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ESTAÇÃO BRASIL

História da riqueza no Brasil

História da riqueza no Brasil

JORGE CALDEIRA

Cinco séculos de pessoas, costumes e governos

Cinco séculos de pessoas, costumes e governos

História da riqueza no Brasil é ao mesmo tempo tão monumental quanto síntese. Há algumas definitivas, como as do trio Gilberto Freyre- Sérgio Buarque de Holanda-Caio Prado. A diferença? São mais de quinhentos anos relidos e explicados em nova chave. Pois para realizar a sua, Caldeira serviu-se de disciplinas vizinhas, a antropologia e a econometria, enriquecendo interpretações que já vinha consolidando em obras anteriores.

A antropologia lhe permitiu se aproximar do passado, iluminando objetos como a família, a mestiçagem, atitudes econômicas, as alianças de poder, revelando sua surpreendente permanência ao longo de cinco séculos. Quanto a econometria, essa forneceu medidas e estatísticas mal e pouco conhecidas de grande parte dos historiadores, para apreender fatos que só mediante esta abordagem são capturáveis.” – Mary del Priore

 

“(Caldeira) ressalta, o que para poucos era claro, que o mercado interno sempre teve importância maior do que lhe foi atribuída por muitos autores, mesmo de livros clássicos. Não que se deixe de reconhecer o papel importantíssimo do mercado externo para a inserção mundial da economia, mas desaparece o retrato simplificador da sociedade brasileira do passado como se ela fosse formada apenas pela grande lavoura de exportação.

Em segundo lugar, trata-se de obra que traz uma abordagem metodológica rara: Caldeira introduz a referência a números, aos grandes números, na narrativa histórica e os usa para a comprovação de suas teses. Como se isso não bastasse para dar singularidade e notoriedade ao livro, acrescente-se que suas páginas mostram o fracasso das tentativas de acelerar o crescimento econômico pela vontade política do Estado.” – Fernando Henrique Cardoso

História da riqueza no Brasil é ao mesmo tempo tão monumental quanto síntese. Há algumas definitivas, como as do trio Gilberto Freyre- Sérgio Buarque de Holanda-Caio Prado. A diferença? São mais de quinhentos anos relidos e explicados em nova chave. Pois para realizar a sua, Caldeira serviu-se de disciplinas vizinhas, a antropologia e a econometria, enriquecendo interpretações que já vinha consolidando em obras anteriores.

A antropologia lhe permitiu se aproximar do passado, iluminando objetos como a família, a mestiçagem, atitudes econômicas, as alianças de poder, revelando sua surpreendente permanência ao longo de cinco séculos. Quanto a econometria, essa forneceu medidas e estatísticas mal e pouco conhecidas de grande parte dos historiadores, para apreender fatos que só mediante esta abordagem são capturáveis.” – Mary del Priore

 

“(Caldeira) ressalta, o que para poucos era claro, que o mercado interno sempre teve importância maior do que lhe foi atribuída por muitos autores, mesmo de livros clássicos. Não que se deixe de reconhecer o papel importantíssimo do mercado externo para a inserção mundial da economia, mas desaparece o retrato simplificador da sociedade brasileira do passado como se ela fosse formada apenas pela grande lavoura de exportação.

Em segundo lugar, trata-se de obra que traz uma abordagem metodológica rara: Caldeira introduz a referência a números, aos grandes números, na narrativa histórica e os usa para a comprovação de suas teses. Como se isso não bastasse para dar singularidade e notoriedade ao livro, acrescente-se que suas páginas mostram o fracasso das tentativas de acelerar o crescimento econômico pela vontade política do Estado.” – Fernando Henrique Cardoso

