ESPIRITUALIDADE

“O Yoga que conduz à plenitude”: o sentimento de carência e de limitação do ser humano é devido à ignorância de si mesmo

“O Yoga que conduz à plenitude”: o sentimento de carência e de limitação do ser humano é devido à ignorância de si mesmo

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“O Yoga que conduz à plenitude”: o sentimento de carência e de limitação do ser humano é devido à ignorância de si mesmo

“A mente necessita de um preparo, e este é alcançado através de um estilo de vida chamado Yoga”. Livro de Gloria Arieira apresenta conhecimentos milenares, base da cultura hinduísta, e ressalta como a prática é essencial para a conquista do autoconhecimento

Base de diversas áreas do saber da Índia, a Vedãnta foi cristalizada num fio de história milenar a partir de diálogos entre sábios antigos e seus discípulos. Transmitido de forma oral, esse conhecimento foi chamado de Vedas, essência das escrituras sagradas do hinduísmo. As ideias, repassadas há muitas gerações, iluminam o tempo presente e realçam a importância do autoconhecimento para a verdadeira libertação. Nesse sentido, o título do livro escrito pela professora Gloria Arieira sintetiza um dos valores oriundos dessa filosofia: “O Yoga que conduz à plenitude”.

Para quem não está familiarizado com a tradição, o exemplar oferece uma boa oportunidade de iniciação e aprofundamento, já que traz os pilares dessa sabedoria, com a preocupação de contextualizá-los, e traduz termos e expressões, a maioria grafada originalmente em sânscrito. É uma viagem bem conduzida.

Os Vedas, a autora explica, são compostos por reflexões com dois eixos principais: a ação e as leis que a governam (karma) e a natureza do indivíduo (jñãna). Outros saberes advêm desses temas e formam um corpo teórico ainda mais amplo. A tradição védica também destaca o yoga como o estilo de vida que auxilia a pessoa a alcançar esse conhecimento. É esse o ponto de encontro entre a filosofia e a prática.

Yoga Sutras: clareza do conhecimento

Como um desdobramento da tradição védica, o livro de Arieira apresenta o compêndio criado por Sri Patañjali – mestre que teria vivido entre 500 e 200 a.C. – e escrito a partir de aforismos. A compilação forma o Yoga Sutras de Patañjali, texto aqui apresentado à luz de Vedãnta. “O sentimento constante de carência e de limitação do ser humano é devido à ignorância de si mesmo e à conclusão errada de sua real identidade. Por isso, a solução para este problema fundamental que sempre o acompanha é o autoconhecimento. Porém, sua mente necessita de um preparo, e este é alcançado através de um estilo de vida chamado Yoga”, sintetiza ela essa conexão.

A professora chama a atenção justamente para o objetivo de se conquistar a mente calma e o corpo saudável, marcas tão associadas à prática: “Mesmo enquanto ensina sobre a mente, suas características e como lidar com ela, o foco maior do Yoga é o autoconhecimento, o mesmo de Vedãnta”. Para Arieira, é a consciência do Eu livre, ainda que não reconhecido por nós, o fim que orienta a filosofia. A descoberta da plenitude é um passo mais profundo, portanto, que visa o bem-estar sem a dependência do outro, acolhendo as imperfeições que fazem parte da formação de todo ser humano.

A seguir, algumas ideias milenares de Patañjali sobre o yoga, com tradução e costura de Arieira:

1 – A partir dos escritos do mestre, Arieira afirma que Yoga é o que prepara a mente para aquisição do autoconhecimento. O objetivo da prática é “a percepção da identidade entre o indivíduo e o Todo, momento no qual a dualidade desaparece numa experiência do Um, da verdade livre de limitação”.

2 – Na filosofia dos Vedas, a vida humana possui quatro objetivos: a busca pela segurança; a busca pelo prazer; a busca por uma vida melhor; e a libertação do sentimento de insuficiência. Este último, chamado de moksa, é o mais significativo. Segundo os textos da tradição védica, para a libertação ser alcançada é preciso ter uma mente sensível e com foco para apreciar a verdadeira natureza do Eu.

3 – Mas por que controlar a mente é tão importante assim? Arieira explica que isso nada tem a ver com transformar qualquer pessoa em alguém calmo, mas, sim, compreender que o “Eu já é calmo e completo, apesar da sensação de limitação e carência”.

4- Para Patañjali, o controle é alcançado com repetição e desapego. Repetir é sempre trazer à mente o objeto do seu foco.  Já desapegar, de acordo com o mestre, é ter domínio sobre o desejo por objetos, mesmo que eles não sejam vistos.

5 – Isso nos leva a falar sobre o desejo. Ainda que ele seja essencial para a ação e também evite sofrimento, o desejo também pode ser aprisionador, caso a pessoa não consiga abandoná-lo. Portanto, o total desapego “é ser mentalmente independente dos objetos de desejo devido ao entendimento de que nenhum objeto ou pessoa pode fazer o outro feliz”.

6 – A reação emocional às situações da vida e a agitação da mente são dois obstáculos clássicos ao autoconhecimento. O primeiro é eliminado por uma vida dedicada à karmayoga (estilo de vida do Yoga, marcado por ações altruístas e de integração) e o segundo, pela meditação.

