O trabalho no século XXI - Sextante
NÃO FICÇÃO

O trabalho no século XXI

DOMENICO DE MASI

Fadiga, ócio e criatividade na sociedade pós-industrial

Fadiga, ócio e criatividade na sociedade pós-industrial

 

Domenico De Masi analisa as transformações que o mundo do trabalho sofreu ao longo dos anos e responde a perguntas fundamentais sobre como essas mudanças influenciam a vida de todos nós.

 

 

Um dos pensadores mais influentes da atualidade, De Masi traça um panorama completo das relações de trabalho que se estabeleceram ao longo da história, da escravidão ao trabalho remoto impulsionado pela pandemia de Covid-19.

Indo além dos tradicionais estudos focados nas relações entre funcionário e fábrica, ele dedica igual atenção ao cansaço físico e mental, ao trabalho intelectual e às atividades criativas, que rompem a separação formal entre “trabalho” e “não trabalho”.

Com mais de 20 livros publicados, De Masi contribuiu para a elaboração do conceito de ócio criativo – uma síntese de trabalho, estudo e lazer – como base de um novo tipo de sociedade centrada na produção de informações, serviços, inovação, valores e estética.

Agora, com O trabalho no século XXI, ele lança luz sobre as possibilidades e os desafios que a sociedade pós-industrial apresenta e oferece um olhar surpreendentemente otimista sobre o futuro.

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Ficha técnica
Lançamento 14/06/2022
Título original Il Lavoro Nel XXI Secolo
Tradução Aline Leal
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 928
Peso 1000 g
Acabamento Brochura
ISBN 978-65-5564-305-3
EAN 9786555643053
Preço R$ 99,90
Ficha técnica e-book
eISBN 978-65-5564-306-0
Preço R$ 49,99
Lançamento 14/06/2022
Título original Il Lavoro Nel XXI Secolo
Tradução Aline Leal
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 928
Peso 1000 g
Acabamento Brochura
ISBN 978-65-5564-305-3
EAN 9786555643053
Preço R$ 99,90

E-book

eISBN 978-65-5564-306-0
Preço R$ 49,99

Leia um trecho do livro

PREFÁCIO

 

Todos os dias as primeiras páginas dos jornais falam de trabalho: por que falta, por que cansa, por que estressa, por que se transforma, por que custa, por que não rende. Quem não trabalha deseja trabalhar; quem trabalha gostaria de trabalhar menos ou de mudar de emprego. Esses problemas, que se repetem há anos e em toda parte, mostram-se cada vez mais insolúveis, embora as tecnologias avancem em prol dos trabalhadores. Quando uma solução é necessária, mas impossível, a situação se torna trágica. E trágica é a condição de quem odeia seu trabalho, perde o emprego ou não consegue encontrar uma ocupação em uma sociedade baseada justamente no trabalho.

Nasci em uma cidadezinha rural do sul da Itália quando lá ainda não havia energia elétrica nem água encanada. Ouvi rádio pela primeira vez quando tinha 8 anos e assisti à televisão pela primeira vez aos 16. Fui trabalhar em uma grande siderúrgica quando tinha 23 anos, e no ano seguinte vi um computador pela primeira vez. Fui um dos primeiros italianos a comprar um fax, a usar um celular, a assinar um plano de internet.

Tenho, portanto, a sorte inestimável de ter participado ativamente da transição da sociedade de um milenar sistema rural a uma bicentenária ordem industrial e a um inédito advento pós-industrial. Isso permitiu que eu saboreasse como novidades ou temesse como ameaças todas as incontáveis inovações tecnológicas que marcaram essa passagem e, com elas, todas as transformações antropológicas e sociais, incluindo a ascensão e o declínio das classes operária e média, o crescimento exponencial da produção e o fracasso da distribuição, o aguçamento da competitividade e a recusa da solidariedade.

