Shackleton: Uma lição de coragem | Sextante
Livro

Shackleton: Uma lição de coragem

Margot Morrell e Stephanie Capparell

A incrível saga de dedicação e heroísmo do grande explorador da Antártida

A incrível saga de dedicação e heroísmo do grande explorador da Antártida

Esta edição inclui fotos históricas de Frank Hurley da expedição.

Nada como uma boa história, repleta de personagens cativantes e desafios impossíveis, para ilustrar como um grande líder pode moldar o destino de sua equipe.

A aventura de Shackleton é o ponto de partida para as autoras analisarem suas características de comando – autoridade, integridade, humor e compaixão – e as estratégias que adotou.

 

 

“Por trás de uma história de aventura, um grande livro de liderança.” — Dava Sobel, autora de Longitude

A expedição de Ernest Shackleton à Antártida a bordo do Endurance tinha tudo para se transformar em tragédia.

No entanto, ao conduzir todos os seus tripulantes em segurança para casa, ele se tornou um exemplo de liderança.

Seus preceitos seguem atuais como nunca, sendo tema de um aclamado curso da Harvard Business School.

Descobrimos como ele construiu um time irretocável, administrou crises com recursos mínimos, organizou o caos e liderou pelo exemplo.

Ilustrado com lindas fotos de Frank Hurley, este livro mostra que as características de liderança de Shackleton podem ser aprendidas e aplicadas ao mundo de hoje para merecermos a lealdade e a dedicação de nossas equipes.

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Ficha técnica
Lançamento 11/08/2021
Título original Shackleton's Way
Tradução Maria Luiza Newlands da Silveira
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 272
Peso 300 g
Acabamento brochura
ISBN 978-65-5564-178-3
EAN 9786555641783
Preço R$ 49,90
Ficha técnica e-book
eISBN 978-65-5564-170-7
Preço R$ 29,99
Ficha técnica audiolivro
ISBN 9786555642773
Duração 09h 29min
Locutor Zeza Mota
Lançamento 11/08/2021
Título original Shackleton's Way
Tradução Maria Luiza Newlands da Silveira
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 272
Peso 300 g
Acabamento brochura
ISBN 978-65-5564-178-3
EAN 9786555641783
Preço R$ 49,90

E-book

eISBN 978-65-5564-170-7
Preço R$ 29,99

Audiolivro

ISBN 9786555642773
Duração 09h 29min
Locutor Zeza Mota
Preço US$ 7,99

Leia um trecho do livro

PREFÁCIO

Quando criança, não lembro de ninguém me fazer sentar para me contar sobre meu avô, Ernest Shackleton. De certa forma, acho que sempre soube que ele foi um grande explorador da Antártida. Sabia que morrera em 1922, com quarenta e sete anos, liderando sua terceira expedição, e que meu pai, Edward, tinha dez anos na época. Sentia orgulho por meu avô, mas seu mundo parecia muito distante do meu.

A sensação de distância mudou em 1991 quando passei um mês na Antártida a bordo do HMS Endurance, o navio de patrulha do gelo da Marinha Real Britânica batizado com o mesmo nome do mais famoso navio de meu avô. “By Endurance We Conquer” (Ven[1]cemos pela resistência) é o mote da família Shackleton. Aquela viagem, para mim, revelou-se cheia de momentos que remetiam ao tempo de meu avô. Foi uma experiência emocionante e maravilhosa. Na realidade, a maioria das pessoas jamais se recupera totalmente de sua primeira visita à Antártida. É um lugar extraordinário. Lembro de ter encontrado o comandante do novo Endurance assim que ele retornou de sua primeira manobra de exercício de combate no Sul, quando seu navio avançou bastante pelo mar de Weddell. Ele trazia no rosto a expressão atônita de qualquer pessoa dotada de alma que tenha visto a Antártida pela primeira vez. Contou-me que não conseguiu sair da ponte de comando quando se aproximavam do continente, fascinado pela paisagem que se estendia diante de seus olhos. Compreendi perfeitamente.

Três anos mais tarde, a Marinha Real levou-me para visitar o túmulo de meu avô em Grytviken, uma estação baleeira abandonada na ilha Geórgia do Sul. Em outra estação próxima, Stromness, eu deveria inaugurar uma placa comemorativa da chegada de Ernest Shackleton e seus companheiros em 20 de maio de 1916, depois da épica viagem de barco que partiu da ilha Elephant e da penosa caminhada através do interior montanhoso e não mapeado da Geórgia do Sul. À medida que o navio se aproximava da baía Cumberland Leste, eu via as mesmas cores que meu avô deve ter visto: o azul da imponente geleira Nordenskjold e o verde delicado e surpreendente das encostas vizinhas.

