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LITERATURA

Senhora dos ares

Senhora dos ares

PEDRO SIQUEIRA

A jornada de um jovem em busca de autoconhecimento e fé

A jornada de um jovem em busca de autoconhecimento e fé

Pedro Siqueira já vendeu mais de 170 mil livros no Brasil.

 

Durante a Segunda Guerra Mundial, uma esquadrilha da Força Aérea dos Estados Unidos não consegue completar uma missão na Itália devido a um fenômeno inexplicável. Quando sobrevoam o monte Gargano, os militares têm uma visão sobrenatural que os aterroriza e os faz voltar para a base.

O que poderia ser apenas um ataque militar frustrado acaba se tornando o ponto de partida para a conversão de dois oficiais. Curiosos para desvendar o misterioso evento, Connors e Bloom vão até um convento na cidade de San Giovanni Rotondo, onde pode estar a resposta para suas dúvidas.

Muitos anos depois, no leito do hospital, Connors sente que ainda precisa completar a missão de dar um rumo à vida do filho, Rafael, e lhe entrega um envelope, pedindo que o abra após sua morte. Quando é chegada a hora, o rapaz se depara com um bilhete contendo o último pedido de Connors: ele deve partir para uma cidade desconhecida à procura do que o pai chama de “verdadeiro caminho”.

Essa viagem permitirá que o jovem relembre todas as fabulosas histórias do pai e inicie uma jornada de autoconhecimento, abalando seus conceitos sobre a vida, a fé e o amor.

No segundo livro da trilogia iniciada com Senhora das águas, Pedro Siqueira constrói mais uma história tocante sobre a busca pela espiritualidade, retomando sua forte conexão com Nossa Senhora.

Pedro Siqueira já vendeu mais de 170 mil livros no Brasil.

 

Durante a Segunda Guerra Mundial, uma esquadrilha da Força Aérea dos Estados Unidos não consegue completar uma missão na Itália devido a um fenômeno inexplicável. Quando sobrevoam o monte Gargano, os militares têm uma visão sobrenatural que os aterroriza e os faz voltar para a base.

O que poderia ser apenas um ataque militar frustrado acaba se tornando o ponto de partida para a conversão de dois oficiais. Curiosos para desvendar o misterioso evento, Connors e Bloom vão até um convento na cidade de San Giovanni Rotondo, onde pode estar a resposta para suas dúvidas.

Muitos anos depois, no leito do hospital, Connors sente que ainda precisa completar a missão de dar um rumo à vida do filho, Rafael, e lhe entrega um envelope, pedindo que o abra após sua morte. Quando é chegada a hora, o rapaz se depara com um bilhete contendo o último pedido de Connors: ele deve partir para uma cidade desconhecida à procura do que o pai chama de “verdadeiro caminho”.

Essa viagem permitirá que o jovem relembre todas as fabulosas histórias do pai e inicie uma jornada de autoconhecimento, abalando seus conceitos sobre a vida, a fé e o amor.

No segundo livro da trilogia iniciada com Senhora das águas, Pedro Siqueira constrói mais uma história tocante sobre a busca pela espiritualidade, retomando sua forte conexão com Nossa Senhora.

Compre agora:

Ficha técnica
Lançamento 13/03/2017
Título original SENHORA DOS ARES
Tradução
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 256
Peso 350 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0486-7
EAN 9788543104867
Preço R$ 39,90
Ficha técnica e-book
eISBN 9788543104874
Preço R$ 19,99
Lançamento 13/03/2017
Título original SENHORA DOS ARES
Tradução
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 256
Peso 350 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-431-0486-7
EAN 9788543104867
Preço R$ 39,90

E-book

eISBN 9788543104874
Preço R$ 19,99

Leia um trecho do livro

Capítulo I

Cerimônia

Órfão. Foi exatamente o que pensei quando vi o caixão prestes a descer à cova. Algo impróprio para uma pessoa da minha idade, mas as emoções muitas vezes nos tomam sem aviso ou preparo. O impacto daquela cena fez reavivar, na minha alma, dores infantis ainda não curadas.

A bandeira americana, estendida no tampo, era ajeitada pelo sacerdote idoso que, em suas vestes negras, se preparava para fazer uma leitura da Bíblia. O cenário seria belo se não fosse o enterro do meu pai. Não me sentia bem. Minhas pernas tremiam, às vezes nem pareciam mais fazer parte do meu corpo. Tinha a impressão de estar distante de mim mesmo, pairando sobre as árvores, quase tocando as pouquíssimas nuvens no céu.

– Hoje meu melhor amigo está partindo em direção ao Paraíso! Não tive irmãos de sangue, fui filho único, mas Deus me deu este aqui – disse o homem, batendo a mão gentilmente no tampo do caixão.

Algumas senhoras retiraram os lenços de suas bolsas para enxugar as lágrimas com delicadeza, evitando borrar a maquiagem.

Verdade, foram amigos inseparáveis. Ao longo da vida aquele homem vivera intensamente ao lado do meu pai. Passaram por muita coisa juntos. Sua amizade com Mark Connors, brigadeiro da Força Aérea americana, surgira muito antes do meu nascimento. Lembrei-me de suas histórias sobre a Segunda Guerra Mundial e das aventuras religiosas também. Que mistura: guerreiros espiritualizados! Um conceito difícil de imaginar que pudesse existir quando não se conhecia a vida deles. Como sujeitos tão destemidos podiam ter um coração de ouro, a ponto de doar suas vidas em caridade para com os demais?

– Não vou ficar discursando sobre as qualidades militares e cívicas do brigadeiro Connors. Todos sabem muito bem que tipo de homem ele foi. Vou apenas ler uma passagem importante do Evangelho. Só para situá-los, estive meditando sobre ela pouco antes da morte de Mark.

O homem tomou um pouco de ar para dominar sua emoção e pigarreou, jogando a cabeça para trás. Uma leve brisa começou a soprar em sua direção.

– Evangelho de São Marcos, capítulo 12.

Ergueu os olhos para a assembleia, verificando se alguém identificava a passagem bíblica. Não obteve retorno, então baixou os olhos para o texto em suas mãos. Segurou com o polegar a borda da página, evitando que o vento a virasse.

– “Jesus respondeu: ‘Vocês estão enganados, porque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus. Com efeito, quando os mortos ressuscitarem, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu. E, quanto ao fato de que os mortos vão ressuscitar, vocês não leram, no livro de Moisés, a passagem da sarça ardente? Deus falou a Moisés: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Ora, Ele não é Deus de mortos, mas de vivos! Vocês estão muito enganados.’”

O sacerdote abriu um sorriso enviesado de tristeza.

Seguiu-se um silêncio partilhado até mesmo pelos pássaros nas árvores. O vento tinha se intensificado e era o único que não descansava. Todos os presentes prestavam atenção no esbelto cardeal que, antes de ser nomeado pelo Vaticano, havia sido frade capuchinho. Apesar da idade, o volume de sua voz e seus movimentos vigorosos eram admiráveis. Sempre me impressionaram a força física e a disposição daquele homem. Eu ainda era criança quando o conheci, mas ele não parecia ter mudado muito desde então, com exceção dos cabelos, que haviam se tornado prateados, e dos olhos azuis que se acinzentaram.

Ao seu lado, frei James, outro sacerdote de hábito capuchinho, que também era amigo de meu pai, olhava fixamente para o caixão. Tinha as mãos entrelaçadas sobre a barriga. Estava visivelmente emocionado. Não pronunciava nenhuma palavra e dava para ver seus olhos avermelhados de choro. Os lábios estavam retorcidos, também lutando contra as lágrimas.

Ele era imenso. Mais alto do que o cardeal e muito mais largo, com mãos e pescoço enormes. Uma barriga proeminente despontava, mas o homem andava sem nenhum esforço. Sua pele negra parecia brilhar ao sol. Bondade e mansidão estavam explícitas em seu rosto.

