Um ano na Provence - Sextante
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Um ano na Provence

Um ano na Provence

PETER MAYLE

Vencedor do prêmio Melhor Livro de Viagem do British Book Awards, Um ano na Provence é uma das mais divertidas, adoradas e bem-sucedidas obras do gênero já publicadas.

 

Quem não gostaria de largar tudo e recomeçar a vida num dos lugares mais charmosos do mundo? Peter Mayle e sua mulher fizeram o que, para a maioria de nós, continua sendo apenas um sonho quando resolveram morar numa casa rural no sul da França.

Em seu primeiro ano na Provence, Peter, um ex-publicitário inglês, realizou um registro mês a mês de sua ambientação à nova realidade e de suas incríveis descobertas e surpresas. A começar pela gastronomia e pela paisagem, passando pelos hábitos interioranos dos franceses e as diferenças culturais, tudo é contado em detalhes, com descrições deslumbrantes e um humor refinado e irresistível.

Saboreie os comentários sobre os pastis, os azeites e a comida; encante-se com a humildade dos cozinheiros anônimos capazes de superar grandes chefs parisienses; divirta-se com as implicâncias de um vizinho belicoso que faz de tudo para expulsar os turistas; alegre-se com as pitorescas corridas de cabras; e espante-se com a força do perturbador vento mistral, que arranca telhas e destrói encanamentos.

Livros de receitas e guias da região costumam nos seduzir com refeições fartas, coloridas e apetitosas, plantações de lavanda, belíssimos vinhedos e céus azuis. Mas nada como conhecer o relato em primeira mão de quem deixou a cidade grande para se entregar à experiência de desfrutar tudo isso, num local onde o tempo é governado pelas estações, não pelos dias.

Todos os prazeres rústicos da vida provençal estão reunidos neste retrato fascinante, misto de caderno de viagens, crônica e romance – obra que deve ser degustada como o melhor dos vinhos.

Vencedor do prêmio Melhor Livro de Viagem do British Book Awards, Um ano na Provence é uma das mais divertidas, adoradas e bem-sucedidas obras do gênero já publicadas.

 

Quem não gostaria de largar tudo e recomeçar a vida num dos lugares mais charmosos do mundo? Peter Mayle e sua mulher fizeram o que, para a maioria de nós, continua sendo apenas um sonho quando resolveram morar numa casa rural no sul da França.

Em seu primeiro ano na Provence, Peter, um ex-publicitário inglês, realizou um registro mês a mês de sua ambientação à nova realidade e de suas incríveis descobertas e surpresas. A começar pela gastronomia e pela paisagem, passando pelos hábitos interioranos dos franceses e as diferenças culturais, tudo é contado em detalhes, com descrições deslumbrantes e um humor refinado e irresistível.

Saboreie os comentários sobre os pastis, os azeites e a comida; encante-se com a humildade dos cozinheiros anônimos capazes de superar grandes chefs parisienses; divirta-se com as implicâncias de um vizinho belicoso que faz de tudo para expulsar os turistas; alegre-se com as pitorescas corridas de cabras; e espante-se com a força do perturbador vento mistral, que arranca telhas e destrói encanamentos.

Livros de receitas e guias da região costumam nos seduzir com refeições fartas, coloridas e apetitosas, plantações de lavanda, belíssimos vinhedos e céus azuis. Mas nada como conhecer o relato em primeira mão de quem deixou a cidade grande para se entregar à experiência de desfrutar tudo isso, num local onde o tempo é governado pelas estações, não pelos dias.

Todos os prazeres rústicos da vida provençal estão reunidos neste retrato fascinante, misto de caderno de viagens, crônica e romance – obra que deve ser degustada como o melhor dos vinhos.

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Ficha técnica
Lançamento 04/06/2013
Título original
Tradução
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 240
Peso 270 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-7542-940-2
EAN 9788575429402
Preço R$ 34,90
Ficha técnica e-book
eISBN 9788575429419
Preço R$ 24,99
Lançamento 04/06/2013
Título original
Tradução
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 240
Peso 270 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-7542-940-2
EAN 9788575429402
Preço R$ 34,90

E-book

eISBN 9788575429419
Preço R$ 24,99

Leia um trecho do livro

Janeiro

O ano começou com um almoço.

Apesar de toda a alegria forçada e dos beijos e brindes à meia-noite, sempre achamos a véspera de ano-novo uma ocasião deprimente, com seus excessos de última hora e suas resoluções predestinadas ao fracasso. Por isso, quando soubemos que ali no povoado de Lacoste, a alguns quilômetros de distância, o proprietário do Le Simiane estava oferecendo à sua clientèle um almoço de seis pratos, acompanhado de champanhe rosé, esse nos pareceu um modo mais prazeroso de iniciar os doze meses seguintes.

O pequeno restaurante de paredes de pedra estava lotado já às 12h30. Encontravam-se ali algumas barrigas de se tirar o chapéu: famílias inteiras com a forma física resultante da dedicação de duas ou três horas à mesa todos os dias; os olhos baixos e a conversa deixada para depois, no cumprimento do ritual preferido dos franceses. O dono do restaurante, homem que, não se sabe como, tinha aperfeiçoado a arte de adejar, apesar de seu tamanho respeitável, trajava um smoking de veludo e gravata-borboleta. Seu bigode, alisado com brilhantina, vibrava com entusiasmo enquanto ele descrevia, enlevado, o menu: foie gras, musse de lagosta, carne en croûte, saladas servidas com azeite extravirgem, queijos selecionados pessoalmente, sobremesas de uma leveza inacreditável, digestifs. Era uma ária gastronômica que ele interpretava a cada mesa, beijando com tanta frequência a ponta dos dedos que deve ter ferido os lábios.