Encontrava-me na ponte de comando de um navio que teria causado enorme assombro em meu avô, cuja carreira marítima começara a bordo de navios a vela. O HMS Norfolk fora equipado com sensores e equipamento de comunicação de última geração, além de transportar um helicóptero Lynx. O primeiro-tenente do navio e eu nos enfiamos em trajes de sobrevivência alaranjados e voamos para a terra firme, passando por cima da magnífica geleira Neumayer. Tudo estava calmo, apesar de serem comuns ali fortes ventos catabáticos com rajadas de até oitenta nós que criam “drenagem”, o que arrasta a aeronave para baixo. Aterrissamos no cabo Rei Edward, fomos recebidos pela guarnição e seguimos pelo caminho que levava ao local do túmulo. Uma foca pequena mas determinada barrou- -nos a passagem. Olhou para mim e depois para o primeiro-tenente como se não soubesse qual de nós dois detestava mais. Enquanto se decidia, nós rapidamente a contornamos, saindo um para cada lado em direção ao túmulo protegido por grades.

O túmulo de meu avô está localizado em uma extremidade afastada, com um magnífico cenário de montanhas ao fundo. Na lápide simples de granito estão gravadas as seguintes palavras: À memória de Sir Ernest Shackleton, explorador, que nasceu em 15 de fevereiro de 1874 e entrou para a vida eterna em 5 de janeiro de 1922. De pé ali, senti uma pena imensa que tantos anos tivessem separado nossas vidas.

No dia seguinte, o Norfolk ancorou na baía Stromness e o coman[1]dante e eu voamos para a terra. Fiz um breve discurso na estação baleeira e a placa foi descerrada do lado de fora da casa do administrador da estação. É uma placa bonita, decorada com o perfil de Shackleton, um desenho do James Caird e a história da expedição do Endurance. Depois, chegou a hora de partir. Vendo o Norfolk deixar para trás o espetacular contorno da costa da Geórgia do Sul, senti- -me mais próxima de meu avô do que jamais estivera. Aquele lugar fora testemunha de sua maior realização: transformar o desastre em triunfo. Nada mais justo que seu corpo repouse ali.

Recentemente, houve um grande ressurgimento de interesse por Sir Ernest Shackleton, do qual este livro é um notável exemplo. Encontrei Margot Morrell pela primeira vez em 1997, ao final dos treze anos de sua impressionante pesquisa sobre as qualidades de liderança de Shackleton. Stephanie Capparell é uma jornalista especializada em negócios que ajudou a estimular a renovação do interesse por Shackleton com seu artigo de 1998 no The Wall Street Journal. Suas conclusões sobre como as lições de liderança de Shackleton podem ser usadas no mundo dos negócios são uma contribuição excelente e inovadora para a crescente literatura a respeito dele.

E, para mim, o avô que jamais conheci agora não está mais tão distante.

Alexandra Shackleton
Londres

INTRODUÇÃO

Ele já foi chamado de “o maior líder que jamais surgiu nesta terra de Deus, sem exceção”. No entanto, nunca liderou um grupo com mais de vinte e sete pessoas, deixou de atingir quase todos os objetivos a que se propôs e, depois de sua morte, ficou meio esquecido até bem pouco tempo. Mas, quando se toma conhecimento da história de Sir Ernest Shackleton e de sua extraordinária expedição de 1914-1916 à Antártida, não há como discordar dos efusivos elogios daqueles que estiveram sob seu comando. Ele é um modelo de grande liderança e, principalmente, um mestre da arte de comandar em situações de crise.

Isto porque Shackleton fracassou apenas quanto ao improvável; quanto ao inimaginável, ele foi bem-sucedido. “Adoro uma luta e, quando as coisas (são) fáceis, eu detesto”, escreveu uma vez para sua mulher, Emily. Não conseguiu chegar ao polo sul em 1902 quando fez parte da equipe Extremo Sul, composta de três homens, da expedição Discovery, liderada pelo renomado explorador Robert F. Scott. Mas esses homens somente voltaram depois de avançarem pelo polo 740 quilômetros a pé, doentes de escorbuto e sob um frio terrível, só experimentado por uns poucos seres humanos naquela época. Seis anos mais tarde, comandando sua própria expedição, Shackleton foi obrigado a retornar quando estava a cerca de 150 quilômetros do polo, uma distância frustrante. Ele voltou porque estava certo de que sua equipe morreria de fome se prosseguissem. Este fracasso lhe foi perdoado em vista da grandeza do esforço: recebeu um título honorífico do rei Edward VII e foi homenageado como herói no mundo inteiro.

