Tem um livro aqui que você vai gostar - Sextante
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NÃO FICÇÃO

Tem um livro aqui que você vai gostar

Tem um livro aqui que você vai gostar

ANTONIO FAGUNDES

“Espero que estas páginas sirvam para inspirar e incentivar você a compartilhar comigo a paixão pelos livros e pela leitura. Tenho certeza de que não vai se arrepender.” – Antonio Fagundes

Antonio Fagundes é um dos artistas mais queridos do brasil. Este é o seu primeiro livro.

Leitor voraz, ele sempre falou com naturalidade sobre livros e a experiência de leitura. Não por acaso, muita gente vem pedir a ele sugestões de títulos e autores. A partir dessas experiências nasceu a ideia para este livro: uma reunião de histórias pessoais e recomendações de leituras, em diversos gêneros.

 

Fascinado por livros desde a infância, Antonio Fagundes conta, numa conversa informal, histórias deliciosas de sua vida de leitor. De quebra, indica mais de 150 títulos, para todos os gostos.

De ficção científica a histórias de amor, passando por história do Brasil, distopias e romances policiais, ele comenta suas impressões, seus autores preferidos, e suas leituras inesquecíveis.

Pode ter certeza: tem um livro aqui que você vai gostar.

“Espero que estas páginas sirvam para inspirar e incentivar você a compartilhar comigo a paixão pelos livros e pela leitura. Tenho certeza de que não vai se arrepender.” – Antonio Fagundes

Antonio Fagundes é um dos artistas mais queridos do brasil. Este é o seu primeiro livro.

Leitor voraz, ele sempre falou com naturalidade sobre livros e a experiência de leitura. Não por acaso, muita gente vem pedir a ele sugestões de títulos e autores. A partir dessas experiências nasceu a ideia para este livro: uma reunião de histórias pessoais e recomendações de leituras, em diversos gêneros.

 

Fascinado por livros desde a infância, Antonio Fagundes conta, numa conversa informal, histórias deliciosas de sua vida de leitor. De quebra, indica mais de 150 títulos, para todos os gostos.

De ficção científica a histórias de amor, passando por história do Brasil, distopias e romances policiais, ele comenta suas impressões, seus autores preferidos, e suas leituras inesquecíveis.

Pode ter certeza: tem um livro aqui que você vai gostar.

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Ficha técnica
Lançamento 04/12/2020
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 240
Peso 300 g
Acabamento brochura
ISBN 978-65-5564-101-1
EAN 9786555641011
Preço R$ 49,90
Ficha técnica e-book
eISBN 978-65-5564-102-8
Preço R$ 29,99
Lançamento 04/12/2020
Título original
Tradução
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 240
Peso 300 g
Acabamento brochura
ISBN 978-65-5564-101-1
EAN 9786555641011
Preço R$ 49,90

E-book

eISBN 978-65-5564-102-8
Preço R$ 29,99

Leia um trecho do livro

INTRODUÇÃO

 

Eu tive sorte.

Quando criança, com uns 6 ou 7 anos de idade, tive mononucleose, uma anemia profunda. O tratamento para essa doença não era com remédios, e sim com repouso absoluto e uma alimentação especial. Portanto, fiquei de cama, deitado, descansando, e naturalmente não tinha nada pra fazer. Comecei então a ler gibis.

Naquela época, ler gibi era considerado uma coisa horrível. Muitos pais não gostavam que os filhos lessem gibis, assim como hoje em dia existem pais que não gostam que os filhos assistam a televisão ou naveguem na internet. Mas foi através dos gibis que eu comecei a gostar de ler.

Com o tempo, os gibis deixaram de ser suficientes para mim. Passei a querer histórias mais profundas e fui lendo, lendo, lendo, e ainda não parei de ler, graças a Deus.

Nem todo mundo tem essa sorte. Mas, de qualquer forma, dá para entender que eu fui criado cultivando o hábito da leitura de uma forma que as pessoas não fazem mais. E essa é uma questão importante, que precisamos abordar quando vamos falar sobre leitura ou quando queremos recomendar um livro.

Em 2019, fui escalado para interpretar o personagem Alberto na novela Bom Sucesso, de Rosane Svartman e Paulo Halm. Para um leitor apaixonado como eu, poder viver um editor de livros foi um verdadeiro presente. As cenas em que Alberto conversava sobre livros e leitura com sua neta Sofia, interpretada por Valentina Vieira, ou com a personagem Paloma, vivida por Grazi Massafera, caíram no gosto do público e contribuíram para fazer da novela um enorme sucesso.