Todos os setores e todas as funções foram modificados por elas, mas me interessei por estudar sobretudo o mundo do trabalho, que vi se transformar diante de mim: do trabalho camponês da cidadezinha onde eu nasci, com seus mitos e rituais ancestrais, ao trabalho da grande fábrica com seus altos-fornos potentes, passando pelo trabalho da universidade com suas pesquisas e sua internacionalidade.

 

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Sou sociólogo e a ótica com a qual enxergo o trabalho sofre os efeitos dessa distorção. Na infinita bibliografia internacional que reúne os melhores textos socioeconômicos sobre o assunto, o maior destaque é dado aos operários manufatureiros, que por dois séculos monopolizaram o interesse dos pesquisadores. Uma atenção menor e menos sistemática é dedicada ao trabalho das mulheres e dos intelectuais. Quase nada é dito sobre a relação entre trabalho e não trabalho. Se, por exemplo, considerarmos a Atenas clássica, há muitos escritos sobre o que faziam os 100 mil escravos encarregados de todos os trabalhos braçais, mas é difícil saber o que faziam durante todo o dia os 40 mil cidadãos livres. A absoluta superioridade numérica dos operários nos dois séculos da sociedade industrial e a força com a qual eles conduziram sua luta de classes nos acostumou a identificar o conceito de trabalhador com o metalomecânico Charlie Chaplin na linha de montagem no filme Tempos modernos, de 1936. Já a atividade intelectual ficou de fora do foco dos pesquisadores e do homem comum, relegada ao mistério e ao incomunicável. O escritor Joseph Conrad diz: “Como vou explicar para minha mulher que, quando olho pela janela, estou trabalhando?”

Fala-se sem distinção que um minerador “trabalha”, uma secretária “trabalha”, um empresário “trabalha”, um jornalista “trabalha”, um artista “trabalha”, como se as respectivas atividades fossem comparáveis. E nós, sociólogos, nunca nos preocupamos em encontrar vocábulos diferentes para indicar as variadíssimas demandas requeridas de cada um desses “trabalhadores”. Quando estudiosos mais recentes analisaram e organizaram as figuras profissionais dos knowledge workers (trabalhadores do conhecimento), eles fizeram isso sob uma ótica taylorista, como se o trabalho intelectual, uma vez transportado para a empresa, se reduzisse ao prosseguimento do esforço metalomecânico, mesmo estando em outros lugares e com outros instrumentos. Enquanto as metáforas com as quais a organização é representada se tornam cada vez mais antropomórficas, ao passar do cronômetro à rede, da rede ao cérebro, os métodos com os quais as organizações são estruturadas permanecem mais ou menos os mesmos: unidades de tempo e de lugar, relógios de ponto e hierarquias. No plano linguístico, os patrões viraram empresários, os funcionários tornaram-se colaboradores, mas, até quando se exige criatividade para alcançar objetivos pós-industriais, as tarefas continuam a ser organizadas à maneira industrial, como se fossem executivas.

O planeta nunca foi capaz de produzir tanta riqueza; o trabalhador nunca esteve tão perto da libertação da escravidão que deriva de uma má distribuição do trabalho, do saber, do poder, das oportunidades e das tutelas; ele nunca pôde delegar às máquinas uma parte tão grande da produção que exige esforço físico, precisão e velocidade. Ainda assim, o progresso tecnológico, cada vez mais capaz de livrar o homem do cansaço e do estres[1]se, em vez de ser valorizado por tais potencialidades liberatórias, é usado para acelerar os ritmos e endurecer a servidão à máquina e ao lucro em tal medida que Taylor ou Ford jamais teriam ousado. Nos anos 1930, quando ainda não existiam a informática, a inteligência artificial, os novos materiais e as impressoras 3D, Bertrand Russell lamentava: “Continuamos a desperdiçar tempo e energia da mesma forma que fazíamos antes da invenção das máquinas; nisso fomos idiotas, mas não há motivo para que continuemos a ser.” No entanto continuamos.