Seu maior fracasso foi a expedição do Endurance em 1914-1916. Perdeu seu navio antes mesmo de pôr o pé na Antártida. Mas atingiu um novo ponto culminante na história da liderança ao fazer com que todos os membros de sua tripulação voltassem em segurança depois de dois anos angustiantes lutando para sobreviver.

É uma história tão impressionante que faz pensar por que a saga do Endurance não se tornou leitura indispensável para todas as crianças em idade escolar. Ao mesmo tempo que as expedições de Shackleton acabaram sendo, todas sem exceção, decepções para ele por não atingirem os objetivos a que se propunham, o explorador conseguiu realizar, ao longo do caminho, várias façanhas admiráveis que merecem ser reconhecidas. Como membro da equipe do Discovery, Shackleton esteve entre os primeiros a tentar alcançar o polo sul ou até mesmo a se aventurar pelo interior a partir da costa antártica. Foi o primeiro a descobrir vegetação em uma remota ilha da Antártida. Sua expedição do Nimrod localizou o polo geomagnético sul, inestimável para as cartas de navegação. Foi o primeiro a encontrar carvão na Antártida, alterando a maneira como os cientistas viam a formação e as origens do continente. Foi pioneiro em inovações no acondicionamento de material, indumentária, dieta, transporte e equipamento para expedições.

Sir Ernest partiu aos quarenta anos de idade em uma viagem independente para fazer o que considerava a última grande expedição que restava ser feita na Terra: a travessia a pé do continente antártico, de quase três mil quilômetros. O navio da expedição, batizado de Endurance por causa da divisa da família Shackleton, Fortitudine Vincimus, “Vencemos pela resistência”, fez-se ao mar em agosto de 1914, no alvorecer da Primeira Guerra Mundial, seguindo para Buenos Aires, dali para a ilha da Geórgia do Sul e afinal para o círculo antártico, onde singrou 1.600 quilômetros de águas cobertas de uma crosta de gelo. A apenas um dia de viagem de seu destino, na baía Vahsel, situada na costa antártica, o navio ficou preso “como uma amêndoa em uma barra de chocolate”, de acordo com uma descrição feita mais tarde, no gelo polar do mar de Weddell.

Os homens ficaram isolados em uma banquisa de gelo a mais de dois mil quilômetros dos mais distantes postos avançados da civilização. Sempre que achavam impossível a situação piorar ainda mais, ela piorava. O banco de gelo maciço arrastou perigosamente o navio na direção norte durante dez meses. Em seguida, o Endurance foi esmagado pelo gelo e os homens foram obrigados a acampar na banquisa. Um mês depois, viram horrorizados seu navio afundar no mar, sem poder comunicar a ninguém o que acontecera. Só podiam contar com três instáveis barcos salva-vidas retirados do navio. Shackleton só permitiu que cada membro da tripulação pegasse alguns objetos indispensáveis à sobrevivência. As primeiras coisas descartadas foram moedas de ouro e uma Bíblia; não se desfizeram de um banjo nem de diários pessoais.

Os homens suportaram temperaturas tão baixas que era possível escutar o ruído da água congelando. O frio cortante congelava suas roupas até endurecê-las e queimava suas mãos e pés. Dormiam em tendas de material tão fino que dava para verem a lua através delas. Passaram quase quatro meses na frígida escuridão da longa noite polar. Quando o verão antártico afinal trouxe temperaturas mais elevadas e a promessa de algum alívio, eles acordavam todas as manhãs dentro de poças de água fria, pois o calor de seus corpos derretia o chão congelado das tendas. Subsistiram comendo principalmente carne de pinguim, de foca e às vezes dos cães, uma alimentação que os deixava fracos e inchados.

