, já que a seleção natural é um processo cego, não algo feito por um designer consciente). E essa coisa é passar genes adiante para a próxima geração. Características genéticas que no passado contribuíram para a proliferação de genes se desenvolveram, enquanto as que não contribuíram ficaram pelo caminho. Essas que sobreviveram ao teste incluem também propriedades mentais – estruturas e algoritmos que estão integrados ao cérebro e moldam a nossa experiência cotidiana.

Então, se você perguntar “Quais são as percepções, os pensamentos e os sentimentos que nos guiam pela vida todos os dias?”, a resposta, no nível mais básico, não é: “Aqueles que nos fornecem uma imagem precisa da realidade.” Não. No nível mais básico, a resposta é: “Aqueles que ajudaram nossos antepassados a passar genes para a geração seguinte.” Estritamente falando, é irrelevante saber se esses pensamentos, sentimentos e percepções nos fornecem uma visão fidedigna da realidade. Consequentemente, às vezes não é isso que eles fazem. Nosso cérebro foi projetado para, entre outras coisas, nos iludir.

Não que haja algo de errado nisso! Alguns dos meus momentos mais felizes foram fruto da ilusão – por exemplo, quando acreditei que o Papai Noel me faria uma visita na véspera do Natal. Mas a ilusão também pode produzir maus momentos. E não estou falando apenas daqueles que são obviamente ilusórios, como os pesadelos. Estou me referindo também a momentos que podemos não enxergar como ilusórios, o que é o caso das noites que não conseguimos dormir por causa da ansiedade. Ou de quando ficamos deprimidos por dias a fio. Ou de quando temos acessos de ódio que até podem nos trazer certo alívio momentâneo, mas acabam corroendo lentamente nossa personalidade. Ou de quando atacamos a nós mesmos ou, ainda, dos momentos em que nos entregamos à compulsão, seja por fazer compras, comer ou beber muito além da conta.

Embora esses sentimentos – ansiedade, desespero, ódio, avidez – não pareçam ilusórios como um pesadelo, se você os examinar mais de perto verá que eles contêm elementos de ilusão sem os quais você se sentiria melhor.

E se você acha que estaria melhor sem eles, imagine como o mundo inteiro ficaria. Afinal, sentimentos como desespero, ódio e avidez podem fomentar guerras e atrocidades. Portanto, se o que estou dizendo é verdade – se essas fontes básicas de crueldade e de sofrimento humanos são de fato e em grande parte produto da ilusão –, vale a pena trazer à luz essa ilusão.

Parece lógico, certo? Mas eis um problema que comecei a considerar pouco depois de escrever meu livro sobre psicologia evolucionista: o valor exato de trazer à luz uma ilusão depende do tipo de luz de que se está falando. Às vezes, entender a fonte essencial do seu sofrimento por si só não ajuda muito.

Uma ilusão diária

Vamos considerar um exemplo simples, porém fundamental: comer uma porção de fast-food, ficar brevemente satisfeito e depois, após alguns minutos, sentir uma espécie de crise de abstinência e talvez mais vontade de comer porcaria. Por duas razões esse é um bom exemplo para começar nossa discussão.

Primeiro, por ilustrar quão sutis as nossas ilusões podem ser. Ao comer um pacote inteiro de rosquinhas açucaradas, em nenhum momento você acredita ser o messias ou que agentes estrangeiros estão conspirando para assassiná-lo. E isso se aplica a muitas das fontes de ilusão que vou discutir neste livro: elas têm mais a ver com o fato de as coisas não serem bem o que parecem do que com o sentido mais radical do termo “ilusão”. Ainda assim, até o final do livro, terei argumentado que todas essas ilusões vão se acumulando e terminam causando uma distorção da realidade em grande escala, uma desorientação tão significativa e repleta de consequências quanto um delírio absoluto.

O segundo motivo para esse ser um bom exemplo é o fato de ele conter um elemento fundamental nos ensinamentos do Buda. Tudo bem, pode não ser literalmente fundamental, pois 2.500 anos atrás, quando ele se tornou um mestre, não existia fast-food. O que é fundamental para seus ensinamentos é a dinâmica geral da poderosa atração exercida pelo prazer sensorial, que, na melhor das hipóteses, acaba sendo muito efêmero. Uma das principais mensagens do Buda é que os prazeres que buscamos se esvanecem rapidamente, nos deixando sedentos por mais. Passamos nosso tempo em busca da próxima gratificação – a próxima rosquinha açucarada, o próximo encontro sexual, a próxima promoção no emprego, a próxima compra on-line. Mas o barato sempre se esvai, nos deixando com a sensação de que queremos mais. A letra do antigo sucesso dos Rolling Stones “I can’t get no satisfaction” [Não consigo ficar satisfeito] representa, de acordo com o budismo, a condição humana. Na verdade, embora o Buda seja famoso por ter afirmado que a vida é permeada de sofrimento, alguns estudiosos dizem que essa é uma interpretação incompleta de sua mensagem e que a palavra traduzida como “sofrimento”, dukkha, poderia ser traduzida como “insatisfação”.

Mas qual é exatamente o aspecto ilusório da busca por rosquinhas, sexo, bens de consumo ou promoções profissionais? Existem diferentes ilusões associadas a diferentes anseios, mas por enquanto podemos nos concentrar em uma que é comum a todos esses: a superestimação da felicidade que essas coisas vão nos proporcionar. Mais uma vez, isso só é ilusório de um jeito sutil. Se eu lhe perguntasse se você achava que conseguir uma promoção, tirar 10 na prova ou comer mais uma rosquinha traria a felicidade eterna, você responderia que não, é claro que não. Por outro lado, muitas vezes ansiamos por essas coisas com uma visão, no mínimo, um pouco deturpada do futuro. Passamos mais tempo imaginando as vantagens de conseguir uma promoção do que as dores de cabeça que ela vai trazer. E pode haver a ideia implícita de que, uma vez alcançado esse objetivo desejado há tanto tempo, ao chegarmos ao ápice, vamos poder relaxar ou pelo menos constatar que as coisas terão melhorado. Da mesma maneira, quando vemos aquela rosquinha, imediatamente imaginamos como ela é saborosa, mas não com que avidez vamos querer outra poucos instantes depois nem como nos sentiremos meio cansados ou agitados mais tarde, quando o barato do açúcar baixar.

Por que o prazer esvanece

Não é preciso ser um gênio para explicar por que essa espécie de distorção seria integrada na expectativa humana. Basta ser um biólogo evolucionista – ou alguém disposto a passar algum tempo pensando em como funciona a evolução.