Foi muito gratificante perceber que as dicas de leitura e as conversas sobre o fascínio exercido pela literatura tiveram uma recepção tão positiva. Fiquei sabendo que as vendas dos livros citados na novela até aumentaram. Com isso, a equipe do GShow propôs a criação de um podcast. A ideia me encantou, e assim nasceu o “Clube do Livro do Fagundes”, no qual, em curtos episódios de dez minutos de duração, eu falava sobre este assunto que tanto me fascina: os livros e a leitura.

Mais uma vez a resposta do público foi acima das minhas expectativas e percebi como as dicas de leitura podem ajudar as pessoas a se orientarem no meio dessa oferta tão grande de livros disponíveis. Por isso a ideia de publicar este livro, trazendo sugestões e ainda algumas histórias minhas relacionadas ao mundo da leitura.

É importante ressaltar que já li os títulos que cito aqui e gosto de todos eles, e portanto me sinto à vontade para fazer as indicações. É uma seleção totalmente pessoal, baseada apenas na minha experiência e no meu gosto. Não pretendo aqui listar “os livros mais importantes” de qualquer gênero. Apenas alguns poucos daqueles inúmeros que mais me tocaram.

Espero que essas sugestões ajudem você a ler mais livrose descobrir (ou redescobrir) o prazer de viajar com a leitura. Boa viagem!

 

 

1 – PARA COMEÇAR A GOSTAR DE LER

Ao entrar numa livraria, não fique paralisado diante dos milhares de livros. Sem nenhuma indicação, é difícil escolher mesmo. Mas vá com calma e explore a seção do gênero que mais lhe interessa. Dê um tempo a si, pegue um livro, leia a orelha e a quarta capa, que são ótimas para informar sobre de que trata aquela obra e contar um pouco da história. Se você se interessar, já é um ótimo começo.

Reserve um tempo para a leitura

Uma coisa que eu recomendo para quem quer começar a ler com alguma constância é: separe um tempinho só para a leitura. Pegue um dia de folga e reserve de duas a três horas. Nesse dia, você vai deslanchar o livro. Procure um lugar onde possa estar em silêncio, onde ninguém atrapalhe, para que você possa descobrir a sua concentração, o seu foco.

Com esse tempo que vai reservar para si, você vai entrar na história. Senão, o livro não deslancha. Se você começa, lê uma página ou duas num dia, no dia seguinte lê mais uma ou duas páginas, no terceiro dia você já se esqueceu das duas primeiras páginas que leu. Portanto, dê a si mesmo um tempo para curtir o livro.

E depois, se você conseguir reservar algum tempo por dia para ler, conseguirá terminar um livro em cerca de uma a duas semanas. E com concentração, que é mais importante. Ou seja, vai aproveitar sua leitura, se identificar com os personagens, curtir, chorar, rir, se angustiar com os problemas deles.

Eu estou sempre com um livro na mão. Aonde quer que eu vá, levo um livro e leio onde der, entre uma cena e outra, num intervalo de gravação. Certa vez, durante a gravação de uma cena da novela Bom Sucesso em que meu personagem batia a cabeça e caía, desmaiado, fiquei deitado no chão enquanto ensaiavam o resto da cena. Enquanto estava ali deitado, esperando o ensaio terminar, pensei: “Isso vai durar uma meia hora… eu desmaiado aqui, o que vou ficar fazendo?” Resultado: peguei meu livro e fiquei lendo, deitadinho ali no chão.

Faço isso normalmente, é algo que me dá prazer. Cada dez minutinhos livres que aparecem, eu aproveito para ler. É por isso que consigo ler dois ou três livros por semana. O que não me impede, claro, de bater papo com meus colegas, me alimentar, enfim, viver. Mas, quando tem aquele buraco – e às vezes temos um monte de pequenos buracos em nosso dia –, podemos preenchê-lo com uma boa leitura, o que faz muito bem.

Encontre um assunto do seu interesse

Quero contar aqui uma história que aconteceu comigo quando eu era jovem e fazia cursinho. No intervalo das aulas, todo mundo saía para tomar um lanche ou um café, e eu gostava de ficar sozinho na sala lendo jornal. Mas tinha um colega que todo dia chegava e me pedia para ler os classificados. Eu, naturalmente, dava para ele aquela parte do jornal, que ele folheava, folheava e depois me devolvia. Isso acontecia todos os dias, e eu achava muito intrigante.