Sir Edmund Hillary, o explorador da Nova Zelândia, ao escrever em 1976 sobre a expedição do Endurance, mostrou-se solidário com o sofrimento deles: “Perigo é uma coisa, mas perigo com[1]binado com extremo desconforto por longos espaços de tempo é outra bem diferente. A maioria das pessoas é capaz de suportar um pouco de perigo – acrescenta algo ao desafio –, mas ninguém gosta de desconforto.”

Finalmente, quando o gelo começou a se despedaçar debaixo deles, os homens embarcaram em seus três pequenos botes salva-vidas. Depois de mais de quatro meses de tédio entorpecedor, subitamente foram lançados em uma intensa batalha pela sobrevivência que os levou aos limites da capacidade humana. Lutaram contra o mar por quase uma semana tentando alcançar terra. Sentiram frio, fome, exaustão e tanta sede que suas línguas incharam dentro da boca. Quando por fim alcançaram a ilha Elephant, descobriram que não passava de uma ponta de terra fétida, coberta de esterco de aves marinhas e constantemente assolada por tempestades. A maioria dos tripulantes passou os últimos meses de sua provação encolhida debaixo de dois botes emborcados.

Ao final, Shackleton escolheu cinco homens e enfrentou mais de oitocentas milhas de mares turbulentos em um dos botes salva-vidas para chegar à ilha habitada da Geórgia do Sul, no remoto oceano Atlântico Sul. Quando, como por milagre, alcançaram seu destino, verificaram que ainda teriam de atravessar uma cadeia de montanhas geladas praticamente intransponível para chegar à civilização, representada por uma estação baleeira. Os baleeiros, que já tinham presenciado muita coisa em suas duras vidas, ficaram pasmos com a invencibilidade daqueles homens, horrivelmente maltratados pelas forças da natureza. Mais do que depressa, Shackleton dedicou-se a reunir esforços para resgatar os outros membros da tripulação na ilha Elephant. Espantosamente, todos haviam sobrevivido.

Graças a Shackleton.

Segundo Napoleão, “um líder é um negociante de esperança”. Shackleton soube como manter repleto o estoque de esperança – durante a expedição do Nimrod ao polo, em 1907-1909, quando a morte ficou mais próxima dos homens do que o navio que os esperava, e durante o longo sofrimento da expedição do Endurance. A certa altura, quando parecia absurdo acreditar que escapariam com vida, ele convenceu seus homens de que só um tolo duvidaria disso. “Estávamos em uma enrascada e o Chefe era quem podia nos tirar dela. O fato de tal coisa parecer quase axiomática dá uma ideia de sua capacidade de liderança”, disse Reginald W. James, físico do Endurance.

“O Chefe”, como seus homens o chamavam, construiu seu sucesso sobre uma estrutura de camaradagem, lealdade, responsabilidade, determinação e, acima de tudo, otimismo. As primeiras expedições polares estão cheias de histórias perturbadoras sobre a morte de homens que não tiveram a sorte de estar sob o comando de um líder como Shackleton. Sofreram mortes horríveis causadas por acidentes, fome, exposição às intempéries e doenças; estiveram à beira da insanidade, foram levados ao suicídio e impelidos a fazer motins, cometer assassinatos e até praticar canibalismo.

A expedição antártica de 1912 do explorador australiano Douglas Mawson terminou em desastre. Perdeu seus dois companheiros – um em um acidente e o outro de fome – e foi de tal maneira acometido de escorbuto que precisou amarrar as solas dos pés nos próprios quando estas se desprenderam. Na primeira tentativa norte-americana de atingir o polo norte, a expedição Polaris, de 1871, houve tantas divergências que o comandante, Charles F. Hall, acabou sendo envenenado por seus homens. A partir daí, o navio mergulhou ainda mais no caos, fomentado pelo relaxamento da disciplina, pelo alcoolismo e pelos tormentos morais dos tripulantes. Na década de 1890, alguns membros das tripulações do almirante Robert E. Peary acusaram-no de tratar seus homens com “brutalidade intolerante” e culparam-no de um ou dois suicídios. Um outro explorador norte-americano do ártico, Adolphus Greely, perdeu dezenove de seus vinte e cinco homens, mortos de fome, e foi obrigado a se defender de acusações de canibalismo. Até a equipe do mar de Ross, a outra metade da expedição Endurance de Shackleton, incumbida de deixar depósitos de suprimentos na Antártida para a travessia, perdeu três homens: um com escorbuto e dois em um acidente estúpido.

