O lado bom do lado ruim - Sextante
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AUTOAJUDA

O lado bom do lado ruim

O lado bom do lado ruim

DANIEL MARTINS DE BARROS

COMO A CIÊNCIA ENSINA A USAR A TRISTEZA, O MEDO, A RAIVA E OUTRAS EMOÇÕES NEGATIVAS A SEU FAVOR. 

Do mesmo autor do livro Pílulas de bem-estar.

 

Aprendemos desde cedo que o correto é estar feliz o tempo todo, e com isso acabamos desvalorizando as emoções negativas. Queremos negá-las, sufocá-las, eliminá-las do nosso caminho.

Neste livro, o psiquiatra e professor Daniel Martins de Barros nos mostra que as emoções desagradáveis não são sons incômodos que devem ser silenciados. Em vez disso, são alertas preciosos que nos chamam atenção para algo mais profundo que não vai bem na nossa vida.

Com leveza e uma linguagem simples e acessível, o autor conta vários casos pessoais e apresenta estudos científicos para nos ajudar a compreender esses avisos e a desenvolver mecanismos para atuar na origem dos nossos problemas.

Dessa forma, poderemos encontrar o equilíbrio entre as emoções, desenvolver nosso autoconhecimento e ter uma existência mais plena.

COMO A CIÊNCIA ENSINA A USAR A TRISTEZA, O MEDO, A RAIVA E OUTRAS EMOÇÕES NEGATIVAS A SEU FAVOR. 

Do mesmo autor do livro Pílulas de bem-estar.

 

Aprendemos desde cedo que o correto é estar feliz o tempo todo, e com isso acabamos desvalorizando as emoções negativas. Queremos negá-las, sufocá-las, eliminá-las do nosso caminho.

Neste livro, o psiquiatra e professor Daniel Martins de Barros nos mostra que as emoções desagradáveis não são sons incômodos que devem ser silenciados. Em vez disso, são alertas preciosos que nos chamam atenção para algo mais profundo que não vai bem na nossa vida.

Com leveza e uma linguagem simples e acessível, o autor conta vários casos pessoais e apresenta estudos científicos para nos ajudar a compreender esses avisos e a desenvolver mecanismos para atuar na origem dos nossos problemas.

Dessa forma, poderemos encontrar o equilíbrio entre as emoções, desenvolver nosso autoconhecimento e ter uma existência mais plena.

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Ficha técnica
Lançamento 19/02/2020
Título original
Tradução
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 160
Peso 260 g
Acabamento brochura
ISBN 978-85-431-0931-2
EAN 9788543109312
Preço R$ 39,90
Ficha técnica e-book
eISBN 978-85-431-0932-9
Preço R$ 24,99
Lançamento 19/02/2020
Título original
Tradução
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 160
Peso 260 g
Acabamento brochura
ISBN 978-85-431-0931-2
EAN 9788543109312
Preço R$ 39,90

E-book

eISBN 978-85-431-0932-9
Preço R$ 24,99

Leia um trecho do livro

Introdução

Pessoas praticamente perfeitas nunca permitem que o sentimento atrapalhe o próprio pensamento. — Mary Poppins

Este é um livro sobre emoções, principalmente as negativas. Mas não espere encontrar aqui uma forma de domá-las, muito menos de se livrar dos sentimentos ruins. Ao contrário do que recomendam os manuais de roteiro, eu já vou entregar logo de cara o fim do livro – atenção, lá vai spoiler: ninguém consegue se colocar acima das emoções. Nem se livrar da tristeza, da raiva ou do que quer que seja. Mas, antes de desistir de continuar lendo, saiba de uma coisa: essa é uma excelente notícia.

Como veremos ao longo da leitura, as emoções não existem por acaso. Elas foram inscritas em nosso cérebro por motivos bastante importantes e até hoje cumprem várias funções das quais não podemos abrir mão. Portanto, livrar-se de qualquer uma delas, embora às vezes pareça desejável, certamente acabaria sendo prejudicial.

Não sendo possível (nem saudável) acabar de vez com as emoções negativas, é preciso aprender a identificá-las, encará-las e chamá-las pelo nome. Pode parecer algo simples, mas, de tanto tentarmos ignorá-las, muitas vezes temos dificuldade em dizer exatamente o que estamos sentindo. E as pessoas com mais dificuldade para distinguir as emoções negativas não apenas sofrem mais – elas também têm maior risco de desenvolver depressão, pois, se não compreendem a mensagem enviada pelas emoções, não conseguem saber exatamente como resolver a situação.