Aqui está a lógica básica: nós fomos “projetados” pela seleção natural para fazer certas coisas que ajudaram nossos antepassados a passar seus genes para a geração seguinte – como comer, fazer sexo, ganhar a estima das outras pessoas e superar rivais. Novamente escrevi “projetados” entre aspas porque, como já disse antes, a seleção natural não é algo concebido por um designer consciente e inteligente, mas sim um processo sem consciência. Mesmo assim, a seleção natural cria organismos que parecem ser produto de um designer consciente, de um projetista que os aperfeiçoou até torná-los eficientes propagadores de genes. Numa espécie de experimento mental, vamos pensar na seleção natural como um “designer” e nos colocar em seu lugar: se você estivesse projetando organismos para serem bons em disseminar os próprios genes, o que faria para que eles buscassem os objetivos que atendem a esse propósito? Em outras palavras, considerando que comer, ter relações sexuais, impressionar colegas e superar os rivais ajudaram nossos ancestrais a espalhar os próprios genes, como exatamente você projetaria o cérebro deles para levá-los a perseguir esses objetivos? Vou citar pelo menos três ideias básicas que fariam sentido:

Alcançar esses objetivos deveria causar prazer, pois os animais – inclusive os humanos – tendem a buscar o que lhes dá prazer.

O prazer não deveria durar para sempre. Afinal, se o prazer não passasse, nunca mais o buscaríamos; nossa primeira refeição seria a última, pois nunca mais sentiríamos fome. O mesmo vale para o sexo: imagine uma única relação sexual, seguida por uma vida inteira de satisfação – isso não é jeito de passar muitos genes adiante para a próxima geração!

O cérebro do animal deveria se concentrar mais (1) no fato de a realização de um desses objetivos vir acompanhada de uma sensação de prazer do que (2) no fato de essa sensação se dissipar pouco tempo depois. Afinal, se você se concentrar no primeiro, sairá em busca de coisas como alimento, sexo e status social com um entusiasmo genuíno, ao passo que, se pensar mais no segundo, vai começar a ficar um pouco indeciso. Você poderia se perguntar, por exemplo, qual é o objetivo de buscar o prazer tão intensamente se ele vai desaparecer em tão pouco tempo, deixando-o ávido por mais. Antes de perceber, você estaria tomado pelo tédio e desejando ter se formado em filosofia.

Se colocar esses três princípios juntos, você vai obter uma explicação plausível para a condição humana tal como foi diagnosticada pelo Buda. Sim, como ele disse, o prazer é efêmero e, sim, isso nos deixa periodicamente insatisfeitos. O prazer é projetado pela seleção natural para evaporar logo, de forma que a insatisfação resultante nos leve a buscar mais. Afinal, a seleção natural não “quer” que sejamos felizes; “quer” apenas que sejamos produtivos – no sentido estrito do que ela entende por produtividade. E a maneira de nos tornar produtivos é tornando a expectativa de prazer muito forte, mas fazendo com que o prazer em si seja de curta duração.

Os cientistas podem observar como essa lógica atua em nível bioquímico analisando a dopamina, um neurotransmissor que está relacionado ao prazer e à expectativa de obtê-lo. Em um estudo clássico, eles usaram macacos para monitorar neurônios geradores de dopamina à medida que gotas de suco doce caíam na língua dos animais. Previsivelmente, a dopamina era liberada assim que o suco tocava a língua dos primatas. Mas em seguida os macacos foram treinados a esperar gotas de suco quando uma luz se acendia. Conforme os experimentos foram se sucedendo, cada vez mais dopamina era liberada quando a luz se acendia e cada vez menos quando o suco caía na língua.

Não temos como saber ao certo como cada um daqueles macacos se sentia, porém parece que, com o passar do tempo, o prazer da expectativa foi se tornando maior que o advindo da gratificação. Traduzindo essa conjectura em termos do dia a dia humano, temos o seguinte cenário:

Ao encontrar um novo tipo de prazer – digamos que, por alguma razão, você tenha passado a vida toda sem ter comido uma rosquinha açucarada e alguém lhe ofereça uma e sugira que a experimente –, você vai sentir uma grande explosão de dopamina. Mas algum tempo depois, quando já tiver se tornado um consumidor habitual de rosquinhas, a maior parte do pico de dopamina surgirá antes da primeira mordida, no momento em que estiver olhando a guloseima com desejo. A quantidade liberada depois de mordê-la será muito inferior àquela obtida na primeira rosquinha. A descarga de dopamina que você passará a sentir antes de comê-la será a promessa de mais felicidade, enquanto a redução nos níveis dessa substância depois de mordê-la será de alguma forma a quebra dessa promessa – ou, pelo menos, uma espécie de reconhecimento bioquímico de que havia uma expectativa exagerada em jogo. Na medida em que acreditou na promessa – criando a expectativa de um prazer maior do que viria a sentir ao efetivamente comer a rosquinha –, você foi, se não iludido no sentido mais forte do termo, ao menos ludibriado.

Em certa medida, é algo um tanto cruel, mas o que se poderia esperar da seleção natural? Sua função é construir máquinas que disseminam genes, e se isso significa ter que programar nelas algum grau de ilusão, então é assim que será.

Descobertas inúteis

Então esse é um tipo de luz que a ciência pode lançar sobre uma ilusão. Podemos chamá-la de “luz darwiniana”. Ao observarmos as coisas do ponto de vista da seleção natural, percebemos por que a ilusão seria incluída em nós e temos mais razões do que nunca para vê-la com tal. Porém – e este é o ponto principal dessa pequena digressão –, esse tipo de iluminação tem um valor limitado se nosso objetivo é realmente nos libertarmos da ilusão.

Não acredita em mim? Tente este experimento simples: (1) Reflita sobre o fato de que nossa avidez por rosquinhas e outras guloseimas é uma espécie de ilusão – que a expectativa implicitamente promete um prazer mais duradouro do que o que efetivamente vamos experimentar ao nos entregarmos à tentação, enquanto nos cega para a decepção que deverá vir a seguir. (2) No momento em que estiver refletindo sobre esse fato, segure uma rosquinha açucarada a 15 centímetros do rosto. Você sente que a avidez está magicamente arrefecendo? Se você for como eu, não.

Foi isto que descobri depois de me envolver com a psicologia evolucionista: conhecer a verdade sobre a sua situação, ao menos da forma como essa disciplina possibilita, não torna a vida necessariamente melhor. Aliás, pode mesmo torná-la pior. Você vai continuar preso ao ciclo humano natural da busca fútil pelo prazer – o que os psicólogos às vezes chamam de “esteira hedonista” –, mas agora terá novos argumentos para ver o absurdo da coisa. Em outras palavras: você passa a perceber que se trata de uma esteira projetada especificamente para mantê-lo correndo, em geral sem chegar a parte alguma – e, ainda assim, não para de correr!

