Ricos, sábios e felizes - Sextante
Livro

Ricos, sábios e felizes

William Green

Os princípios de Charlie Munger, Howard Marks, John Bogle e outros grandes investidores para ser bem-sucedido nos negócios e na vida

Os princípios de Charlie Munger, Howard Marks, John Bogle e outros grandes investidores para ser bem-sucedido nos negócios e na vida

O renomado jornalista financeiro William Green, que já escreveu para as revistas Time, Fortune, Forbes e The New Yorker, reúne ensinamentos de alguns dos maiores investidores do mundo e revela os segredos de seu sucesso nos negócios e na vida.

“Se você deseja alcançar a liberdade financeira ao mesmo tempo que leva uma vida rica em propósito e realização, leia este livro e leve a sério suas inestimáveis lições.” — Tony Robbins, autor de Poder sem limites

 

Ricos, sábios e felizes apresenta a sabedoria prática de alguns dos grandes mitos do mundo dos investimentos – como John Templeton, Charlie Munger, Warren Buffett, John Bogle, Ed Thorp, Will Danoff, Mohnish Pabrai, Joel Greenblatt e Howard Marks – e revela o que suas trajetórias podem nos ensinar sobre investir bem, tomar boas decisões, pensar com clareza e viver melhor.

A partir de um rico acervo de entrevistas realizadas ao longo dos últimos 25 anos, William Green constrói uma obra repleta de histórias curiosas e cativantes que cobrem os marcos históricos mais relevantes para a economia mundial – do crash da bolsa americana em 1929 à crise gerada pela pandemia de Covid-19.

Atual, surpreendente e agradável de ler, este livro apresenta muito mais que receitas de como investir e ganhar dinheiro, explorando em profundidade as qualidades que proporcionam um tipo de riqueza que vai além do acúmulo de capital.

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Ficha técnica
Lançamento 17/08/2021
Título original Richer, Wiser, Happier
Tradução André Fontenelle
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 320
Peso 400 g
Acabamento brochura
ISBN 978-65-5564-191-2
EAN 9786555641912
Preço R$ 49,90
Ficha técnica e-book
eISBN 978-65-5564-192-9
Preço R$ 29,99
Ficha técnica audiolivro
ISBN 9786555642780
Duração 14h 07min
Locutor Luciano Ruperti
Preço US$ 7,99
Lançamento 17/08/2021
Título original Richer, Wiser, Happier
Tradução André Fontenelle
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 320
Peso 400 g
Acabamento brochura
ISBN 978-65-5564-191-2
EAN 9786555641912
Preço R$ 49,90

E-book

eISBN 978-65-5564-192-9
Preço R$ 29,99

Audiolivro

ISBN 9786555642780
Duração 14h 07min
Locutor Luciano Ruperti
Preço US$ 7,99

Leia um trecho do livro

Dentro da mente dos maiores investidores

Minha obsessão por investimentos começou 25 anos atrás. No início, parecia uma paixão improvável. Nunca assisti a uma aula sequer de economia ou administração. Nunca levei jeito com números nem dominava os esotéricos mistérios da contabilidade. Formado em Oxford com diploma em literatura inglesa, resenhava romances para revistas e escrevia perfis de vigaristas e assassinos. Como aspirante a escritor com sonhos ambiciosos de celebridade literária, era fácil para mim considerar Wall Street um cassino repleto de especuladores toscos que só pensam em dinheiro. Quando o New York Times chegava na minha casa, eu descartava o caderno de economia sem ao menos dar uma olhada.

Em 1995, porém, eu estava com algum dinheiro para investir – minha metade na receita obtida com a venda de um apartamento de que eu e meu irmão éramos proprietários. Comecei a ler sobre fundos e ações na ânsia de aumentar minha modesta fortuna, o que reacendeu em mim uma mania de apostar que, na minha adolescência na Inglaterra dos anos 1980, chegou a fugir do controle por um breve período.

Aos 15 anos, quando eu estudava em Eton, dava uma escapada da escola nas tardes de tédio durante o verão e passava horas na casa de apostas perto do Castelo de Windsor, apostando em cavalos enquanto meus colegas iam remar ou jogar críquete. Eu, destinado a tornar-me um gentleman inglês, como o Boris Johnson, o príncipe William e seis séculos de alunos de Eton que nos precederam, estava em vez disso apostando ilegalmente sob o pseudônimo de Mike Smith.