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Ficha técnica
Lançamento 16/10/2017
Título original HISTÓRIA DA RIQUEZA NO BRASIL
Tradução
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 624
Peso 810 g
Acabamento BROCHURA (CAPA FLEXÍVEL)
ISBN 978-85-5608-025-7
EAN 9788556080257
Preço R$ 69,90
Ficha técnica e-book
eISBN 9788556080264
Preço R$ 49,99
Selo
Estação Brasil
Lançamento 16/10/2017
Título original HISTÓRIA DA RIQUEZA NO BRASIL
Tradução
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 624
Peso 810 g
Acabamento BROCHURA (CAPA FLEXÍVEL)
ISBN 978-85-5608-025-7
EAN 9788556080257
Preço R$ 69,90

E-book

eISBN 9788556080264
Preço R$ 49,99

Selo

Estação Brasil

Leia um trecho do livro

Apresentação

Um “clássico”: o adjetivo foi criado no século XVI, significando “o que faz
autoridade”, “o que deve ser imitado”, “que serve como modelo”. Pois o livro que o leitor tem nas mãos é um clássico. Mais um, pois Jorge Caldeira já nos ofereceu outros: Mauá, empresário do Império, História do Brasil com empreendedores e A nação mercantilista: ensaios sobre o Brasil se tornaram, há muito, leitura obrigatória para quem quer conhecer nossa história. Caldeira é sociólogo, doutor em Ciências Políticas, mestre em Sociologia e bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, além de renomado jornalista e editor de veículos importantes como a Folha de S.Paulo, revistas IstoÉ e Bravo. Pesquisador apaixonado, criou a Mameluco Produções, responsável pelo mais importante acervo jamais reunido sobre José Bonifácio, entre outras realizações. A tantos atributos, soma-se outro: ele é um dos mais prolíficos e consistentes historiadores brasileiros.

Seus textos não são apenas sinônimos de autoridade, mas também de prazer de descobrir. Pois para Caldeira não se trata só de escrever ou descrever, mas de emprestar a escuta aos sons ao mesmo tempo próximos e confusos que escapam dos arquivos, oferecendo ao leitor interpretações absolutamente pioneiras, capazes de ajudá-lo a enxergar o Brasil por outras lentes. Sua visão da História convida a uma abordagem singular, tanto nos métodos de trabalho quanto na delimitação dos campos a serem investigados. Ele trata, também, de fugir de cansadas explicações gerais para aprofundar a pesquisa e revelar, num tesouro de dados e documentos, o que ela traz de original. Como ele mesmo diz, “introduzir um entendimento novo do passado permite entender de um modo novo, também, os problemas atuais. Acho que conhecer História não é só um problema da academia, é um problema de todo cidadão”.

História da riqueza no Brasil é ao mesmo tempo tão monumental quanto síntese. Há algumas definitivas, como as do trio Gilberto Freyre-Sérgio Buarque de Holanda-Caio Prado. A diferença? São mais de quinhentos anos relidos e explicados em nova chave. Pois, para realizar a sua, Caldeira serviu-se de disciplinas vizinhas, a antropologia e a econometria, enriquecendo interpretações que já vinha consolidando em obras anteriores. A antropologia lhe permitiu se aproximar do passado, iluminando objetos como a família, a mestiçagem, atitudes econômicas, as alianças de poder, revelando sua surpreendente permanência ao longo de cinco séculos. Quanto à econometria, essa forneceu medidas e estatísticas mal e pouco conhecidas de grande parte dos historiadores, para apreender fatos que só mediante essa abordagem são capturáveis. Neste livro, Caldeira faz emergir mais uma vez elementos originais e impressionantes. Ele demonstra, por exemplo, como o governo central do Império mantém a escravidão e freia o crescimento, jogando o país no atraso, enquanto o Ocidente revoluciona o papel do governo e o desenvolvimento capitalista. Ou como durante a I República a descentralização federal liberou o setor privado e, em uma década e meia, o Brasil passou de uma das economias mais estagnadas à que mais crescia no mundo. O sucesso – pasme, leitor – se deu por causa da diminuição da capacidade do Estado de funcionar como elemento capaz de isolar as relações entre o Brasil e o mundo. Dessa forma, empreendedores puderam se multiplicar nas brechas do sistema.