E a rosquinha açucarada é apenas a ponta do iceberg. Tudo bem que não é tão desagradável assim estar ciente da lógica darwiniana por trás da sua falta de disciplina alimentar. De fato, você pode encontrar uma desculpa reconfortante nesta explicação: é difícil lutar contra a Mãe Natureza, certo? Mas a psicologia evolucionista também me fez enxergar de que modo a ilusão molda outros tipos de comportamentos, como a maneira como trato outras pessoas e como trato a mim mesmo. Nessas áreas, a autoconsciência darwiniana é às vezes muito desconfortável.

Yongey Mingyur Rinpoche, um mestre de meditação da tradição budista tibetana, declarou: “Em última análise, a felicidade se resume a escolher entre o desconforto de tomar consciência das nossas aflições mentais e o desconforto de ser dominado por elas.” O que ele quer dizer é que, se você quiser se libertar das partes da mente que o impedem de alcançar a verdadeira felicidade, é preciso primeiro ter consciência delas – o que pode ser bem desagradável.

Sim, essa é uma forma de autoconsciência dolorosa que valeria a pena – do tipo que, no fim das contas, nos leva à felicidade profunda. Porém a percepção que alcancei através da psicologia evolucionista foi o pior dos dois mundos: a dolorosa consciência de si sem a felicidade profunda. Eu vivia tanto o desconforto de estar ciente das minhas aflições mentais quanto o de ser dominado por elas.

Jesus disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” Bem, com a psicologia evolucionista, eu achei que tinha encontrado a verdade. Porém, obviamente não havia encontrado o caminho. Isso foi suficiente para me fazer refletir sobre outra coisa que Jesus disse: que a verdade nos libertará. Acreditei que eu havia entendido a verdade básica sobre a natureza humana e, com maior clareza do que nunca, vi como as várias ilusões me aprisionavam, mas essa verdade não resultava num alvará de soltura.

Será que existe outra versão da verdade por aí que seja capaz de me libertar? Não, acho que não. Pelo menos não acho que exista alternativa à verdade apresentada pela ciência. Gostemos ou não, a seleção natural foi o processo que nos criou. Entretanto, alguns anos depois de escrever O animal moral, comecei a considerar se haveria alguma maneira de operacionalizar a verdade – um jeito de traduzir a verdade científica sobre a natureza e a condição humana num formato que não apenas identificasse e explicasse as ilusões a que estamos submetidos como também ajudasse a nos libertar delas. Comecei a me perguntar se esse budismo ocidental sobre o qual eu ouvira falar poderia ser esse caminho. Talvez muitos dos ensinamentos do Buda estivessem dizendo essencialmente a mesma coisa que a ciência psicológica moderna. E talvez a meditação fosse, em grande parte, um caminho diferente para compreender essas verdades – e, além disso, uma forma de efetivamente fazer algo a respeito.

Assim, em agosto de 2003, fui até a zona rural de Massachusetts para meu primeiro retiro de meditação silenciosa – uma semana inteira dedicada à meditação e livre de distrações como e-mails, notícias do mundo exterior e conversas com outros seres humanos.

A verdade sobre a atenção plena

Você está perdoado por duvidar que um retiro como esse pudesse resultar em uma experiência muito radical ou profunda. Em termos gerais, ele se baseava na tradição de “meditação mindfulness”, ou “da atenção plena”, o tipo de meditação que na época estava entrando na moda no Ocidente e que, ao longo dos anos, viria a se tornar muito popular. Como é definida normalmente, a atenção plena – isso que a meditação mindfulness procura cultivar – não é algo muito profundo ou exótico. Viver com consciência ou atenção plena é prestar atenção, estar consciente do que está acontecendo no aqui e agora, vivenciando esse estado de uma forma clara e direta, desanuviada das confusões que ofuscam a mente. Pare e sinta o aroma das rosas.

Até certo ponto, essa é uma definição precisa da atenção plena. Mas não vai muito longe. A concepção popular do que significa “Mindfulness” é apenas o começo da atenção plena.

E, de certa forma, trata-se de um começo enganoso. Se você examinar escrituras budistas antigas, não vai encontrar muitas exortações a parar para sentir o aroma das rosas – e isso vale mesmo que você se concentre nos textos que apresentam a palavra que é traduzida como “mindfulness”, ou “atenção plena”: sati. Na verdade, às vezes esses textos parecem transmitir uma mensagem bem diferente. A antiga escritura budista conhecida como Os quatro fundamentos da atenção plena – o mais próximo que temos de uma Bíblia da atenção plena – nos lembra que nosso corpo é “repleto de diversos tipos de coisas impuras” e nos instrui a meditar sobre fluidos corporais como “fezes, bile, catarro, pus, sangue, suor, gordura, lágrimas, sebo cutâneo, saliva, muco, líquido sinovial, urina”. Também nos convida a imaginar nosso corpo “depois de um, dois, três dias morto – inchado, lívido e putrefato”.

Não conheço nenhum best-seller sobre meditação da atenção plena intitulado Pare e sinta o aroma das fezes. E nunca ouvi um mestre recomendar que eu meditasse sobre bile, catarro ou pus, muito menos sobre o corpo apodrecido que um dia serei. O que é apresentado hoje como uma antiga tradição meditativa é, na verdade, uma versão seletiva dessa tradição, em alguns casos cuidadosamente aparada.

Não há nenhum escândalo nisso. Não há nada de errado no fato de os intérpretes modernos do budismo serem seletivos – algumas vezes até criativos – no que apresentam como budismo. Todas as tradições espirituais evoluem, adaptando-se a cada época e lugar, e os ensinamentos budistas que hoje encontram público ao redor do mundo são um produto dessa evolução.

A questão principal para os nossos propósitos é que essa evolução que produziu uma versão especificamente ocidental e contemporânea do budismo não cortou a ligação entre a prática atual e o pensamento antigo. A meditação mindfulness moderna não é exatamente como a antiga, mas as duas compartilham um princípio filosófico comum. Se você seguir a lógica por trás de qualquer uma delas, vai encontrar uma afirmação chocante: a de que nós, metaforicamente falando, estamos vivendo na Matrix. Por mais pé no chão que a meditação da atenção plena possa parecer, trata-se de uma prática que, se for seguida de maneira rigorosa, pode levá-lo a ver o que Morpheus diz que a pílula vermelha é capaz de revelar. Ou seja, “até onde vai a toca do coelho”.

Nesse primeiro retiro de meditação, tive algumas experiências muito intensas – intensas o bastante para me levar a querer ver até onde vai a toca do coelho. Então eu li mais sobre a filosofia budista, falei com especialistas no assunto, participei de alguns outros retiros e estabeleci uma prática diária de meditação.