Certo dia ele me perguntou se poderia rasgar a página dos classificados para pegar um anúncio, um quadradinho minúsculo. Em seguida, me pediu uma ficha telefônica (naquela época não existia telefone celular, claro), e eu dei. Ele saiu correndo e eu, curioso, fiquei observando pela janela enquanto meu colega ia até o orelhão e falava ao telefone.

A ligação demorou alguns minutos e, da janela, vi que ele conversava animadamente, feliz da vida. Quando ele voltou, eu não me aguentei e pedi para ver o que estava escrito no pedacinho do jornal. Ele me mostrou um anúncio muito pequenino onde estava escrito “Fut. de Bot.” seguido de um número de telefone. Perguntei o que significava e ele me respondeu: “Futebol de botão.” Em suma: ele era louco por futebol de botão e tinha acabado de comprar, com aquela ligação, um time completo incrível, de madrepérola e não sei mais o quê.

Essa história ficou na minha cabeça pelo resto da vida. Porque mostra como essa palavra mágica, “interesse”, pode mudar a vida de uma pessoa. Se eu lesse aquele mesmo anúncio, jamais saberia do que se tratava. Mas o meu colega tinha tanto interesse por futebol de botão que só de passar o olho já sabia que era aquilo que ele queria. “Interessante” é uma palavra que você vai ler muito nas próximas páginas.

Interesse é tudo na vida. Se você se interessa pelo que quer que seja, vai ser muito feliz, porque sempre vai ter coisas para ler, conversar, discutir.

No meu caso, posso dizer que tudo me interessa. Se for bom, me interessa. Eu tenho uma enorme curiosidade, o que é uma vantagem para quem quer começar a ler. Se você for curioso, já é um primeiro grande passo para se tornar um leitor.

Um amigo me disse outro dia: “Eu ouvi o seu podcast e acho que é fácil recomendar livros para quem já gosta de ler. Mas, e pessoas como eu, que entram numa livraria e ficam paralisadas, sem saber por onde começar?”

Diferentemente do que meu amigo pensa, recomendar livros não é nada fácil. Fazer isso para quem nem conhecemos, então, é mais difícil ainda. Para que qualquer recomendação tenha chance de funcionar, é fundamental que você descubra quais são seus interesses. Que tema você acha fascinante? Histórias de amor? Suspense? Distopias? Ficção científica? Terror? História? Biografias? São tantos gêneros disponíveis que cada pessoa precisa, antes de tudo, identificar aquilo de que gosta.

Para quem quer cultivar o hábito da leitura, eu recomendo que comece por um livro que tenha dado origem a um filme, uma novela ou um seriado a que tenha assistido. Existem muitas produções audiovisuais, brasileiras e estrangeiras, que foram baseadas em livros. Ao longo das próximas páginas vou citar vários deles. Portanto, para quem está começando, pode ser uma boa ideia buscar algo que já viu ou de que já ouviu falar, porque dá para vencer mais facilmente, digamos assim, essa barreira.

Vale lembrar que tudo que você ainda não leu é uma novidade para você, como me ensinou um livreiro que marcou muito a minha vida, o saudoso José Sanz, dono de uma livraria e editora em Ipanema, no Rio de Janeiro.

Um dia ele me disse:

– Veja que gozado. Eu estou aqui há anos, e há anos uma senhora entra na livraria toda semana e pergunta: “O que tem de novo?” E eu respondo: “Tudo que a senhora não leu. Já leu Dostoiévski?” Ela diz que não. E então eu retruco: “Então é novo para a senhora!” Ela morre de rir… e leva um best-seller.

Eu sempre me lembro dessa lição do querido José Sanz: tudo que você ainda não leu é novo para você, independentemente da época em que foi escrito ou publicado.

Ler é um hábito adquirido

Há pouco tempo eu li um livro extraordinário chamado O cérebro no mundo digital. A autora, Maryanne Wolf, é uma neurocientista que diz, muito resumidamente, que o mundo digital cria uma distração. O livro nos obriga a focar, e o foco não é algo natural do ser humano. Nós não fomos criados para sermos focados. Portanto, ler não é uma coisa natural, mas sim um hábito adquirido depois de muitos anos de prática.