Quando o último “bon appétit” foi pronunciado, um quase silêncio amistoso tomou conta do restaurante à medida que a refeição recebia a merecida atenção. Enquanto comíamos, minha mulher e eu recordávamos outros dias de ano-novo, em sua maioria passados na Inglaterra, debaixo de um manto impenetrável de nuvens. Era difícil associar ao dia 1o de janeiro o sol e o céu de um azul intenso; mas, como todos não paravam de nos dizer, isso era perfeitamente normal. Afinal de contas, estávamos na Provence.

Estivéramos ali muitas vezes como turistas, loucos por nossa cota anual de duas ou três semanas de calor de verdade e luz forte. Quando íamos embora, entristecidos e com o nariz descascando, prometíamos a nós mesmos que um dia iríamos morar ali. Falávamos sobre isso durante os prolongados invernos cinzentos e os verões verdes, cheios de umidade. Com a obsessão de um viciado, olhávamos fotografias de vinhedos e feiras de povoados. Tínhamos o sonho de acordar com o sol entrando pela janela do quarto. E agora, de certo modo para nossa própria surpresa, ali estávamos. Nosso comprometimento era total. Tínhamos comprado uma casa, feito aulas de francês, nos despedido, despachado nossas duas cadelas e nos tornado estrangeiros.

No final, tudo acontecera bem depressa – quase por impulso – por conta da casa. Nós a vimos em uma tarde e antes do jantar já estávamos morando nela em pensamento.

Ela se situava acima da estrada rural que liga os dois povoados medievais montanhosos de Ménerbes e Bonnieux, ao final de uma trilha de terra batida, em meio a cerejeiras e videiras. Era um mas, ou casa rural, construído com pedras da região, que por conta de duzentos anos de exposição ao vento e ao sol tinha adquirido uma cor desbotada entre o caramelo e o cinza-claro. Sua existência teve início no século XVIII com apenas um aposento. E, no estilo imprevisível das construções agrícolas, a casa tinha se ampliado para dar abrigo a filhos, avós, cabras e equipamentos até se tornar uma construção de três andares assimétricos.

Tudo nela era sólido. A escada em espiral que ia desde a adega de vinhos até o andar mais alto era feita de pesadas lajes de pedra. As paredes, algumas com 1 metro de espessura, foram construídas para não deixar entrar o vento mistral, que, ao que dizem, pode arrancar as orelhas de um burro. Anexo aos fundos da casa ficava um pátio murado e, depois dele, uma piscina de pedra branca descorada. Havia três poços, árvores que já proporcionavam boa sombra e esguios ciprestes verdes, cercas vivas de alecrim e uma gigantesca amendoeira. Ao sol da tarde, com as venezianas de madeira semicerradas como pálpebras sonolentas, ela era irresistível.

Além disso, estava protegida dos horrores do desenvolvimento imobiliário. Os franceses têm uma queda por construir jolies villas onde quer que o código de edificações permita, e às vezes onde ele não permite, especialmente em áreas rurais até então belas e intocadas. Tínhamos visto essa epidemia medonha em torno da antiga cidadezinha de Apt: caixas feitas daquele tipo especial de cimento cor-de-rosa lívido que permanece lívido, por mais que seja atacado pelas condições climáticas. Pouquíssimas áreas rurais da França estão a salvo, a não ser que tenham sido oficialmente tombadas, e uma das grandes vantagens dessa casa era sua localização dentro de um parque nacional, sagrado para o patrimônio francês, ao qual as betoneiras não tinham acesso.

As montanhas Lubéron começam a subir imediatamente atrás da casa até atingir seu ponto mais elevado a mais de mil metros de altura; e seus contrafortes acidentados se estendem por mais de 60 quilômetros de leste a oeste. Cedros, pinheiros e carvalhos mantêm a paisagem perpetuamente verde e fornecem abrigo para javalis, coelhos e aves de caça. Flores silvestres, tomilho, lavandas e cogumelos crescem entre as rochas e à sombra das árvores; do cume, num dia claro, veem-se de um lado os Baixos Alpes e do outro o Mediterrâneo. Durante a maior parte do ano pode-se caminhar por oito ou nove horas sem que se aviste um carro ou um ser humano sequer. O maciço Lubéron é uma extensão de nosso quintal dos fundos com 100 mil hectares, um paraíso para os cães e uma barricada permanente contra ataques surpresa por parte de vizinhos inesperados.

Descobrimos que no campo os vizinhos assumem uma importância que nem de longe têm nas cidades. Alguém pode morar anos num apartamento em Londres ou Nova York e mal falar com as pessoas que moram a 15 centímetros de distância, do outro lado de uma parede. No interior, porém, mesmo que você esteja separado da outra casa por centenas de metros, os vizinhos fazem parte da sua vida, e você, da deles. Se por acaso você for estrangeiro e, portanto, ligeiramente exótico, será inspecionado com um interesse acima do comum. Além disso, se com sua compra você herdar algum acordo agrícola delicado e de longa vigência, logo perceberá que seus atos e decisões terão impacto direto sobre o bem-estar de outra família.