Tudo isso deixou mais claro para mim por que Matrix veio a ser conhecido como um “filme do dharma”. Embora a psicologia evolucionista já tivesse me convencido de que as pessoas são iludidas por natureza, o budismo conseguiu pintar um quadro ainda mais dramático. Na visão budista, a ilusão atinge as percepções e os pensamentos do dia a dia de maneiras mais sutis e mais penetrantes do que eu imaginava. E que fizeram sentido para mim. Em outras palavras: me pareceu que esse tipo de ilusão podia ser explicado como o produto natural de um cérebro projetado pela seleção natural. Quanto mais eu estudava o budismo, mais radical ele soava – porém, quanto mais o examinava à luz da psicologia moderna, mais plausível me parecia. A Matrix da vida real, aquela em que estamos realmente inseridos, passou então a se parecer mais com a do filme – talvez não tão louca, mas profundamente enganosa e essencialmente opressiva, algo de que a humanidade precisa urgentemente escapar.

A boa notícia foi outra coisa em que passei a acreditar: se você quiser escapar da Matrix, a prática e a filosofia budistas oferecem uma grande esperança. Mas o budismo não está sozinho nessa promessa. Existem outras tradições espirituais que abordam a condição humana com discernimento e sabedoria. Mas a meditação budista, aliada à sua filosofia, lida com a nossa condição de uma forma surpreendentemente direta e abrangente. O budismo oferece um diagnóstico claro do problema e a cura. E essa cura, quando funciona, traz não só felicidade, mas também clareza de visão: a verdade real sobre as coisas ou ao menos algo muito, muito mais próximo dela do que nossa visão cotidiana.

Algumas pessoas que aderiram à meditação nos últimos anos o fizeram por razões essencialmente terapêuticas. Elas praticam a terapia de redução do estresse baseada na atenção plena ou estão focadas em resolver algum problema pessoal específico. Elas podem não ter ideia de que o tipo de meditação que estão praticando pode ser um empreendimento profundamente espiritual, capaz de transformar sua visão de mundo. Sem saber, estão perto do limiar de uma escolha básica, uma escolha que só elas podem fazer. Como Morpheus diz a Neo: “Eu só posso lhe mostrar a porta. Você tem que atravessá-la.” Este livro é uma tentativa de mostrar essa porta às pessoas, lhes dar alguma ideia do que está atrás dela e explicar, de um ponto de vista científico, por que o que está atrás da porta pode ser muito mais real do que o mundo que conhecemos.

Nota ao leitor

Qualquer livro que se proponha tratar do budismo deve apresentar ao longo do texto algumas das diretrizes que pretende seguir. Então vamos resolver logo esse assunto:

Não vou falar sobre as partes “sobrenaturais” ou mais exóticas e metafísicas do budismo – reencarnação, por exemplo –, e sim sobre as mais naturalistas: as ideias que se encaixam perfeitamente na psicologia e na filosofia modernas. Vou falar sobre algumas das afirmações mais extraordinárias, até mesmo radicais, do budismo – afirmações que, se levadas a sério, podem revolucionar sua visão de si mesmo e do mundo. A intenção deste livro é fazer com que você encare essas afirmações com seriedade.

Obviamente sei que não há um budismo único, mas várias tradições budistas que diferem em todos os tipos de doutrinas. Porém este livro enfoca uma espécie de “núcleo comum” – uma série de ideias fundamentais encontradas nas principais tradições budistas, ainda que apresentem diferentes graus de ênfase e assumam uma forma distinta em cada uma delas.

Não vou entrar nas partes exageradamente detalhadas da psicologia e da filosofia budista. Por exemplo, o Abhidhamma Pitaka, uma coletânea dos primeiros textos budistas, afirma que há 89 tipos de consciência, 12 dos quais são perniciosos. Você deve ficar aliviado ao saber que este livro não vai dedicar suas páginas à tentativa de avaliar essa afirmação.

Estou ciente de que a palavra verdade é delicada, e afirmar a verdade de qualquer coisa – principalmente se o assunto inclui ideias profundas da filosofia ou da psicologia – é um negócio complicado. De fato, uma grande lição do budismo é que devemos desconfiar da intuição de que nossa maneira ordinária de perceber o mundo nos traz a verdade sobre ele. Alguns dos primeiros textos budistas chegam ao ponto de duvidar que algo como a “verdade” exista. Por outro lado, no seu mais famoso sermão, o Buda estabelece o que se chama comumente de “As Quatro Nobres Verdades”. Assim, não é que a palavra verdade não tenha lugar nas discussões sobre o pensamento budista. De qualquer forma, vou tentar proceder com humildade e sutileza ao apresentar meu argumento de que o diagnóstico budista sobre a condição humana está fundamentalmente correto e que suas prescrições são profundamente válidas, urgentes e importantes.

Afirmar a validade das ideias fundamentais do budismo não diz nada sobre outras tradições espirituais ou filosóficas. Às vezes haverá uma tensão lógica entre uma ideia budista e uma de outra tradição, mas nem sempre. O Dalai Lama já disse: “Não tente usar o que você aprende com o budismo para ser um budista melhor; use para ser melhor no que você já é.”

– Robert Wright

1. Tomando a pílula vermelha

Apesar do risco de dramatizar em excesso a condição humana: você já assistiu ao filme Matrix?

É sobre um sujeito chamado Neo (interpretado por Keanu Reeves), que descobre estar vivendo em um mundo de sonho. A vida que pensava estar levando é, na verdade, uma elaborada alucinação que ele tem enquanto, sem o seu conhecimento, seu corpo físico real está dentro de um casulo pegajoso do tamanho de um caixão. Ele está em um entre muitos casulos, fileiras e fileiras deles, cada um contendo um ser humano absorto em um sonho. Essas pessoas foram colocadas lá por senhores robôs e receberam vidas de sonho para se sentirem em paz.

O dilema enfrentado por Neo – continuar vivendo uma ilusão ou despertar para a realidade – é representada na famosa cena da “pílula vermelha”. Neo foi contatado por rebeldes que entraram em seu sonho (ou, para ser mais exato, cujos avatares entraram em seu sonho). O líder dos rebeldes, Morpheus (interpretado por Laurence Fishburne), explica a situação a ele: “Você é um escravo, Neo. Como todos os outros, você nasceu em um cativeiro, em uma prisão que não pode provar, ver ou tocar – uma prisão para a sua mente.” A prisão é chamada de Matrix, mas não há como explicar a Neo o que, em última instância, ela é. A única maneira de entendê-la por completo, diz Morpheus, é “ver por si mesmo”. Ele então lhe oferece duas pílulas, uma vermelha e outra azul. Neo pode tomar a azul e retornar ao seu mundo de sonho ou tomar a vermelha e romper o véu de ilusão. Neo escolhe a pílula vermelha.