Quando nosso cérebro começou a ser formado, há algumas centenas de milhares de anos, nós éramos caça, vivíamos prestes a ser comidos por bichos maiores, o que nos obrigava a prestar muita atenção em tudo que acontecia à nossa volta. Mas, ao mesmo tempo, éramos caçadores, porque precisávamos correr atrás da nossa comida. Isso fez com que ficássemos dispersos – ou melhor: focados em muitas coisas ao mesmo tempo.

Vivemos, então, dispersos, com atenção espalhada, durante milhares de anos, até que tivemos acesso a um livro. Esse acesso só foi possível porque um cara chamado Johannes Gutenberg, por volta de 1450, conseguiu adaptar a prensa móvel para que os livros pudessem ser reproduzidos facilmente. Antes, os livros já existiam, mas estavam nas mãos apenas de monges em mosteiros ou de pessoas muito ricas, porque cada exemplar tinha que ser escrito à mão e podia levar um ou dois anos para ser feito. Tudo era caríssimo: o papel, a tinta, os próprios livros. A partir de Gutenberg, começamos a ter mais acesso aos livros e a criar o hábito da leitura.

Ler não é fácil nem natural. Desenvolvemos o foco, a capacidade de entrar na história escrita naquelas páginas. Esse foco durou mais de 500 anos. E durante esse período ficamos tão focados que inventamos muitas coisas, resolvemos um monte de problemas, discutimos uma porção de soluções e chegamos até a inventar o computador, a internet, o celular. E o que essas coisas estão fazendo conosco? Estão tirando o nosso foco, dispersando nossa atenção.

Leia no seu próprio tempo

Essa perda de foco dificulta a nossa concentração, e às vezes o fato de não conseguir ler rápido deixa as pessoas angustiadas. Não se angustie com isso. A velocidade de leitura é o que menos interessa. O que importa é você ler e gostar dos livros.

Aquilo que chamamos de “leitura silenciosa” é relativamente recente. Foi só a partir do surgimento da imprensa, que permitiu que muito mais gente tivesse acesso a livros, que essa modalidade de leitura se popularizou.

Antes, era preciso ler o livro em voz alta porque só havia um único exemplar para cada grupo de várias pessoas que queriam saber o que havia nele. Mas, com a popularização das edições, cada um passou a poder ter seu exemplar e, assim, a possibilidade de ler no próprio tempo. Não seria mais necessário depender do tempo de outra pessoa que estaria lendo para você.

Portanto, leia no tempo que você tem, no tempo que descobrir para si mesmo. Você pode ler, reler, voltar no parágrafo, voltar no capítulo, pular páginas, enfim, a sua velocidade de leitura é você que vai descobrir. O importante é terminar o livro de forma prazerosa.

O livro A ansiedade da informação, de Richard Saul Wurman, diz uma coisa interessante: uma edição de domingo do jornal The New York Times contém mais informação do que um homem do século XVI poderia ter ao longo de toda a vida. Uma grande biblioteca no século XVI possuía em torno de 150 volumes. Hoje, é possível, para quem queira, ter uma biblioteca de mais de mil volumes até dentro de casa, sem falar na possibilidade do livro digital. Imagine o poder que temos, ao ter acesso a toda essa informação. Veja que coisa linda é a possibilidade de ter em casa o livro e a informação que se quiser. Mas muita gente não aproveita.

O brasileiro lê em média entre 1 e 2 livros por ano, o que é muito pouco. Nesse ritmo, pode levar mais de 30 anos para ler somente a obra de um único autor como Jorge Amado, por exemplo. A gente tem essa felicidade de ter, à mão, a informação que quiser, o prazer que quiser, o mundo que a gente quiser conhecer – e não usa. Não desperdice o privilégio que é poder ler no mundo de hoje.

Desligue o celular

Eu sou um “analfabyte”, pouco entendo desses assuntos de tecnologia. Mas sei que, hoje em dia, não é incomum uma pessoa passar de 3 a 4 horas por dia só limpando o próprio smartphone. E limpando bobagens, pois na verdade no WhatsApp só vem bobagem. E, quando vem uma ou outra coisa séria, ela vem no meio de tanta bobagem que você não presta atenção.

Se durante essas mesmas 3 ou 4 horas diárias você focasse sua atenção lendo um livro, leria facilmente de 2 a 3 livros por semana. Isso mudaria a sua vida, porque a leitura é cumulativa, possibilita que você acumule conhecimento. Eu já tenho o foco treinado para ler qualquer tipo de livro, mas acho que sempre se pode começar.

