MEDITAÇÂO

A prática do silêncio como uma nova forma de ser e estar no mundo

A prática do silêncio como uma nova forma de ser e estar no mundo

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A prática do silêncio como uma nova forma de ser e estar no mundo

Kankyo Tannier considera A magia do silêncio um manifesto espiritual. Ela, uma monja budista da tradição zen, foi criada numa família católica nos subúrbios de Paris e, na juventude, teve contato com o budismo por meio dos livros de Dalai Lama. Desde então, dia após dia, foi levada por uma força interior que a colocou no caminho do autoconhecimento. Está com os dois pés nele até hoje, embora se equilibre entre a tradição e a vida contemporânea. Mulher conectada, ela própria se define como uma monja do século 21, atenta às janelas virtuais – o livro foi escrito em seu notebook, entre idas ao campo e à cidade – e às singelezas da vida interior. É na costura dessas pontas que o silêncio se faz necessário. Silêncio como contraponto à cacofonia de uma sociedade hiperativa, ela defende. Silêncio como preceito para sentir mais e melhor. Silêncio como prática de vida. Silêncio como lugar seguro. Silêncio, por favor, já dizia a canção.

A filosofia já nos ensinou: o silêncio é de ouro. Por que não o praticamos mais?

“Para onde quer que eu olhasse, eu via a falta de calma e bem-estar no mundo moderno, em que nossas atividades incessantes aumentaram o volume a níveis insuportáveis”, explica Tannier a percepção que a levou ao tema. Considerada uma nova voz do budismo, a autora faz um esforço para ressaltar a importância da prática, mas evita dar ao livro o rótulo de manual, tampouco propõe uma mudança drástica àqueles que se interessarem pela experiência de ter o silêncio como aliado. Sua expansão se dá nos limites do cotidiano, sempre com leveza. “Será mais como salpicar algumas pitadas de consciência e concentração às suas atividades normais, como se acrescentasse um tempero sutil ao prato. Experimente e verá: o sabor das horas pode ser modificado, revelando aromas surpreendentes”, confirma.

Silêncio interior

Ao longo de sete capítulos, ela apresenta histórias reais que ressoam os benefícios do silêncio e propõe exercícios que ajudam a encontrá-lo. No primeiro deles, Tannier destaca o silêncio interior. Ou, em outras palavras, a capacidade de mudar nossa percepção diante de experiências  nas quais fugir do caos parece impossível. Essa conquista é parte de um caminho da sabedoria, “que nos permite ficar em paz nas situações tensas, em meio a universos sonoros sobrecarregados ou durante as crises emocionais”.

Uma das estratégias mais importantes diante da babel contemporânea é observar as sensações ruins que costumam acompanhá-la (raiva, humilhação ou impotência, por exemplo), reconhecê-las e deixá-las ir. Com esse controle, Tannier ensina, somos capazes de desenvolver um novo ritmo interno, um senso de calma que nos conduz a uma vida mais satisfatória. Estamos cercado por tantas manifestações intensas de imagens e sons que o silêncio amedronta, é encarado como sinônimo de vazio, mas é preciso ouvir o que esse silêncio nos ensina: “O silêncio gosta de se desenvolver na solidão. Quando falo ‘solidão’ quero dizer a sensação de estar em contato consigo mesmo. Ter espaço, tempo e liberdade para se conectar ao seu interior, estabelecendo uma relação de amizade verdadeira. Trata-se da solidão voluntária, escolhida; um refúgio confortável onde nos reabastecemos antes de encarar o mundo novamente”.

Não tenha medo, silencie ele também. Aprenda a se calar.

O ato de silenciar

Como deve estar claro, o silêncio é uma fonte de prazer para Tannier. Nem sempre foi assim. A descoberta não se deu na infância, época em que falava pelos cotovelos, mas começou a florescer quando teve contato contato com a ioga. Hoje, embora se sinta à vontade para conversar, prefere a posição de quem escuta e observa. “É o que me traz mais satisfação”, ratifica.

Ainda que encontre o bem-estar dessa maneira, a monja sustenta que o silêncio total das palavras é quase impossível de alcançar. Afinal, elas ainda cruzam nossa cabeça e se transformam naquela voz interior que, mesmo sem som, nos atiça por dentro, confunde e esclarece.

De fato, aprender a se calar requer dedicação. “A prática do silêncio verbal se choca cruelmente com nossa necessidade de ser vistos e ouvidos. E é por isso que algumas pessoas – sem dúvida mais sensíveis ao olhar do outro – se sentem pouco à vontade quando precisam permanecer em silêncio”. O desafio, no entanto, pressupõe uma transformação profunda na maneira de ser e estar no mundo.

Diante do silêncio, a vida se remodela, abrindo portas e janelas, pintando novas paisagens, aguçando nosso entendimento sobre nós mesmo e o que nos cerca: “Seja na cidade ou no campo, o homem que se cala percebe outro mundo: uma suspensão, uma pausa, uma energia. Ela sempre esteve ali ou apareceu porque agora prestamos atenção? Difícil saber, mas é como se os sons, dos mais próximos aos mais distantes, se oferecessem aos nossos ouvidos”, ressalta Tannier.