Se, no início do século XX, Taylor afirmava que era preciso modernizar ao mesmo tempo as máquinas, a organização e a cabeça dos homens dentro da fábrica, nós, no início do século XXI, somos forçados pelas novas condições a modificar radical e simultaneamente o trabalho e a vida do trabalhador dentro da cidade, a fim de melhorar a qualidade de ambos. Mas para realizar essa transformação total, que é ao mesmo tempo científica e antropológica, devemos ter uma ideia precisa do que nos espera, dos desafios que se apresentam e dos recursos que teremos para vencê-los.

 

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Ao longo da história humana, o trabalho – entendido conforme a acepção corrente hoje – nem sempre esteve no centro do sistema social. Na Atenas de Péricles, por exemplo, a atividade política era central; na Roma de Augusto eram vitais a atividade administrativa e a militar; na Europa medieval a atividade religiosa era o cerne; na Florença dos Médicis eram essenciais as atividades artísticas e bancárias. Na Itália de 1947, os constituintes consideraram oportuno ressaltar que a República italiana era fundada no trabalho, não nos privilégios. Mas agora, mais de setenta anos depois, o trabalho representa somente um décimo da vida de um italiano e, assim, parece problemático basear o Estado em apenas um décimo da vida de seus cidadãos.

Se quisermos compreender os caminhos que o trabalho poderá tomar no futuro, decidir em qual direção é preferível apontá-lo e criar as condições favoráveis a tal êxito, é necessário percorrer as transformações que o trabalho sofreu ao longo dos séculos e extrair delas as lições indispensáveis a fim de planejar o futuro. Por exemplo, nos próximos anos, quando cada um de nós dispuser de dezenas de escravos mecânicos, nossa condição humana se assemelhará mais com a condição vivida por um cidadão de Atenas no século V a.C. ou com a de um cidadão de Detroit no século XX? Para organizar o futuro do trabalho, qual dessas duas experiências é mais enriquecedora?

Essas e outras reflexões análogas me levaram a intitular este livro O trabalho no século XXI, embora apenas a quarta e a quinta partes dele sejam dedica[1]das expressamente à sociedade pós-industrial que teve seus prenúncios na primeira metade do século XX e nasceu logo depois da Segunda Guerra Mundial. Sob esse aspecto, poderíamos dizer que o século XXI, o século pós-industrial, não começou em 2001, mas em 1950, e, para compreender seu destino futuro, é preciso partir de seu passado distante.

 

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O projeto deste livro, dividido em cinco partes, é muito simples: depois de definir o conceito de trabalho, conta sua história, de Hesíodo à inteligência artificial.

Primeira parte. Aqui ele busca responder a questões inevitáveis para quem quer aprofundar o tema ao qual este livro se dedica: O que é o trabalho? Por que ocupa um lugar tão central na vida e no imaginário das pessoas? Qual a diferença entre o conceito de trabalho que a Bíblia nos transmitiu, o conceito codificado por Platão e Aristóteles na Antiguidade, aquele pregado por Calvino no século XVI e o que Ford organizou no século XX? Como evoluirá o significado do trabalho e nossa relação com ele à medida que avançamos no século XXI, em que os robôs podem substituir os operários e a inteligência artificial pode substituir os profissionais?

Segunda parte. Quase todos os textos que expõem a história do trabalho datam a partir do fim do século XVIII, quando surgiu a sociedade industrial, e algumas atividades manuais, como tecer e ceifar, foram confiadas pela primeira vez às máquinas. Os poucos livros que fazem uma rápida incursão no trabalho do mundo antigo falam quase exclusivamente dos escravos; os que descrevem o mundo moderno falam quase exclusivamente dos operários. Mas o que faziam os intelectuais e as mulheres, os artistas e os cientistas na Roma de Augusto, na Florença de Leonardo da Vinci, na Alemanha de Bismarck? E como eram tratados aqueles que não trabalhavam em todos esses períodos históricos? Que relação havia entre trabalho e tempo livre? A segunda parte do livro tenta responder a essas perguntas.