O que alimentava meu interesse por corridas de cavalos não era o lado romântico do esporte nem da majestosa beleza dos equinos, e sim o desejo de ganhar dinheiro sem fazer força. Era uma atividade que eu levava a sério, fazendo anotações detalhadas sobre os cavalos e os páreos, usando canetas coloridas para sublinhar minhas vitórias e derrotas. Estraguei meu aniversário de 16 anos brigando com meus pais quando eles se recusaram a pagar para mim uma assinatura do Timeform, um dispendioso sistema de avaliação de cavalos. Fiquei revoltado quando eles barraram aquilo que era evidentemente o caminho para uma fortuna incalculável. Pouco tempo depois, ao fim de uma sequência de derrotas arrasadoras, abandonei de uma vez por todas o turfe.

Dez anos depois, quando comecei a ler a respeito de investimentos, descobri que a bolsa proporcionava as mesmas emoções. Mas as chances de sucesso eram bem mais altas. Enxerguei nas ações o modo perfeito de faturar pelo simples fato de ser mais sagaz que os outros. Claro que eu não fazia a menor ideia do que estava fazendo. Mas eu possuía uma vantagem que não tinha preço. Sendo jornalista, podia aprender sobre minha nova mania entrevistando vários dos melhores investidores do mercado.

Nos anos seguintes entrevistei um verdadeiro hall da fama de mitos do mundo dos investimentos para as revistas Forbes, Money, Fortune e Time, sempre girando em torno das mesmas perguntas que até hoje me fascinam: quais os princípios, processos, ideias, hábitos e características pessoais que fazem com que essa diminuta minoria derrote o resto do mercado, a longo prazo, e se torne espetacularmente rica? Mais importante que isso, como eu e você podemos tirar proveito da análise dessas exceções do mercado financeiro fazendo uma engenharia reversa de seus métodos vitoriosos? Essas questões estão no cerne deste livro.

Para minha felicidade, muitos dos investidores que encontrei eram fascinantes e estranhamente exóticos. Peguei um avião até as Bahamas para passar o dia com sir John Templeton, o maior caçador de ações do século XX, que vivia em um paraíso caribenho chamado Lyford Cay. Fui até Houston para uma audiência com Fayez Sarofim, um misterioso bilionário egípcio apelidado de The Sphinx (“a esfinge”). Em seu escritório havia quadros de El Greco e Willem de Kooning, juntamente com um piso em mosaico do século V importado de uma igreja da Síria. Conversei com Mark Mobius (apelidado de The Bald Eagle, “a águia careca”), que viajava por países em desenvolvimento em um jatinho Gulfstream com decoração folheada a ouro e estofamento em couro de iguana, adquirido de um magnata do Oriente Médio que passava por um período de dificuldades. Entrevistei Michael Price, um centimilionário jogador de polo, o terror dos executivos de baixo desempenho, conhecido como “o FDP mais assustador de Wall Street”. Conheci Helmut Friedlaender, que fugira da Alemanha nos anos 1930, não sem antes parar para resgatar a irmã adolescente e comprar um chapéu, “porque um cavalheiro não viaja sem chapéu”. Ele bebia Château Pétrus, colecionava livros medievais valiosos e negociava tudo, de contratos futuros de café ao Empire State Building. Já nonagenário, ele me disse: “Levei uma vida bem agitada.”

Todo esse processo me serviu como uma formação inestimável. Jack Bogle,1 a lenda dos fundos de investimento que fundou a Vanguard, empresa que hoje é responsável por gerir US$ 6,2 trilhões, conversou comigo sobre as lições de investimentos que teve com seu mentor e “herói”, um pioneiro dos fundos mutualistas chamado Walter Morgan: “Não se deixe empolgar. Não corra riscos demais… Mantenha os custos bem baixos.” E ainda: “A massa nunca tem razão.” Como veremos, Bogle também explicou por que “não é preciso ser incrível” para prosperar como investidor.