Leiam o que o doutor Frederick Cook, membro da tripulação do Belgica, a expedição belga que foi para a Antártida, escreveu em seu diário no dia 19 de junho de 1898, três meses depois de seu navio ficar aprisionado no gelo: “A maioria de nós a bordo ficou com os cabelos totalmente grisalhos em dois meses, embora poucos tenham mais de trinta anos. Nossos rostos estão abatidos e há uma falta de bom humor, animação e esperança em nossa disposição de espírito que, por si só, é um dos incidentes mais tristes de nossa existência.”

Comparem este trecho com o que um membro da tripulação do Endurance, Frank Hurley, escreveu em 21 de junho de 1915, cinco meses depois de seu navio ficar preso no banco de gelo: “A (cabine) Billabong está com uma atmosfera poética. Macklin está em seu beliche escrevendo versos e estou fazendo o mesmo. McIlroy está preparando um traje de dança decotado, enquanto o tio Hussey está sendo importunado por candidatos que insistem em ensaiar acompanhamentos em seu banjo.”

Uns sessenta anos depois do resgate, um entrevistador perguntou ao primeiro oficial de náutica Lionel Greenstreet: “Como vocês sobreviveram quando tantos membros de expedições pereceram?” O velho marujo, então com oitenta e oito anos, respondeu com uma única palavra: “Shackleton.

O explorador britânico Apsley Cherry-Garrard foi quem melhor expressou os sentimentos de seus companheiros “antarticistas”, como os chamava, ao explicar: “Para uma expedição de caráter científico e geográfico, deem-me Scott; para uma viagem por terra no inverno, deem-me Wilson; para uma rápida incursão ao polo e nada mais, Amundsen; mas, se eu estiver em um buraco daqueles e quiser sair dele, deem-me Shackleton todas as vezes.”

Com toda a sua coragem e audácia para correr riscos, entre[1]tanto, Shackleton não era descuidado. Testemunhara alguns dos horrores daquele tipo de expedição e concluíra que os objetivos estabelecidos, por mais nobres que fossem, não justificavam tanto sofrimento e tantas mortes. “Melhor ser um jumento vivo do que um leão morto”, disse à sua mulher quando retornou de sua expedição no Nimrod. Para Shackleton, as pessoas vinham em primeiro lugar. Sempre optava por viver um dia a mais para alcançar outro objetivo maior ainda.

Shackleton não conseguia ficar longe da Antártida, se bem que tivesse jurado muitas vezes a si mesmo e à sua família que abandonaria as explorações. Pagou caro por essa obsessão. Fotografias de Shackleton tiradas em 1921 em sua última viagem, a bordo do Quest, revelam um homem de aparência fatigada, muito envelhecido para seus quarenta e sete anos. O rosto é nada menos do que o resumo das tensões de suas viagens anteriores e do esforço extraordinário que fizera para salvar as vidas de seus companheiros cinco anos antes.

O resgate da expedição Endurance não recebeu a devida atenção na época. O reaparecimento da tripulação perdida ganhou manchetes nos jornais de todo o mundo, mas o público não estava muito interessado em homens que haviam sobrevivido a provações a que se haviam deliberadamente submetido em busca de glória pessoal. A Europa estava imersa na Primeira Guerra Mundial e as pessoas preferiam prestar homenagem àqueles que sacrificavam suas vidas pelas bandeiras de seus países.

O herói de guerra estava substituindo o herói explorador. “As pessoas não dão muita importância ao fato de alguém ser morto hoje em dia; isto é considerado uma honra”, lamentou Thomas Orde-Lees, tripulante do Endurance, depois de seu resgate. “Agora, o que existe é a Lista de Honra, em vez da Relação de Baixas.

Atualmente, a imagem da Antártida cresceu na mente ocidental. É um símbolo do sonho inalcançável, do isolamento absoluto, da mais dura batalha do homem contra a natureza e da medida extrema da capacidade física e mental de uma pessoa. Representa o tipo de teste que, quando se sobrevive a ele, é por um triz – e depois dele se emerge uma pessoa melhor.

E, no entanto, o continente é de uma beleza incomparável. Quem quer que vá para “O Gelo”, como é chamado, fala de sua majestade, de sua profunda quietude e das cores extraordinárias escondidas em seu simples conjunto de azul e branco. Os primeiros exploradores, ao escrever sobre suas viagens, paravam no meio de histórias de arrepiar os cabelos para descrever a paisagem. O explorador australiano Louis Bernacchi, o físico da expedição Discovery, de Scott, escreveu o seguinte: “Às vezes, nuvens de cristais de gelo encobriam tenuamente o sol como se fosse um véu cintilante muito leve, refletindo os raios luminosos de tal modo que toda a abóbada celeste era riscada por linhas e círculos de luz branca ou brilhantemente prismática.”