Não se trata de ideologia. Governos, explica o autor, por vezes podem funcionar como muros que vedam a comunicação positiva entre o mercado interno e a situação internacional – mas, em outros momentos, podem empregar as mesmas armas para proteger o mercado interno contra maus momentos internacionais, como aconteceu entre 1930 e a década de 1970, quando as barreiras ajudaram no crescimento da economia. Mudada a realidade mundial, no entanto, voltaram a ser muros contra o progresso do tempo, como na forma imperial, quando reforçados fosse pelo regime militar conservador fosse pelo governo petista de esquerda, impedindo em ambos os casos que o país colhesse os benefícios das oportunidades internacionais da globalização – além de gerar recessões.

Com informações inéditas, Caldeira ilumina zonas de sombra. E são elas que lhe permitem fazer o que ele faz melhor: tecer sua trama e permitir que vejamos novos atores, novas paisagens, novos fatos. Circular com Jorge Caldeira pelos caminhos da História é passear numa floresta que acreditávamos conhecer. Tudo está lá: as árvores, o céu, as alamedas. E, contudo, a caminhada é decididamente especial, singular. Os lugares ou fatos da cronologia são familiares, mas sua fisionomia é outra. Num panorama analítico, virtuoso e objetivo, Caldeira explica outra, sim, outra História. A que ainda não conhecemos. Animado por generosa pesquisa e brilhante interpretação, História da riqueza no Brasil é mais um livro de Jorge Caldeira que já nasce clássico.

— Mary del Priore

Prefácio

1. História da Riqueza

Em muitos sentidos este é um livro de história bastante tradicional. A narrativa segue a cronologia de maneira linear, indo do passado ao presente, e tem como foco um território determinado. Procura ser o mais clara possível, sem recorrer a tabelas ou tecnicismos. Mantém as divisões qualitativas conhecidas para agrupar os eventos que neste território se passam e/ou se superpõem: ocupação primeva, colônia, monarquia, república. Trata de um assunto central, a acumulação de bens.

Para esclarecer esse assunto vai apresentando sucessivamente medidas dessa acumulação, números indicativos do tamanho da riqueza reunida a cada etapa dessa história. A sucessão das séries de números permite avaliações do desempenho no tempo, e dessas avaliações resultam contrastes entre momentos de crescimento e outros de estagnação ou queda.

Ao mesmo tempo, os números locais são comparados a outros. Até o final do período colonial, com aqueles relativos à economia metropolitana; daí em diante, com o desempenho de economias ocidentais – e, para o período mais recente da história, com os dados da economia global. Dessas comparações resulta outra espécie de avaliação, aquela que se manifesta como progresso ou atraso entre a economia local e, do modo possível dentro das limitações, o mundo.

Quase todos esses números derivam de trabalhos recentes – e de uma mudança no modo de fazer pesquisa em história econômica. A partir da década de 1970, a disciplina foi revolucionada por uma combinação de processamento digital, uso de bancos de dados e análise estatística – o cerne da econometria, que permitiu o reconhecimento de nexos significativos num universo de dados que, para quase todos os historiadores tradicionais, eram dispersos demais ou de impossível compilação e análise.

Apenas um exemplo: bons censos foram realizados no século XVIII, com a coleta de dados razoavelmente uniformes – mas esses dados estavam em manuscritos dispersos por centenas de arquivos locais. No passado, um historiador dedicado conseguiria consultar alguns desses arquivos e extrair umas poucas relações coerentes entre os dados consultados. Com a informática, a incorporação de dados desse tipo em bancos propiciou uma transformação radical nos métodos de análise. O aumento exponencial da capacidade de agrupamento e interpretação estatística, somado a técnicas de tratamento, permitiu a muitos historiadores econômicos irem reunindo conjuntos inovadores, alguns dos quais são apresentados aqui.