Fomos apresentados aos novos vizinhos pelo casal que nos vendeu a casa, ao longo de um jantar de cinco horas de duração, que se distinguiu por uma enorme boa vontade de todos os envolvidos e, de nossa parte, por uma incapacidade quase total de compreender o que era dito. A língua falada era o francês, mas não o francês que aprendemos nos livros e ouvimos nas fitas cassete. Era um patoá rico e forte, que emanava de algum ponto no fundo da garganta e passava por um processo de codificação nas fossas nasais antes de sair como fala. Sons parcialmente familiares podiam ser quase identificados como palavras em meio às correntes e redemoinhos do provençal: demain passava a ser demang, vin passava a ser vang e maison, mesong. Isso em si não teria sido grande problema se as palavras fossem pronunciadas na velocidade normal de uma conversa e sem grandes floreios, mas elas disparavam como balas de metralhadora, muitas vezes com mais uma vogal grudada no final da palavra, para completar. E assim, o oferecimento de um pouco mais de pão – a primeira matéria no curso de francês para iniciantes – saía como uma pergunta fanhosa: Encoredupanga?

Felizmente, o bom humor e a simpatia dos nossos vizinhos eram evidentes, mesmo que o que dissessem fosse um mistério. Henriette era uma morena baixinha e bonita, com um sorriso permanente e o entusiasmo de uma velocista para chegar ao fim de cada frase em tempo recorde. Seu marido, Faustin – ou Faustang, como durante muitas semanas achamos que se escrevia seu nome –, era grande e gentil, sem pressa em seus movimentos e relativamente vagaroso com as palavras. Tinha nascido no vale, passado a vida inteira no vale e no vale morreria. O pai dele, Pépé André, que morava ao seu lado, havia matado seu último javali aos 80 anos, e desistira de caçar para se dedicar à bicicleta. Duas vezes por semana, ele pedalava até o povoado para comprar mantimentos e ouvir as últimas fofocas. Parecia uma família feliz.

Eles tinham, porém, uma preocupação conosco, não só como vizinhos mas como parceiros em potencial; e através da névoa resultante do fumo de rolo e do marc, além do nevoeiro ainda mais denso do sotaque, acabamos chegando ao cerne da questão.

A maior parte dos 2,5 hectares de terra que compramos com a casa possuía videiras, que havia anos eram cuidadas de acordo com o tradicional sistema de métayage: o proprietário da terra fornece o capital para pagar as mudas de renovação e o fertilizante, ao passo que o agricultor se encarrega da pulverização, da colheita e da poda. Ao final da estação, o agricultor fica com dois terços do lucro; e o proprietário, com um terço. Se a propriedade muda de dono, o acordo pode ser revisto, e essa era a preocupação de Faustin. Sabia-se que muitas das propriedades no Lubéron eram compradas como résidences secondaires, usadas para férias e lazer, sendo sua boa terra cultivável transformada em jardins rebuscados. Havia até mesmo casos do cúmulo da blasfêmia, em que videiras foram arrancadas para dar lugar a quadras de tênis. Quadras de tênis! Faustin encolhia os ombros, sem acreditar, e suas sobrancelhas se erguiam no mesmo movimento enquanto ele refletia sobre a ideia absurda de trocar vinhedos valiosos pelo estranho prazer de correr atrás de uma bolinha no calor do verão.

Ele não precisava ter se preocupado. Nós adorávamos as vinhas: sua disposição organizada em contraste com a expansão desordenada das montanhas; a forma como passavam do verde-claro para um verde mais escuro, para o amarelo e o vermelho à medida que a primavera e o verão davam lugar ao outono; a fumaça azul na estação da poda, quando os galhos secos eram queimados; os campos nus no inverno, coalhados com seus cepos podados – elas pertenciam àquele lugar. Quadras de tênis e jardins criados por paisagistas, não. (Por sinal, esse também não era o lugar para nossa piscina, mas pelo menos ela não havia substituído nenhum vinhedo.) Além do mais, não podíamos nos esquecer do vinho. Tínhamos a opção de receber nosso lucro em dinheiro ou em produção, e nossa parte da colheita seria de uns mil litros de vinho comum tinto e rosé em um ano normal. Com a maior ênfase que nosso francês capenga nos permitiu, dissemos a Faustin que seria um prazer manter o acordo existente. Ele ficou radiante. Percebeu que nós todos iríamos nos dar muito bem. Um dia, talvez até conseguíssemos conversar.

Pairando à porta, o proprietário do Le Simiane nos desejou um feliz ano-novo enquanto estávamos ali em pé, na rua estreita, ofuscados pelo sol.

– Nada mau, hein? – disse ele, com o floreio de um braço de veludo que envolveu o povoado, as ruínas do castelo do Marquês de Sade empoleirado no alto, a vista das montanhas do outro lado e o céu luminoso, límpido. Era um gesto informal de posse, como se ele estivesse nos mostrando uma propriedade particular. – É uma felicidade viver na Provence.