O cardeal, que acabara de falar coisas belas, olhou em sua direção e fez menção de lhe passar a palavra. Entretanto, ele rapidamente fez um sinal negativo com a mão espalmada, avisando que não conseguiria discursar sobre o amigo morto. O cardeal, então, continuou seu ofício:

– Eu e meu querido irmão, Mark Connors, nos questionávamos se partiríamos para o céu ou o purgatório. Não sabíamos se, diante do Altíssimo, nossos pecados iriam pesar mais do que nossas boas ações. Agora preciso partilhar algo importante com vocês: não tínhamos a menor dúvida de que, quando o anjo da morte se apresentasse em nossas portas, viveríamos eternamente.

Deu um pequeno sorriso de vitória, fixando o olhar nos militares perfilados no gramado. Nenhum deles lhe retribuiu. Pareciam não prestar muita atenção no fraseado do religioso.

– Tínhamos certeza de que, quando nossos caixões fossem depositados no solo, não estaríamos mortos diante de todos, mas vivos, bem longe dos olhos humanos! Libertos, renovados para a eternidade, rumo ao Pai Celestial.

Interrompeu o discurso e olhou diretamente para o sol da manhã, que despontava grande como um holofote.

– Hoje, então, é um dia de festa para os que creem.

Virou-se para o enorme frade, que agora fitava o chão, e segurou com força em seu ombro, dando-lhe um pequeno sacolejo. Conseguiu que, da boca do gigante, surgisse um pequeno sorriso.

– Mark nasceu para uma vida nova. Está no céu, tenho certeza. Imagino que esteja esperando por mim. – Desviando os olhos das pessoas que circundavam a sepultura, fixou-os no caixão e, em tom suave, acrescentou: – Em breve estaremos frente a frente! Continuaremos nossa caminhada eterna juntos! Até logo, meu irmão…

Ele baixou o rosto em direção à grama, regando-a com duas lágrimas cristalinas, que antes reluziram em seu rosto sereno.

Fechou a Bíblia e colocou-a no bolso do paletó. Colocou os fartos cabelos brancos para trás e pousou os olhos de aço no meu rosto. Andou até mim com passos firmes e velozes. Não pude encará-lo, preferindo fitar seus pés. Ele era um pouco mais alto do que eu. Segurando minha cabeça, beijou minha testa.

– Você sabe que é um filho para mim. Enquanto eu servir para alguma coisa neste mundo, conte comigo. Sabe onde me encontrar. Esta semana vou pregar em um retiro para um grupo de padres recém-ordenados. Mas, a partir do próximo mês, estarei de férias aqui na diocese de Boston, no convento capuchinho. Em seguida, retornarei para a Itália. Se quiser, venha ficar comigo em minha casa, no Vaticano. Se preferir, há uma comunidade de padres ali perto, posso lhe arrumar hospedagem.

– Muito obrigado. Sei que posso contar com você. Será sempre parte da minha família. – Foi tudo o que consegui dizer naquele momento terrível.

– Não se preocupe em falar nada agora, garoto! De qualquer maneira, você já sabe: frei James está aposentado de suas funções, mas mora no convento aqui de Boston. Ele adora suas visitas e espera que elas continuem. Só não está conseguindo falar muito porque a emoção o emudeceu.

O gigante havia se aproximado e me abraçou, esmagando minhas costelas, erguendo-me do chão como se eu fosse um menino bem pequeno.

Com muito esforço, James falou:

– Rafael, nossos treinos de boxe e nossa caminhada matinal continuam de pé! Sabe que sou um homem muito velho e fraco, preciso de você para me incentivar nos exercícios físicos, do contrário ficarei entrevado e serei inútil aos irmãos do convento.

Dei uma pequena risada. Só ele mesmo para me fazer sorrir em um momento tão ruim. Nós três sabíamos que o discurso não era verdadeiro: ele tinha um preparo físico inacreditável e era meu professor de boxe.

– Já está bom, James. Não vá quebrar os ossos do Rafael! Ele ainda precisa cumprir um longo protocolo por aqui. Quanto a nós, vamos embora, já está tarde e precisamos chegar para a oração no convento.

Os sacerdotes não ficaram até o fim da cerimônia. O cardeal carregou o outro para longe e saíram caminhando suavemente por entre os militares, em direção ao carro que os esperava na pequena rua logo abaixo.

Fiquei parado, observando a partida daqueles dois homens que tanto amaram meu pai. Entraram no automóvel e, com um aceno, sumiram de vista. Meus olhos retornaram para os militares à minha frente. O discurso religioso proferido ali continha palavras inspiradas. O problema era que meu coração tinha dúvidas a respeito de tudo aquilo. Não conseguia acreditar que um dia reencontraria meu pai, vivo, em alguma espécie de paraíso.

Aliás, naquele momento me dei conta de que os sacerdotes amigos nunca tentaram me converter à sua religião. Quando estávamos juntos, tratávamos de assuntos do cotidiano. Conversávamos até mesmo sobre a medicina, minha área de atuação. Eram homens lúcidos, com uma experiência de vida incrível. Sabiam dar conselhos especiais, cada um a seu modo. Acho que era por isso que eu gostava tanto deles: eram muito humanos!

Era o fim da existência terrena de meu pai. Eu, sim, continuava vivo, mas ele não estaria nunca mais comigo. A dor desse raciocínio era perturbadora. Decidi que seria melhor prestar atenção nas aves nos galhos das árvores e no belo dia ensolarado.

O caixão foi, aos poucos, sendo coberto pela terra no fundo da cova até desaparecer. Eu disse a mim mesmo em voz baixa:

– Mark Connors, brigadeiro da Força Aérea americana, morto aos 87 anos.

Era o fim de um homem velho. A idade, todavia, não era uma boa desculpa para o Universo tirá-lo de mim. Idoso? Quem percebia seu vigor e desenvoltura dificilmente acreditava. Ele parecia eterno. Nos outros homens, talvez os 87 anos pudessem significar a hora de partir. No meu pai, não! Tinha sua rotina de exercícios físicos e as palestras com temas militares. Dava aulas de catecismo na paróquia perto de sua casa e ajudava os moradores de rua junto com frei James. Seus dias pareciam ter mais do que 24 horas. Não sei como dava conta de tantas atividades ao mesmo tempo.

Quando o questionava sobre os inúmeros afazeres, vinha sempre com a mesma resposta:

– Comprometimento e eleição de prioridades, meu filho. O segredo está aí. Homem sem disciplina não é digno de receber missão. Quem não sabe administrar seu tempo não chega a lugar algum.

Eu retrucava dizendo que não estava mais na ativa, era um militar reformado. Ele dava gargalhadas.

– Ativa e reforma são coisas da vida terrena, que a carreira militar nos impõe. Eu nunca estarei aposentado para aquilo que Deus quer de mim! Por isso sou muito feliz. Vivo cada dia por vez.

Meu coração estava partido. Se o que eu estava vivendo ali era obra de Deus, queria afrontá-lo. Com tantos homens idosos de vida desgraçada, com tanta gente imprestável pelo mundo, por que tirar a vida de meu pai? Ele não era um grande servo de Deus? Será que o Criador não dava privilégios aos seus? Será que não significava nada ser um homem cumpridor do Evangelho? E o pior: colocar no corpo do meu pai aquela doença horrorosa! Ele secara como uma planta sem rega. Definitivamente eu queria distância de Deus.

Bastava fechar meus olhos para enxergar os dele. Suas palavras grudavam em minha mente desde que eu era um menino. Não havia como esquecê-las. Não sei se era pela sabedoria ou veemência com que eram proferidas. Seu efeito era sempre benéfico, mesmo ao me corrigir. Algumas até anotei em um diário, pois eram muito originais e criativas. O melhor de tudo, penso, era o amor. Ele havia acabado de partir, mas eu já sentia uma saudade brutal.