Trata-se de uma escolha radical: uma vida de ilusão e escravidão ou uma vida de clareza e liberdade. Na verdade, é uma escolha tão drástica que é possível pensar que só poderia mesmo fazer parte de um filme de Hollywood, que as escolhas que fazemos sobre como viver a vida são menos importantes e mais triviais que essa. No entanto, quando foi lançado, várias pessoas viram no filme o reflexo de uma escolha que elas realmente haviam feito.

Essas são as que você poderia chamar de budistas do Ocidente – em sua maioria, pessoas de países ocidentais que não foram criadas como budistas, mas que, a certa altura, adotaram essa filosofia. Ao menos uma versão dela, despojada de alguns elementos sobrenaturais encontrados na variedade asiática, como a crença na reencarnação e em diversas deidades. Esse budismo ocidental se concentra em um aspecto da prática budista que na Ásia é mais comum entre monges do que entre leigos: a meditação, juntamente com a imersão na filosofia budista. (Duas das concepções ocidentais mais comuns sobre o budismo – o fato de ser ateísta e de girar em torno da meditação – estão equivocadas, pois a maioria dos budistas na Ásia acredita em deuses, embora não em um Deus criador onipotente, e não medita.)

Muito antes de assistir a Matrix, esses budistas ocidentais já estavam convencidos de que o mundo, tal como um dia o conheceram, era uma espécie de ilusão – não uma alucinação completa, mas uma imagem seriamente distorcida da realidade que, por sua vez, distorcia sua maneira de enxergar a vida, com consequências ruins para eles mesmos e para as pessoas ao seu redor. Agora eles sentiam que, graças à meditação e à filosofia budista, estavam vendo as coisas de maneira mais clara. Para essas pessoas, Matrix pareceu uma alegoria apropriada da transição pela qual tinham passado e por isso ficou conhecido como um “filme do dharma”. A palavra dharma tem diversos significados, inclusive os ensinamentos do Buda e o caminho que os budistas devem seguir em decorrência desses ensinamentos. Na esteira de Matrix, surgiu então uma nova expressão no lugar de “eu sigo o dharma”: “Eu tomei a pílula vermelha.”

Assisti a Matrix em 1999, assim que foi lançado. Alguns meses depois, descobri que eu tinha uma espécie de conexão com o filme. Os diretores da obra, os irmãos Wachowski, pediram que Keanu Reeves lesse três livros como preparação para interpretar Neo, um dos quais eu havia escrito alguns anos antes: O animal moral – Por que somos como somos: a nova ciência da psicologia evolucionista.

Não sei bem que tipo de relação os diretores viram entre meu livro e Matrix. Mas sei qual eu vejo. A psicologia evolucionista pode ser definida de várias maneiras, e a defini em meu livro da seguinte forma: é o estudo de como o cérebro humano foi projetado – pela seleção natural – para nos ludibriar e até mesmo nos escravizar.

Não me entendam mal: a seleção natural tem suas virtudes e é melhor ser fruto dela do que não ser – o que, até onde posso dizer, são as duas opções oferecidas pelo universo. Ser um produto da evolução de forma nenhuma é apenas uma história de escravidão e ilusão. Nosso cérebro evoluído nos empodera de várias maneiras e muitas vezes nos agracia com uma visão essencialmente fidedigna da realidade.

Ainda assim, no fim das contas, a seleção natural se preocupa com apenas uma coisa (se “preocupa”, entre aspas, já que a seleção natural é um processo cego, não algo feito por um designer consciente). E essa coisa é passar genes adiante para a próxima geração. Características genéticas que no passado contribuíram para a proliferação de genes se desenvolveram, enquanto as que não contribuíram ficaram pelo caminho. Essas que sobreviveram ao teste incluem também propriedades mentais – estruturas e algoritmos que estão integrados ao cérebro e moldam a nossa experiência cotidiana.

Então, se você perguntar “Quais são as percepções, os pensamentos e os sentimentos que nos guiam pela vida todos os dias?”, a resposta, no nível mais básico, não é: “Aqueles que nos fornecem uma imagem precisa da realidade.” Não. No nível mais básico, a resposta é: “Aqueles que ajudaram nossos antepassados a passar genes para a geração seguinte.” Estritamente falando, é irrelevante saber se esses pensamentos, sentimentos e percepções nos fornecem uma visão fidedigna da realidade. Consequentemente, às vezes não é isso que eles fazem. Nosso cérebro foi projetado para, entre outras coisas, nos iludir.

Não que haja algo de errado nisso! Alguns dos meus momentos mais felizes foram fruto da ilusão – por exemplo, quando acreditei que o Papai Noel me faria uma visita na véspera do Natal. Mas a ilusão também pode produzir maus momentos. E não estou falando apenas daqueles que são obviamente ilusórios, como os pesadelos. Estou me referindo também a momentos que podemos não enxergar como ilusórios, o que é o caso das noites que não conseguimos dormir por causa da ansiedade. Ou de quando ficamos deprimidos por dias a fio. Ou de quando temos acessos de ódio que até podem nos trazer certo alívio momentâneo, mas acabam corroendo lentamente nossa personalidade. Ou de quando atacamos a nós mesmos ou, ainda, dos momentos em que nos entregamos à compulsão, seja por fazer compras, comer ou beber muito além da conta.

Embora esses sentimentos – ansiedade, desespero, ódio, avidez – não pareçam ilusórios como um pesadelo, se você os examinar mais de perto verá que eles contêm elementos de ilusão sem os quais você se sentiria melhor.

E se você acha que estaria melhor sem eles, imagine como o mundo inteiro ficaria. Afinal, sentimentos como desespero, ódio e avidez podem fomentar guerras e atrocidades. Portanto, se o que estou dizendo é verdade – se essas fontes básicas de crueldade e de sofrimento humanos são de fato e em grande parte produto da ilusão –, vale a pena trazer à luz essa ilusão.

Parece lógico, certo? Mas eis um problema que comecei a considerar pouco depois de escrever meu livro sobre psicologia evolucionista: o valor exato de trazer à luz uma ilusão depende do tipo de luz de que se está falando. Às vezes, entender a fonte essencial do seu sofrimento por si só não ajuda muito.

Uma ilusão diária

Vamos considerar um exemplo simples, porém fundamental: comer uma porção de fast-food, ficar brevemente satisfeito e depois, após alguns minutos, sentir uma espécie de crise de abstinência e talvez mais vontade de comer porcaria. Por duas razões esse é um bom exemplo para começar nossa discussão.