É verdade, pensamos, sem dúvida é uma felicidade. Se isso era inverno, não iríamos precisar de toda a parafernália para o frio – botas, casacos e suéteres de quase três centímetros de espessura – que tínhamos trazido da Inglaterra. Seguimos para casa, aquecidos e bem alimentados, fazendo apostas sobre quanto faltava para o primeiro mergulho do ano e sentindo uma compaixão condescendente por aquelas pobres criaturas de climas mais rigorosos que precisam suportar invernos de verdade.

Enquanto isso, alguns milhares de quilômetros ao norte, o vento que tinha começado na Sibéria estava ganhando velocidade para a parte final de sua viagem. Já tínhamos ouvido histórias sobre o mistral. Ele enlouquecia as pessoas e os animais. Era uma circunstância atenuante em crimes violentos. Soprava quinze dias sem parar, arrancando árvores, virando automóveis, quebrando janelas, jogando velhinhas na sarjeta, destroçando postes telegráficos, uivando pelas casas como um fantasma frio e maligno, causando la grippe, brigas domésticas, faltas no trabalho, dores de dente, enxaquecas. Todo problema na Provence cuja culpa não pudesse ser atribuída aos políticos era decorrente do sâcré vent, do qual os provençais falavam com uma espécie de orgulho masoquista.

Típico exagero gaulês, pensávamos. Se precisassem aguentar as tempestades de vento que se formam no canal da Mancha e fazem com que a chuva bata no rosto das pessoas quase na horizontal, aí, sim, eles teriam alguma ideia de como é um vento de verdade. Nós ouvíamos as histórias com atenção e, para agradar o interlocutor, fingíamos estar impressionados.

Foi assim que nos descobrimos mal preparados quando o primeiro mistral do ano desceu uivando pelo vale do Ródano, virou à esquerda e colidiu direto com o lado oeste da casa, com força suficiente para fazer voar telhas, jogando-as dentro da piscina, e arrancar das dobradiças uma janela que tinha sido deixada aberta por descuido. A temperatura baixou 20 graus em 24 horas. Desceu até zero e em seguida até seis graus negativos. Em Marselha foi registrada uma velocidade do vento de 180 quilômetros por hora. Minha mulher cozinhava de sobretudo. Eu tentava datilografar usando luvas. Paramos de falar naquele primeiro mergulho do ano e começamos a sonhar com aquecimento central. E então, um dia, pela manhã, com o som de galhos que se quebram, os canos da casa estouraram, um após o outro, sob a pressão da água que tinha congelado neles durante a noite.

Estavam pendendo da parede, inchados e entupidos de gelo, quando Monsieur Menicucci os estudou com seu olhar profissional de encanador.

– Oh là là – disse ele. – Oh là là. – Ele se voltou para o jovem aprendiz, que invariavelmente chamava de jeune homme ou de jeune. – Está vendo o que aconteceu aqui, jeune? Canos desprotegidos. Nenhuma calefação. Encanamentos da Côte d’Azur. Para Nice ou para Cannes serviriam, mas para cá…

Ele estalou a língua em sinal de reprovação, agitando o dedo diante do nariz do jeune para ressaltar a diferença entre os invernos amenos do litoral e o frio cortante em que agora estávamos, e puxou com firmeza seu gorro de lã para cobrir as orelhas. Era baixinho, com o corpo perfeito para ser encanador, como costumava dizer, porque conseguia se espremer em espaços apertados que homens mais desajeitados considerariam inacessíveis. Enquanto esperávamos que jeune pusesse em funcionamento o maçarico, Monsieur Menicucci proferiu a primeira de uma série de palestras e seleções de pensées, que eu ouviria com prazer cada vez maior ao longo do ano que se iniciava. Naquele dia, tratava-se de uma dissertação geofísica sobre o crescente rigor dos invernos provençais.

Havia três anos seguidos que os invernos vinham sendo visivelmente mais rigorosos do que qualquer um podia se lembrar. Tão frios, na realidade, a ponto de matar oliveiras velhíssimas. Para usar a expressão que surge na Provence sempre que o sol se esconde, aquilo era pas normal. Mas por quê? Só para constar, Monsieur Menicucci me permitiu dois segundos para refletir sobre esse fenômeno antes de enveredar pela sua tese, cutucando-me com o dedo de vez em quando para se certificar de que eu prestava atenção.

Segundo ele, os ventos que traziam o frio da Rússia estavam chegando à Provence com velocidade maior do que no passado, levando menos tempo para alcançar seu destino e, portanto, tendo menos oportunidade de se aquecer no caminho. E o motivo para isso – aqui Monsieur Menicucci se permitiu uma pausa breve porém dramática – estava numa alteração da configuração da crosta terrestre. Mais oui. Em algum ponto entre a Sibéria e Ménerbes a curvatura da terra estava mais plana, possibilitando ao vento um caminho mais direto para o sul. Era de uma lógica cristalina. Infelizmente, a segunda parte da aula (Por Que a Terra Está Ficando Mais Plana) foi interrompida pelo estouro de mais um cano, e minha instrução foi deixada de lado a fim de abrir espaço para um trabalho primoroso com o maçarico.

A influência das condições do tempo nos habitantes da Provence é imediata e evidente. Eles esperam que todos os dias sejam ensolarados, e sua disposição de humor sofre quando isso não ocorre. Veem a chuva como uma afronta pessoal que os faz balançar a cabeça e se compadecer uns dos outros nos cafés; olhar para o céu com ar de profunda suspeita, como se uma praga de gafanhotos estivesse prestes a se abater sobre eles; e ziguezaguear, com repulsa, entre as poças da calçada. Se qualquer coisa pior do que um dia chuvoso acontece, como, por exemplo, essa onda de temperaturas abaixo de zero, o resultado é espantoso: a maior parte da população desaparece.