Dizem que as derradeiras palavras de Buda teriam sido essas: “Queridos discípulos: à multidão, prefiram a solidão. À agitação, a calma. Ao barulho, o silêncio”. 

Cinco lições de “A magia do silêncio”

–  “Emoções como a tristeza, a culpa ou a falta parecem durar muito mais, em grande parte, por serem constantemente ruminadas, repisadas, revividas. Se for apenas observada, uma emoção – um vazio – aparece e desaparece naturalmente. Se a deixarmos em paz e aceitarmos sua existência momentânea, a calma vai ressurgir em seguida”.

– “A poluição visual e a onipresença das telas têm em comum a capacidade de atrair nossa atenção para o exterior. E também de instalar sutilmente em nossa vida malfadada sensação de falta ou insatisfação latente, essa espécie de angústia quase permanente. A mente entra em ‘modo hiperativo’ ou ‘modo estresse’, pois busca do lado de fora a solução mágica para o mal-estar interior”.

– “No budismo, os pensamentos também são chamados de objetos mentais, considerando o objeto como algo que você pode colocar à sua frente para estudar. Transformar o conteúdo da mente em objeto físico nos permite observá-lo com mais facilidade”.

– “Poderíamos dizer que linguagem = rótulo. Mas então surge um problema: ao colarmos um rótulo sobre algo novo, por um lado o preenchemos, por outro o limitamos. O silêncio das palavras e dos conceitos, o retorno ao ‘vazio’ terminológico, nos ajuda a devolver o mundo a sua liberdade e as suas múltiplas possibilidades. Libertar-se dos conceitos é permanecer no espaço entre as palavras, nesse espaço inexpressivo onde nascem os unicórnios. É partir para a aventura sem nada nos bolsos”.

– “Gosto de imaginar a Terra como uma grande mãe contemplando com ternura a agitação frenética de seus filhos nos quatro cantos do globo. Eles correm, brigam, morrem, capturam peixes, enterram seus dejetos etc. São tão turbulentos que ela não sabe mais o que fazer! Quando a bagunça passa dos limites, ela diz basta!: um pequeno tsunami, uma erupção, um terremoto. A mãe coloca um pouco de ordem no pátio da escola antes de permitir que os pequenos voltem a brincar. Observando nossas ações, vejo a nós, seres humanos, como crianças mal-educadas, aprendendo pouco a pouco com os próprios erros. Porém o mais importante é que, todas as vezes que um de nós cai, pode explicar aos outros como ficar de pé. Alguns ouvem, outros não, então é preciso explicar de novo, com calma e serenidade. A estrada é longa e a Terra, bastante paciente”.

Este post foi escrito por:

Filipe Isensee

Filipe é jornalista, especialista em jornalismo cultural e mestrando do curso de Cinema e Audiovisual da UFF. Nasceu em Salvador, foi criado em Belo Horizonte e há oito anos mora no Rio de Janeiro, onde passou pelas redações dos jornais Extra e O Globo. Gosta de escrever: roteiros, dramaturgias, outras prosas e alguns poucos versos estão em seu radar.

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Filipe Isensee

Filipe é jornalista, especialista em jornalismo cultural e mestrando do curso de Cinema e Audiovisual da UFF. Nasceu em Salvador, foi criado em Belo Horizonte e há oito anos mora no Rio de Janeiro, onde passou pelas redações dos jornais Extra e O Globo. Gosta de escrever: roteiros, dramaturgias, outras prosas e alguns poucos versos estão em seu radar.

Livro

Kankyo Tannier

Monja budista da tradição zen e está sendo chamada de “a nova voz do budismo” por difundir a filosofia milenar com uma abordagem leve. Ela viveu por mais de quinze anos no mosteiro Ryumonji, na Alsácia, França, antes de se estabelecer em uma floresta próxima, cercada de árvores e animais. Formada em direito, professora de canto e oratória, hipnoterapeuta e cuidadora voluntária de cavalos, Kankyo oferece oficinas de meditação, escreve um blog sobre a espiritualidade cotidiana (dailyzen.fr), já palestrou no TEDX e mantém um blog no HuffingtonPost da França. Uma monja moderna que se dedica a espalhar ensinamentos para que todos conquistem uma vida mais tranquila e feliz.

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Celebrada como uma nova e original voz do budismo, a monja francesa Kankyo Tannier parte de sua rica experiência pessoal para nos mostrar o poder transformador da prática do silêncio. Não apenas o silêncio das palavras, mas também dos pensamentos (reduzindo julgamentos e críticas internas), dos olhos (evitando o excesso de informações) e do corpo […]

Kankyo Tannier

Monja budista da tradição zen e está sendo chamada de “a nova voz do budismo” por difundir a filosofia milenar com uma abordagem leve. Ela viveu por mais de quinze anos no mosteiro Ryumonji, na Alsácia, França, antes de se estabelecer em uma floresta próxima, cercada de árvores e animais. Formada em direito, professora de canto e oratória, hipnoterapeuta e cuidadora voluntária de cavalos, Kankyo oferece oficinas de meditação, escreve um blog sobre a espiritualidade cotidiana (dailyzen.fr), já palestrou no TEDX e mantém um blog no HuffingtonPost da França. Uma monja moderna que se dedica a espalhar ensinamentos para que todos conquistem uma vida mais tranquila e feliz.

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