Seguiu-se a salva de tiros. Despertei do meu estado de transe. A cerimônia parecia transcorrer normalmente. O vento havia aumentado bastante e parecia me empurrar para a realidade. Procurei não olhar muito para os idosos, que choravam silenciosos perto das árvores. Era uma dor bem evidente, mas não queria ser contagiado pela tristeza daquele instante. Já estava passando por uma dificuldade enorme tentando domar meus sentimentos.

Encarcerar a saudade dentro de si é uma grande ilusão. Não é uma ação possível. Ela toma conta de todo o nosso ser. Não existe um homem mais forte do que ela, que possa confiná-la em um compartimento, isolando-a de todo o resto, para evitar danos. Tinha a nítida impressão de que, a contragosto, minha saudade estava estampada no rosto, para que todos os amigos de meu pai pudessem ver. Como era fácil perscrutar meu estado de espírito!

Coloquei-me na posição exigida pelo protocolo para receber os cumprimentos dos presentes. Todos sem exceção me falaram das grandes qualidades do meu pai. Um verdadeiro guerreiro dos ares, com várias condecorações, que muito honrara a Força Aérea dos Estados Unidos. Líder de um famoso esquadrão, com mais de setenta missões cumpridas durante a Segunda Guerra Mundial.

O câncer o levara rapidamente, três meses após o diagnóstico. Como sou neurologista, quando li o laudo de seu exame, logo percebi o tamanho do problema. Obtive uma licença do hospital público em que trabalhava, fechei momentaneamente meu consultório em Botafogo, no Rio de Janeiro, e me mudei para Boston. Foi a melhor coisa que fiz. Pude, nesse pouco tempo, aprofundar ainda mais a intimidade que tinha com meu pai.

Aprendi mais sobre sua carreira militar e a história de cada uma das interessantes medalhas de guerra que ele recebera. Em detalhes, que nunca antes contara, ele falou como conhecera minha mãe, uma brasileira. Ele adorava também conversar sobre as coisas do espírito. Partilhou comigo sua filosofia de vida e disse claramente o que esperava de mim. No meio de tanta informação, uma coisa chamou minha atenção.

Nos meus anos de medicina, em praticamente todos os dias de trabalho, havia lidado com pacientes terminais. Em todos eles identificara um enorme receio da morte. Havia concluído que ninguém, por pior que estivesse, queria morrer ou, pelo menos, sentia-se confortável com essa ideia. Poderia ser medo do desconhecido ou descrença numa existência além da realidade em que vivemos.

De qualquer modo, nenhum deles sabia o que iria encontrar depois da morte. Já meu pai, durante seus pouquíssimos meses finais, não manifestou ou demonstrou o menor temor, apesar de saber que não escaparia da doença. Exibia uma expressão confiante e falava com voz serena, como se soubesse para onde estava indo.

Um dia, perguntei-lhe se não estava com medo da morte. Ele apresentou mais uma de suas frases de impacto:

– Nunca fui medroso. Não será agora, velhote, que isso vai mudar. Continuo a não ter medo de nada. E você, meu filho? Está com medo?

– Pai, não sou eu que vai morrer. Por que deveria ter medo da morte?

– Da morte? Não, Rafael, não estava me referindo à morte. Falta muito para a sua.

– Então não entendi sua pergunta, pai.

– Medo da solidão – sussurrou ele.

Até aquele momento não havia me questionado sobre meus sentimentos mais profundos, sobre a partida de Mark. No fundo não queria aceitar que ele me deixaria num curto espaço de tempo. Enquanto ele estava ali, mesmo doente, eu me sentia protegido. Coisa mais estranha! Meu pai era um homem tão forte que, mesmo em seu momento final, me transmitia coragem e segurança.

Através de sua aguçada sensibilidade, ele captou que eu estava profundamente abalado com sua morte iminente. Conseguiu entender que o câncer dele devorava meu equilíbrio psicológico de forma cruel e eu não queria me confrontar com aquela situação. Tinha toda a razão: meu coração se sentia abandonado, solitário, sem socorro.

– Não gosto de pensar que você vai embora, pai. Preferia que ficasse comigo um pouco mais – afirmei com dificuldade.

Ele estendeu a mão e segurou minha cabeça, trazendo-a para junto do peito, que subia e descia de forma ofegante. Aquilo me machucou demais. Connors sempre fora um atleta exemplar, mesmo depois dos 70 anos. Sua forma física era invejável. Agora era pele e osso.

Meu pai se manteve calmo durante todo o período em que estivemos juntos. Suas palavras eram plenas de força e sobriedade. Até mesmo no dia de seu falecimento, apesar de toda a dor que seu corpo expressava, estava absolutamente sereno. Algo raro de se ver na atualidade: um homem em paz consigo e com o mundo.

Enquanto trocávamos palavras em tom de despedida, ele não demonstrava nenhum tipo de insegurança. Queria que eu entendesse que estava tudo certo, nos trilhos traçados por Deus.

– Rafael, há muitos anos sou amigo de Deus. Sei que Ele tem um lugarzinho legal para mim. Deve, inclusive, mandar alguns de seus eleitos para me recepcionar assim que eu deixar este corpo doente.

– Pai, fico feliz que pense assim. Mas acho que essas ideias são fabricadas pelos homens. Ninguém sabe com exatidão o que acontece quando uma pessoa morre. Prefiro não conjecturar nada.

– Aí é que você se engana. Homens sábios que existiram antes de nós sabiam muito bem o que se passa depois da morte. Aprendi com eles. – Meu pai deu um leve sorriso.

Por um momento ele quase me convenceu de que realmente tinha o conhecimento exato do local para onde iria no instante em que seus olhos se fechassem. Mas, infelizmente, mesmo para o grande brigadeiro Connors, aquilo não era possível. A discussão fatalmente cairia nas questões de fé. Coisa que eu não tinha.

Na véspera de sua morte, quando percebeu que havia chegado a hora, entregou-me um envelope magenta. Tinha meu nome escrito no verso e, na frente, as seguintes palavras: “meu último desejo”. Enfatizou que eu só deveria abri-lo no final da semana, quando ele já não estivesse mais entre os vivos. Isso me causou grande estranheza. Como aquele homem podia saber o momento em que iria morrer? Quem o teria avisado? Por que falar comigo através de uma carta se eu estava ali com ele, em sua casa, o tempo todo? Imaginei que teria algo a ver com a herança ou fosse um segredo sobre o qual não queria se explicar pessoalmente.

Lembro que fiz menção de abrir imediatamente a carta. Não tinha sentido aquele suspense todo. Ele não gostou e, incisivamente, ordenou-me que só abrisse o envelope depois do seu enterro, quando eu estivesse sozinho em casa. Eu o sopesei; era uma correspondência bem leve. Fiquei ainda mais curioso, mas, como de costume, obedeci às ordens do brigadeiro.

Quando retornei do cemitério, a primeira coisa que fiz foi abri-lo. Dentro, encontrei um papel branco sem linhas, com palavras escritas a caneta preta, numa caligrafia trêmula. A mensagem era bastante econômica. Ele provavelmente a redigira durante sua doença – eu podia apostar que nos seus três últimos dias. O improviso e a pressa estavam patentes nos rabiscos.

Em nenhum momento, morando na mesma casa, eu percebera que ele tinha preparado um bilhete pós-morte. Estava claro que havia se aproveitado de alguma breve ausência minha, talvez a hora do banho. Mark Connors sempre fora um homem preciso e meticuloso no cumprimento de suas missões. A objetividade era traço marcante de sua personalidade. Nunca usava eufemismos nem fazia grandes introduções para seus assuntos.

Por causa disso, as pessoas o tinham como um homem severo, com coração de pedra. Quando pequeno, lembro que minha mãe precisava explicar por diversas vezes que o marido era um homem bondoso e caridoso, que tratava seus subalternos com muito carinho e, por isso, era venerado. Contou-me que os dois distribuíam sopa aos necessitados de um abrigo em Boston, mantido pela Igreja Católica local.