Tais conjuntos de dados, como se poderá ver, trazem resultados muito distintos daqueles consolidados no modelo metodológico anterior. O contraste entre as revelações estatísticas e o padrão histórico clássico, estabelecido até meio século atrás, é, muitas vezes, chocante. Um caso muito evidente é o das relações entre a riqueza da colônia e a da metrópole. O estudo da documentação tradicional apontava consistentemente a subordinação política e administrativa como geradora de um resultado econômico: pobreza na colônia e transferência de riqueza para o Reino. Todas as interpretações eram solidamente ancoradas nessa inferência. As diferenças ficavam para a avaliação de tendências, mas o cenário da inferioridade colonial era um só.

Os números que os econometristas foram encontrando – e que são apresentados no correr da narrativa sobre o período – apontam na direção oposta à documentação tradicional. Atualmente é consenso que a economia colonial era, no final do século XVIII, muito maior que aquela da metrópole.

Esse é o primeiro caso – mas não o único na narrativa – no qual os indicativos numéricos, vindos de centenas de estudos das mais diferentes fontes, levam a uma mudança radical de postura: não se trata mais de dar uma nova resposta a um problema estabelecido na tradição, mas, antes, de explicar um problema diferente daquele que vinha sendo colocado pelos estudiosos. As implicações, nesses casos, são tremendas.

Para ficar no caso da colônia, a inversão nas medidas derruba também toda uma série de noções consideradas unânimes. Em termos de riqueza, a mais ampla delas é aquela da economia de subsistência – que define tanto as economias nativas quanto a atividade no mercado interno como incapazes de gerar excedentes, permitir acumulação, gerar riqueza. Essa noção é indistintamente empregada por todas as correntes de historiadores que tentavam explicar o cenário comum da colônia pobre: o espectro de uso ia, sem divergências, dos conservadores mais empedernidos até os marxistas mais radicais.

A unanimidade fazia sentido, pois todos estavam tentando explicar um mercado interno pouco dinâmico e uma acumulação concentrada apenas na face exportadora da economia. Para isso, a ideia de que tanto
a economia dos nativos como a do mercado interno não tinham qualquer possibilidade de gerar riqueza – apenas a de garantir a subsistência – era mais do que conveniente. Por isso sempre aceitaram essa noção, pouco mais que uma tautologia sobre a fraqueza acumulativa interna.

Evidentemente esse tipo de noção perde totalmente a razão de ser quando se trata de explicar uma economia colonial que cresce mais que a metropolitana – pois o novo quadro somente pode ser explicado pelo crescimento do mercado interno da área colonial em ritmo mais rápido que aquele do comércio com a metrópole e o mundo.

Assim, a primeira consequência de se entender os números descobertos estabelecidos é a de abandonar por completo as interpretações baseadas no conhecimento clássico. Não por divergências pontuais ou ideológicas, mas apenas porque os números mostram um cenário completamente diferente. Novos instrumentos, novas descobertas, novos problemas – novas possibilidades a serem exploradas, e também novas divergências futuras.

O esforço é concentrado na busca de explicações alternativas para esse novo quadro de problemas – e estas muitas vezes surgem de outras disciplinas que não a história. No caso da noção de economia de subsistência, por exemplo, mudanças radicais de entendimento aconteceram a partir do momento em que os antropólogos também passaram a empregar técnicas quantitativas para avaliar o trabalho e a produtividade nas economias dos povos nativos.

Embora sejam economias sem moeda – fato que levou os estudiosos tradicionais a supor uma economia incapaz de acumular riqueza –, descobriu-se que são economias perfeitamente capazes de produzir excedentes e trocá-los com outras formações, além de terem mecanismos próprios para a administração dos bens acumulados, da riqueza que produzem. Em grau ainda mais acentuado, a mesma capacidade de acumular bens, muito ao contrário do que sugeria a restrita circulação do dinheiro, foi sendo constatada em toda a economia do sertão.