Peter Lynch, o mais famoso gestor de fundos da Fidelity, me contou como havia triunfado trabalhando mais duro que todos os outros. Mas também falou da enorme imprevisibilidade do mercado e da importância de ser humilde: “Na escola, você tira um monte de notas 9 e 10. Na bolsa, você tira um monte de zeros. E, se de cada dez tentativas você acerta seis ou sete, você é muito bom.” Lynch recordou um de seus primeiros fiascos: uma promissora confecção foi por água abaixo “só por causa do filme Bonnie e Clyde”, que mexeu com a moda feminina de maneira tão inesperada que o catálogo da empresa “perdeu todo o valor”. Ned Johnson, o multibilionário que transformou a Fidelity em um fenômeno, deu uma risada e disse a Lynch: “Você fez tudo certo… De vez em quando coisas totalmente surpreendentes e imprevisíveis acontecem.”

Em meio aos dias confusos que se seguiram ao 11 de Setembro, quando o mercado financeiro passou pela pior semana desde a Grande Depressão, fui até Baltimore para visitar Bill Miller,2 que na época estava a caminho de completar um recorde de quinze anos seguidos obtendo um rendimento superior ao do índice S&P 500 da bolsa. Passei alguns dias com ele, viajando em seu Learjet, em parte comprado para que seu galgo irlandês de 50 quilos pudesse voar com ele. A economia estava em frangalhos, a guerra no Afeganistão era iminente e seu fundo tinha perdido 40% do valor que tivera no seu auge. Mas Miller estava tranquilo e animado, colocando calmamente centenas de milhões de dólares em ações desvalorizadas que depois viriam a disparar.

Certo dia, pela manhã, estávamos juntos quando ele ligou para o escritório para se atualizar. O analista do outro lado da linha lhe deu a notícia de que a AES, ação que Miller acabara de comprar, havia divulgado números péssimos. As ações caíram pela metade, o que representou para ele um prejuízo de US$ 50 milhões antes da hora do almoço. Na mesma hora Miller dobrou a aposta, imaginando, calmamente, que investidores irracionais estavam reagindo de maneira exagerada ao noticiário negativo sobre a empresa. Como me explicou, investir é um processo permanente de cálculo de chances: “Tudo são probabilidades. Certeza não existe.”

Depois me deparei com Bill Ruane, um dos mais bem-sucedidos caçadores de ações da sua geração. Quando Warren Buffett deixou de operar em um fundo de investimento em 1969, indicou Ruane para substituí-lo. Até 2005, ano de sua morte, o fundo Sequoia, de Ruane, gerou resultados espetaculares. Ele quase nunca concedia entrevistas, mas tivemos uma longa conversa sobre os quatro princípios básicos que aprendera nos anos 1950 com um “astro maior” chamado Albert Hettinger. “São regras simples, que para mim tiveram uma importância fundamental”, disse Ruane. “Representaram em grande parte a base da minha filosofia desde então (…) e são o melhor conselho que eu posso dar a alguém.”

Em primeiro lugar, advertiu Ruane: “Não pegue dinheiro emprestado para comprar ações.” Ele rememorou uma experiência precoce em que, em suas palavras, pegou 600 dólares e multiplicou-os várias vezes. Foi então, porém, que “o mercado rachou” e ele foi atingido de tal forma que precisou vender tudo e praticamente voltou “à estaca zero”. Descobriu ali que “ninguém age de forma racional quando investe com dinheiro emprestado”. Em segundo lugar, “fique de olho na oportunidade”. Em outras palavras, aja com extrema cautela “quando perceber que o mercado enlouqueceu”, seja porque a boiada entrou em pânico ou porque avançou em ações com valores irracionais. Em terceiro lugar, ignore as previsões do mercado: “Acredito piamente que ninguém sabe o que o mercado vai fazer. O mais importante é encontrar uma ideia atraente e investir em uma empresa que esteja barata.”

Para Ruane, o princípio mais importante de todos era o quarto: investir em um número reduzido de ações, pesquisadas com tanta profundidade que se adquire uma vantagem de conhecimento. “Procuro aprender o máximo possível a respeito de sete ou oito boas ideias”, disse. “Quando você encontra algo realmente muito barato, por que não colocar 15% do seu dinheiro naquilo?” Para o investidor comum, existem caminhos mais seguros para o êxito. “Para a maioria das pessoas seria mais recomendável um fundo indexado”, afirmou Ruane. Para o investidor que quer superar o mercado, porém, na visão dele, o jeito mais inteligente é focar. “Não conheço ninguém capaz de se sair bem investindo em um grande número de ações, exceto o Peter Lynch.”

