Comece onde você está | Sextante
Livro

Comece onde você está

Pema Chödrön

Um guia para transformar as dores e as dificuldades da vida em oportunidades para desenvolver a alegria genuína e o crescimento pessoal.

“Este livro é sobre o despertar do coração. Ele servirá como guia para quem deseja saber o que fazer para que o seu autêntico cora­ção compassivo se manifeste.” – PEMA CHÖDRÖN

 

Todos nós queremos ser destemidos e alegres, mas sabemos que isso não é tão fácil. Somos diariamente bombardeados com falsas promessas para tornar nossa vida melhor.

Mas Pema Chödrön mostra que, até chegarmos ao coração de quem somos e nos tornarmos amigos de nós mesmos, tudo o que fizermos será superficial.

Neste livro, ela ensina como ir além de tentativas fugazes de “consertar” a nossa dor, aceitando a vida como ela é e entendendo a necessidade de abraçar – em vez de negar – as dificuldades.

Esses ensinamentos, reunidos em 59 máximas tradicionais do budismo tibetano, trazem mensagens como: “Sempre medite sobre tudo que provoca ressentimento”, “Seja grato a todos” e “Não espere aplauso”.

Usando essas máximas como meditações diárias, Comece onde você está revela como podemos desenvolver a coragem para lidar com o sofrimento e descobrir uma fonte inesgotável de alegria, bem-estar e confiança.

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Ficha técnica
Lançamento 17/04/2020
Título original Start Where You Are
Tradução Helenice Gouvêa
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 192
Peso 390 g
Acabamento brochura
ISBN 978-85-431-0956-5
EAN 9788543109565
Preço R$ 49,90
Ficha técnica e-book
eISBN 978-85-431-0957-2
Preço R$ 29,99
Ficha técnica audiolivro
ISBN 9786555644968
Duração 06h 40min
Locutor Elaine Correia
Lançamento 17/04/2020
Título original Start Where You Are
Tradução Helenice Gouvêa
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 192
Peso 390 g
Acabamento brochura
ISBN 978-85-431-0956-5
EAN 9788543109565
Preço R$ 49,90

E-book

eISBN 978-85-431-0957-2
Preço R$ 29,99

Audiolivro

ISBN 9786555644968
Duração 06h 40min
Locutor Elaine Correia
Preço US$ 7,99

Leia um trecho do livro

Prefácio

 

Este livro é sobre o despertar do coração. Ele servirá como guia para quem deseja saber o que fazer para que o seu autêntico coração compassivo se manifeste.

Nos dias de hoje, em que tantas pessoas procuram ajuda para lidar com os próprios sentimentos de dor ao mesmo tempo que desejam aliviar o sofrimento que veem ao seu redor, os antigos ensinamentos aqui apresentados são especialmente encorajadores e oportunos. Há instruções sobre como podemos nos abrir quando percebemos que estamos nos fechando para nós mesmos e para os outros. E também sobre como aprender a doar, quando nossa tendência é reter. O que é indesejável, aquilo que rejeitamos em nós mesmos e nos demais, pode ser visto e sentido com honestidade e compaixão. Estes ensinamentos nos mostram como não recuar e ser capaz de dar apoio aos demais

Tive meu primeiro contato com esses ensinamentos através do texto The Great Path of Awakening (A grande trilha do despertar), do mestre tibetano do século XIX Jamgön Kongtrül, o Grande. Chamados de ensinamentos lojong, eles incluem a meditação tonglen e a prática de trabalhar com os sete pontos do treinamento da mente, contidos em um antigo texto tibetano escrito por Chekawa Yeshe Dorje e denominado Texto-raiz dos sete pontos do treinamento da mente (ver Apêndice).

Lojong significa “treinamento da mente”. Os ensinamentos lojong são organizados a partir de sete pontos, contendo 59 máximas enérgicas que lembram o que devemos fazer para despertar o coração. Trabalhar com as máximas é o ponto central deste livro. Esses ensinamentos pertencem à escola mahayana do budismo, que enfatiza a comunicação e o relacionamento compassivo com os outros. Eles também nos ajudam a perceber que a sensação de haver um “eu” e um “outro” – ambos isolados e separados – não passa de um doloroso mal-entendido que podemos esclarecer e abandonar.