À medida que o frio começou a ficar cortante, a partir de meados de janeiro, as cidadezinhas e os povoados se aquietaram. As feiras semanais, normalmente apinhadas e barulhentas, ficaram reduzidas a uma guarnição mínima de feirantes intrépidos, dispostos a correr o risco de congelarem em troca do seu sustento, batendo com os pés e bebericando de garrafas térmicas. Os fregueses passavam depressa, compravam e iam embora, mal parando para contar o troco. Os bares fechavam hermeticamente suas portas e janelas, mantendo-se em atividade em meio a uma fumaça de cheiro penetrante. Nas ruas não se via nada da costumeira falta de pressa.

Nosso vale hibernou, e eu senti falta dos sons que assinalavam a passagem de cada dia quase com a precisão de um relógio: o galo de Faustin que tossia pela manhã; o estrépito enlouquecido – como o de porcas e parafusos tentando fugir de dentro de uma lata de biscoitos – do pequeno furgão Citroën que leva todo lavrador para casa à hora do almoço; a esperançosa saraivada de um caçador, em sua patrulha da tarde nas vinhas na encosta do morro do outro lado; o choro distante de uma motosserra na floresta; a serenata dos cachorros de fazenda, no crepúsculo. Agora havia apenas o silêncio. Por horas a fio, o vale permanecia totalmente deserto e calado. Ficamos curiosos. O que todo mundo estava fazendo?

Janeiro

O ano começou com um almoço.

Apesar de toda a alegria forçada e dos beijos e brindes à meia-noite, sempre achamos a véspera de ano-novo uma ocasião deprimente, com seus excessos de última hora e suas resoluções predestinadas ao fracasso. Por isso, quando soubemos que ali no povoado de Lacoste, a alguns quilômetros de distância, o proprietário do Le Simiane estava oferecendo à sua clientèle um almoço de seis pratos, acompanhado de champanhe rosé, esse nos pareceu um modo mais prazeroso de iniciar os doze meses seguintes.

O pequeno restaurante de paredes de pedra estava lotado já às 12h30. Encontravam-se ali algumas barrigas de se tirar o chapéu: famílias inteiras com a forma física resultante da dedicação de duas ou três horas à mesa todos os dias; os olhos baixos e a conversa deixada para depois, no cumprimento do ritual preferido dos franceses. O dono do restaurante, homem que, não se sabe como, tinha aperfeiçoado a arte de adejar, apesar de seu tamanho respeitável, trajava um smoking de veludo e gravata-borboleta. Seu bigode, alisado com brilhantina, vibrava com entusiasmo enquanto ele descrevia, enlevado, o menu: foie gras, musse de lagosta, carne en croûte, saladas servidas com azeite extravirgem, queijos selecionados pessoalmente, sobremesas de uma leveza inacreditável, digestifs. Era uma ária gastronômica que ele interpretava a cada mesa, beijando com tanta frequência a ponta dos dedos que deve ter ferido os lábios.

Quando o último “bon appétit” foi pronunciado, um quase silêncio amistoso tomou conta do restaurante à medida que a refeição recebia a merecida atenção. Enquanto comíamos, minha mulher e eu recordávamos outros dias de ano-novo, em sua maioria passados na Inglaterra, debaixo de um manto impenetrável de nuvens. Era difícil associar ao dia 1o de janeiro o sol e o céu de um azul intenso; mas, como todos não paravam de nos dizer, isso era perfeitamente normal. Afinal de contas, estávamos na Provence.

Estivéramos ali muitas vezes como turistas, loucos por nossa cota anual de duas ou três semanas de calor de verdade e luz forte. Quando íamos embora, entristecidos e com o nariz descascando, prometíamos a nós mesmos que um dia iríamos morar ali. Falávamos sobre isso durante os prolongados invernos cinzentos e os verões verdes, cheios de umidade. Com a obsessão de um viciado, olhávamos fotografias de vinhedos e feiras de povoados. Tínhamos o sonho de acordar com o sol entrando pela janela do quarto. E agora, de certo modo para nossa própria surpresa, ali estávamos. Nosso comprometimento era total. Tínhamos comprado uma casa, feito aulas de francês, nos despedido, despachado nossas duas cadelas e nos tornado estrangeiros.

No final, tudo acontecera bem depressa – quase por impulso – por conta da casa. Nós a vimos em uma tarde e antes do jantar já estávamos morando nela em pensamento.

Ela se situava acima da estrada rural que liga os dois povoados medievais montanhosos de Ménerbes e Bonnieux, ao final de uma trilha de terra batida, em meio a cerejeiras e videiras. Era um mas, ou casa rural, construído com pedras da região, que por conta de duzentos anos de exposição ao vento e ao sol tinha adquirido uma cor desbotada entre o caramelo e o cinza-claro. Sua existência teve início no século XVIII com apenas um aposento. E, no estilo imprevisível das construções agrícolas, a casa tinha se ampliado para dar abrigo a filhos, avós, cabras e equipamentos até se tornar uma construção de três andares assimétricos.