Terceira parte. Durante milhares de anos a sociedade se concentrou na agricultura e no artesanato, enquanto o trabalho era considerado um castigo divino, desonroso para aqueles que eram obrigados a desempenhá-lo e evitado como a peste pelas classes privilegiadas. Depois, graças a três pensado[1]res – Locke, Smith e Marx –, o trabalho foi enobrecido até ser considerado a própria essência do homem e o parâmetro que serviria de base para calcular o valor de cada produto.

Nesse meio-tempo, nascia a indústria moderna e, com ela, a sociedade industrial centrada na produção em grande escala de bens materiais. Essa sociedade moderna, que começou na segunda metade do século XVIII e decaiu em meados do século XX, foi sacudida por duas guerras mundiais e por uma longa luta de classes que viu os trabalhadores em oposição aos patrões. Nesses dois séculos, a história do trabalho foi principalmente a história da fábrica, dos operários na linha de montagem e das ciências organizativas que definiram com precisão de engenharia os processos produtivos, as relações humanas e a empresa como sistema. O que determinou a passagem do mundo agrícola para o mundo industrial? Que mudança o impacto das máquinas mecânicas e eletromecânicas provocou no trabalho? Quais resultados os empregadores obtiveram ao adotar os métodos taylor-fordistas? Que preço, em termos de alienação e de exploração, os trabalha[1]dores tiveram que pagar para ganhar seus salários e garantir seus direitos? A terceira parte do livro busca responder a essas questões.

Quarta parte. Depois da Segunda Guerra, o progresso científico e tecnológico, o desenvolvimento organizacional, a globalização, a escolarização difusa e o advento dos meios de comunicação de massa determinaram a passagem da sociedade industrial à sociedade pós-industrial, baseada na produção de bens imateriais como os serviços, as informações, os símbolos, os valores, a estética. Os operários, que na Manchester industrial da metade do século XIX chegavam a 94% de toda a força de trabalho, hoje representam apenas 33% e todo o resto é constituído por trabalhadores intelectuais – eles também destinados a serem substituídos, pelo menos em parte, pela inteligência artificial. Estamos conseguindo produzir bens e serviços com cada vez menos trabalho humano, nossas atividades são sempre mais uma mistura de trabalho, estudo e brincadeira (ócio criativo), e o tempo livre é maior que o tempo de trabalho. Em que consiste a metamorfose em curso? Que novas relações vêm se criando entre trabalho e tempo livre? No mundo do trabalho, que papel desempenham os operários, os empregados, os criativos, as mulheres, os homossexuais, os imigrantes? Quais relações acontecem entre os idosos – sujeitos analógicos – e os jovens digitais? Por que o número de pessoas que se oferecem ao mercado de trabalho aumenta mais que as vagas disponíveis? Que futuro espera pelos jovens que hoje se preparam para exercer uma profissão? E pelos adultos que daqui a alguns anos vão se aposentar? Quais novas formas de conflito se desenham nas empresas e na sociedade? A vida pós- -industrial será mais feliz ou mais infeliz que a vida rural e a industrial? A quarta parte do livro procura responder a essas perguntas.

Quinta parte. Escrita posteriormente, quando eclodiu a pandemia da Covid-19, a última parte deste livro analisa as mudanças nas relações de trabalho, as inovações tecnológicas e as transformações sociais que possibilitaram que milhões de profissionais das mais diversas áreas se afastassem dos escritórios e passassem a trabalhar de suas casas. Todas essas mudanças já estavam em curso, mas foram aceleradas e colocadas à prova subitamente, gerando tanto vantagens quanto desvantagens para empregados e empregadores. Qual será o futuro do trabalho daqui para frente? Que previsões se mostraram equivocadas? Como as empresas foram afetadas pelo smart working? Esta última parte vai lançar luz a essas e outras questões fundamentais.