E, para início de conversa, preste atenção no que você faz todos os dias com esse aparelhinho que causa até dor no pescoço, de tanto ficar olhando pra baixo. Se pararmos de mexer nele um pouquinho, vai sobrar um tempinho – para começar a ler, para se dedicar à leitura. Vale a pena a tentativa. Tem muita coisa boa pra ler.

O livro que mencionei, O cérebro no mundo digital, diz que a era digital já está aí, não temos como escapar dela, e não devemos jogar fora todas as conquistas que ela nos deu. Mas precisamos aprender a lidar com os dois veículos, o livro e o mundo digital, que são duas formas distintas de adquirir informação. Principalmente se estamos falando de crianças e adolescentes, porque hoje em dia há o risco de que eles foquem somente no digital, deixando a leitura de lado e perdendo o foco.

Essa perda de foco é física, pois mexe no cérebro. Chega a um ponto em que a pessoa não consegue mais se concentrar em nada. Por isso vemos tantos ataques de ansiedade, pessoas deprimidas, achando que a vida fica muito chata se não for tão rápida quanto é na internet.

E a vida não é chata, não. Ela é legal, no tempinho dela.

INTRODUÇÃO

 

Eu tive sorte.

Quando criança, com uns 6 ou 7 anos de idade, tive mononucleose, uma anemia profunda. O tratamento para essa doença não era com remédios, e sim com repouso absoluto e uma alimentação especial. Portanto, fiquei de cama, deitado, descansando, e naturalmente não tinha nada pra fazer. Comecei então a ler gibis.

Naquela época, ler gibi era considerado uma coisa horrível. Muitos pais não gostavam que os filhos lessem gibis, assim como hoje em dia existem pais que não gostam que os filhos assistam a televisão ou naveguem na internet. Mas foi através dos gibis que eu comecei a gostar de ler.

Com o tempo, os gibis deixaram de ser suficientes para mim. Passei a querer histórias mais profundas e fui lendo, lendo, lendo, e ainda não parei de ler, graças a Deus.

Nem todo mundo tem essa sorte. Mas, de qualquer forma, dá para entender que eu fui criado cultivando o hábito da leitura de uma forma que as pessoas não fazem mais. E essa é uma questão importante, que precisamos abordar quando vamos falar sobre leitura ou quando queremos recomendar um livro.

Em 2019, fui escalado para interpretar o personagem Alberto na novela Bom Sucesso, de Rosane Svartman e Paulo Halm. Para um leitor apaixonado como eu, poder viver um editor de livros foi um verdadeiro presente. As cenas em que Alberto conversava sobre livros e leitura com sua neta Sofia, interpretada por Valentina Vieira, ou com a personagem Paloma, vivida por Grazi Massafera, caíram no gosto do público e contribuíram para fazer da novela um enorme sucesso.

Foi muito gratificante perceber que as dicas de leitura e as conversas sobre o fascínio exercido pela literatura tiveram uma recepção tão positiva. Fiquei sabendo que as vendas dos livros citados na novela até aumentaram. Com isso, a equipe do GShow propôs a criação de um podcast. A ideia me encantou, e assim nasceu o “Clube do Livro do Fagundes”, no qual, em curtos episódios de dez minutos de duração, eu falava sobre este assunto que tanto me fascina: os livros e a leitura.

Mais uma vez a resposta do público foi acima das minhas expectativas e percebi como as dicas de leitura podem ajudar as pessoas a se orientarem no meio dessa oferta tão grande de livros disponíveis. Por isso a ideia de publicar este livro, trazendo sugestões e ainda algumas histórias minhas relacionadas ao mundo da leitura.

É importante ressaltar que já li os títulos que cito aqui e gosto de todos eles, e portanto me sinto à vontade para fazer as indicações. É uma seleção totalmente pessoal, baseada apenas na minha experiência e no meu gosto. Não pretendo aqui listar “os livros mais importantes” de qualquer gênero. Apenas alguns poucos daqueles inúmeros que mais me tocaram.

Espero que essas sugestões ajudem você a ler mais livrose descobrir (ou redescobrir) o prazer de viajar com a leitura. Boa viagem!