Tudo nela era sólido. A escada em espiral que ia desde a adega de vinhos até o andar mais alto era feita de pesadas lajes de pedra. As paredes, algumas com 1 metro de espessura, foram construídas para não deixar entrar o vento mistral, que, ao que dizem, pode arrancar as orelhas de um burro. Anexo aos fundos da casa ficava um pátio murado e, depois dele, uma piscina de pedra branca descorada. Havia três poços, árvores que já proporcionavam boa sombra e esguios ciprestes verdes, cercas vivas de alecrim e uma gigantesca amendoeira. Ao sol da tarde, com as venezianas de madeira semicerradas como pálpebras sonolentas, ela era irresistível.

Além disso, estava protegida dos horrores do desenvolvimento imobiliário. Os franceses têm uma queda por construir jolies villas onde quer que o código de edificações permita, e às vezes onde ele não permite, especialmente em áreas rurais até então belas e intocadas. Tínhamos visto essa epidemia medonha em torno da antiga cidadezinha de Apt: caixas feitas daquele tipo especial de cimento cor-de-rosa lívido que permanece lívido, por mais que seja atacado pelas condições climáticas. Pouquíssimas áreas rurais da França estão a salvo, a não ser que tenham sido oficialmente tombadas, e uma das grandes vantagens dessa casa era sua localização dentro de um parque nacional, sagrado para o patrimônio francês, ao qual as betoneiras não tinham acesso.

As montanhas Lubéron começam a subir imediatamente atrás da casa até atingir seu ponto mais elevado a mais de mil metros de altura; e seus contrafortes acidentados se estendem por mais de 60 quilômetros de leste a oeste. Cedros, pinheiros e carvalhos mantêm a paisagem perpetuamente verde e fornecem abrigo para javalis, coelhos e aves de caça. Flores silvestres, tomilho, lavandas e cogumelos crescem entre as rochas e à sombra das árvores; do cume, num dia claro, veem-se de um lado os Baixos Alpes e do outro o Mediterrâneo. Durante a maior parte do ano pode-se caminhar por oito ou nove horas sem que se aviste um carro ou um ser humano sequer. O maciço Lubéron é uma extensão de nosso quintal dos fundos com 100 mil hectares, um paraíso para os cães e uma barricada permanente contra ataques surpresa por parte de vizinhos inesperados.

Descobrimos que no campo os vizinhos assumem uma importância que nem de longe têm nas cidades. Alguém pode morar anos num apartamento em Londres ou Nova York e mal falar com as pessoas que moram a 15 centímetros de distância, do outro lado de uma parede. No interior, porém, mesmo que você esteja separado da outra casa por centenas de metros, os vizinhos fazem parte da sua vida, e você, da deles. Se por acaso você for estrangeiro e, portanto, ligeiramente exótico, será inspecionado com um interesse acima do comum. Além disso, se com sua compra você herdar algum acordo agrícola delicado e de longa vigência, logo perceberá que seus atos e decisões terão impacto direto sobre o bem-estar de outra família.

Fomos apresentados aos novos vizinhos pelo casal que nos vendeu a casa, ao longo de um jantar de cinco horas de duração, que se distinguiu por uma enorme boa vontade de todos os envolvidos e, de nossa parte, por uma incapacidade quase total de compreender o que era dito. A língua falada era o francês, mas não o francês que aprendemos nos livros e ouvimos nas fitas cassete. Era um patoá rico e forte, que emanava de algum ponto no fundo da garganta e passava por um processo de codificação nas fossas nasais antes de sair como fala. Sons parcialmente familiares podiam ser quase identificados como palavras em meio às correntes e redemoinhos do provençal: demain passava a ser demang, vin passava a ser vang e maison, mesong. Isso em si não teria sido grande problema se as palavras fossem pronunciadas na velocidade normal de uma conversa e sem grandes floreios, mas elas disparavam como balas de metralhadora, muitas vezes com mais uma vogal grudada no final da palavra, para completar. E assim, o oferecimento de um pouco mais de pão – a primeira matéria no curso de francês para iniciantes – saía como uma pergunta fanhosa: Encoredupanga?

Felizmente, o bom humor e a simpatia dos nossos vizinhos eram evidentes, mesmo que o que dissessem fosse um mistério. Henriette era uma morena baixinha e bonita, com um sorriso permanente e o entusiasmo de uma velocista para chegar ao fim de cada frase em tempo recorde. Seu marido, Faustin – ou Faustang, como durante muitas semanas achamos que se escrevia seu nome –, era grande e gentil, sem pressa em seus movimentos e relativamente vagaroso com as palavras. Tinha nascido no vale, passado a vida inteira no vale e no vale morreria. O pai dele, Pépé André, que morava ao seu lado, havia matado seu último javali aos 80 anos, e desistira de caçar para se dedicar à bicicleta. Duas vezes por semana, ele pedalava até o povoado para comprar mantimentos e ouvir as últimas fofocas. Parecia uma família feliz.

Eles tinham, porém, uma preocupação conosco, não só como vizinhos mas como parceiros em potencial; e através da névoa resultante do fumo de rolo e do marc, além do nevoeiro ainda mais denso do sotaque, acabamos chegando ao cerne da questão.