Muitos dos que viajam para a Antártida depois se sentem atraí[1]dos a voltar várias vezes. Alguns descrevem a ida para lá como uma espécie de experiência religiosa e dizem que a viagem interior equivale à distância percorrida. Até os leitores contumazes de narrativas de viagens que jamais saem de suas poltronas ficam fascinados com o infinito drama humano da exploração polar, tornando-se estudiosos e colecionadores de histórias e conhecimentos antárticos pelo resto da vida. É o único lugar do mundo virtualmente intocado pela civilização e é provável que permaneça assim, pois os ambientalistas lutam para preservar sua natureza primitiva. Em 1959 foi assinado um acordo internacional dedicando o continente à paz e à ciência. É um continente que se identifica fortemente com o século XX: desde as primeiras incursões, no princípio da década de 1900, à indústria do turismo e aos estudos científicos que muito se desenvolveram no final do século.

É bastante compreensível que, com a chegada do novo milênio, o público fosse tomado pelo mesmo tipo de admiração por Shackleton de que o explorador foi alvo no apogeu de sua carreira. Hoje em dia, exposições em museus, luxuosos livros ilustrados, documentários, roteiros de Hollywood e reimpressões das primeiras publicações sobre suas expedições recontam as histórias do Nimrod e do Endurance. O apetite por narrativas de aventuras, a procura por heróis valorosos, a necessidade de encontrar novos modelos de liderança orientados para resultados são manifestações que ajudam a alimentar o ressurgimento de sua popularidade. Uma outra razão que faz de Shackleton um homem do presente é que nos cansamos da cultura que exige vítimas e desespero e buscamos líderes que sejam sobreviventes e otimistas, capazes de nos conduzir a uma nova era.

Se é verdade que sempre nos agradam mais aqueles líderes que gostaríamos de ser, não surpreende que escolhamos Shackleton. Ele era um cavalheiro, um poeta e um aventureiro. Os homens gostavam de estar perto dele. As mulheres o queriam, e ponto final. Era forte, persuasivo, encantador e chegado a umas noites de farra. É claro que tinha seus defeitos, e estes eram amplamente conhecidos. Podia ser implacável ao perseguir objetivos e rígido para com aqueles que desafiassem sua autoridade. Era muitas vezes descuidado em questões de dinheiro e atraído por negócios de enriquecimento rápido. Também era muito voltado para si mesmo. Seu trabalho afastava-o da mulher e dos três filhos por períodos prolongados e, quando estava em casa, sua atenção às vezes se desviava para outras mulheres.

Este lado frívolo, porém, não correspondia a um aspecto mais sério e sensível de sua natureza, capaz de notáveis proezas de liderança ainda aplicáveis hoje em dia. Neal F. Lane, consultor científico do presidente Clinton e antigo diretor da National Science Foundation, citou Shackleton como exemplo em um discurso de formatura em maio de 1995 na Universidade do Estado de Michigan. “É somente quando se cria uma noção de trabalho de equipe e de comunidade – como Shackleton e sua tripulação fizeram há oitenta anos – que se pode ultrapassar os desvios e obstáculos que encontramos em nos[1]sas próprias jornadas e ganhar a satisfação que se obtém de tais rea[1]lizações”, disse ele. “As organizações – sejam elas empresas, escolas, faculdades e universidades ou órgãos do governo – que se preparam para o inesperado e ajudam a criar uma noção de comunidade se[1]rão, a meu ver, as líderes do século XXI. O mesmo se aplica a cada um de nós como indivíduos.”

Shackleton enfrentou muitos problemas iguais aos que preocupam os administradores de hoje: reunir um grupo diversificado para trabalhar por um objetivo comum; lidar com o eterno “do contra”; animar o constante preocupado; evitar que os descontentes envenenem a atmosfera; combater o tédio e o cansaço; trazer ordem e sucesso a um ambiente caótico; trabalhar com recursos limitados.