 

 

1 – PARA COMEÇAR A GOSTAR DE LER

Ao entrar numa livraria, não fique paralisado diante dos milhares de livros. Sem nenhuma indicação, é difícil escolher mesmo. Mas vá com calma e explore a seção do gênero que mais lhe interessa. Dê um tempo a si, pegue um livro, leia a orelha e a quarta capa, que são ótimas para informar sobre de que trata aquela obra e contar um pouco da história. Se você se interessar, já é um ótimo começo.

Reserve um tempo para a leitura

Uma coisa que eu recomendo para quem quer começar a ler com alguma constância é: separe um tempinho só para a leitura. Pegue um dia de folga e reserve de duas a três horas. Nesse dia, você vai deslanchar o livro. Procure um lugar onde possa estar em silêncio, onde ninguém atrapalhe, para que você possa descobrir a sua concentração, o seu foco.

Com esse tempo que vai reservar para si, você vai entrar na história. Senão, o livro não deslancha. Se você começa, lê uma página ou duas num dia, no dia seguinte lê mais uma ou duas páginas, no terceiro dia você já se esqueceu das duas primeiras páginas que leu. Portanto, dê a si mesmo um tempo para curtir o livro.

E depois, se você conseguir reservar algum tempo por dia para ler, conseguirá terminar um livro em cerca de uma a duas semanas. E com concentração, que é mais importante. Ou seja, vai aproveitar sua leitura, se identificar com os personagens, curtir, chorar, rir, se angustiar com os problemas deles.

Eu estou sempre com um livro na mão. Aonde quer que eu vá, levo um livro e leio onde der, entre uma cena e outra, num intervalo de gravação. Certa vez, durante a gravação de uma cena da novela Bom Sucesso em que meu personagem batia a cabeça e caía, desmaiado, fiquei deitado no chão enquanto ensaiavam o resto da cena. Enquanto estava ali deitado, esperando o ensaio terminar, pensei: “Isso vai durar uma meia hora… eu desmaiado aqui, o que vou ficar fazendo?” Resultado: peguei meu livro e fiquei lendo, deitadinho ali no chão.

Faço isso normalmente, é algo que me dá prazer. Cada dez minutinhos livres que aparecem, eu aproveito para ler. É por isso que consigo ler dois ou três livros por semana. O que não me impede, claro, de bater papo com meus colegas, me alimentar, enfim, viver. Mas, quando tem aquele buraco – e às vezes temos um monte de pequenos buracos em nosso dia –, podemos preenchê-lo com uma boa leitura, o que faz muito bem.

Encontre um assunto do seu interesse

Quero contar aqui uma história que aconteceu comigo quando eu era jovem e fazia cursinho. No intervalo das aulas, todo mundo saía para tomar um lanche ou um café, e eu gostava de ficar sozinho na sala lendo jornal. Mas tinha um colega que todo dia chegava e me pedia para ler os classificados. Eu, naturalmente, dava para ele aquela parte do jornal, que ele folheava, folheava e depois me devolvia. Isso acontecia todos os dias, e eu achava muito intrigante.

Certo dia ele me perguntou se poderia rasgar a página dos classificados para pegar um anúncio, um quadradinho minúsculo. Em seguida, me pediu uma ficha telefônica (naquela época não existia telefone celular, claro), e eu dei. Ele saiu correndo e eu, curioso, fiquei observando pela janela enquanto meu colega ia até o orelhão e falava ao telefone.

A ligação demorou alguns minutos e, da janela, vi que ele conversava animadamente, feliz da vida. Quando ele voltou, eu não me aguentei e pedi para ver o que estava escrito no pedacinho do jornal. Ele me mostrou um anúncio muito pequenino onde estava escrito “Fut. de Bot.” seguido de um número de telefone. Perguntei o que significava e ele me respondeu: “Futebol de botão.” Em suma: ele era louco por futebol de botão e tinha acabado de comprar, com aquela ligação, um time completo incrível, de madrepérola e não sei mais o quê.

Essa história ficou na minha cabeça pelo resto da vida. Porque mostra como essa palavra mágica, “interesse”, pode mudar a vida de uma pessoa. Se eu lesse aquele mesmo anúncio, jamais saberia do que se tratava. Mas o meu colega tinha tanto interesse por futebol de botão que só de passar o olho já sabia que era aquilo que ele queria. “Interessante” é uma palavra que você vai ler muito nas próximas páginas.

Interesse é tudo na vida. Se você se interessa pelo que quer que seja, vai ser muito feliz, porque sempre vai ter coisas para ler, conversar, discutir.