Em 2001, quando conversamos, Ruane me disse que 35% dos ativos da Sequoia se baseavam em um único fundo: o Berkshire Hathaway. Durante a bolha pontocom ele havia saído de moda e Buffett, seu presidente e CEO, foi acusado de ter perdido o jeito. Mesmo assim, Ruane enxergou ali o que outros não viram: “uma empresa maravilhosa”, com perspectivas ótimas de crescimento e administrada pelo “cara mais sagaz do país”.

Comecei, então, a compreender que os maiores investidores são aventureiros intelectuais. Não têm medo de questionar e desafiar o senso comum. Tiram proveito de percepções enganosas e equívocos daqueles que pensam com menos racionalidade, menos rigor e menos objetividade. Na verdade, um dos melhores motivos para estudar os investidores apresentados neste livro é o fato de poderem nos ensinar não apenas como enriquecer, mas como melhorar nossa forma de raciocinar e tomar decisões.

A recompensa por investir de maneira inteligente é tão extraordinária que muitas mentes brilhantes são atraídas por esse negócio. Mas o preço a pagar pelos erros também pode ser arrasador, o que raramente acontece com quem é professor, político ou analista. Há tanto em jogo que talvez por isso os melhores investidores costumem ser pessoas pragmáticas, de mente aberta, que buscam incessantemente maneiras de aprimorar o modo de pensar.

Essa visão de mundo é encarnada por Charlie Munger, sócio assustadoramente inteligente de Buffett, que certa vez comentou: “Eu observo aquilo que dá certo e aquilo que não dá, e por quê.” Munger, um dos personagens centrais deste livro, foi muito longe em sua busca por maneiras de pensar melhor, recorrendo a ferramentas de análise de disciplinas tão díspares quanto a matemática, a biologia e a psicologia comportamental. Entre suas referências figuram Charles Darwin, Albert Einstein, Benjamin Franklin e um algebrista do século XIX chamado Carl Gustav Jacobi. “Os mortos me ensinaram muita coisa”, disse-me Munger. “Algo que sempre me ocorreu é que existe um monte de gente morta que eu precisava conhecer.”

Acabei por enxergar os melhores investidores como uma raça peculiar de filósofos práticos. Não estão em busca da solução para quebra-cabeças esotéricos que intrigam filósofos de verdade – como “Esta cadeira existe ou não existe?”. Estão, em vez disso, em busca daquilo que o economista John Maynard Keynes chamava de “sabedoria mundana”, que empregam para atacar problemas mais urgentes, como “De que forma tomar decisões inteligentes em relação ao futuro quando é impossível adivinhar o futuro?”. Estão em busca de vantagens onde quer que possam encontrá-las: história econômica, neurociência, literatura, estoicismo, budismo, esporte, ciência de formação de hábitos, meditação ou qualquer outra área que possa ser útil. Essa disposição sem limites para explorar “o que dá certo” faz deles excelentes modelos a estudar em nossa própria busca pelo sucesso, não só no mercado, mas em qualquer área da nossa vida.

Uma outra forma de ver os investidores mais talentosos é como jogadores por excelência. Não é coincidência que muitos dos gestores financeiros do mais alto nível joguem cartas por prazer e por dinheiro. Templeton usou seus ganhos com o pôquer para ajudar a pagar a faculdade nos anos da Depressão. Buffett e Munger são apaixonados por bridge. Mario Gabelli, um bilionário magnata dos fundos, me contou como ganhava dinheiro, na sua infância pobre no Bronx, jogando cartas entre uma e outra rodada como caddy (carregador de tacos) em um clube chique de golfe. “Eu tinha 11 ou 12 anos”, lembra, “e todo mundo achava que podia ganhar de mim.” Lynch, que jogou pôquer no ensino médio, na faculdade e no serviço militar, me disse: “Aprender a jogar pôquer ou aprender a jogar bridge, ou qualquer coisa que lhe ensine a trabalhar com as probabilidades, vale mais do que qualquer livro sobre a bolsa de valores.”