 

Seja racional

Nós vemos as emoções com grande desconfiança. Acreditamos que, como seres racionais, devemos deixá-las de lado em nossas decisões, sejam elas profissionais, familiares ou mesmo afetivas. Porém, é irônico sugerir, por exemplo, que alguém, refletindo sobre um relacionamento amoroso, pense racionalmente – trata-se de uma relação afetiva, antes de qualquer coisa. Mas é assim que funciona: nós não confiamos na emoção.

E temos nossos motivos para isso.

Para começo de conversa, desde a Antiguidade clássica nós sabemos que a razão por vezes é perturbada pelas emoções. Já na Ilíada (escrita no século VIII a.C.), a perda de controle é mencionada em vários momentos. Num deles, Agamenon diz que foi vítima da “venerada Atê que ofusca a todos, aquela maldita! Ela (…) não se arrasta pelo chão, mas sobe à cabeça dos homens para obscurecer-lhes a mente…” Para Homero, a “Atê” era um estado de espírito transitório, capaz de turvar a racionalidade inerente à natureza humana. Tão súbita e intensa era a experiência que os gregos a atribuíam à influência das divindades. Hoje não colocamos mais a culpa no além, mas todos nós já experimentamos aquela sensação de olhar para trás e, arrependidos, atribuir a culpa por alguma bobagem que fizemos a uma forte emoção momentânea.

O filósofo escocês David Hume, que viveu no século XVIII, dizia que, na verdade, somos escravos das emoções. A razão só viria a reboque, tentando justificar com argumentos plausíveis as decisões tomadas instintivamente nas direções ditadas pelos afetos. Séculos mais tarde, as neurociências dariam a ele sua parcela de razão. O psicólogo social americano Jonathan Haidt mostrou em seus estudos que muitas de nossas decisões sobre certo e errado não são nada racionais – a primeira sinalização que temos sobre algo ser condenável é uma sensação, uma emoção negativa que intuitivamente nos diz que aquilo é errado. E essa emoção imediata e automática traça o caminho a ser trilhado inexoravelmente pelo raciocínio. Aqui cabe um comentário que explica muitos conflitos domésticos e brigas entre amigos atualmente: quando tomamos consciência de nossas opiniões, é porque a razão já fez um grande esforço para justificar a intuição, tornando difícil mudar de opinião.

A influência das emoções sobre nosso raciocínio é tão complexa que nós não somos capazes sequer de saber, quando estamos calmos, como nos comportaremos ao ser tomados por uma emoção. Os cientistas chamam esse fenômeno de “hot-cold empathy gap”, algo como “lacuna de empatia quente-fria”. A empatia é a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, entendendo seu ponto de vista e seu estado afetivo. Se conseguimos compreender tais estados nos outros, deveria ser fácil compreendermos nossas próprias reações, certo? Não necessariamente: nossa compreensão muda bastante em virtude de estarmos sendo racionais ou emocionais. Quando estamos de cabeça fria, não mobilizados por emoções, temos uma visão bastante imprecisa sobre como reagiremos em momentos de grande comoção, dominados por sentimentos. Mas de cabeça quente temos dificuldade de mensurar até que ponto as emoções estão influenciando nosso comportamento.

Esse é um tema que vem sendo cada vez mais estudado na área de tomada de decisão – suas consequências interessam a muita gente, de profissionais de marketing ávidos por compreender (e moldar) as decisões de compra dos consumidores até militares que precisam treinar soldados a decidir sob pressão. Existem várias experiências que demonstram cabalmente que não somos capazes de saber como vamos agir quando estamos emocionados, mas poucas são tão definitivas e divertidas quanto a que foi conduzida pelos economistas comportamentais Dan Ariely e George Loewenstein e publicada em 2006 com o significativo título “The Heat of the Moment: The Effect of Sexual Arousal on Sexual Decision Making” (O calor do momento: o efeito da excitação sexual na tomada de decisão sexual).

Ariely e Loewenstein fizeram uma série de perguntas a estudantes universitários do sexo masculino, investigando em que medida eles achavam interessantes determinadas práticas sexuais, até que ponto teriam atitudes moralmente questionáveis para conseguir fazer sexo e qual a chance de usarem preservativo em algumas situações. Uma vez respondidas as questões, os voluntários recebiam um computador que apresentava vídeos eróticos e então repetia as perguntas. Os rapazes deviam se excitar até chegar o mais perto possível do orgasmo e, no calor do momento, responder novamente às perguntas dentro de uma escala de 0 a 100, sendo 0 igual a “absolutamente não” e 100 “com certeza sim”.