Primeiro, por ilustrar quão sutis as nossas ilusões podem ser. Ao comer um pacote inteiro de rosquinhas açucaradas, em nenhum momento você acredita ser o messias ou que agentes estrangeiros estão conspirando para assassiná-lo. E isso se aplica a muitas das fontes de ilusão que vou discutir neste livro: elas têm mais a ver com o fato de as coisas não serem bem o que parecem do que com o sentido mais radical do termo “ilusão”. Ainda assim, até o final do livro, terei argumentado que todas essas ilusões vão se acumulando e terminam causando uma distorção da realidade em grande escala, uma desorientação tão significativa e repleta de consequências quanto um delírio absoluto.

O segundo motivo para esse ser um bom exemplo é o fato de ele conter um elemento fundamental nos ensinamentos do Buda. Tudo bem, pode não ser literalmente fundamental, pois 2.500 anos atrás, quando ele se tornou um mestre, não existia fast-food. O que é fundamental para seus ensinamentos é a dinâmica geral da poderosa atração exercida pelo prazer sensorial, que, na melhor das hipóteses, acaba sendo muito efêmero. Uma das principais mensagens do Buda é que os prazeres que buscamos se esvanecem rapidamente, nos deixando sedentos por mais. Passamos nosso tempo em busca da próxima gratificação – a próxima rosquinha açucarada, o próximo encontro sexual, a próxima promoção no emprego, a próxima compra on-line. Mas o barato sempre se esvai, nos deixando com a sensação de que queremos mais. A letra do antigo sucesso dos Rolling Stones “I can’t get no satisfaction” [Não consigo ficar satisfeito] representa, de acordo com o budismo, a condição humana. Na verdade, embora o Buda seja famoso por ter afirmado que a vida é permeada de sofrimento, alguns estudiosos dizem que essa é uma interpretação incompleta de sua mensagem e que a palavra traduzida como “sofrimento”, dukkha, poderia ser traduzida como “insatisfação”.

Mas qual é exatamente o aspecto ilusório da busca por rosquinhas, sexo, bens de consumo ou promoções profissionais? Existem diferentes ilusões associadas a diferentes anseios, mas por enquanto podemos nos concentrar em uma que é comum a todos esses: a superestimação da felicidade que essas coisas vão nos proporcionar. Mais uma vez, isso só é ilusório de um jeito sutil. Se eu lhe perguntasse se você achava que conseguir uma promoção, tirar 10 na prova ou comer mais uma rosquinha traria a felicidade eterna, você responderia que não, é claro que não. Por outro lado, muitas vezes ansiamos por essas coisas com uma visão, no mínimo, um pouco deturpada do futuro. Passamos mais tempo imaginando as vantagens de conseguir uma promoção do que as dores de cabeça que ela vai trazer. E pode haver a ideia implícita de que, uma vez alcançado esse objetivo desejado há tanto tempo, ao chegarmos ao ápice, vamos poder relaxar ou pelo menos constatar que as coisas terão melhorado. Da mesma maneira, quando vemos aquela rosquinha, imediatamente imaginamos como ela é saborosa, mas não com que avidez vamos querer outra poucos instantes depois nem como nos sentiremos meio cansados ou agitados mais tarde, quando o barato do açúcar baixar.

Por que o prazer esvanece

Não é preciso ser um gênio para explicar por que essa espécie de distorção seria integrada na expectativa humana. Basta ser um biólogo evolucionista – ou alguém disposto a passar algum tempo pensando em como funciona a evolução.

Aqui está a lógica básica: nós fomos “projetados” pela seleção natural para fazer certas coisas que ajudaram nossos antepassados a passar seus genes para a geração seguinte – como comer, fazer sexo, ganhar a estima das outras pessoas e superar rivais. Novamente escrevi “projetados” entre aspas porque, como já disse antes, a seleção natural não é algo concebido por um designer consciente e inteligente, mas sim um processo sem consciência. Mesmo assim, a seleção natural cria organismos que parecem ser produto de um designer consciente, de um projetista que os aperfeiçoou até torná-los eficientes propagadores de genes. Numa espécie de experimento mental, vamos pensar na seleção natural como um “designer” e nos colocar em seu lugar: se você estivesse projetando organismos para serem bons em disseminar os próprios genes, o que faria para que eles buscassem os objetivos que atendem a esse propósito? Em outras palavras, considerando que comer, ter relações sexuais, impressionar colegas e superar os rivais ajudaram nossos ancestrais a espalhar os próprios genes, como exatamente você projetaria o cérebro deles para levá-los a perseguir esses objetivos? Vou citar pelo menos três ideias básicas que fariam sentido:

Alcançar esses objetivos deveria causar prazer, pois os animais – inclusive os humanos – tendem a buscar o que lhes dá prazer.

O prazer não deveria durar para sempre. Afinal, se o prazer não passasse, nunca mais o buscaríamos; nossa primeira refeição seria a última, pois nunca mais sentiríamos fome. O mesmo vale para o sexo: imagine uma única relação sexual, seguida por uma vida inteira de satisfação – isso não é jeito de passar muitos genes adiante para a próxima geração!

O cérebro do animal deveria se concentrar mais (1) no fato de a realização de um desses objetivos vir acompanhada de uma sensação de prazer do que (2) no fato de essa sensação se dissipar pouco tempo depois. Afinal, se você se concentrar no primeiro, sairá em busca de coisas como alimento, sexo e status social com um entusiasmo genuíno, ao passo que, se pensar mais no segundo, vai começar a ficar um pouco indeciso. Você poderia se perguntar, por exemplo, qual é o objetivo de buscar o prazer tão intensamente se ele vai desaparecer em tão pouco tempo, deixando-o ávido por mais. Antes de perceber, você estaria tomado pelo tédio e desejando ter se formado em filosofia.

Se colocar esses três princípios juntos, você vai obter uma explicação plausível para a condição humana tal como foi diagnosticada pelo Buda. Sim, como ele disse, o prazer é efêmero e, sim, isso nos deixa periodicamente insatisfeitos. O prazer é projetado pela seleção natural para evaporar logo, de forma que a insatisfação resultante nos leve a buscar mais. Afinal, a seleção natural não “quer” que sejamos felizes; “quer” apenas que sejamos produtivos – no sentido estrito do que ela entende por produtividade. E a maneira de nos tornar produtivos é tornando a expectativa de prazer muito forte, mas fazendo com que o prazer em si seja de curta duração.