Direta ao ponto, a mensagem continha um simples comando: “Filho querido, antes de completar 50 anos, tome uma semana da sua vida e visite Medjugorje. Na Bósnia, reze para que a Rainha da Paz lhe mostre o verdadeiro caminho e o proteja. Em breve espero reencontrá-lo, junto com sua mãe, no céu. Beijos do seu pai, com amor.”

Minhas lágrimas desceram quentes, copiosas. Não conseguia enxergar mais nada de tão borrado que tudo se tornou. Estivera me segurando durante os três meses em que o vira definhar. Depois, passei mais um sufoco na cerimônia religiosa. Tinha sido duríssimo me despedir de seus melhores amigos, os dois sacerdotes capuchinhos, e receber todos aqueles cumprimentos ouvindo elogios sobre sua personalidade. Sabia que ele não queria que me vissem chorando. Várias vezes havia me repreendido durante minha infância e juventude: “Nunca deixe que os outros o vejam chorando. É sinal de fraqueza, rapaz!” Logo em seguida, amenizando a bronca, vinha com um afago em meus cabelos.

Sentia-me sufocado. Para complementar, algo parecia dilacerar minha garganta e meu estômago. Aquela dor toda iria passar? Não sabia. Ali, em casa, tinha a impressão de que a morte de meu pai era um evento sem fim. A sensação era de derrota. Eu acabara de perder o homem que mais amara em toda a minha vida. Onde estava meu pai?

Mesmo sendo médico, diante da potência da enfermidade que se alastrara, eu nada pudera fazer. Não era para salvar vidas que eu tinha estudado tanto? Por que não conseguira cumprir minha missão? E o juramento que havia feito junto ao caixão da minha mãe, quando garoto? Quantas vezes tinha dito para mim mesmo que meu pai não sofreria da mesma forma? Não alcançara meu objetivo. Derrota.

Um pensamento ruim estava forte e onipresente: eu nunca mais iria ouvi-lo nem vê-lo. Tudo tinha terminado. Ele não existia mais. Seu corpo viraria pó, como já ocorrera com minha mãe, quando eu era ainda um moleque.

Depois de meia hora de choro, fui até a cozinha e preparei um chá japonês que encontrei em um dos armários laqueados. Procurei me acalmar e meditar um pouco sobre o que estava acontecendo. Quando voltei meus olhos vermelhos para uma das janelas, vi, pouco abaixo, uma das imagens dele de Nossa Senhora. Seu olhar bondoso e suas vestes brancas que transmitiam paz eram o oposto da situação pela qual eu passava.

Peguei-me repetindo para mim mesmo que não havia motivo para tanta tristeza. Meu pai tinha cumprido inteiramente seu papel naquela vida. Fora correto em tudo e com todos. Amara profundamente a família e me dera uma educação primorosa. Sem a menor dúvida, havia sido o homem mais honrado e condecorado pelo governo americano que eu já tinha conhecido. Recompus-me prontamente.

Como não tinha uma vivência religiosa, apenas tomei a imagem e a olhei de perto. Era uma bela obra de arte. Sentei-me em uma cadeira à mesa redonda da cozinha da casa que acabara de herdar. Coloquei a imagem em cima dela e fiquei pensando sobre a carta de meu pai.

Ainda não havia entendido com precisão o último desejo dele. Minha mente estava muito embaralhada com o turbilhão de coisas daquele dia. Será que a cor exótica do envelope também era proposital? Magenta? Como meu pai era detalhista, provavelmente tudo naquele bilhete continha um significado.

Coloquei o envelope na mesa. Depois de alguns minutos olhando-o, imóvel, decidi me deparar novamente com a caligrafia combalida do meu pai. Dessa vez resolvi ler com um cuidado redobrado. Fixei meus olhos nos nomes. Sabia muito bem que a Bósnia era um pequeno país europeu, resultante da separação de nações que compunham a antiga Iugoslávia. Essa era a única parte do escrito que, inicialmente, figurava com clareza para mim.

Medjugorje? Nunca ouvira ninguém mencionar esse nome. Poderia ser alguma pessoa que morava na Bósnia? Claro que não! Sacudi a cabeça, tentando afastar meu cansaço. Se fosse algum parente ou mesmo um amigo do meu pai, eu já teria me lembrado. Poderia ser uma cidade daquele país, que meu pai visitara nos seus tempos da ativa. Nada conclusivo me chegava. Definitivamente ele nunca havia se referido a nada com aquele nome.

Concluí que Medjugorje era uma cidade da Bósnia. O problema, contudo, permanecia. Em que parte do país ficava? Seria complicado chegar até lá? Levantei-me do sofá e caminhei pensativo até a biblioteca do meu pai. Mais de cinco mil volumes. Certamente haveria alguma coisa sobre a localidade em algum dos seus livros.

Acomodado em uma poltrona, passei alguns minutos encarando um grosso livro de geografia que continha um capítulo enorme sobre a Europa. Não consegui, infelizmente, encontrar praticamente nada sobre a Bósnia. Com relação à tal de Medjugorje, então, nem pensar. Não havia nenhuma referência. O último desejo de meu pai estava começando a ficar bem complicado de ser realizado.

Para não perder mais tempo, já que o sono começava a me derrotar, resolvi ligar o computador. Pesquisei na internet. Enfim encontrei o que queria. Não era exatamente uma cidade: não passava de uma aldeia, um pequeno povoado próximo da fronteira com a Croácia. Ficava em um belo vale, entre montanhas altas – aliás, esse era o significado da palavra Medjugorje: “entre montanhas”. A foto panorâmica do lugar era muito bela.

Continuei minha investigação. Digitei “Rainha da Paz”. Apareceu uma imagem de Nossa Senhora vestida de branco com a palavra mir estampada em dourado no peito, em cima de seu coração. Era idêntica à que eu colocara, momentos antes, sobre a mesa da cozinha.

Como minha mãe me explicara, Nossa Senhora tem mais de mil nomes, mas em qualquer situação é a mesma Maria Santíssima. Rainha da Paz era mais um. Pelo que sabia, porém, a Bósnia não era um país católico. Que ligação teria a pequena aldeia com a Mãe de Jesus? Por que ela ostentava tal título se a região havia sofrido com terríveis guerras? Aquilo aguçou minha curiosidade. Como o relógio já apontava duas horas da manhã e o dia havia sido emocionalmente desgastante, resolvi dormir com aquelas informações. Continuaria a me aprofundar no tema no dia seguinte.

Sonhei a noite toda com a morte de meu pai: seu caixão flutuava sobre a sepultura e a bandeira dos Estados Unidos voava para o céu até desaparecer. Assim que ela sumia de vista, eu caminhava pelo gramado do cemitério sem encontrar ninguém. Cansado, sentava-me sozinho e as lágrimas escorriam. O sonho era muito vívido e eu sofria muito com a solidão.

Assim que acordei, decidi dar um basta naquela tristeza toda. Precisava reagir! Troquei de roupa e, como já estava bem desperto, resolvi dar uma corrida pelos arredores do bairro para me purgar de todo aquele estresse, armazenado desde a véspera. Era outra coisa que havia aprendido com meu falecido pai: nunca ficar sem exercícios físicos.

A corrida se manteve em ritmo forte sem dificuldade. Após me alongar na entrada da casa, fui para o chuveiro. Antes do almoço, decidi que era hora de retomar o mistério do envelope. Com a cabeça bem mais leve do que no dia anterior, descobri na internet que, havia alguns anos, Nossa Senhora fazia aparições a um grupo de jovens de Medjugorje, sob o título de Rainha da Paz.

Entendi por que meu pai não tocara naquele assunto pessoalmente. Ele sabia que minha reação seria incrédula e não quisera comprometer nossos últimos dias juntos com discussões desnecessárias. A decisão havia sido sábia. Agora era comigo: ou eu cumpria seu último desejo ficando uns dias em Medjugorje, tentando entender sua devoção, ou voltava ao Rio de Janeiro, retomando minha vida.