Tonglen significa “dar e tomar”. Essa prática de meditação visa ajudar pessoas comuns como nós a entrar em contato com a abertura e suavidade do próprio coração. Por meio do tonglen, em vez de proteger nossos pontos vulneráveis, nós nos permitimos sentir o que é ser humano. Com isso, conseguimos ampliar nosso círculo de compaixão. Espero que este livro possa trazer a todos esse encorajamento.

Quando li pela primeira vez os ensinamentos lojong, senti-me tocada pela mensagem pouco habitual de que podemos usar nossas dificuldades e problemas para despertar o coração. Em vez de encarar os aspectos indesejáveis da vida como obstáculos, Jamgön Kongtrül os apresentava como a matéria-prima necessária para despertar uma compaixão genuína e sem artifícios: podemos começar no ponto em que estamos. Embora os ensinamentos de Kongtrül enfatizem principalmente o ato de tomar para si o sofrimento dos outros, fica evidente, nos dias de hoje, que o primeiro passo deve ser desenvolver compaixão por nosso próprio sofrimento. Este livro repete diversas vezes que a compaixão incondicional em relação a nós mesmos conduz naturalmente à compaixão incondicional pelos outros. Se estivermos dispostos a ocupar plenamente o lugar que nos pertence e nunca desistir de nós mesmos, seremos capazes de nos colocar no lugar dos outros e nunca desistir deles. A compaixão verdadeira não decorre de querer ajudar os que são menos afortunados, mas de perceber nossa afinidade com todos os seres.

Mais tarde, ouvi essas instruções apresentadas de forma mais atualizada por meu próprio mestre, Chögyam Trungpa Rinpoche, que depois publicou seus ensinamentos no livro Training the Mind and Cultivating Loving-Kindness (Treinando a mente e cultivando a bondade amorosa). Trungpa Rinpoche dizia que havia recebido essas lições ainda bem jovem e que sentira um grande alívio ao descobrir que o budismo podia ser tão prático e útil na vida cotidiana. Ele se sentiu inspirado ao perceber que podemos trazer tudo que encontramos para o caminho, usando os acontecimentos para despertar nossa inteligência, compaixão e capacidade de ter uma nova visão.

No inverno de 1992 e 1993, conduzi dathuns – períodos de prática de um mês – inteiramente dedicados aos ensinamentos lojong e à meditação tonglen. À medida que as inevitáveis frustrações e dificuldades da vida diária surgiam, os participantes se empenharam em colocar essas instruções em prática. Víamos o dathun como uma oportunidade para levá-las a sério e aplicá-las a todas as situações, principalmente àquelas que, de modo geral, teríamos preferido ignorar, ou às quais reagiríamos criticando ou culpando alguém. Ou seja, encaramos o dathun como uma oportunidade de usar os ensinamentos para nos relacionar diretamente – com a mente e o coração abertos – com a agressividade, o desejo e a rejeição que víamos em nós mesmos e nos demais.

Os ensinamentos lojong apresentam a possibilidade de uma completa mudança de atitude, mesmo para os que não estão familiarizados com a meditação: podemos nos relacionar de forma compassiva com o que gostaríamos de manter a distância e aprender a doar e compartilhar aquilo a que mais nos apegamos.

Para aqueles que se consideram preparados para praticar a meditação sentada e a meditação tonglen, e acham que podem trabalhar com as máximas lojong de forma permanente, este pode ser o começo de um belo aprendizado sobre o que realmente significa amar. Este é um método que fornece muito espaço, de forma que as pessoas possam se descontrair e se tornar mais abertas. Este é o caminho para um viver solidário incondicional e destina- -se principalmente àqueles que estão passando por momentos de escuridão. Que ele possa beneficiá-los.