Os cientistas podem observar como essa lógica atua em nível bioquímico analisando a dopamina, um neurotransmissor que está relacionado ao prazer e à expectativa de obtê-lo. Em um estudo clássico, eles usaram macacos para monitorar neurônios geradores de dopamina à medida que gotas de suco doce caíam na língua dos animais. Previsivelmente, a dopamina era liberada assim que o suco tocava a língua dos primatas. Mas em seguida os macacos foram treinados a esperar gotas de suco quando uma luz se acendia. Conforme os experimentos foram se sucedendo, cada vez mais dopamina era liberada quando a luz se acendia e cada vez menos quando o suco caía na língua.

Não temos como saber ao certo como cada um daqueles macacos se sentia, porém parece que, com o passar do tempo, o prazer da expectativa foi se tornando maior que o advindo da gratificação. Traduzindo essa conjectura em termos do dia a dia humano, temos o seguinte cenário:

Ao encontrar um novo tipo de prazer – digamos que, por alguma razão, você tenha passado a vida toda sem ter comido uma rosquinha açucarada e alguém lhe ofereça uma e sugira que a experimente –, você vai sentir uma grande explosão de dopamina. Mas algum tempo depois, quando já tiver se tornado um consumidor habitual de rosquinhas, a maior parte do pico de dopamina surgirá antes da primeira mordida, no momento em que estiver olhando a guloseima com desejo. A quantidade liberada depois de mordê-la será muito inferior àquela obtida na primeira rosquinha. A descarga de dopamina que você passará a sentir antes de comê-la será a promessa de mais felicidade, enquanto a redução nos níveis dessa substância depois de mordê-la será de alguma forma a quebra dessa promessa – ou, pelo menos, uma espécie de reconhecimento bioquímico de que havia uma expectativa exagerada em jogo. Na medida em que acreditou na promessa – criando a expectativa de um prazer maior do que viria a sentir ao efetivamente comer a rosquinha –, você foi, se não iludido no sentido mais forte do termo, ao menos ludibriado.

Em certa medida, é algo um tanto cruel, mas o que se poderia esperar da seleção natural? Sua função é construir máquinas que disseminam genes, e se isso significa ter que programar nelas algum grau de ilusão, então é assim que será.

Descobertas inúteis

Então esse é um tipo de luz que a ciência pode lançar sobre uma ilusão. Podemos chamá-la de “luz darwiniana”. Ao observarmos as coisas do ponto de vista da seleção natural, percebemos por que a ilusão seria incluída em nós e temos mais razões do que nunca para vê-la com tal. Porém – e este é o ponto principal dessa pequena digressão –, esse tipo de iluminação tem um valor limitado se nosso objetivo é realmente nos libertarmos da ilusão.

Não acredita em mim? Tente este experimento simples: (1) Reflita sobre o fato de que nossa avidez por rosquinhas e outras guloseimas é uma espécie de ilusão – que a expectativa implicitamente promete um prazer mais duradouro do que o que efetivamente vamos experimentar ao nos entregarmos à tentação, enquanto nos cega para a decepção que deverá vir a seguir. (2) No momento em que estiver refletindo sobre esse fato, segure uma rosquinha açucarada a 15 centímetros do rosto. Você sente que a avidez está magicamente arrefecendo? Se você for como eu, não.

Foi isto que descobri depois de me envolver com a psicologia evolucionista: conhecer a verdade sobre a sua situação, ao menos da forma como essa disciplina possibilita, não torna a vida necessariamente melhor. Aliás, pode mesmo torná-la pior. Você vai continuar preso ao ciclo humano natural da busca fútil pelo prazer – o que os psicólogos às vezes chamam de “esteira hedonista” –, mas agora terá novos argumentos para ver o absurdo da coisa. Em outras palavras: você passa a perceber que se trata de uma esteira projetada especificamente para mantê-lo correndo, em geral sem chegar a parte alguma – e, ainda assim, não para de correr!

E a rosquinha açucarada é apenas a ponta do iceberg. Tudo bem que não é tão desagradável assim estar ciente da lógica darwiniana por trás da sua falta de disciplina alimentar. De fato, você pode encontrar uma desculpa reconfortante nesta explicação: é difícil lutar contra a Mãe Natureza, certo? Mas a psicologia evolucionista também me fez enxergar de que modo a ilusão molda outros tipos de comportamentos, como a maneira como trato outras pessoas e como trato a mim mesmo. Nessas áreas, a autoconsciência darwiniana é às vezes muito desconfortável.

Yongey Mingyur Rinpoche, um mestre de meditação da tradição budista tibetana, declarou: “Em última análise, a felicidade se resume a escolher entre o desconforto de tomar consciência das nossas aflições mentais e o desconforto de ser dominado por elas.” O que ele quer dizer é que, se você quiser se libertar das partes da mente que o impedem de alcançar a verdadeira felicidade, é preciso primeiro ter consciência delas – o que pode ser bem desagradável.

Sim, essa é uma forma de autoconsciência dolorosa que valeria a pena – do tipo que, no fim das contas, nos leva à felicidade profunda. Porém a percepção que alcancei através da psicologia evolucionista foi o pior dos dois mundos: a dolorosa consciência de si sem a felicidade profunda. Eu vivia tanto o desconforto de estar ciente das minhas aflições mentais quanto o de ser dominado por elas.

Jesus disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” Bem, com a psicologia evolucionista, eu achei que tinha encontrado a verdade. Porém, obviamente não havia encontrado o caminho. Isso foi suficiente para me fazer refletir sobre outra coisa que Jesus disse: que a verdade nos libertará. Acreditei que eu havia entendido a verdade básica sobre a natureza humana e, com maior clareza do que nunca, vi como as várias ilusões me aprisionavam, mas essa verdade não resultava num alvará de soltura.

Será que existe outra versão da verdade por aí que seja capaz de me libertar? Não, acho que não. Pelo menos não acho que exista alternativa à verdade apresentada pela ciência. Gostemos ou não, a seleção natural foi o processo que nos criou. Entretanto, alguns anos depois de escrever O animal moral, comecei a considerar se haveria alguma maneira de operacionalizar a verdade – um jeito de traduzir a verdade científica sobre a natureza e a condição humana num formato que não apenas identificasse e explicasse as ilusões a que estamos submetidos como também ajudasse a nos libertar delas. Comecei a me perguntar se esse budismo ocidental sobre o qual eu ouvira falar poderia ser esse caminho. Talvez muitos dos ensinamentos do Buda estivessem dizendo essencialmente a mesma coisa que a ciência psicológica moderna. E talvez a meditação fosse, em grande parte, um caminho diferente para compreender essas verdades – e, além disso, uma forma de efetivamente fazer algo a respeito.

Assim, em agosto de 2003, fui até a zona rural de Massachusetts para meu primeiro retiro de meditação silenciosa – uma semana inteira dedicada à meditação e livre de distrações como e-mails, notícias do mundo exterior e conversas com outros seres humanos.