Os resultados foram impressionantes. A simples questão “Sapatos femininos são eróticos?” teve nota média 42 no estado “frio” e passou para 65 no estado “quente”. “Você seria capaz de ter prazer no sexo com alguém que odeia?” subiu de 53 para 77. A pergunta “Você levaria uma pessoa a um restaurante chique para aumentar suas chances de fazer sexo com ela?” teve média de 55 pontos na fase inicial, saltando para 70 quando os participantes da pesquisa estavam excitados. Pior: “Você diria a uma mulher que a ama para aumentar as chances de fazer sexo com ela?” foi de 30 para 51 pontos. E “Num encontro você encorajaria alguém a beber para aumentar as chances de acabar em sexo?” subiu de preocupantes 46 para assustadores 61. Por outro lado, o efeito da excitação sobre as perguntas que diziam respeito à probabilidade de usar preservativo era o oposto – as pontuações despencavam. “Você usaria sempre preservativo se não soubesse o histórico sexual de uma nova parceira?” desceu de 88 para 69 pontos. E para coroar: “Você usaria preservativo mesmo receando que a mulher pudesse desistir de transar enquanto você fosse pegá-lo?” fez a pontuação descer de 86 para 60. Quer dizer, com a cabeça no lugar, todo mundo acha que será capaz de fazer o certo, mas, quando a hora H chega, parece que outra pessoa assume o comando.

 

Não seja tão racional

Por outro lado, sem emoção as interações sociais perdem muito em qualidade. Personagens extremamente racionais que o público tanto ama expõem com maestria essa contradição: Sherlock Holmes, o capitão Spock de Jornada nas estrelas e, mais recentemente, o físico Sheldon Cooper, queridinho dos fãs da série The Big Bang Theory. Todos eles encarnam, cada um a seu modo, o ideal do ser humano puramente racional, que não se deixa levar pelas emoções, agindo a cada momento de acordo com o que é mais lógico, dedutível e cientificamente embasado. No entanto, eles conquistam os fãs muito mais pelo embaraço que lhes causa viver uma vida sem emoções do que pela frieza – em vários momentos de interação social eles acabam se dando mal. Esses personagens nos cativam não só porque invejamos sua racionalidade, mas também porque suas dificuldades sociais nos mostram como seria complicado agir apenas racionalmente num mundo que nem sempre segue a pura lógica.

Esse foi o drama de Eliot, pseudônimo de um dos pacientes mais famosos da neurociência moderna. Antes da revolução tecnológica que nos deu conhecimento inédito sobre o funcionamento do cérebro por meio de tomografias e ressonâncias, muito do que sabíamos sobre esse órgão vinha do estudo de pacientes cujas lesões – e déficits resultantes – revelavam a função das regiões cerebrais.

Com Eliot foi diferente. No seu caso a lesão já era conhecida; o difícil era compreender seus efeitos. Ele tivera um tumor no lobo frontal do cérebro, cuja maior parte acabou sendo retirada para salvar sua vida. Mesmo sabendo disso, os médicos e psicólogos não compreendiam exatamente o que aconteceu com ele depois. A inteligência dele permaneceu intacta; a memória, preservada; a capacidade de raciocínio lógico, perfeita. Ainda assim, sua vida ia de mal a pior nos relacionamentos, no trabalho, em toda parte.

Até que o neurocientista António Damásio, examinando-o mais a fundo, descobriu que Eliot se tornara incapaz de sentir emoções. Ele não se emocionava diante de imagens tristes e chocantes mesmo que racionalmente soubesse o que deveria sentir. Era capaz de resolver charadas, solucionar dilemas; porém, não conseguia tomar decisões relacionadas à própria vida. Listava prós e contras, avaliava as variáveis, mas não era capaz de se decidir. Damásio criou, assim, a hipótese do marcador somático: nosso corpo (soma) o tempo todo envia, no nível emocional, não cognitivo, sinais que são essenciais para marcar quais cursos de ação são certos ou errados. Somente pela lógica seríamos incapazes até de decidir entre Coca-Cola ou Pepsi, sopa ou salada.