 

 

 Não há saída, não há problema

 

Já temos tudo de que precisamos. Não há necessidade de autoaprimoramento. O opressivo medo de ser mau e o desejo de ser bom, a identidade a que tão amorosamente nos apegamos, a raiva, a inveja e os vícios de todo tipo nunca atingem nossa riqueza fundamental. São como nuvens que temporariamente encobrem o sol. Mas, o tempo todo, nosso calor e brilho estão bem aqui. Isso é o que realmente somos. Estamos a um piscar de olhos do completo despertar.

Não costumamos olhar para nós mesmos dessa forma. Por esse ponto de vista, não precisamos mudar: podemos ser tão deploráveis quanto quisermos e, ainda assim, somos bons candidatos à iluminação. Podemos nos sentir um caso irremediavelmente perdido, mas esse sentimento é nossa riqueza e não algo que deva ser jogado fora ou que precise ser melhorado. Há beleza em todas as coisas de que não gostamos nem um pouco e que preferiríamos manter a distância. O que nos dá prazer – aquilo que amamos profundamente em nós mesmos e que nos faz sentir algum tipo de orgulho ou inspiração – também é nossa riqueza.

Com as práticas apresentadas neste livro, você pode começar exatamente no ponto em que está. Se está com raiva, carente ou em depressão, as práticas aqui descritas foram feitas sob medida para você. Elas servirão de estímulo para que use o que é indesejável em sua vida para despertar compaixão por si mesmo e pelos demais. Essas práticas nos ensinam a aceitar quem somos, a ter um relacionamento direto com o sofrimento e a parar de fugir dos aspectos dolorosos da nossa existência. Elas nos mostram como lidar de coração aberto com a vida, do jeito que ela é.

Quando ouvimos falar em compaixão, naturalmente pensamos em trabalhar com os demais, cuidar deles. Frequentemente, não damos apoio aos outros – seja um filho, a mãe, ou alguém que nos insulta ou amedronta – porque não damos apoio a nós mesmos. Algumas de nossas características são tão indesejáveis que tentamos escapar sempre que elas começam a aparecer.

Fugir nos faz perder continuamente a oportunidade de estar aqui, de estar bem aqui, neste ponto. Deixamos passar o momento presente. Entretanto, se formos capazes de experimentá-lo, descobriremos que ele é único, precioso e completamente novo. Ele nunca se repete. Podemos apreciar e celebrar cada momento – não há nada mais sagrado. Não há nada mais vasto ou absoluto. Na verdade, não há mais nada!

Somente à medida que conhecermos nossa dor pessoal e nos relacionarmos com ela seremos corajosos e valentes o bastante para estar dispostos a sentir a dor dos outros. Só então seremos capazes de encarar o sofrimento dos demais porque teremos descoberto que a dor deles não é diferente da nossa.

Entretanto, para isso, precisamos de toda a ajuda que pudermos conseguir. Minha esperança é que este livro possa fornecê-la. As ferramentas que você receberá são três práticas que servem de grande apoio:

  1. Meditação sentada básica (denominada meditação shamatha-vipashyana)
  2. Prática de dar e tomar (chamada de tonglen)
  3. Prática de trabalhar com as máximas (denominada os sete pontos do treinamento da mente ou lojong)

 

Todas essas práticas despertam nossa confiança de que a sabedoria e a compaixão de que necessitamos já estão dentro de nós. Elas nos levam a conhecer melhor nossas partes rudes e suaves, nossa paixão, agressividade, ignorância e sabedoria. As pessoas ferem umas às outras, o planeta está poluído, as coisas não vão muito bem para os seres humanos e os animais porque não nos conhecemos, não confiamos uns nos outros nem nos amamos suficientemente. A técnica da meditação sentada, denominada shamatha-vipashyana (“tranquilidade-percepção intuitiva”), é como uma chave de ouro que nos auxilia a alcançar o autoconhecimento.