Connors sabia muito bem o que eu pensava da metafísica. Como já havia lhe dito muitas vezes, eu acreditava na existência de um Ser Supremo, mas não nas religiões. Achava que existia algum tipo de vida após a morte, mas nunca quisera saber se haveria um céu ou um inferno à minha espera. Não tinha interesse em trabalhar na Terra pela minha salvação.

Sempre questionara como um militar aguerrido e disciplinado, de alta patente, havia se tornado religioso. O fato me impressionava tanto que, em uma das conversas logo que me mudei para sua casa nos subúrbios de Boston, para fazer-lhe as vezes de enfermeiro, perguntei por que tinha escolhido ser católico. Eu não conseguia identificar em que ponto de sua trajetória ele havia “trombado” com a fé.

A história que ele contou com toda a seriedade era fantástica. Não sei por que nunca a mencionara. Não entendi também por que minha mãe não tinha conversado comigo a respeito, se bem que eu ainda era muito pequeno quando ela morrera. Por um momento, após ouvi-lo, cheguei a pensar que não estava no seu juízo perfeito. A doença poderia ter comprometido sua memória. Enganei-me.

O início de tudo se dera na cabine da sua aeronave de combate, enquanto sobrevoava o interior da Itália para realizar um bombardeio, no final da Segunda Guerra Mundial. Aquele dia ficara marcado de modo negativo em sua carreira militar. Nele ocorrera sua única missão fracassada durante todo o período em que servira à Força Aérea dos Estados Unidos. Ao me contar a história, ele se referiu ao evento como “a missão divina”.

Capítulo I

Cerimônia

Órfão. Foi exatamente o que pensei quando vi o caixão prestes a descer à cova. Algo impróprio para uma pessoa da minha idade, mas as emoções muitas vezes nos tomam sem aviso ou preparo. O impacto daquela cena fez reavivar, na minha alma, dores infantis ainda não curadas.

A bandeira americana, estendida no tampo, era ajeitada pelo sacerdote idoso que, em suas vestes negras, se preparava para fazer uma leitura da Bíblia. O cenário seria belo se não fosse o enterro do meu pai. Não me sentia bem. Minhas pernas tremiam, às vezes nem pareciam mais fazer parte do meu corpo. Tinha a impressão de estar distante de mim mesmo, pairando sobre as árvores, quase tocando as pouquíssimas nuvens no céu.

– Hoje meu melhor amigo está partindo em direção ao Paraíso! Não tive irmãos de sangue, fui filho único, mas Deus me deu este aqui – disse o homem, batendo a mão gentilmente no tampo do caixão.

Algumas senhoras retiraram os lenços de suas bolsas para enxugar as lágrimas com delicadeza, evitando borrar a maquiagem.

Verdade, foram amigos inseparáveis. Ao longo da vida aquele homem vivera intensamente ao lado do meu pai. Passaram por muita coisa juntos. Sua amizade com Mark Connors, brigadeiro da Força Aérea americana, surgira muito antes do meu nascimento. Lembrei-me de suas histórias sobre a Segunda Guerra Mundial e das aventuras religiosas também. Que mistura: guerreiros espiritualizados! Um conceito difícil de imaginar que pudesse existir quando não se conhecia a vida deles. Como sujeitos tão destemidos podiam ter um coração de ouro, a ponto de doar suas vidas em caridade para com os demais?

– Não vou ficar discursando sobre as qualidades militares e cívicas do brigadeiro Connors. Todos sabem muito bem que tipo de homem ele foi. Vou apenas ler uma passagem importante do Evangelho. Só para situá-los, estive meditando sobre ela pouco antes da morte de Mark.

O homem tomou um pouco de ar para dominar sua emoção e pigarreou, jogando a cabeça para trás. Uma leve brisa começou a soprar em sua direção.

– Evangelho de São Marcos, capítulo 12.

Ergueu os olhos para a assembleia, verificando se alguém identificava a passagem bíblica. Não obteve retorno, então baixou os olhos para o texto em suas mãos. Segurou com o polegar a borda da página, evitando que o vento a virasse.

– “Jesus respondeu: ‘Vocês estão enganados, porque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus. Com efeito, quando os mortos ressuscitarem, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu. E, quanto ao fato de que os mortos vão ressuscitar, vocês não leram, no livro de Moisés, a passagem da sarça ardente? Deus falou a Moisés: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Ora, Ele não é Deus de mortos, mas de vivos! Vocês estão muito enganados.’”

O sacerdote abriu um sorriso enviesado de tristeza.

Seguiu-se um silêncio partilhado até mesmo pelos pássaros nas árvores. O vento tinha se intensificado e era o único que não descansava. Todos os presentes prestavam atenção no esbelto cardeal que, antes de ser nomeado pelo Vaticano, havia sido frade capuchinho. Apesar da idade, o volume de sua voz e seus movimentos vigorosos eram admiráveis. Sempre me impressionaram a força física e a disposição daquele homem. Eu ainda era criança quando o conheci, mas ele não parecia ter mudado muito desde então, com exceção dos cabelos, que haviam se tornado prateados, e dos olhos azuis que se acinzentaram.

Ao seu lado, frei James, outro sacerdote de hábito capuchinho, que também era amigo de meu pai, olhava fixamente para o caixão. Tinha as mãos entrelaçadas sobre a barriga. Estava visivelmente emocionado. Não pronunciava nenhuma palavra e dava para ver seus olhos avermelhados de choro. Os lábios estavam retorcidos, também lutando contra as lágrimas.

Ele era imenso. Mais alto do que o cardeal e muito mais largo, com mãos e pescoço enormes. Uma barriga proeminente despontava, mas o homem andava sem nenhum esforço. Sua pele negra parecia brilhar ao sol. Bondade e mansidão estavam explícitas em seu rosto.

O cardeal, que acabara de falar coisas belas, olhou em sua direção e fez menção de lhe passar a palavra. Entretanto, ele rapidamente fez um sinal negativo com a mão espalmada, avisando que não conseguiria discursar sobre o amigo morto. O cardeal, então, continuou seu ofício:

– Eu e meu querido irmão, Mark Connors, nos questionávamos se partiríamos para o céu ou o purgatório. Não sabíamos se, diante do Altíssimo, nossos pecados iriam pesar mais do que nossas boas ações. Agora preciso partilhar algo importante com vocês: não tínhamos a menor dúvida de que, quando o anjo da morte se apresentasse em nossas portas, viveríamos eternamente.

Deu um pequeno sorriso de vitória, fixando o olhar nos militares perfilados no gramado. Nenhum deles lhe retribuiu. Pareciam não prestar muita atenção no fraseado do religioso.

– Tínhamos certeza de que, quando nossos caixões fossem depositados no solo, não estaríamos mortos diante de todos, mas vivos, bem longe dos olhos humanos! Libertos, renovados para a eternidade, rumo ao Pai Celestial.

Interrompeu o discurso e olhou diretamente para o sol da manhã, que despontava grande como um holofote.

– Hoje, então, é um dia de festa para os que creem.

Virou-se para o enorme frade, que agora fitava o chão, e segurou com força em seu ombro, dando-lhe um pequeno sacolejo. Conseguiu que, da boca do gigante, surgisse um pequeno sorriso.

– Mark nasceu para uma vida nova. Está no céu, tenho certeza. Imagino que esteja esperando por mim. – Desviando os olhos das pessoas que circundavam a sepultura, fixou-os no caixão e, em tom suave, acrescentou: – Em breve estaremos frente a frente! Continuaremos nossa caminhada eterna juntos! Até logo, meu irmão…

Ele baixou o rosto em direção à grama, regando-a com duas lágrimas cristalinas, que antes reluziram em seu rosto sereno.

Fechou a Bíblia e colocou-a no bolso do paletó. Colocou os fartos cabelos brancos para trás e pousou os olhos de aço no meu rosto. Andou até mim com passos firmes e velozes. Não pude encará-lo, preferindo fitar seus pés. Ele era um pouco mais alto do que eu. Segurando minha cabeça, beijou minha testa.