Como vim a me dar conta, vale a pena enxergar os investimentos e a vida como jogos em que precisamos buscar de maneira consciente e constante maximizar nossa probabilidade de êxito. As regras não são claras e o resultado não é garantido. Mas existem maneiras inteligentes e maneiras estúpidas de jogar. O escritor Damon Runyon, que tinha verdadeira paixão por jogos de azar, observou certa vez que “no jogo da vida são seis contra cinco”.* Talvez. Mas o que me fascina é que Templeton, Bogle, Ruane, Buffett, Munger, Miller e outros gigantes que vamos estudar nos próximos capítulos descobriram jeitos astutos de fazer as chances penderem em favor deles. Minha missão é lhe mostrar como fazer o mesmo.

Vejamos o caso de Ed Thorp,3 provavelmente o maior jogador da história dos investimentos. Antes de se tornar gestor de fundos hedge, ele alcançou a imortalidade no mundo das apostas ao bolar um engenhoso esquema para derrotar a banca no blackjack. Como Thorp me explicou em três horas de café da manhã com ovos Benedict e cappuccino, ele se recusava a aceitar a “ideia preconcebida” de que era matematicamente impossível para os apostadores obter alguma vantagem sobre o crupiê. Thorp, o pai da estratégia da “contagem de cartas”, obteve uma vantagem ao calcular a mudança de probabilidades depois que algumas cartas saem da mesa e não estão mais disponíveis. Por exemplo, um baralho repleto de ases lhe dava mais probabilidades que um baralho sem ases. Quando as probabilidades o favoreciam, ele apostava mais; quando favoreciam a banca, ele apostava menos. A longo prazo, essa diminuta vantagem se torna avassaladora. Ele transformou, assim, um jogo de azar de perdedores em um “jogo matemático” rentável.

Como truque seguinte, Thorp bolou um jeito de derrotar o cassino na roleta. Juntamente com um parceiro, Claude Shannon, criou o primeiro computador de vestir, ativado às escondidas pelo próprio Thorp com o dedão do pé de dentro do sapato. Esse computador, do tamanho de um maço de cigarros, lhe permitia “medir a posição e a velocidade da bola e da roleta de forma extremamente precisa”, de modo a prever a posição provável em que a bolinha iria parar. Durante séculos a roleta foi um jogo impossível de ganhar, em que o apostador não tinha vantagem alguma, já que a chance de a bolinha cair em um dos 38 buracos é a mesma. “Só que, juntando um pouco de conhecimento com um pouco de mensuração, adquirimos um domínio maior sobre aquilo que vai acontecer”, disse Thorp. “Nem sempre dá para acertar, mas a previsão é um pouco melhor que o acaso. Assim transformamos o que parecia ser um jogo inteiramente de azar em um jogo em que temos alguma vantagem. E essa vantagem foi propiciada pela informação que adicionamos.”

A menos que você seja dono de um cassino, a criatividade subversiva de Thorp tem um apelo irresistível. O que o empolgava mais não era nem o dinheiro, e sim a satisfação de resolver “problemas interessantes” que todos os especialistas garantiam ser insolúveis. “Não é porque um monte de gente diz que algo é verdade que isso tem algum peso específico para mim”, disse Thorp. “É preciso pensar de forma um pouco independente, ainda mais em relação às coisas mais importantes, e tentar resolvê-las por conta própria. Analise as evidências. Analise a base do senso comum.”

Como as aventuras de Thorp indicam, uma das maneiras mais importantes de melhorar nossa vida financeira é evitar jogos em que as cartas estão marcadas contra nós. “Quando se trata de apostas, se eu não tiver uma vantagem, não jogo”, afirmou Thorp. Aplicando esse princípio a nós mesmos, convém encarar a realidade da maneira mais honesta; por exemplo, caso meus conhecimentos de tecnologia sejam genéricos ou me falte a habilidade financeira básica necessária para avaliar um negócio, é preciso que eu resista a qualquer tentação de escolher por conta própria ações específicas de empresas de tecnologia. Do contrário, eu sou como o otário na roleta, na esperança de que o destino sorria para mim apesar de todas as minhas ilusões. Nas palavras de Jeffrey Gundlach, um bilionário de grande frieza de raciocínio que cuida de cerca de US$ 140 bilhões em títulos e que entrevistei: “A esperança não é um método.”