No meu caso, posso dizer que tudo me interessa. Se for bom, me interessa. Eu tenho uma enorme curiosidade, o que é uma vantagem para quem quer começar a ler. Se você for curioso, já é um primeiro grande passo para se tornar um leitor.

Um amigo me disse outro dia: “Eu ouvi o seu podcast e acho que é fácil recomendar livros para quem já gosta de ler. Mas, e pessoas como eu, que entram numa livraria e ficam paralisadas, sem saber por onde começar?”

Diferentemente do que meu amigo pensa, recomendar livros não é nada fácil. Fazer isso para quem nem conhecemos, então, é mais difícil ainda. Para que qualquer recomendação tenha chance de funcionar, é fundamental que você descubra quais são seus interesses. Que tema você acha fascinante? Histórias de amor? Suspense? Distopias? Ficção científica? Terror? História? Biografias? São tantos gêneros disponíveis que cada pessoa precisa, antes de tudo, identificar aquilo de que gosta.

Para quem quer cultivar o hábito da leitura, eu recomendo que comece por um livro que tenha dado origem a um filme, uma novela ou um seriado a que tenha assistido. Existem muitas produções audiovisuais, brasileiras e estrangeiras, que foram baseadas em livros. Ao longo das próximas páginas vou citar vários deles. Portanto, para quem está começando, pode ser uma boa ideia buscar algo que já viu ou de que já ouviu falar, porque dá para vencer mais facilmente, digamos assim, essa barreira.

Vale lembrar que tudo que você ainda não leu é uma novidade para você, como me ensinou um livreiro que marcou muito a minha vida, o saudoso José Sanz, dono de uma livraria e editora em Ipanema, no Rio de Janeiro.

Um dia ele me disse:

– Veja que gozado. Eu estou aqui há anos, e há anos uma senhora entra na livraria toda semana e pergunta: “O que tem de novo?” E eu respondo: “Tudo que a senhora não leu. Já leu Dostoiévski?” Ela diz que não. E então eu retruco: “Então é novo para a senhora!” Ela morre de rir… e leva um best-seller.

Eu sempre me lembro dessa lição do querido José Sanz: tudo que você ainda não leu é novo para você, independentemente da época em que foi escrito ou publicado.

Ler é um hábito adquirido

Há pouco tempo eu li um livro extraordinário chamado O cérebro no mundo digital. A autora, Maryanne Wolf, é uma neurocientista que diz, muito resumidamente, que o mundo digital cria uma distração. O livro nos obriga a focar, e o foco não é algo natural do ser humano. Nós não fomos criados para sermos focados. Portanto, ler não é uma coisa natural, mas sim um hábito adquirido depois de muitos anos de prática.

Quando nosso cérebro começou a ser formado, há algumas centenas de milhares de anos, nós éramos caça, vivíamos prestes a ser comidos por bichos maiores, o que nos obrigava a prestar muita atenção em tudo que acontecia à nossa volta. Mas, ao mesmo tempo, éramos caçadores, porque precisávamos correr atrás da nossa comida. Isso fez com que ficássemos dispersos – ou melhor: focados em muitas coisas ao mesmo tempo.

Vivemos, então, dispersos, com atenção espalhada, durante milhares de anos, até que tivemos acesso a um livro. Esse acesso só foi possível porque um cara chamado Johannes Gutenberg, por volta de 1450, conseguiu adaptar a prensa móvel para que os livros pudessem ser reproduzidos facilmente. Antes, os livros já existiam, mas estavam nas mãos apenas de monges em mosteiros ou de pessoas muito ricas, porque cada exemplar tinha que ser escrito à mão e podia levar um ou dois anos para ser feito. Tudo era caríssimo: o papel, a tinta, os próprios livros. A partir de Gutenberg, começamos a ter mais acesso aos livros e a criar o hábito da leitura.

Ler não é fácil nem natural. Desenvolvemos o foco, a capacidade de entrar na história escrita naquelas páginas. Esse foco durou mais de 500 anos. E durante esse período ficamos tão focados que inventamos muitas coisas, resolvemos um monte de problemas, discutimos uma porção de soluções e chegamos até a inventar o computador, a internet, o celular. E o que essas coisas estão fazendo conosco? Estão tirando o nosso foco, dispersando nossa atenção.

Leia no seu próprio tempo

Essa perda de foco dificulta a nossa concentração, e às vezes o fato de não conseguir ler rápido deixa as pessoas angustiadas. Não se angustie com isso. A velocidade de leitura é o que menos interessa. O que importa é você ler e gostar dos livros.