A maior parte dos 2,5 hectares de terra que compramos com a casa possuía videiras, que havia anos eram cuidadas de acordo com o tradicional sistema de métayage: o proprietário da terra fornece o capital para pagar as mudas de renovação e o fertilizante, ao passo que o agricultor se encarrega da pulverização, da colheita e da poda. Ao final da estação, o agricultor fica com dois terços do lucro; e o proprietário, com um terço. Se a propriedade muda de dono, o acordo pode ser revisto, e essa era a preocupação de Faustin. Sabia-se que muitas das propriedades no Lubéron eram compradas como résidences secondaires, usadas para férias e lazer, sendo sua boa terra cultivável transformada em jardins rebuscados. Havia até mesmo casos do cúmulo da blasfêmia, em que videiras foram arrancadas para dar lugar a quadras de tênis. Quadras de tênis! Faustin encolhia os ombros, sem acreditar, e suas sobrancelhas se erguiam no mesmo movimento enquanto ele refletia sobre a ideia absurda de trocar vinhedos valiosos pelo estranho prazer de correr atrás de uma bolinha no calor do verão.

Ele não precisava ter se preocupado. Nós adorávamos as vinhas: sua disposição organizada em contraste com a expansão desordenada das montanhas; a forma como passavam do verde-claro para um verde mais escuro, para o amarelo e o vermelho à medida que a primavera e o verão davam lugar ao outono; a fumaça azul na estação da poda, quando os galhos secos eram queimados; os campos nus no inverno, coalhados com seus cepos podados – elas pertenciam àquele lugar. Quadras de tênis e jardins criados por paisagistas, não. (Por sinal, esse também não era o lugar para nossa piscina, mas pelo menos ela não havia substituído nenhum vinhedo.) Além do mais, não podíamos nos esquecer do vinho. Tínhamos a opção de receber nosso lucro em dinheiro ou em produção, e nossa parte da colheita seria de uns mil litros de vinho comum tinto e rosé em um ano normal. Com a maior ênfase que nosso francês capenga nos permitiu, dissemos a Faustin que seria um prazer manter o acordo existente. Ele ficou radiante. Percebeu que nós todos iríamos nos dar muito bem. Um dia, talvez até conseguíssemos conversar.

Pairando à porta, o proprietário do Le Simiane nos desejou um feliz ano-novo enquanto estávamos ali em pé, na rua estreita, ofuscados pelo sol.

– Nada mau, hein? – disse ele, com o floreio de um braço de veludo que envolveu o povoado, as ruínas do castelo do Marquês de Sade empoleirado no alto, a vista das montanhas do outro lado e o céu luminoso, límpido. Era um gesto informal de posse, como se ele estivesse nos mostrando uma propriedade particular. – É uma felicidade viver na Provence.

É verdade, pensamos, sem dúvida é uma felicidade. Se isso era inverno, não iríamos precisar de toda a parafernália para o frio – botas, casacos e suéteres de quase três centímetros de espessura – que tínhamos trazido da Inglaterra. Seguimos para casa, aquecidos e bem alimentados, fazendo apostas sobre quanto faltava para o primeiro mergulho do ano e sentindo uma compaixão condescendente por aquelas pobres criaturas de climas mais rigorosos que precisam suportar invernos de verdade.

Enquanto isso, alguns milhares de quilômetros ao norte, o vento que tinha começado na Sibéria estava ganhando velocidade para a parte final de sua viagem. Já tínhamos ouvido histórias sobre o mistral. Ele enlouquecia as pessoas e os animais. Era uma circunstância atenuante em crimes violentos. Soprava quinze dias sem parar, arrancando árvores, virando automóveis, quebrando janelas, jogando velhinhas na sarjeta, destroçando postes telegráficos, uivando pelas casas como um fantasma frio e maligno, causando la grippe, brigas domésticas, faltas no trabalho, dores de dente, enxaquecas. Todo problema na Provence cuja culpa não pudesse ser atribuída aos políticos era decorrente do sâcré vent, do qual os provençais falavam com uma espécie de orgulho masoquista.

Típico exagero gaulês, pensávamos. Se precisassem aguentar as tempestades de vento que se formam no canal da Mancha e fazem com que a chuva bata no rosto das pessoas quase na horizontal, aí, sim, eles teriam alguma ideia de como é um vento de verdade. Nós ouvíamos as histórias com atenção e, para agradar o interlocutor, fingíamos estar impressionados.

Foi assim que nos descobrimos mal preparados quando o primeiro mistral do ano desceu uivando pelo vale do Ródano, virou à esquerda e colidiu direto com o lado oeste da casa, com força suficiente para fazer voar telhas, jogando-as dentro da piscina, e arrancar das dobradiças uma janela que tinha sido deixada aberta por descuido. A temperatura baixou 20 graus em 24 horas. Desceu até zero e em seguida até seis graus negativos. Em Marselha foi registrada uma velocidade do vento de 180 quilômetros por hora. Minha mulher cozinhava de sobretudo. Eu tentava datilografar usando luvas. Paramos de falar naquele primeiro mergulho do ano e começamos a sonhar com aquecimento central. E então, um dia, pela manhã, com o som de galhos que se quebram, os canos da casa estouraram, um após o outro, sob a pressão da água que tinha congelado neles durante a noite.

Estavam pendendo da parede, inchados e entupidos de gelo, quando Monsieur Menicucci os estudou com seu olhar profissional de encanador.