– Você sabe que é um filho para mim. Enquanto eu servir para alguma coisa neste mundo, conte comigo. Sabe onde me encontrar. Esta semana vou pregar em um retiro para um grupo de padres recém-ordenados. Mas, a partir do próximo mês, estarei de férias aqui na diocese de Boston, no convento capuchinho. Em seguida, retornarei para a Itália. Se quiser, venha ficar comigo em minha casa, no Vaticano. Se preferir, há uma comunidade de padres ali perto, posso lhe arrumar hospedagem.

– Muito obrigado. Sei que posso contar com você. Será sempre parte da minha família. – Foi tudo o que consegui dizer naquele momento terrível.

– Não se preocupe em falar nada agora, garoto! De qualquer maneira, você já sabe: frei James está aposentado de suas funções, mas mora no convento aqui de Boston. Ele adora suas visitas e espera que elas continuem. Só não está conseguindo falar muito porque a emoção o emudeceu.

O gigante havia se aproximado e me abraçou, esmagando minhas costelas, erguendo-me do chão como se eu fosse um menino bem pequeno.

Com muito esforço, James falou:

– Rafael, nossos treinos de boxe e nossa caminhada matinal continuam de pé! Sabe que sou um homem muito velho e fraco, preciso de você para me incentivar nos exercícios físicos, do contrário ficarei entrevado e serei inútil aos irmãos do convento.

Dei uma pequena risada. Só ele mesmo para me fazer sorrir em um momento tão ruim. Nós três sabíamos que o discurso não era verdadeiro: ele tinha um preparo físico inacreditável e era meu professor de boxe.

– Já está bom, James. Não vá quebrar os ossos do Rafael! Ele ainda precisa cumprir um longo protocolo por aqui. Quanto a nós, vamos embora, já está tarde e precisamos chegar para a oração no convento.

Os sacerdotes não ficaram até o fim da cerimônia. O cardeal carregou o outro para longe e saíram caminhando suavemente por entre os militares, em direção ao carro que os esperava na pequena rua logo abaixo.

Fiquei parado, observando a partida daqueles dois homens que tanto amaram meu pai. Entraram no automóvel e, com um aceno, sumiram de vista. Meus olhos retornaram para os militares à minha frente. O discurso religioso proferido ali continha palavras inspiradas. O problema era que meu coração tinha dúvidas a respeito de tudo aquilo. Não conseguia acreditar que um dia reencontraria meu pai, vivo, em alguma espécie de paraíso.

Aliás, naquele momento me dei conta de que os sacerdotes amigos nunca tentaram me converter à sua religião. Quando estávamos juntos, tratávamos de assuntos do cotidiano. Conversávamos até mesmo sobre a medicina, minha área de atuação. Eram homens lúcidos, com uma experiência de vida incrível. Sabiam dar conselhos especiais, cada um a seu modo. Acho que era por isso que eu gostava tanto deles: eram muito humanos!

Era o fim da existência terrena de meu pai. Eu, sim, continuava vivo, mas ele não estaria nunca mais comigo. A dor desse raciocínio era perturbadora. Decidi que seria melhor prestar atenção nas aves nos galhos das árvores e no belo dia ensolarado.

O caixão foi, aos poucos, sendo coberto pela terra no fundo da cova até desaparecer. Eu disse a mim mesmo em voz baixa:

– Mark Connors, brigadeiro da Força Aérea americana, morto aos 87 anos.

Era o fim de um homem velho. A idade, todavia, não era uma boa desculpa para o Universo tirá-lo de mim. Idoso? Quem percebia seu vigor e desenvoltura dificilmente acreditava. Ele parecia eterno. Nos outros homens, talvez os 87 anos pudessem significar a hora de partir. No meu pai, não! Tinha sua rotina de exercícios físicos e as palestras com temas militares. Dava aulas de catecismo na paróquia perto de sua casa e ajudava os moradores de rua junto com frei James. Seus dias pareciam ter mais do que 24 horas. Não sei como dava conta de tantas atividades ao mesmo tempo.

Quando o questionava sobre os inúmeros afazeres, vinha sempre com a mesma resposta:

– Comprometimento e eleição de prioridades, meu filho. O segredo está aí. Homem sem disciplina não é digno de receber missão. Quem não sabe administrar seu tempo não chega a lugar algum.

Eu retrucava dizendo que não estava mais na ativa, era um militar reformado. Ele dava gargalhadas.

– Ativa e reforma são coisas da vida terrena, que a carreira militar nos impõe. Eu nunca estarei aposentado para aquilo que Deus quer de mim! Por isso sou muito feliz. Vivo cada dia por vez.

Meu coração estava partido. Se o que eu estava vivendo ali era obra de Deus, queria afrontá-lo. Com tantos homens idosos de vida desgraçada, com tanta gente imprestável pelo mundo, por que tirar a vida de meu pai? Ele não era um grande servo de Deus? Será que o Criador não dava privilégios aos seus? Será que não significava nada ser um homem cumpridor do Evangelho? E o pior: colocar no corpo do meu pai aquela doença horrorosa! Ele secara como uma planta sem rega. Definitivamente eu queria distância de Deus.

Bastava fechar meus olhos para enxergar os dele. Suas palavras grudavam em minha mente desde que eu era um menino. Não havia como esquecê-las. Não sei se era pela sabedoria ou veemência com que eram proferidas. Seu efeito era sempre benéfico, mesmo ao me corrigir. Algumas até anotei em um diário, pois eram muito originais e criativas. O melhor de tudo, penso, era o amor. Ele havia acabado de partir, mas eu já sentia uma saudade brutal.

Seguiu-se a salva de tiros. Despertei do meu estado de transe. A cerimônia parecia transcorrer normalmente. O vento havia aumentado bastante e parecia me empurrar para a realidade. Procurei não olhar muito para os idosos, que choravam silenciosos perto das árvores. Era uma dor bem evidente, mas não queria ser contagiado pela tristeza daquele instante. Já estava passando por uma dificuldade enorme tentando domar meus sentimentos.

Encarcerar a saudade dentro de si é uma grande ilusão. Não é uma ação possível. Ela toma conta de todo o nosso ser. Não existe um homem mais forte do que ela, que possa confiná-la em um compartimento, isolando-a de todo o resto, para evitar danos. Tinha a nítida impressão de que, a contragosto, minha saudade estava estampada no rosto, para que todos os amigos de meu pai pudessem ver. Como era fácil perscrutar meu estado de espírito!

Coloquei-me na posição exigida pelo protocolo para receber os cumprimentos dos presentes. Todos sem exceção me falaram das grandes qualidades do meu pai. Um verdadeiro guerreiro dos ares, com várias condecorações, que muito honrara a Força Aérea dos Estados Unidos. Líder de um famoso esquadrão, com mais de setenta missões cumpridas durante a Segunda Guerra Mundial.

O câncer o levara rapidamente, três meses após o diagnóstico. Como sou neurologista, quando li o laudo de seu exame, logo percebi o tamanho do problema. Obtive uma licença do hospital público em que trabalhava, fechei momentaneamente meu consultório em Botafogo, no Rio de Janeiro, e me mudei para Boston. Foi a melhor coisa que fiz. Pude, nesse pouco tempo, aprofundar ainda mais a intimidade que tinha com meu pai.

Aprendi mais sobre sua carreira militar e a história de cada uma das interessantes medalhas de guerra que ele recebera. Em detalhes, que nunca antes contara, ele falou como conhecera minha mãe, uma brasileira. Ele adorava também conversar sobre as coisas do espírito. Partilhou comigo sua filosofia de vida e disse claramente o que esperava de mim. No meio de tanta informação, uma coisa chamou minha atenção.