 

Emoções positivas e negativas

Mesmo depois de entender tudo isso, nós ainda ficamos desconfiados. Ok, as emoções positivas nós conseguimos aceitar. Tudo bem ficar alegre. Nada contra ter serenidade, sentir-se confiante ou experimentar qualquer das emoções celebradas nos livros que recheiam as prateleiras da seção de autoajuda.

Mas o que tem de bom em ficar triste? Qual a vantagem de sentir raiva? Existe algum lado bom no medo, no nojo? Acre ditamos que para ter sucesso precisamos conseguir nos livrar dessas emoções.

Aí é que nos enganamos.

Ao longo deste livro veremos que todas as emoções existem por uma razão e que, sejam agradáveis ou não, seus sinais são importantes para o autoconhecimento e para nos ajudar a navegar no mar das relações interpessoais. Sim, das nossas relações. Porque uma das funções mais importantes da expressão das emoções é fazer com que a gente consiga se comunicar com os outros, transmitir informações. E, como as notícias que precisamos dar nem sempre são boas, não ter emoções negativas seria como perder parte do nosso vocabulário.

Introdução

Pessoas praticamente perfeitas nunca permitem que o sentimento atrapalhe o próprio pensamento. — Mary Poppins

Este é um livro sobre emoções, principalmente as negativas. Mas não espere encontrar aqui uma forma de domá-las, muito menos de se livrar dos sentimentos ruins. Ao contrário do que recomendam os manuais de roteiro, eu já vou entregar logo de cara o fim do livro – atenção, lá vai spoiler: ninguém consegue se colocar acima das emoções. Nem se livrar da tristeza, da raiva ou do que quer que seja. Mas, antes de desistir de continuar lendo, saiba de uma coisa: essa é uma excelente notícia.

Como veremos ao longo da leitura, as emoções não existem por acaso. Elas foram inscritas em nosso cérebro por motivos bastante importantes e até hoje cumprem várias funções das quais não podemos abrir mão. Portanto, livrar-se de qualquer uma delas, embora às vezes pareça desejável, certamente acabaria sendo prejudicial.

Não sendo possível (nem saudável) acabar de vez com as emoções negativas, é preciso aprender a identificá-las, encará-las e chamá-las pelo nome. Pode parecer algo simples, mas, de tanto tentarmos ignorá-las, muitas vezes temos dificuldade em dizer exatamente o que estamos sentindo. E as pessoas com mais dificuldade para distinguir as emoções negativas não apenas sofrem mais – elas também têm maior risco de desenvolver depressão, pois, se não compreendem a mensagem enviada pelas emoções, não conseguem saber exatamente como resolver a situação.

 

Seja racional

Nós vemos as emoções com grande desconfiança. Acreditamos que, como seres racionais, devemos deixá-las de lado em nossas decisões, sejam elas profissionais, familiares ou mesmo afetivas. Porém, é irônico sugerir, por exemplo, que alguém, refletindo sobre um relacionamento amoroso, pense racionalmente – trata-se de uma relação afetiva, antes de qualquer coisa. Mas é assim que funciona: nós não confiamos na emoção.

E temos nossos motivos para isso.

Para começo de conversa, desde a Antiguidade clássica nós sabemos que a razão por vezes é perturbada pelas emoções. Já na Ilíada (escrita no século VIII a.C.), a perda de controle é mencionada em vários momentos. Num deles, Agamenon diz que foi vítima da “venerada Atê que ofusca a todos, aquela maldita! Ela (…) não se arrasta pelo chão, mas sobe à cabeça dos homens para obscurecer-lhes a mente…” Para Homero, a “Atê” era um estado de espírito transitório, capaz de turvar a racionalidade inerente à natureza humana. Tão súbita e intensa era a experiência que os gregos a atribuíam à influência das divindades. Hoje não colocamos mais a culpa no além, mas todos nós já experimentamos aquela sensação de olhar para trás e, arrependidos, atribuir a culpa por alguma bobagem que fizemos a uma forte emoção momentânea.