7 – Patañjali lista alguns fatores que provocam a agitação da mente, entre os quais estão doença, apatia, dúvida, falta de atenção, preguiça, falta de renúncia, falta de capacidade de manter o que alcançou e falta de continuidade.

8 – No texto, o mestre destaca que a simpatia é um dos fatores que provoca tranquilidade na mente do yogin (o praticante de yoga). Diante de situações de alegria, sofrimento, mérito e demérito, é necessário ter satisfação e paciência. “Frente a algo alegre ou agradável que outra pessoa está vivendo e lhe traz satisfação, a mente do yogin deve ter solidariedade em vez de inveja. Frente a algo triste, uma situação de sofrimento pela qual alguém passa, a mente do yogin deve ter compaixão, em vez de tentar tirar vantagem da situação ou da pessoa que está triste”, endossa Arieira no livro.

9 – Há três estados que caracterizam a mente: acordado (jñãna), sonho (svapna) e sono profundo (nidrã). Embora exista uma alternância entre eles, Patañjali aponta que há uma base constante, chamada ãlambana, um suporte imutável para as mudanças: “Esse suporte é a consciência livre do tempo e do espaço, da qual os três estados dependem. Quando o foco da mente é o mutável, ela permanece agitada; quando o foco maior é o imutável e sempre presente, a luz da consciência, a mente alcança a tranquilidade”.

10 – O livro apresenta algumas definições de tranquilidade. Esse estado em que a mente domina a capacidade de estar livre de oscilações é um dos objetivos fundamentais do yoga. Segundo Patañjali, “a tranquilidade é a natureza do Eu”. É ela que permite clareza em relação ao autoconhecimento. Como Arieira ressalta, a tranquilidade é uma satisfação em si mesma. Os apontamentos acima são apenas o princípio do caminho trilhado pela autora em “O Yoga que conduz à plenitude”, livro fundamental para se refletir sobre a prática e o objetivo dela.

Este post foi escrito por:

Filipe Isensee

Filipe é jornalista, especialista em jornalismo cultural e mestrando do curso de Cinema e Audiovisual da UFF. Nasceu em Salvador, foi criado em Belo Horizonte e há oito anos mora no Rio de Janeiro, onde passou pelas redações dos jornais Extra e O Globo. Gosta de escrever: roteiros, dramaturgias, outras prosas e alguns poucos versos estão em seu radar.

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Filipe Isensee

Filipe é jornalista, especialista em jornalismo cultural e mestrando do curso de Cinema e Audiovisual da UFF. Nasceu em Salvador, foi criado em Belo Horizonte e há oito anos mora no Rio de Janeiro, onde passou pelas redações dos jornais Extra e O Globo. Gosta de escrever: roteiros, dramaturgias, outras prosas e alguns poucos versos estão em seu radar.

Livro

Gloria Arieira

Diretora-presidente do Centro de Estudos de Vedãnta e Sânscrito Vidya Mandir. Em janeiro de 1974 foi para a Índia se encontrar com Swami Dayananda, que se tornou seu mestre. Estudou com ele até julho de 1978, retornando então ao Brasil. Além de permanecer no Ashram Sandeepani Sadhanalaya, em Mumbai, um local de aprendizado e vivência com o mestre, também estudou em outros ashrams em Utarkashi e Rishikesh, no norte da Índia. Viajou também para várias outras regiões daquele país para participar de cursos, palestras e visitas a lugares sagrados, como os templos de Tamil Nadu e Kerala, conhecendo melhor a tradição cultural e religiosa dos Vedas. Desde seu retorno, vem ensinando Vedãnta e sânscrito no Rio de Janeiro, em outras cidades do Brasil e também em Portugal. Dedica-se também ao trabalho de tradução para o português dos principais textos de tradição védica, como a Bhagayadgitã, as Upanisads e vários outros. É responsável pela publicação em português dos livros de Swami Dayananda, editados pela Vidya Mandir Editorial.

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Livro

Os Yoga Sutras de Patañjali são um texto seminal da tradição dos Vedas, os livros sagrados do hinduísmo. Compilados há mais de 2 mil anos, seus aforismos ainda hoje são a base para uma visão do Yoga não como uma simples prática, mas como o meio para alcançar a maior realização humana: o autoconhecimento que […]

Gloria Arieira

Diretora-presidente do Centro de Estudos de Vedãnta e Sânscrito Vidya Mandir. Em janeiro de 1974 foi para a Índia se encontrar com Swami Dayananda, que se tornou seu mestre. Estudou com ele até julho de 1978, retornando então ao Brasil. Além de permanecer no Ashram Sandeepani Sadhanalaya, em Mumbai, um local de aprendizado e vivência com o mestre, também estudou em outros ashrams em Utarkashi e Rishikesh, no norte da Índia. Viajou também para várias outras regiões daquele país para participar de cursos, palestras e visitas a lugares sagrados, como os templos de Tamil Nadu e Kerala, conhecendo melhor a tradição cultural e religiosa dos Vedas. Desde seu retorno, vem ensinando Vedãnta e sânscrito no Rio de Janeiro, em outras cidades do Brasil e também em Portugal. Dedica-se também ao trabalho de tradução para o português dos principais textos de tradição védica, como a Bhagayadgitã, as Upanisads e vários outros. É responsável pela publicação em português dos livros de Swami Dayananda, editados pela Vidya Mandir Editorial.

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