 

 

MEDITAÇÃO SHAMATHA-VIPASHYANA

 

Na meditação shamatha-vipashyana, sentamos com a coluna reta, as pernas cruzadas e os olhos abertos, as mãos repousando sobre as coxas. Então, simplesmente tomamos consciência de nossa respiração no momento em que expiramos. Estar bem ali, acompanhando a expiração, exige precisão. Por outro lado, esse é um processo bastante descontraído e suave. Dizer “estar bem ali, acompanhando a expiração” é o mesmo que dizer “estar plenamente presente”. É estar exatamente ali, haja o que houver. Enquanto ficamos atentos à expiração, podemos perceber também o que acontece ao nosso redor – os sons que vêm da rua, a luz refletida nas paredes. É possível que esses outros fatores capturem um pouco de nossa atenção, mas não precisamos ser arrastados por eles. Continuamos sentados, conscientes da expiração.

Acompanhar a expiração, porém, é apenas uma parte da técnica. Os pensamentos que continuamente percorrem nossa mente constituem a outra parte. Ficamos sentados, tendo uma conversa interior. Quando percebemos nossos pensamentos, a instrução nos diz que devemos rotulá-los: “pensando”. Se nossa mente começa a divagar, devemos dizer internamente: “pensando”. Não importa se esses pensamentos são violentos, apaixonados ou cheios de ignorância e rejeição; se contêm preocupação ou medo; se são espiritualizados, agradáveis ou nos dizem quanto estamos indo bem; se são encorajadores ou enaltecedores. Sem julgamentos e sem severidade, simplesmente devemos rotular todos eles como “pensando”. E devemos fazer isso com gentileza e honestidade.

O contato com a respiração é leve: apenas cerca de 25% da consciência permanece nela. Não nos agarramos nem nos fixamos. Estamos abertos, permitindo que a respiração se misture ao espaço, deixando que ela simplesmente flua para fora. Então, ocorre algo como uma pausa, uma lacuna, até a próxima expiração. Enquanto inspiramos, pode haver certa sensação de apenas estar aberto e à espera. É como tocar a campainha e aguardar que alguém venha abrir a porta. Então tocamos mais uma vez e esperamos. Provavelmente, nossa mente vai divagar e perceberemos que estamos pensando de novo – nesse momento, usamos a técnica de rotular.

É importante manter-se fiel à técnica, mas, se você sentir que está usando o rótulo de forma severa e negativa, como se estivesse dizendo “Droga!”, se estiver sendo duro consigo mesmo, diga outra vez, de forma mais leve. Não se trata de tentar abater os pensamentos a tiros, como se eles fossem um alvo no ar. Em vez disso, seja gentil. Use a parte da técnica que se refere a rotular como uma oportunidade para desenvolver suavidade e compaixão por si mesmo. Na arena da meditação, tudo que surge é aceito.

O sentido está em poder olhar honestamente sua experiência e fazer amizade com ela.

Embora seja constrangedor e doloroso, parar de se esconder de si mesmo tem um grande poder de cura. Nós nos curamos quando entramos em contato com todas as nossas formas de escapulir, nossos esconderijos, nossa repressão, negação, fechamento e crítica aos outros. Todas as nossas pequenas esquisitices. Podemos olhar para esses aspectos com um certo senso de humor e bondade. Quando nos conhecemos, passamos a conhecer a totalidade da condição humana. Todos nós temos as mesmas dificuldades – estamos todos no mesmo barco. Portanto, quando perceber que está falando internamente, rotule “pensando” e observe qual é o tom de sua voz. Deixe que ele seja compassivo, gentil e bem-humorado. Com isso, você estará mudando velhos padrões arraigados, compartilhados por todos os seres humanos. A compaixão pelos outros começa com bondade consigo mesmo.*

 

 

A PRÁTICA LOJONG

 

A prática e os ensinamentos lojong são o coração deste livro. Lojong (ou treinamento da mente) possui dois elementos: a prática, que é a meditação tonglen, e os ensinamentos, sob a forma de máximas.

O fundamento básico de lojong é que podemos fazer amizade com aquilo que rejeitamos, com o que vemos como “mau” em nós mesmos e nos demais. Ao mesmo tempo, podemos aprender a ser generosos com aquilo de que gostamos, com o que consideramos “bom”. Quando começamos a viver desse modo, alguma coisa em nós, talvez esquecida há muito tempo, começa a amadurecer. Tradicionalmente, essa “alguma coisa” é chamada de bodhichitta ou coração desperto. É algo que já possuímos, mas, de modo geral, ainda não descobrimos.