Outro equívoco frequente, que distorce as probabilidades em detrimento de muitos investidores incautos, é remunerar com polpudas comissões gestores de fundos, corretores e consultores financeiros medíocres, cujo desempenho simplesmente não justifica a despesa. “Quando você paga ao longo do caminho pedágios, custos administrativos, comissões de consultoria e todo tipo de encargo, é como nadar contra a corrente”, disse Thorp. “Quando você não paga nada dessas coisas, está nadando junto com a corrente.” Portanto, um jeito óbvio para o investidor comum aumentar suas probabilidades de triunfo a longo prazo é comprar e deter fundos indexados que cobram taxas minúsculas: “Você não vai precisar fazer nada e já sai na frente de, talvez, 80% das pessoas que não fazem isso.” Um índice como o S&P 500 “provavelmente” subirá a longo prazo, acrescentou Thorp, impelido pela “expansão da economia americana”. Por isso, à diferença dos apostadores de cassinos, “você tem uma vantagem automática” pelo simples fato de participar da trajetória ascendente do mercado a um custo mínimo.

Em compensação, o fundo hedge de Thorp humilhou os índices durante duas décadas, sem ter prejuízo em um trimestre sequer, ao concentrar-se em oportunidades de investimento mais obscuras que “não foram bem compreendidas”. Por exemplo, seu talento excepcional para a matemática permitiu-lhe avaliar warrants, opções e títulos conversíveis com uma precisão sem igual. Outros personagens-chave deste livro, como Howard Marks e Joel Greenblatt, obtiveram vantagens semelhantes ao se especializarem em nichos negligenciados ou detestados pelo mercado financeiro. Como veremos, existem várias maneiras de triunfar, mas todas elas exigem algum tipo de diferencial. Quando perguntei a Thorp como saber se eu tenho algum, ele me brindou com esta reflexão desconcertante: “Se você não tiver um motivo racional para acreditar que tem um diferencial, então é porque provavelmente não tem.”

Quando minha trajetória nos investimentos começou, 25 anos atrás, eu ansiava pela libertação financeira, por não ter que dar satisfação para ninguém. Os melhores investidores tinham achado o caminho, que, para mim, parecia algo quase mágico. Hoje, porém, percebo que a compreensão de como essas pessoas pensam e por que elas são bem-sucedidas pode nos ajudar de forma imensurável em vários aspectos – financeiro, profissional e pessoal.

Por exemplo, quando perguntei a Thorp como poderia aumentar minhas chances de levar uma vida feliz e bem-sucedida, ele ilustrou seu método falando de saúde e preparo físico. Thorp, que estava com 84 anos mas aparentava vinte a menos, comentou: “Geneticamente, você nasce com uma mão de cartas. (…) Pense nisso como o acaso. Mas você pode fazer escolhas ao jogar com essas cartas”, entre elas a escolha de não fumar, de fazer um check-up de saúde anual, de manter atualizado o cartão de vacinação e de exercitar-se regularmente. Quando estava na casa dos 30 anos, Thorp se encontrava “em péssima forma” e se viu “totalmente sem fôlego” depois de uma corridinha de 400 metros. Foi então que começou a correr 1,5 quilômetro por semana, todo sábado, aumentando aos poucos até completar 21 maratonas. Ainda faz duas aulas semanais com um personal trainer e caminha 5 quilômetros por dia, quatro vezes por semana. Porém, quando lhe sugeriram que começasse a pedalar, Thorp analisou o número de “mortes associadas ao ciclismo por 100 milhões de quilômetros percorridos” e concluiu que “o risco era alto demais”.

Em outra entrevista que fiz com ele, em junho de 2020, o mundo estava às voltas com a pandemia de Covid-19, que já havia matado mais de 100 mil americanos. Thorp explicou que havia analisado os números da mortalidade em todo o mundo, atentando em especial para as “mortes inexplicadas”, provavelmente causadas pelo vírus; que havia feito “deduções” a partir da pandemia de gripe de 1918, que matou seu avô; que havia realizado a própria estimativa da “verdadeira taxa de mortalidade”; e que havia previsto no início de fevereiro (quando não ocorrera ainda uma única morte nos Estados Unidos) que o país perderia de 200 mil a 500 mil vidas para o novo coronavírus nos doze meses subsequentes.