Esse novo conhecimento fez ruir de vez os precários fundamentos empíricos da noção de economia de subsistência. Permitiu comprovar que tanto a produção dos nativos quanto a dos sertanejos eram capazes de gerar riqueza em ritmo crescente – ou, de outro modo, permitiu que se começasse a entender de que maneira o mercado interno tinha uma dinâmica de crescimento mais forte que a do setor exportador ou a da economia metropolitana. Ao longo da leitura o leitor poderá aquilatar o tamanho das diferenças em relação ao padrão anterior de análise também para outros períodos históricos.

Apresentação

Um “clássico”: o adjetivo foi criado no século XVI, significando “o que faz
autoridade”, “o que deve ser imitado”, “que serve como modelo”. Pois o livro que o leitor tem nas mãos é um clássico. Mais um, pois Jorge Caldeira já nos ofereceu outros: Mauá, empresário do Império, História do Brasil com empreendedores e A nação mercantilista: ensaios sobre o Brasil se tornaram, há muito, leitura obrigatória para quem quer conhecer nossa história. Caldeira é sociólogo, doutor em Ciências Políticas, mestre em Sociologia e bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, além de renomado jornalista e editor de veículos importantes como a Folha de S.Paulo, revistas IstoÉ e Bravo. Pesquisador apaixonado, criou a Mameluco Produções, responsável pelo mais importante acervo jamais reunido sobre José Bonifácio, entre outras realizações. A tantos atributos, soma-se outro: ele é um dos mais prolíficos e consistentes historiadores brasileiros.

Seus textos não são apenas sinônimos de autoridade, mas também de prazer de descobrir. Pois para Caldeira não se trata só de escrever ou descrever, mas de emprestar a escuta aos sons ao mesmo tempo próximos e confusos que escapam dos arquivos, oferecendo ao leitor interpretações absolutamente pioneiras, capazes de ajudá-lo a enxergar o Brasil por outras lentes. Sua visão da História convida a uma abordagem singular, tanto nos métodos de trabalho quanto na delimitação dos campos a serem investigados. Ele trata, também, de fugir de cansadas explicações gerais para aprofundar a pesquisa e revelar, num tesouro de dados e documentos, o que ela traz de original. Como ele mesmo diz, “introduzir um entendimento novo do passado permite entender de um modo novo, também, os problemas atuais. Acho que conhecer História não é só um problema da academia, é um problema de todo cidadão”.

História da riqueza no Brasil é ao mesmo tempo tão monumental quanto síntese. Há algumas definitivas, como as do trio Gilberto Freyre-Sérgio Buarque de Holanda-Caio Prado. A diferença? São mais de quinhentos anos relidos e explicados em nova chave. Pois, para realizar a sua, Caldeira serviu-se de disciplinas vizinhas, a antropologia e a econometria, enriquecendo interpretações que já vinha consolidando em obras anteriores. A antropologia lhe permitiu se aproximar do passado, iluminando objetos como a família, a mestiçagem, atitudes econômicas, as alianças de poder, revelando sua surpreendente permanência ao longo de cinco séculos. Quanto à econometria, essa forneceu medidas e estatísticas mal e pouco conhecidas de grande parte dos historiadores, para apreender fatos que só mediante essa abordagem são capturáveis. Neste livro, Caldeira faz emergir mais uma vez elementos originais e impressionantes. Ele demonstra, por exemplo, como o governo central do Império mantém a escravidão e freia o crescimento, jogando o país no atraso, enquanto o Ocidente revoluciona o papel do governo e o desenvolvimento capitalista. Ou como durante a I República a descentralização federal liberou o setor privado e, em uma década e meia, o Brasil passou de uma das economias mais estagnadas à que mais crescia no mundo. O sucesso – pasme, leitor – se deu por causa da diminuição da capacidade do Estado de funcionar como elemento capaz de isolar as relações entre o Brasil e o mundo. Dessa forma, empreendedores puderam se multiplicar nas brechas do sistema.