É como se fôssemos pobres, desabrigados, passando fome e frio e, embora não soubéssemos, houvesse um pote de ouro bem embaixo do local onde sempre dormimos. Esse tesouro é como o bodhichitta. Nossa confusão e infelicidade decorrem de não sabermos que o ouro está bem aqui e de estarmos sempre procurando por ele em outro lugar. Quando falamos em alegria, em iluminação, em acordar ou despertar o bodhichitta, tudo isso significa que sabemos que esse tesouro está exatamente aqui e percebemos que esse é o lugar onde ele sempre esteve.

A mensagem básica dos ensinamentos lojong é a de que, quando há sofrimento, podemos aprender a puxar nossa cadeira para mais perto dessa dor. Inverter o padrão costumeiro de separar-se e escapar. Ir contra o movimento habitual e não se mover. Lojong introduz uma atitude diferente em relação àquilo que não desejamos: quando sofremos, passamos a estar dispostos não apenas a suportar a dor, mas a deixar que essa experiência desperte nosso coração e nos suavize. Aprendemos a abraçar a situação.

Quando uma experiência é agradável ou prazerosa, geralmente queremos agarrá-la e fazer com que dure. Temos medo de que ela acabe e não sentimos vontade de compartilhá-la. Os ensinamentos lojong nos encorajam, nesses casos, a pensar nos demais e desejar que sintam o mesmo. Distribuir nossa riqueza e alegria, dar aquilo que mais queremos, repartir generosamente nossas intuições e prazeres. Em vez de temer que tudo isso escape de nós, em vez de nos apegarmos, começamos a dividir com os outros.

Quer se trate de prazer ou dor, através da prática lojong passamos a permitir que nossa experiência seja o que ela é, sem tentar manipular, afastar ou agarrar as situações. Os aspectos prazerosos e dolorosos da condição humana tornam-se a chave para despertar o bodhichitta.

Há um ditado que representa o princípio fundamental da prática do tonglen e das máximas: “Ganho e vitória para os outros, perda e derrota para mim.” A palavra tibetana para orgulho ou arrogância é nga-gyal, que, literalmente, significa “eu vitorioso”. Eu, em primeiro lugar. O ego. Esse tipo de atitude “eu vitorioso” é a causa de todo sofrimento.

Em essência, o que esse pequeno ditado quer dizer é que palavras como vitória e derrota estão completamente entrelaçadas com o modo pelo qual nos protegemos, com a forma pela qual guardamos nosso coração. Nosso sentimento de vitória apenas significa que guardamos nosso coração o bastante para que nada o penetre e, assim, achamos que vencemos a guerra. A armadura em torno desse ponto vulnerável – nosso coração ferido – torna-se mais fortificada e nosso mundo fica menor. Talvez nada consiga nos assustar durante uma semana inteira, mas nossa coragem começa a diminuir e nossa intenção de cuidar dos demais fica completamente obscurecida. Será que realmente vencemos a guerra?

Por outro lado, a sensação de ser derrotado significa que alguma coisa nos penetrou. Algo atingiu nosso ponto fraco e alcançou a vulnerabilidade que mantivemos protegida por tanto tempo. Talvez tenha sido apenas o roçar de uma borboleta, mas nunca havíamos sido tocados antes – e era um ponto tão sensível! Como tudo isso é novo, saímos, compramos cadeados, escudos e armas para nunca mais ter essa sensação. Vamos atrás de qualquer coisa – sete pares de botas que encaixem umas nas outras para não precisar sentir o chão, doze máscaras para que nosso verdadeiro rosto fique escondido, dezenove jogos de armaduras para que ninguém toque nossa pele – e isso sem falar no coração!

As palavras vitória e derrota estão profundamente interligadas com nosso aprisionamento. A verdadeira confusão é causada por não sabermos que possuímos riqueza ilimitada, e esse caos se aprofunda cada vez que aceitamos a lógica do ganhar/perder: se você me toca, isso é derrota; se eu consigo me proteger com uma armadura e não ser tocado, isso é vitória.