A metódica análise de dados de Thorp permitiu que sua família tomasse precauções oportunas em um momento em que pouquíssimos americanos – a começar por seus governantes – reconheciam a dimensão dessa ameaça. “Tomamos o cuidado de estocar todo tipo de coisa, inclusive máscaras”, disse ele. “Só um mês depois, mais ou menos, as pessoas acordaram e começaram a esvaziar as prateleiras das lojas.” Três semanas antes da decretação do estado de emergência pelo governo, Thorp isolou-se em sua casa de Laguna Beach e parou de se encontrar “com todo mundo”. “Não faz sentido ficar em pânico”, disse-me. Mas ele compreendeu os riscos e agiu com determinação para aumentar sua probabilidade de sobrevivência. Thorp deve ser a única pessoa que conheço que calculou de verdade a própria “chance de morrer”.*

Essa rotina mental de analisar sem emoção os fatos e os números, o custo-benefício dos riscos e recompensas, e a importância fundamental de simplesmente evitar as catástrofes explica em grande parte como os investidores mais inteligentes têm uma vida mais longa e próspera. Na visão de Thorp, todos os aspectos do nosso comportamento deveriam ser orientados por uma atitude de “racionalidade generalizada”. Por exemplo, ele sabe que, quando está “em modo emocional”, aumenta a probabilidade de tomar uma decisão errada. Por isso, quando fica “irritado ou furioso” com alguém, faz uma pausa e pergunta a si mesmo: “O que você sabe mesmo? Esse sentimento se justifica ou não?” Essa análise ponderada costuma levá-lo a concluir que essa reação negativa não tinha motivo. “Nós nos apressamos a tirar conclusões indevidamente”, comentou. “Por isso, conter-se ao fazer juízos é, a meu ver, um elemento crucial do comportamento racional.”

Tudo isso me leva a acreditar que os maiores titãs do mundo dos investimentos podem nos ajudar a ficar mais ricos, mais sábios e mais felizes. Meu objetivo é mostrar como eles triunfam, tanto nos negócios quanto na vida, por encontrar inúmeras formas de maximizar as chances de êxito.

Jogar com as probabilidades é uma maneira extraordinariamente eficaz de agir, que perpassa tudo que eles fazem, inclusive a gestão do tempo, a construção de um ambiente sereno para reflexão, as pessoas de quem se aproximam e aquelas a quem evitam, como se prevenir de preconceitos e pontos cegos, como aprender com os erros e evitar repeti-los, como gerir o estresse e as situações adversas, como pensar sobre honestidade e integridade, como gastar e doar dinheiro e como tentar construir uma vida imbuída de um sentido que vá além do dinheiro.

Ao escrever este livro, inspirei-me fortemente nas entrevistas mais importantes que realizei em um passado distante com muitos dos melhores investidores do mundo. Mas também passei centenas de horas entrevistando mais de quarenta investidores especificamente para este livro, viajando um pouco por vários lugares, de Los Angeles a Londres, de Omaha a Mumbai. Somados, os personagens encontrados aqui já cuidaram de trilhões de dólares em nome de milhões de pessoas. Minha esperança é de que esses extraordinários investidores iluminem – e enriqueçam – sua vida. Estou apostando que sim.

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William Green

Sobre o autor

William Green

WILLIAM GREEN nasceu em Londres, na Inglaterra, estudou literatura inglesa na Universidade de Oxford e tornou-se mestre em Jornalismo pela Universidade Columbia. Ao longo de décadas, colaborou com as maiores publicações do mundo, entre as quais destacam-se Forbes, The New Yorker, Fortune, The Guardian e The Economist. Como jornalista, colecionou entrevistas com presidentes, primeiros-ministros, CEOs de grandes empresas, investidores e inúmeros bilionários. Já colaborou em outras obras como ghostwriter, coautor e editor. Atualmente vive em Nova York com a esposa, Lauren, e seus filhos, Henry e Madeleine.    

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