O filósofo escocês David Hume, que viveu no século XVIII, dizia que, na verdade, somos escravos das emoções. A razão só viria a reboque, tentando justificar com argumentos plausíveis as decisões tomadas instintivamente nas direções ditadas pelos afetos. Séculos mais tarde, as neurociências dariam a ele sua parcela de razão. O psicólogo social americano Jonathan Haidt mostrou em seus estudos que muitas de nossas decisões sobre certo e errado não são nada racionais – a primeira sinalização que temos sobre algo ser condenável é uma sensação, uma emoção negativa que intuitivamente nos diz que aquilo é errado. E essa emoção imediata e automática traça o caminho a ser trilhado inexoravelmente pelo raciocínio. Aqui cabe um comentário que explica muitos conflitos domésticos e brigas entre amigos atualmente: quando tomamos consciência de nossas opiniões, é porque a razão já fez um grande esforço para justificar a intuição, tornando difícil mudar de opinião.

A influência das emoções sobre nosso raciocínio é tão complexa que nós não somos capazes sequer de saber, quando estamos calmos, como nos comportaremos ao ser tomados por uma emoção. Os cientistas chamam esse fenômeno de “hot-cold empathy gap”, algo como “lacuna de empatia quente-fria”. A empatia é a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, entendendo seu ponto de vista e seu estado afetivo. Se conseguimos compreender tais estados nos outros, deveria ser fácil compreendermos nossas próprias reações, certo? Não necessariamente: nossa compreensão muda bastante em virtude de estarmos sendo racionais ou emocionais. Quando estamos de cabeça fria, não mobilizados por emoções, temos uma visão bastante imprecisa sobre como reagiremos em momentos de grande comoção, dominados por sentimentos. Mas de cabeça quente temos dificuldade de mensurar até que ponto as emoções estão influenciando nosso comportamento.

Esse é um tema que vem sendo cada vez mais estudado na área de tomada de decisão – suas consequências interessam a muita gente, de profissionais de marketing ávidos por compreender (e moldar) as decisões de compra dos consumidores até militares que precisam treinar soldados a decidir sob pressão. Existem várias experiências que demonstram cabalmente que não somos capazes de saber como vamos agir quando estamos emocionados, mas poucas são tão definitivas e divertidas quanto a que foi conduzida pelos economistas comportamentais Dan Ariely e George Loewenstein e publicada em 2006 com o significativo título “The Heat of the Moment: The Effect of Sexual Arousal on Sexual Decision Making” (O calor do momento: o efeito da excitação sexual na tomada de decisão sexual).

Ariely e Loewenstein fizeram uma série de perguntas a estudantes universitários do sexo masculino, investigando em que medida eles achavam interessantes determinadas práticas sexuais, até que ponto teriam atitudes moralmente questionáveis para conseguir fazer sexo e qual a chance de usarem preservativo em algumas situações. Uma vez respondidas as questões, os voluntários recebiam um computador que apresentava vídeos eróticos e então repetia as perguntas. Os rapazes deviam se excitar até chegar o mais perto possível do orgasmo e, no calor do momento, responder novamente às perguntas dentro de uma escala de 0 a 100, sendo 0 igual a “absolutamente não” e 100 “com certeza sim”.

Os resultados foram impressionantes. A simples questão “Sapatos femininos são eróticos?” teve nota média 42 no estado “frio” e passou para 65 no estado “quente”. “Você seria capaz de ter prazer no sexo com alguém que odeia?” subiu de 53 para 77. A pergunta “Você levaria uma pessoa a um restaurante chique para aumentar suas chances de fazer sexo com ela?” teve média de 55 pontos na fase inicial, saltando para 70 quando os participantes da pesquisa estavam excitados. Pior: “Você diria a uma mulher que a ama para aumentar as chances de fazer sexo com ela?” foi de 30 para 51 pontos. E “Num encontro você encorajaria alguém a beber para aumentar as chances de acabar em sexo?” subiu de preocupantes 46 para assustadores 61. Por outro lado, o efeito da excitação sobre as perguntas que diziam respeito à probabilidade de usar preservativo era o oposto – as pontuações despencavam. “Você usaria sempre preservativo se não soubesse o histórico sexual de uma nova parceira?” desceu de 88 para 69 pontos. E para coroar: “Você usaria preservativo mesmo receando que a mulher pudesse desistir de transar enquanto você fosse pegá-lo?” fez a pontuação descer de 86 para 60. Quer dizer, com a cabeça no lugar, todo mundo acha que será capaz de fazer o certo, mas, quando a hora H chega, parece que outra pessoa assume o comando.