Aquilo que chamamos de “leitura silenciosa” é relativamente recente. Foi só a partir do surgimento da imprensa, que permitiu que muito mais gente tivesse acesso a livros, que essa modalidade de leitura se popularizou.

Antes, era preciso ler o livro em voz alta porque só havia um único exemplar para cada grupo de várias pessoas que queriam saber o que havia nele. Mas, com a popularização das edições, cada um passou a poder ter seu exemplar e, assim, a possibilidade de ler no próprio tempo. Não seria mais necessário depender do tempo de outra pessoa que estaria lendo para você.

Portanto, leia no tempo que você tem, no tempo que descobrir para si mesmo. Você pode ler, reler, voltar no parágrafo, voltar no capítulo, pular páginas, enfim, a sua velocidade de leitura é você que vai descobrir. O importante é terminar o livro de forma prazerosa.

O livro A ansiedade da informação, de Richard Saul Wurman, diz uma coisa interessante: uma edição de domingo do jornal The New York Times contém mais informação do que um homem do século XVI poderia ter ao longo de toda a vida. Uma grande biblioteca no século XVI possuía em torno de 150 volumes. Hoje, é possível, para quem queira, ter uma biblioteca de mais de mil volumes até dentro de casa, sem falar na possibilidade do livro digital. Imagine o poder que temos, ao ter acesso a toda essa informação. Veja que coisa linda é a possibilidade de ter em casa o livro e a informação que se quiser. Mas muita gente não aproveita.

O brasileiro lê em média entre 1 e 2 livros por ano, o que é muito pouco. Nesse ritmo, pode levar mais de 30 anos para ler somente a obra de um único autor como Jorge Amado, por exemplo. A gente tem essa felicidade de ter, à mão, a informação que quiser, o prazer que quiser, o mundo que a gente quiser conhecer – e não usa. Não desperdice o privilégio que é poder ler no mundo de hoje.

Desligue o celular

Eu sou um “analfabyte”, pouco entendo desses assuntos de tecnologia. Mas sei que, hoje em dia, não é incomum uma pessoa passar de 3 a 4 horas por dia só limpando o próprio smartphone. E limpando bobagens, pois na verdade no WhatsApp só vem bobagem. E, quando vem uma ou outra coisa séria, ela vem no meio de tanta bobagem que você não presta atenção.

Se durante essas mesmas 3 ou 4 horas diárias você focasse sua atenção lendo um livro, leria facilmente de 2 a 3 livros por semana. Isso mudaria a sua vida, porque a leitura é cumulativa, possibilita que você acumule conhecimento. Eu já tenho o foco treinado para ler qualquer tipo de livro, mas acho que sempre se pode começar.

E, para início de conversa, preste atenção no que você faz todos os dias com esse aparelhinho que causa até dor no pescoço, de tanto ficar olhando pra baixo. Se pararmos de mexer nele um pouquinho, vai sobrar um tempinho – para começar a ler, para se dedicar à leitura. Vale a pena a tentativa. Tem muita coisa boa pra ler.

O livro que mencionei, O cérebro no mundo digital, diz que a era digital já está aí, não temos como escapar dela, e não devemos jogar fora todas as conquistas que ela nos deu. Mas precisamos aprender a lidar com os dois veículos, o livro e o mundo digital, que são duas formas distintas de adquirir informação. Principalmente se estamos falando de crianças e adolescentes, porque hoje em dia há o risco de que eles foquem somente no digital, deixando a leitura de lado e perdendo o foco.

Essa perda de foco é física, pois mexe no cérebro. Chega a um ponto em que a pessoa não consegue mais se concentrar em nada. Por isso vemos tantos ataques de ansiedade, pessoas deprimidas, achando que a vida fica muito chata se não for tão rápida quanto é na internet.

E a vida não é chata, não. Ela é legal, no tempinho dela.

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Antonio Fagundes

Sobre o autor

Antonio Fagundes

ANTONIO FAGUNDES é um dos artistas mais queridos do Brasil. Seu currículo como ator, autor e produtor inclui mais de 50 filmes, 40 peças teatrais e 40 produções de TV, entre novelas, séries e teleteatro, ao longo de mais de 50 anos. Apaixonado por literatura, ele tem o hábito de ler em qualquer tempo livre e costuma comprar vários exemplares de seus livros preferidos para presentear os amigos.  

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