Nos meus anos de medicina, em praticamente todos os dias de trabalho, havia lidado com pacientes terminais. Em todos eles identificara um enorme receio da morte. Havia concluído que ninguém, por pior que estivesse, queria morrer ou, pelo menos, sentia-se confortável com essa ideia. Poderia ser medo do desconhecido ou descrença numa existência além da realidade em que vivemos.

De qualquer modo, nenhum deles sabia o que iria encontrar depois da morte. Já meu pai, durante seus pouquíssimos meses finais, não manifestou ou demonstrou o menor temor, apesar de saber que não escaparia da doença. Exibia uma expressão confiante e falava com voz serena, como se soubesse para onde estava indo.

Um dia, perguntei-lhe se não estava com medo da morte. Ele apresentou mais uma de suas frases de impacto:

– Nunca fui medroso. Não será agora, velhote, que isso vai mudar. Continuo a não ter medo de nada. E você, meu filho? Está com medo?

– Pai, não sou eu que vai morrer. Por que deveria ter medo da morte?

– Da morte? Não, Rafael, não estava me referindo à morte. Falta muito para a sua.

– Então não entendi sua pergunta, pai.

– Medo da solidão – sussurrou ele.

Até aquele momento não havia me questionado sobre meus sentimentos mais profundos, sobre a partida de Mark. No fundo não queria aceitar que ele me deixaria num curto espaço de tempo. Enquanto ele estava ali, mesmo doente, eu me sentia protegido. Coisa mais estranha! Meu pai era um homem tão forte que, mesmo em seu momento final, me transmitia coragem e segurança.

Através de sua aguçada sensibilidade, ele captou que eu estava profundamente abalado com sua morte iminente. Conseguiu entender que o câncer dele devorava meu equilíbrio psicológico de forma cruel e eu não queria me confrontar com aquela situação. Tinha toda a razão: meu coração se sentia abandonado, solitário, sem socorro.

– Não gosto de pensar que você vai embora, pai. Preferia que ficasse comigo um pouco mais – afirmei com dificuldade.

Ele estendeu a mão e segurou minha cabeça, trazendo-a para junto do peito, que subia e descia de forma ofegante. Aquilo me machucou demais. Connors sempre fora um atleta exemplar, mesmo depois dos 70 anos. Sua forma física era invejável. Agora era pele e osso.

Meu pai se manteve calmo durante todo o período em que estivemos juntos. Suas palavras eram plenas de força e sobriedade. Até mesmo no dia de seu falecimento, apesar de toda a dor que seu corpo expressava, estava absolutamente sereno. Algo raro de se ver na atualidade: um homem em paz consigo e com o mundo.

Enquanto trocávamos palavras em tom de despedida, ele não demonstrava nenhum tipo de insegurança. Queria que eu entendesse que estava tudo certo, nos trilhos traçados por Deus.

– Rafael, há muitos anos sou amigo de Deus. Sei que Ele tem um lugarzinho legal para mim. Deve, inclusive, mandar alguns de seus eleitos para me recepcionar assim que eu deixar este corpo doente.

– Pai, fico feliz que pense assim. Mas acho que essas ideias são fabricadas pelos homens. Ninguém sabe com exatidão o que acontece quando uma pessoa morre. Prefiro não conjecturar nada.

– Aí é que você se engana. Homens sábios que existiram antes de nós sabiam muito bem o que se passa depois da morte. Aprendi com eles. – Meu pai deu um leve sorriso.

Por um momento ele quase me convenceu de que realmente tinha o conhecimento exato do local para onde iria no instante em que seus olhos se fechassem. Mas, infelizmente, mesmo para o grande brigadeiro Connors, aquilo não era possível. A discussão fatalmente cairia nas questões de fé. Coisa que eu não tinha.

Na véspera de sua morte, quando percebeu que havia chegado a hora, entregou-me um envelope magenta. Tinha meu nome escrito no verso e, na frente, as seguintes palavras: “meu último desejo”. Enfatizou que eu só deveria abri-lo no final da semana, quando ele já não estivesse mais entre os vivos. Isso me causou grande estranheza. Como aquele homem podia saber o momento em que iria morrer? Quem o teria avisado? Por que falar comigo através de uma carta se eu estava ali com ele, em sua casa, o tempo todo? Imaginei que teria algo a ver com a herança ou fosse um segredo sobre o qual não queria se explicar pessoalmente.

Lembro que fiz menção de abrir imediatamente a carta. Não tinha sentido aquele suspense todo. Ele não gostou e, incisivamente, ordenou-me que só abrisse o envelope depois do seu enterro, quando eu estivesse sozinho em casa. Eu o sopesei; era uma correspondência bem leve. Fiquei ainda mais curioso, mas, como de costume, obedeci às ordens do brigadeiro.

Quando retornei do cemitério, a primeira coisa que fiz foi abri-lo. Dentro, encontrei um papel branco sem linhas, com palavras escritas a caneta preta, numa caligrafia trêmula. A mensagem era bastante econômica. Ele provavelmente a redigira durante sua doença – eu podia apostar que nos seus três últimos dias. O improviso e a pressa estavam patentes nos rabiscos.

Em nenhum momento, morando na mesma casa, eu percebera que ele tinha preparado um bilhete pós-morte. Estava claro que havia se aproveitado de alguma breve ausência minha, talvez a hora do banho. Mark Connors sempre fora um homem preciso e meticuloso no cumprimento de suas missões. A objetividade era traço marcante de sua personalidade. Nunca usava eufemismos nem fazia grandes introduções para seus assuntos.

Por causa disso, as pessoas o tinham como um homem severo, com coração de pedra. Quando pequeno, lembro que minha mãe precisava explicar por diversas vezes que o marido era um homem bondoso e caridoso, que tratava seus subalternos com muito carinho e, por isso, era venerado. Contou-me que os dois distribuíam sopa aos necessitados de um abrigo em Boston, mantido pela Igreja Católica local.

Direta ao ponto, a mensagem continha um simples comando: “Filho querido, antes de completar 50 anos, tome uma semana da sua vida e visite Medjugorje. Na Bósnia, reze para que a Rainha da Paz lhe mostre o verdadeiro caminho e o proteja. Em breve espero reencontrá-lo, junto com sua mãe, no céu. Beijos do seu pai, com amor.”

Minhas lágrimas desceram quentes, copiosas. Não conseguia enxergar mais nada de tão borrado que tudo se tornou. Estivera me segurando durante os três meses em que o vira definhar. Depois, passei mais um sufoco na cerimônia religiosa. Tinha sido duríssimo me despedir de seus melhores amigos, os dois sacerdotes capuchinhos, e receber todos aqueles cumprimentos ouvindo elogios sobre sua personalidade. Sabia que ele não queria que me vissem chorando. Várias vezes havia me repreendido durante minha infância e juventude: “Nunca deixe que os outros o vejam chorando. É sinal de fraqueza, rapaz!” Logo em seguida, amenizando a bronca, vinha com um afago em meus cabelos.

Sentia-me sufocado. Para complementar, algo parecia dilacerar minha garganta e meu estômago. Aquela dor toda iria passar? Não sabia. Ali, em casa, tinha a impressão de que a morte de meu pai era um evento sem fim. A sensação era de derrota. Eu acabara de perder o homem que mais amara em toda a minha vida. Onde estava meu pai?

Mesmo sendo médico, diante da potência da enfermidade que se alastrara, eu nada pudera fazer. Não era para salvar vidas que eu tinha estudado tanto? Por que não conseguira cumprir minha missão? E o juramento que havia feito junto ao caixão da minha mãe, quando garoto? Quantas vezes tinha dito para mim mesmo que meu pai não sofreria da mesma forma? Não alcançara meu objetivo. Derrota.

Um pensamento ruim estava forte e onipresente: eu nunca mais iria ouvi-lo nem vê-lo. Tudo tinha terminado. Ele não existia mais. Seu corpo viraria pó, como já ocorrera com minha mãe, quando eu era ainda um moleque.