Ele personificou os atributos dos melhores líderes de empresas: aqueles que se adaptaram com habilidade a uma revolução acelerada no ambiente de trabalho. Os princípios da democracia que modificaram o mapa do mundo no século XX acabaram se infiltrando neste ambiente de trabalho. As hierarquias estão sendo achatadas e as formalidades abandonadas. Até os que ocupam posições mais altas têm rejeitado grande parte das pompas e prerrogativas dos antigos capatazes privilegiados. Querem ser bem-sucedidos, mas também manifestam o desejo de contribuir para suas áreas profissionais e para suas comunidades.

Os empregados, por sua vez, têm melhor formação, são mais viajados, mais ambiciosos e mais sofisticados do que jamais foram. Não lhes agrada serem administrados e conduzidos; querem ser incentivados e liderados. Esperam que haja trocas inteligentes entre eles e seus chefes e que possam colaborar para os rumos das empresas em que trabalham. Também possuem metas profissionais e interesses pessoais além de seus empregos. O melhor de tudo é que os escritórios são hoje um dos segmentos mais diversificados da sociedade. As mulheres e as minorias adquiriram mais poder no ambiente de trabalho e provocaram mudanças na cultura das empresas.

Uma significativa troca de gerações também está transformando o mundo corporativo. Os baby boomers, nascidos depois da Segunda Guerra Mundial, um período de alta taxa de natalidade, estão assumindo o poder. Muitos deles jamais imaginaram que entrariam para o mundo dos negócios e trabalhariam sentados diante de uma escrivaninha. Compreendem a aversão de Shackleton em desempenhar um papel autoritário e simpatizam com sua personalidade irrequieta. Rejeitam muitos dos modelos de liderança e padrões organizacionais do passado: as hierarquias de poder, as forças armadas e até a linha de produção. Em abril de 1999, o The Wall Street Journal noticiou que, quando o chefe de uma importante cadeia de lojas de roupas lançou um programa de treinamento gerencial em que a competição do comércio varejista era comparada a uma guerra, os gerentes protestaram e alguns pediram demissão. Agora, tem acontecido o inverso: as forças armadas é que se voltam para o mundo corporativo para aprender métodos melhores de administrar pessoal.

A mudança mais profunda, entretanto, foi o salto do mundo dos negócios feito de tijolo e cimento para o ciberespaço. Jovens empresários entendidos em internet têm assumido cargos de gerência lado a lado com líderes corporativos veteranos. Investidores desprezaram os métodos tradicionais de avaliação do sucesso e resolveram explorar novos empreendimentos comerciais. É tão surpreendente assim, então, que a viagem de Shackleton para o desconhecido volte a seduzir a imaginação do público? O explorador precisou deixar para trás seu bergantim de madeira, um dos últimos que existiam, para alcançar uma outra espécie de triunfo em uma vasta paisagem descampada. Não tinha muito jeito para ganhar dinheiro, mas abriu portas para novos mundos e liderou de maneira brilhante as pessoas através delas. Em nossos dias, as posições inverteram-se de novo e o desbravador reclama um lugar à frente do herói de guerra.

Todas as mudanças por que o mundo passou requerem novas habilidades de liderança. Como o estilo de liderança de Shackleton. A estratégia dele é a antítese dos velhos padrões de autoridade-e- -controle. É uma liderança que dá valor à flexibilidade, ao trabalho de equipe e ao êxito individual. Traz de volta um pouco do cavalheirismo e do decoro do passado, mas sem a pauta secreta de um círculo social fechado e exclusivista. É atividade de negócios com uma cara humana.

Em se tratando de liderança, as fontes mais confiáveis são os liderados, de modo que as autoras, para analisar a proeza de Shackleton, estudaram acima de tudo os escritos dos homens que o conheceram pessoalmente. Os diários da tripulação do Endurance mostraram- -se inestimáveis deste ponto de vista, em particular o de Thomas Orde-Lees, que se interessava por questões de liderança. A geração de Shackleton, como a nossa, queria descobrir os segredos dos bons líderes e vários contemporâneos de Shackleton escreveram sobre ele abordando este aspecto. As autoras também consultaram os escritos do próprio Chefe, assim como o material de pesquisa reunido por sua família e por outros estudiosos da sua vida. Os diários de Shackleton e dois livros autobiográficos, porém, são insuficientes para revelar a lógica que está por trás de sua estratégia.