 

Não seja tão racional

Por outro lado, sem emoção as interações sociais perdem muito em qualidade. Personagens extremamente racionais que o público tanto ama expõem com maestria essa contradição: Sherlock Holmes, o capitão Spock de Jornada nas estrelas e, mais recentemente, o físico Sheldon Cooper, queridinho dos fãs da série The Big Bang Theory. Todos eles encarnam, cada um a seu modo, o ideal do ser humano puramente racional, que não se deixa levar pelas emoções, agindo a cada momento de acordo com o que é mais lógico, dedutível e cientificamente embasado. No entanto, eles conquistam os fãs muito mais pelo embaraço que lhes causa viver uma vida sem emoções do que pela frieza – em vários momentos de interação social eles acabam se dando mal. Esses personagens nos cativam não só porque invejamos sua racionalidade, mas também porque suas dificuldades sociais nos mostram como seria complicado agir apenas racionalmente num mundo que nem sempre segue a pura lógica.

Esse foi o drama de Eliot, pseudônimo de um dos pacientes mais famosos da neurociência moderna. Antes da revolução tecnológica que nos deu conhecimento inédito sobre o funcionamento do cérebro por meio de tomografias e ressonâncias, muito do que sabíamos sobre esse órgão vinha do estudo de pacientes cujas lesões – e déficits resultantes – revelavam a função das regiões cerebrais.

Com Eliot foi diferente. No seu caso a lesão já era conhecida; o difícil era compreender seus efeitos. Ele tivera um tumor no lobo frontal do cérebro, cuja maior parte acabou sendo retirada para salvar sua vida. Mesmo sabendo disso, os médicos e psicólogos não compreendiam exatamente o que aconteceu com ele depois. A inteligência dele permaneceu intacta; a memória, preservada; a capacidade de raciocínio lógico, perfeita. Ainda assim, sua vida ia de mal a pior nos relacionamentos, no trabalho, em toda parte.

Até que o neurocientista António Damásio, examinando-o mais a fundo, descobriu que Eliot se tornara incapaz de sentir emoções. Ele não se emocionava diante de imagens tristes e chocantes mesmo que racionalmente soubesse o que deveria sentir. Era capaz de resolver charadas, solucionar dilemas; porém, não conseguia tomar decisões relacionadas à própria vida. Listava prós e contras, avaliava as variáveis, mas não era capaz de se decidir. Damásio criou, assim, a hipótese do marcador somático: nosso corpo (soma) o tempo todo envia, no nível emocional, não cognitivo, sinais que são essenciais para marcar quais cursos de ação são certos ou errados. Somente pela lógica seríamos incapazes até de decidir entre Coca-Cola ou Pepsi, sopa ou salada.

 

Emoções positivas e negativas

Mesmo depois de entender tudo isso, nós ainda ficamos desconfiados. Ok, as emoções positivas nós conseguimos aceitar. Tudo bem ficar alegre. Nada contra ter serenidade, sentir-se confiante ou experimentar qualquer das emoções celebradas nos livros que recheiam as prateleiras da seção de autoajuda.

Mas o que tem de bom em ficar triste? Qual a vantagem de sentir raiva? Existe algum lado bom no medo, no nojo? Acre ditamos que para ter sucesso precisamos conseguir nos livrar dessas emoções.

Aí é que nos enganamos.

Ao longo deste livro veremos que todas as emoções existem por uma razão e que, sejam agradáveis ou não, seus sinais são importantes para o autoconhecimento e para nos ajudar a navegar no mar das relações interpessoais. Sim, das nossas relações. Porque uma das funções mais importantes da expressão das emoções é fazer com que a gente consiga se comunicar com os outros, transmitir informações. E, como as notícias que precisamos dar nem sempre são boas, não ter emoções negativas seria como perder parte do nosso vocabulário.

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Daniel Martins de Barros

Sobre o autor

Daniel Martins de Barros

Daniel Martins de Barros é professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e médico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, além de doutor em Ciências e bacharel em Filosofia pela USP. É colunista do jornal e do portal O Estado de S. Paulo e da Rádio Band News FM, e consultor do programa Bem Estar, da Rede Globo. Mantém o canal Daniel Martins de Barros no YouTube, sobre cérebro e comportamento em geral. Além de livros técnicos, lançou obras como Viagem por dentro do cérebro, indicado ao prêmio Jabuti de 2014, O caso da menina sonhadora (ambos pela Panda Books), Machado de Assis: a loucura e as leis (Brasiliense), Além do consultório (Artmed), Exercícios de Argumentação (Matrix) e Pílulas de bem-estar, da Editora Sextante.

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