Perceber nossa riqueza poria um fim ao nosso atordoamento e confusão. Mas a única maneira de fazer isso é deixar que as coisas se desfaçam. Isso, porém, é exatamente o que mais tememos – é nossa suprema derrota. No entanto, deixar que tudo desmorone permitiria a entrada de ar fresco nesse porão velho e mofado que é nosso coração.

Dizer “Perda e derrota para mim” não significa tornar-se masoquista: “Chute minha cabeça, torture-me e, meu Deus, que eu nunca seja feliz.” Na verdade, isso quer dizer que podemos abrir nosso coração e nossa mente e saber como é sentir-se derrotado.

Você se acha baixo demais, passa mal do estômago, está muito gordo ou é muito estúpido. Você diz para si mesmo: “Ninguém me ama. Sou sempre deixado de lado. Não tenho dentes, meu cabelo está ficando branco, minha pele está cheia de manchas, meu nariz está escorrendo.” Tudo isso se encaixa na categoria da derrota – a derrota do ego. Nunca queremos ser quem somos. Entretanto, jamais nos conectaremos com nossa riqueza fundamental enquanto acreditarmos no apelo publicitário que nos diz que devemos ser outra pessoa, que devemos ter outro cheiro ou outra aparência.

Por outro lado, quando você diz “Vitória para os outros”, em vez do apego, há um sentimento de estar compartilhando todo o aspecto prazeroso da existência. De repente, você gosta do que vê no espelho, acha sua própria voz agradável, alguém se apaixona por você ou você se apaixona por alguém. Ou, talvez, as estações mudem e isso toque seu coração: você percebe a neve que cai ou as árvores que balançam ao vento. Com tudo que acontece, começa a desenvolver uma atitude de querer compartilhar, em vez de tornar-se avarento ou sentir medo.

Talvez as máximas o desafiem. Elas dizem coisas como “Não seja invejoso”, e você se pergunta: “Como ficaram sabendo?” Ao ouvir “Seja grato a todos”, talvez pense em como isso pode ser feito ou por que se dar ao trabalho. Algumas máximas, como “Sempre medite sobre tudo que provoca ressentimento”, exortam-no a ultrapassar o bom senso. As máximas nem sempre são o que gostaríamos de ouvir – e isso sem falar em tentar encontrar alguma inspiração nelas. Mas, se as praticarmos, serão como nossa respiração, nossa visão, nosso primeiro pensamento; serão como os cheiros que sentimos e os sons que ouvimos. Podemos deixar que permeiem todo o nosso ser. Aí está o sentido. As máximas não são teóricas ou abstratas. Elas se referem exatamente a quem somos e ao que nos acontece. Elas têm a ver com nossa maneira de experimentar as coisas e nos relacionar com tudo o que acontece na vida, com a forma pela qual lidamos com a dor, o medo, o prazer e a alegria – e como tudo isso pode nos transformar total e completamente. Quando trabalhamos com as máximas, a vida cotidiana torna-se o caminho da iluminação.

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Pema Chödrön

Sobre o autor

Pema Chödrön

PEMA CHÖDRÖN é uma monja budista americana. Uma das mais brilhantes discípulas do famoso mestre de meditação Chögyam Trungpa, é professora residente no mosteiro de Gampo Abbey, no Canadá. Conhecida no mundo inteiro por sua interpretação pé no chão do budismo tibetano, Pema se destaca no ensinamento das práticas de meditação e de cura para estudantes ocidentais. É autora de Palavras essenciais e Comece onde você está, da Editora Sextante, Quando tudo se desfaz, A beleza da vida e Sem tempo a perder, entre outras obras.  

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Veja no Blog da Sextante

Desvendando a sabedoria de Pema Chödrön
ESPIRITUALIDADE

Desvendando a sabedoria de Pema Chödrön

Nascida em Nova York em 1936, a monja Pema Chödrön é a face mais conhecida do budismo nos Estados Unidos. Seus ensinamentos oferecem uma maneira destemida de enfrentar cada momento da vida com sabedoria, coragem e compaixão.

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