A verdade sobre a atenção plena

Você está perdoado por duvidar que um retiro como esse pudesse resultar em uma experiência muito radical ou profunda. Em termos gerais, ele se baseava na tradição de “meditação mindfulness”, ou “da atenção plena”, o tipo de meditação que na época estava entrando na moda no Ocidente e que, ao longo dos anos, viria a se tornar muito popular. Como é definida normalmente, a atenção plena – isso que a meditação mindfulness procura cultivar – não é algo muito profundo ou exótico. Viver com consciência ou atenção plena é prestar atenção, estar consciente do que está acontecendo no aqui e agora, vivenciando esse estado de uma forma clara e direta, desanuviada das confusões que ofuscam a mente. Pare e sinta o aroma das rosas.

Até certo ponto, essa é uma definição precisa da atenção plena. Mas não vai muito longe. A concepção popular do que significa “Mindfulness” é apenas o começo da atenção plena.

E, de certa forma, trata-se de um começo enganoso. Se você examinar escrituras budistas antigas, não vai encontrar muitas exortações a parar para sentir o aroma das rosas – e isso vale mesmo que você se concentre nos textos que apresentam a palavra que é traduzida como “mindfulness”, ou “atenção plena”: sati. Na verdade, às vezes esses textos parecem transmitir uma mensagem bem diferente. A antiga escritura budista conhecida como Os quatro fundamentos da atenção plena – o mais próximo que temos de uma Bíblia da atenção plena – nos lembra que nosso corpo é “repleto de diversos tipos de coisas impuras” e nos instrui a meditar sobre fluidos corporais como “fezes, bile, catarro, pus, sangue, suor, gordura, lágrimas, sebo cutâneo, saliva, muco, líquido sinovial, urina”. Também nos convida a imaginar nosso corpo “depois de um, dois, três dias morto – inchado, lívido e putrefato”.

Não conheço nenhum best-seller sobre meditação da atenção plena intitulado Pare e sinta o aroma das fezes. E nunca ouvi um mestre recomendar que eu meditasse sobre bile, catarro ou pus, muito menos sobre o corpo apodrecido que um dia serei. O que é apresentado hoje como uma antiga tradição meditativa é, na verdade, uma versão seletiva dessa tradição, em alguns casos cuidadosamente aparada.

Não há nenhum escândalo nisso. Não há nada de errado no fato de os intérpretes modernos do budismo serem seletivos – algumas vezes até criativos – no que apresentam como budismo. Todas as tradições espirituais evoluem, adaptando-se a cada época e lugar, e os ensinamentos budistas que hoje encontram público ao redor do mundo são um produto dessa evolução.

A questão principal para os nossos propósitos é que essa evolução que produziu uma versão especificamente ocidental e contemporânea do budismo não cortou a ligação entre a prática atual e o pensamento antigo. A meditação mindfulness moderna não é exatamente como a antiga, mas as duas compartilham um princípio filosófico comum. Se você seguir a lógica por trás de qualquer uma delas, vai encontrar uma afirmação chocante: a de que nós, metaforicamente falando, estamos vivendo na Matrix. Por mais pé no chão que a meditação da atenção plena possa parecer, trata-se de uma prática que, se for seguida de maneira rigorosa, pode levá-lo a ver o que Morpheus diz que a pílula vermelha é capaz de revelar. Ou seja, “até onde vai a toca do coelho”.

Nesse primeiro retiro de meditação, tive algumas experiências muito intensas – intensas o bastante para me levar a querer ver até onde vai a toca do coelho. Então eu li mais sobre a filosofia budista, falei com especialistas no assunto, participei de alguns outros retiros e estabeleci uma prática diária de meditação.

Tudo isso deixou mais claro para mim por que Matrix veio a ser conhecido como um “filme do dharma”. Embora a psicologia evolucionista já tivesse me convencido de que as pessoas são iludidas por natureza, o budismo conseguiu pintar um quadro ainda mais dramático. Na visão budista, a ilusão atinge as percepções e os pensamentos do dia a dia de maneiras mais sutis e mais penetrantes do que eu imaginava. E que fizeram sentido para mim. Em outras palavras: me pareceu que esse tipo de ilusão podia ser explicado como o produto natural de um cérebro projetado pela seleção natural. Quanto mais eu estudava o budismo, mais radical ele soava – porém, quanto mais o examinava à luz da psicologia moderna, mais plausível me parecia. A Matrix da vida real, aquela em que estamos realmente inseridos, passou então a se parecer mais com a do filme – talvez não tão louca, mas profundamente enganosa e essencialmente opressiva, algo de que a humanidade precisa urgentemente escapar.

A boa notícia foi outra coisa em que passei a acreditar: se você quiser escapar da Matrix, a prática e a filosofia budistas oferecem uma grande esperança. Mas o budismo não está sozinho nessa promessa. Existem outras tradições espirituais que abordam a condição humana com discernimento e sabedoria. Mas a meditação budista, aliada à sua filosofia, lida com a nossa condição de uma forma surpreendentemente direta e abrangente. O budismo oferece um diagnóstico claro do problema e a cura. E essa cura, quando funciona, traz não só felicidade, mas também clareza de visão: a verdade real sobre as coisas ou ao menos algo muito, muito mais próximo dela do que nossa visão cotidiana.

Algumas pessoas que aderiram à meditação nos últimos anos o fizeram por razões essencialmente terapêuticas. Elas praticam a terapia de redução do estresse baseada na atenção plena ou estão focadas em resolver algum problema pessoal específico. Elas podem não ter ideia de que o tipo de meditação que estão praticando pode ser um empreendimento profundamente espiritual, capaz de transformar sua visão de mundo. Sem saber, estão perto do limiar de uma escolha básica, uma escolha que só elas podem fazer. Como Morpheus diz a Neo: “Eu só posso lhe mostrar a porta. Você tem que atravessá-la.” Este livro é uma tentativa de mostrar essa porta às pessoas, lhes dar alguma ideia do que está atrás dela e explicar, de um ponto de vista científico, por que o que está atrás da porta pode ser muito mais real do que o mundo que conhecemos.

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Robert Wright

Sobre o autor

Robert Wright

Escritor premiado, autor de A evolução de DeusO animal moral e Não-zero: a lógica do destino humano. É um dos editores da revista The New Republic e também contribuiu para a Timee a Slate. Já escreveu para a The New Yorker, a The New York Times Magazine, o The Washington Post e o Financial Times. Wright deu aulas de filosofia e religião em Princeton e na Universidade da Pensilvânia. Atualmente, é professor visitante na Union Theological Seminary, em Nova York.

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