 

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Quem pretende responder a tantas perguntas com base em dados científicos dispõe de informações quase infinitas, como infinitas são as fontes nas quais localizá-las. Mas essa redundância pode se tornar um obstáculo à compreensão do fenômeno estudado – o trabalho e sua evolução histórica – se não conseguirmos encontrar o fio condutor que une os fatos e os dados essenciais, isolando-os da massa, captando seu sentido completo e reconhecendo-os como fundamentais para a validação das hipóteses sobre as quais a investigação se debruça.

No meu caso, as hipóteses dizem respeito à constatação de que o homem sempre se esforçou para encontrar os instrumentos capazes de diminuir seus esforços. Ao longo do tempo ele identificou esses instrumentos em suas mãos, nos animais, nos escravos, nas ferramentas elementares, nas máquinas mecânicas, nas máquinas eletromecânicas, nas máquinas digitais, na inteligência artificial. Em resumo, a maior parte da criatividade, da energia, do trabalho empregados pela humanidade ao longo da história teve como objetivo principal a invenção e a produção de instrumentos capazes de garantir a máxima quantidade de produtos e serviços com a mínima contribuição de trabalho humano. O objetivo final pelo qual se trabalha é não trabalhar.

Mas, cada vez que superamos uma nova etapa desse percurso – a roda, a roldana, o moinho de água, a prensa tipográfica móvel, o arreio moderno dos cavalos, os óculos, o tear mecânico, o vapor, o motor de combustão interna, a eletricidade, o scientific management, a energia atômica, a informática –, em vez de aproveitarmos essa vitória para reduzir o trabalho no nível do produto, preferimos produzir mais, trabalhando mais do que antes. Cada nova vitória sobre a natureza se traduz em uma derrota da cultura porque são determina[1]das grandes ondas de desemprego tecnológico; quem se apropria das novas máquinas consegue garantir para si doses maiores de riqueza, e as desigualdades socioeconômicas, em vez de diminuírem, aumentam. Em 2017, por exemplo, graças às novas tecnologias e ao esforço de bilhões de trabalhadores, o planeta produziu 3,5% a mais em relação ao ano anterior, mas 80% desse excedente foi para as mãos de apenas 1.200 pessoas.

 

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Quase todos os textos disponíveis sobre o trabalho e sua história estudam períodos específicos ou aspectos específicos dele. Já este livro almeja proporcionar ao leitor um olhar abrangente, de natureza prevalentemente sociológica, sobre a questão do trabalho, sobre sua evolução ao longo dos séculos e sobre as prováveis transformações que o esperam no século XXI. Sobre esses temas eu escrevi ou organizei cerca de trinta livros, mas cada um deles voltado para problemas ou épocas determinadas. Este livro, por sua vez, quer ser uma síntese de tudo o que compreendi em muitos anos de estudos e pesquisas sobre o trabalho. Não são muitas as ideias novas: a verdadeira novidade consiste na síntese que coloco à sua disposição para que você encontre em um único volume a maior parte das questões que hoje são debatidas a propósito do emprego ou do desemprego, das quais já tratei em outros textos meus.

 

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Umberto Eco apresentou um livro seu dizendo que ele nascia dos despojos dos livros anteriores. Roubo essa imagem dele quando digo que este livro também nasce do que restou dos volumes que escrevi sobre o mesmo tema nos últimos anos. As páginas inéditas são infinitamente mais numerosas do que as extraídas das publicações precedentes, mas, onde considerei que um trecho já publicado em outro lugar ainda fosse válido no conteúdo, completo na forma e plenamente apto a ser acolhido nesta obra, trouxe-o sem modificá-lo ou parafraseá-lo, citando no texto ou nas notas o local de origem. Daí a importância de manter entre aspas os textos assim destacados no original: em vez de parafrasear ou diluir textos de outros autores, preferi citá-los na íntegra. Em vez de anexar uma bibliografia que acabaria sendo enorme, preferi citar nas notas as várias fontes que usei. Assim você poderá dispor de um vasto repertório bibliográfico à medida que prossegue na leitura do texto. O trabalho, por si só, não é um tema de estudo leve, e sua história, com todo o aparato necessário de lugares e datas, corre o risco de se tornar ainda mais pesada. Por isso esforcei-me para oferecer a você um conteúdo muito rigoroso em uma forma pouco acadêmica.