– Oh là là – disse ele. – Oh là là. – Ele se voltou para o jovem aprendiz, que invariavelmente chamava de jeune homme ou de jeune. – Está vendo o que aconteceu aqui, jeune? Canos desprotegidos. Nenhuma calefação. Encanamentos da Côte d’Azur. Para Nice ou para Cannes serviriam, mas para cá…

Ele estalou a língua em sinal de reprovação, agitando o dedo diante do nariz do jeune para ressaltar a diferença entre os invernos amenos do litoral e o frio cortante em que agora estávamos, e puxou com firmeza seu gorro de lã para cobrir as orelhas. Era baixinho, com o corpo perfeito para ser encanador, como costumava dizer, porque conseguia se espremer em espaços apertados que homens mais desajeitados considerariam inacessíveis. Enquanto esperávamos que jeune pusesse em funcionamento o maçarico, Monsieur Menicucci proferiu a primeira de uma série de palestras e seleções de pensées, que eu ouviria com prazer cada vez maior ao longo do ano que se iniciava. Naquele dia, tratava-se de uma dissertação geofísica sobre o crescente rigor dos invernos provençais.

Havia três anos seguidos que os invernos vinham sendo visivelmente mais rigorosos do que qualquer um podia se lembrar. Tão frios, na realidade, a ponto de matar oliveiras velhíssimas. Para usar a expressão que surge na Provence sempre que o sol se esconde, aquilo era pas normal. Mas por quê? Só para constar, Monsieur Menicucci me permitiu dois segundos para refletir sobre esse fenômeno antes de enveredar pela sua tese, cutucando-me com o dedo de vez em quando para se certificar de que eu prestava atenção.

Segundo ele, os ventos que traziam o frio da Rússia estavam chegando à Provence com velocidade maior do que no passado, levando menos tempo para alcançar seu destino e, portanto, tendo menos oportunidade de se aquecer no caminho. E o motivo para isso – aqui Monsieur Menicucci se permitiu uma pausa breve porém dramática – estava numa alteração da configuração da crosta terrestre. Mais oui. Em algum ponto entre a Sibéria e Ménerbes a curvatura da terra estava mais plana, possibilitando ao vento um caminho mais direto para o sul. Era de uma lógica cristalina. Infelizmente, a segunda parte da aula (Por Que a Terra Está Ficando Mais Plana) foi interrompida pelo estouro de mais um cano, e minha instrução foi deixada de lado a fim de abrir espaço para um trabalho primoroso com o maçarico.

A influência das condições do tempo nos habitantes da Provence é imediata e evidente. Eles esperam que todos os dias sejam ensolarados, e sua disposição de humor sofre quando isso não ocorre. Veem a chuva como uma afronta pessoal que os faz balançar a cabeça e se compadecer uns dos outros nos cafés; olhar para o céu com ar de profunda suspeita, como se uma praga de gafanhotos estivesse prestes a se abater sobre eles; e ziguezaguear, com repulsa, entre as poças da calçada. Se qualquer coisa pior do que um dia chuvoso acontece, como, por exemplo, essa onda de temperaturas abaixo de zero, o resultado é espantoso: a maior parte da população desaparece.

À medida que o frio começou a ficar cortante, a partir de meados de janeiro, as cidadezinhas e os povoados se aquietaram. As feiras semanais, normalmente apinhadas e barulhentas, ficaram reduzidas a uma guarnição mínima de feirantes intrépidos, dispostos a correr o risco de congelarem em troca do seu sustento, batendo com os pés e bebericando de garrafas térmicas. Os fregueses passavam depressa, compravam e iam embora, mal parando para contar o troco. Os bares fechavam hermeticamente suas portas e janelas, mantendo-se em atividade em meio a uma fumaça de cheiro penetrante. Nas ruas não se via nada da costumeira falta de pressa.

Nosso vale hibernou, e eu senti falta dos sons que assinalavam a passagem de cada dia quase com a precisão de um relógio: o galo de Faustin que tossia pela manhã; o estrépito enlouquecido – como o de porcas e parafusos tentando fugir de dentro de uma lata de biscoitos – do pequeno furgão Citroën que leva todo lavrador para casa à hora do almoço; a esperançosa saraivada de um caçador, em sua patrulha da tarde nas vinhas na encosta do morro do outro lado; o choro distante de uma motosserra na floresta; a serenata dos cachorros de fazenda, no crepúsculo. Agora havia apenas o silêncio. Por horas a fio, o vale permanecia totalmente deserto e calado. Ficamos curiosos. O que todo mundo estava fazendo?

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Peter Mayle

Sobre o autor

Peter Mayle

Trabalhou durante 15 anos no ramo da publicidade, primeiro como redator e depois como relutante executivo. Em 1973, lançou seu primeiro livro, De onde viemos?, voltado para o público infantil. Quatorze anos depois, largou tudo, mudou-se para a França e passou a se dedicar inteiramente à literatura. Um ano na Provence, seu maior sucesso, já foi traduzido para 38 idiomas e vendeu mais de 5 milhões de exemplares no mundo inteiro. Entre outros títulos publicados no Brasil estão Em busca de CézanneQualquer propostaEncore ProvenceLições de francêsUm bom anoToujours ProvenceHotel Pastis e Gostos adquiridos. Por conta do impacto que seus livros tiveram em atrair visitantes para a França, o governo francês deu ao autor o título de Cavaleiro da Legião de Honra em 2002.

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