Os mitos construídos em torno dele fazem supor que possuía qualidades sobre-humanas. No entanto, se examinarmos sua história com atenção, como faz este livro, verificamos que as melhores características de sua liderança são passíveis de serem aprendidas. Shackleton era um homem mediano que ensinou a si mesmo a ser excepcional. Elevou-se acima de seus pares e conquistou a inabalável lealdade de seus homens. Sua história, em essência, é um relato inspirador sobre como despertar forças nos indivíduos que eles nunca desconfiaram ter para atingir objetivos – dos pequenos aos miraculosos.

Shackleton – Uma Lição de Coragem é um manual para a nova geração de líderes. Para guiar aqueles que aceitam as novas suscetibilidades do ambiente de trabalho, mas não sabem muito bem como traduzi-las em programas de ação. Os leitores aprenderão como unificar um grupo de funcionários apesar das diferentes formações e capacidades, como organizá-lo em equipes bem-sucedidas e como fazer cada uma das pessoas individualmente sentir-se apreciada e estimulada. O livro também mostra como lidar com as crises, em especial como transmitir más notícias, como manter o ânimo e como mudar rapidamente de rumo diante do inesperado. O exemplo de Shackleton também revela a importância de misturar humor e divertimento ao trabalho, como se unir à equipe sem perder a autoridade de chefe e quando afagar algum colaborador que esteja com problemas.

O livro detalha a vida profissional de Shackleton, destacando lições significativas retiradas de seu trabalho. Em seguida, mostra como essas lições foram aplicadas no mundo de hoje por executivos e outros líderes que não precisaram ir até o fim do mundo para encontrar o espírito do Endurance. Entre outros, há relatos como o de James Cramer, do site TheStreet.com, que atribui à história do explorador o mérito de fazê-lo persistir em busca de bons resultados quando outros lhe diziam para desistir de seu negócio ainda na fase inicial. Jeremy Larken adaptou as estratégias de sobrevivência de Shackleton à administração de crises no moderno mundo dos negócios. Mike Dale, antigo presidente da Jaguar North America, usou a história da incrível aventura antártica para incentivar seus concessionários e levá-los a atingir patamares de vendas mais altos. Luke O’Neill, formado pela Harvard Business School, fundou uma faculdade pouco convencional, norteada pelo princípio das expedições, que está ajudando os alunos a buscarem realização seguindo a filosofia shackletoniana de ir além das expectativas. Richard Danzig, ministro da Marinha dos Estados Unidos na gestão Clinton, vê Shackleton como modelo para aprender de que modo tratar recrutas como profissionais de valor.

Qualquer pessoa pode tirar proveito dessas lições além dos gerentes de empresas: professores, pais, líderes de comunidades. A sabedoria de Shackleton não é de modo algum simples ou óbvia. Grande parte dela é contrária à intuição, principalmente para aqueles doutrinados em táticas gerenciais mais convencionais. O Chefe servia chá na cama para o choramingas do navio, lisonjeava os egomaníacos e mantinha junto a si as personalidades mais abrasivas. Fazia com muita frequência grandes sacrifícios pessoais. Às vezes, liderava exatamente por não estar liderando coisa alguma.

R. W. Richards, um dos cientistas da equipe do mar de Ross, parte da malfadada expedição, disse simplesmente: “Shackleton, com todos os seus defeitos, foi um grande homem, ou melhor dizendo, um grande líder de homens.”

Shackleton fez seus homens quererem segui-lo; não os forçou a fazê-lo. No decorrer do processo, mudou a maneira como os membros de sua tripulação viam a si mesmos e ao mundo. Seu trabalho continuou a inspirá-los enquanto viveram e a inspirar outras pessoas pelo mundo afora muito tempo depois. Não há maior tributo que se possa prestar a um líder. Seus instrumentos eram o bom humor, a generosidade, a inteligência, a força e a compaixão.

Essa era a maneira de Shackleton.

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Margot Morrell

Sobre o autor

Margot Morrell

MARGOT MORRELL possui ampla vivência corporativa, tendo atuado junto à Nasa, à Verizon e ao Merrill Lynch. Ela se dedica a estudar a trajetória e as lições de liderança de Shackleton há cerca de um quarto de século.  

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Stephanie Capparell

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Stephanie Capparell

STEPHANIE CAPPARELL é jornalista e editora do The Wall Street Journal, onde trabalha há mais de trinta anos. Também escreve livros de negócios e produz documentários. Shackleton – Uma lição de coragem já vendeu mais de 300 mil exemplares em dez idiomas.

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