 

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Este livro exigiu dois anos de trabalho intenso, que minha preguiça napolitana com certeza teria interrompido se eu não tivesse sido estimulado pela disponibilidade gentil de Andrea Bosco, da editora Einaudi. As críticas corrosivas do colega Umberto Romagnoli me ajudaram a ser mais cauteloso nos raciocínios e sou muito grato a ele por isso. Agradeço também a Giuliana Caviglia, que enriqueceu o livro com sua revisão atenta.

 

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Minha postura perante o trabalho e os trabalhadores não mudou ao longo do tempo. Por isso decidi encerrar este prefácio com as mesmas palavras que usei para encerrar, vinte anos atrás, a introdução do livro O futuro do trabalho. As questões levantadas aqui me tocam porque falam da história humana, da formação da cultura, das reações que temos diante da mudança, da felicidade ou da dor na vida cotidiana.

Para tratar desses assuntos com o rigor científico necessário, o esforço de objetividade – que Max Weber justamente desejava – é imprescindível, embora seus limites sejam previsíveis. Sem poder lidar com os problemas tratados como se eu estivesse “do lado de fora”, preferi olhá-los “por muito tempo e de longe”, a fim de imprimir ao raciocínio todo o entusiasmo necessário para lançar-me ao futuro e arriscar algumas previsões.

Concluído o trabalho, consigo enxergar resultados nada aterrorizantes, felizes até, no nosso futuro. Isso não significa que eu negue a situação dramática de fenômenos como o desemprego (que, aliás, considero uma das maiores desgraças da nossa época; quanto mais injusta, mais evitável). Significa apenas que, aos meus olhos, as perspectivas do progresso científico e de difusão cultural legitimam um otimismo fundamentado.

Sei bem que, quando nos declaramos otimistas, nos tornamos pouco confiáveis cientificamente aos olhos de todos aqueles que consideram sérios apenas os diagnósticos desanimadores, e eficazes somente as terapias cruéis. Mas prefiro correr o risco e não trair o resultado das minhas pesquisas.

Como conta um velho blues, em alguns estados do Sul dos Estados Unidos, os negros eram obrigados a andar no lado ensolarado da rua – sunnyside of the street –, onde o calor chicoteava mais tórrido, mas era possível dialogar com o sol, ofuscados por sua luz fecunda. Os brancos reservavam para si o lado com sombra, sem saber quantas emoções perdidas lhes custava a comodidade do frescor.

Este livro tenta observar alguns fenômenos costumeiros e inquietantes – o trabalho organizado, o desemprego, o tempo livre – com o olhar de quem anda na parte ensolarada da rua.

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Domenico de Masi

Sobre o autor

Domenico de Masi

De Masi nasceu em Rotello, na província de Campobasso, no sul da Itália, no dia 1º de fevereiro de 1938. Viveu em três cidades diferentes: Nápoles, Roma e Milão. Viajou muito. Para usar uma expressão adequada ao mundo cadenciado da escola, pode-se dizer que ele sempre foi “adiantado em um ano”. Tanto no sentido metafórico, porque nutre um interesse obstinado pelo futuro, como no sentido literal, porque pulou alguns anos do curso primário e continuou a queimar quase todas as etapas clássicas. Aos dezenove anos, já publicava, na revista Nord e Sud, ensaios de Sociologia Urbana e do Trabalho. Com vinte e dois ensinava na Universidade de Nápoles. E depois, por mais de trinta anos, desenvolveu uma atividade frenética. Com sua primeira mulher teve duas filhas, que criou durante alguns anos como “pai solteiro”. É apaixonado pela estética, por decoração e até pelos vários tipos de rendas e – acreditem – cuida da casa quase tanto quanto sua atual mulher.

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