Depois de meia hora de choro, fui até a cozinha e preparei um chá japonês que encontrei em um dos armários laqueados. Procurei me acalmar e meditar um pouco sobre o que estava acontecendo. Quando voltei meus olhos vermelhos para uma das janelas, vi, pouco abaixo, uma das imagens dele de Nossa Senhora. Seu olhar bondoso e suas vestes brancas que transmitiam paz eram o oposto da situação pela qual eu passava.

Peguei-me repetindo para mim mesmo que não havia motivo para tanta tristeza. Meu pai tinha cumprido inteiramente seu papel naquela vida. Fora correto em tudo e com todos. Amara profundamente a família e me dera uma educação primorosa. Sem a menor dúvida, havia sido o homem mais honrado e condecorado pelo governo americano que eu já tinha conhecido. Recompus-me prontamente.

Como não tinha uma vivência religiosa, apenas tomei a imagem e a olhei de perto. Era uma bela obra de arte. Sentei-me em uma cadeira à mesa redonda da cozinha da casa que acabara de herdar. Coloquei a imagem em cima dela e fiquei pensando sobre a carta de meu pai.

Ainda não havia entendido com precisão o último desejo dele. Minha mente estava muito embaralhada com o turbilhão de coisas daquele dia. Será que a cor exótica do envelope também era proposital? Magenta? Como meu pai era detalhista, provavelmente tudo naquele bilhete continha um significado.

Coloquei o envelope na mesa. Depois de alguns minutos olhando-o, imóvel, decidi me deparar novamente com a caligrafia combalida do meu pai. Dessa vez resolvi ler com um cuidado redobrado. Fixei meus olhos nos nomes. Sabia muito bem que a Bósnia era um pequeno país europeu, resultante da separação de nações que compunham a antiga Iugoslávia. Essa era a única parte do escrito que, inicialmente, figurava com clareza para mim.

Medjugorje? Nunca ouvira ninguém mencionar esse nome. Poderia ser alguma pessoa que morava na Bósnia? Claro que não! Sacudi a cabeça, tentando afastar meu cansaço. Se fosse algum parente ou mesmo um amigo do meu pai, eu já teria me lembrado. Poderia ser uma cidade daquele país, que meu pai visitara nos seus tempos da ativa. Nada conclusivo me chegava. Definitivamente ele nunca havia se referido a nada com aquele nome.

Concluí que Medjugorje era uma cidade da Bósnia. O problema, contudo, permanecia. Em que parte do país ficava? Seria complicado chegar até lá? Levantei-me do sofá e caminhei pensativo até a biblioteca do meu pai. Mais de cinco mil volumes. Certamente haveria alguma coisa sobre a localidade em algum dos seus livros.

Acomodado em uma poltrona, passei alguns minutos encarando um grosso livro de geografia que continha um capítulo enorme sobre a Europa. Não consegui, infelizmente, encontrar praticamente nada sobre a Bósnia. Com relação à tal de Medjugorje, então, nem pensar. Não havia nenhuma referência. O último desejo de meu pai estava começando a ficar bem complicado de ser realizado.

Para não perder mais tempo, já que o sono começava a me derrotar, resolvi ligar o computador. Pesquisei na internet. Enfim encontrei o que queria. Não era exatamente uma cidade: não passava de uma aldeia, um pequeno povoado próximo da fronteira com a Croácia. Ficava em um belo vale, entre montanhas altas – aliás, esse era o significado da palavra Medjugorje: “entre montanhas”. A foto panorâmica do lugar era muito bela.

Continuei minha investigação. Digitei “Rainha da Paz”. Apareceu uma imagem de Nossa Senhora vestida de branco com a palavra mir estampada em dourado no peito, em cima de seu coração. Era idêntica à que eu colocara, momentos antes, sobre a mesa da cozinha.

Como minha mãe me explicara, Nossa Senhora tem mais de mil nomes, mas em qualquer situação é a mesma Maria Santíssima. Rainha da Paz era mais um. Pelo que sabia, porém, a Bósnia não era um país católico. Que ligação teria a pequena aldeia com a Mãe de Jesus? Por que ela ostentava tal título se a região havia sofrido com terríveis guerras? Aquilo aguçou minha curiosidade. Como o relógio já apontava duas horas da manhã e o dia havia sido emocionalmente desgastante, resolvi dormir com aquelas informações. Continuaria a me aprofundar no tema no dia seguinte.

Sonhei a noite toda com a morte de meu pai: seu caixão flutuava sobre a sepultura e a bandeira dos Estados Unidos voava para o céu até desaparecer. Assim que ela sumia de vista, eu caminhava pelo gramado do cemitério sem encontrar ninguém. Cansado, sentava-me sozinho e as lágrimas escorriam. O sonho era muito vívido e eu sofria muito com a solidão.

Assim que acordei, decidi dar um basta naquela tristeza toda. Precisava reagir! Troquei de roupa e, como já estava bem desperto, resolvi dar uma corrida pelos arredores do bairro para me purgar de todo aquele estresse, armazenado desde a véspera. Era outra coisa que havia aprendido com meu falecido pai: nunca ficar sem exercícios físicos.

A corrida se manteve em ritmo forte sem dificuldade. Após me alongar na entrada da casa, fui para o chuveiro. Antes do almoço, decidi que era hora de retomar o mistério do envelope. Com a cabeça bem mais leve do que no dia anterior, descobri na internet que, havia alguns anos, Nossa Senhora fazia aparições a um grupo de jovens de Medjugorje, sob o título de Rainha da Paz.

Entendi por que meu pai não tocara naquele assunto pessoalmente. Ele sabia que minha reação seria incrédula e não quisera comprometer nossos últimos dias juntos com discussões desnecessárias. A decisão havia sido sábia. Agora era comigo: ou eu cumpria seu último desejo ficando uns dias em Medjugorje, tentando entender sua devoção, ou voltava ao Rio de Janeiro, retomando minha vida.

Connors sabia muito bem o que eu pensava da metafísica. Como já havia lhe dito muitas vezes, eu acreditava na existência de um Ser Supremo, mas não nas religiões. Achava que existia algum tipo de vida após a morte, mas nunca quisera saber se haveria um céu ou um inferno à minha espera. Não tinha interesse em trabalhar na Terra pela minha salvação.

Sempre questionara como um militar aguerrido e disciplinado, de alta patente, havia se tornado religioso. O fato me impressionava tanto que, em uma das conversas logo que me mudei para sua casa nos subúrbios de Boston, para fazer-lhe as vezes de enfermeiro, perguntei por que tinha escolhido ser católico. Eu não conseguia identificar em que ponto de sua trajetória ele havia “trombado” com a fé.

A história que ele contou com toda a seriedade era fantástica. Não sei por que nunca a mencionara. Não entendi também por que minha mãe não tinha conversado comigo a respeito, se bem que eu ainda era muito pequeno quando ela morrera. Por um momento, após ouvi-lo, cheguei a pensar que não estava no seu juízo perfeito. A doença poderia ter comprometido sua memória. Enganei-me.

O início de tudo se dera na cabine da sua aeronave de combate, enquanto sobrevoava o interior da Itália para realizar um bombardeio, no final da Segunda Guerra Mundial. Aquele dia ficara marcado de modo negativo em sua carreira militar. Nele ocorrera sua única missão fracassada durante todo o período em que servira à Força Aérea dos Estados Unidos. Ao me contar a história, ele se referiu ao evento como “a missão divina”.

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Pedro Siqueira

Sobre o autor

Pedro Siqueira

Escritor, advogado e professor de direito. Conduz um grupo de orações católico centrado na devoção mariana do rosário, em que transmite revelações do Espírito Santo, mensagens de Nossa Senhora e de santos e anjos. Em 2008, numa visita ao santuário de Fátima, em Portugal, recebeu uma mensagem de Nossa Senhora. Ela dizia que deveria escrever sobre suas experiências místicas como uma forma de ajudar as pessoas no caminho da espiritualidade.

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