Não se trata de ideologia. Governos, explica o autor, por vezes podem funcionar como muros que vedam a comunicação positiva entre o mercado interno e a situação internacional – mas, em outros momentos, podem empregar as mesmas armas para proteger o mercado interno contra maus momentos internacionais, como aconteceu entre 1930 e a década de 1970, quando as barreiras ajudaram no crescimento da economia. Mudada a realidade mundial, no entanto, voltaram a ser muros contra o progresso do tempo, como na forma imperial, quando reforçados fosse pelo regime militar conservador fosse pelo governo petista de esquerda, impedindo em ambos os casos que o país colhesse os benefícios das oportunidades internacionais da globalização – além de gerar recessões.

Com informações inéditas, Caldeira ilumina zonas de sombra. E são elas que lhe permitem fazer o que ele faz melhor: tecer sua trama e permitir que vejamos novos atores, novas paisagens, novos fatos. Circular com Jorge Caldeira pelos caminhos da História é passear numa floresta que acreditávamos conhecer. Tudo está lá: as árvores, o céu, as alamedas. E, contudo, a caminhada é decididamente especial, singular. Os lugares ou fatos da cronologia são familiares, mas sua fisionomia é outra. Num panorama analítico, virtuoso e objetivo, Caldeira explica outra, sim, outra História. A que ainda não conhecemos. Animado por generosa pesquisa e brilhante interpretação, História da riqueza no Brasil é mais um livro de Jorge Caldeira que já nasce clássico.

— Mary del Priore

Prefácio

1. História da Riqueza

Em muitos sentidos este é um livro de história bastante tradicional. A narrativa segue a cronologia de maneira linear, indo do passado ao presente, e tem como foco um território determinado. Procura ser o mais clara possível, sem recorrer a tabelas ou tecnicismos. Mantém as divisões qualitativas conhecidas para agrupar os eventos que neste território se passam e/ou se superpõem: ocupação primeva, colônia, monarquia, república. Trata de um assunto central, a acumulação de bens.

Para esclarecer esse assunto vai apresentando sucessivamente medidas dessa acumulação, números indicativos do tamanho da riqueza reunida a cada etapa dessa história. A sucessão das séries de números permite avaliações do desempenho no tempo, e dessas avaliações resultam contrastes entre momentos de crescimento e outros de estagnação ou queda.

Ao mesmo tempo, os números locais são comparados a outros. Até o final do período colonial, com aqueles relativos à economia metropolitana; daí em diante, com o desempenho de economias ocidentais – e, para o período mais recente da história, com os dados da economia global. Dessas comparações resulta outra espécie de avaliação, aquela que se manifesta como progresso ou atraso entre a economia local e, do modo possível dentro das limitações, o mundo.

Quase todos esses números derivam de trabalhos recentes – e de uma mudança no modo de fazer pesquisa em história econômica. A partir da década de 1970, a disciplina foi revolucionada por uma combinação de processamento digital, uso de bancos de dados e análise estatística – o cerne da econometria, que permitiu o reconhecimento de nexos significativos num universo de dados que, para quase todos os historiadores tradicionais, eram dispersos demais ou de impossível compilação e análise.

Apenas um exemplo: bons censos foram realizados no século XVIII, com a coleta de dados razoavelmente uniformes – mas esses dados estavam em manuscritos dispersos por centenas de arquivos locais. No passado, um historiador dedicado conseguiria consultar alguns desses arquivos e extrair umas poucas relações coerentes entre os dados consultados. Com a informática, a incorporação de dados desse tipo em bancos propiciou uma transformação radical nos métodos de análise. O aumento exponencial da capacidade de agrupamento e interpretação estatística, somado a técnicas de tratamento, permitiu a muitos historiadores econômicos irem reunindo conjuntos inovadores, alguns dos quais são apresentados aqui.

Tais conjuntos de dados, como se poderá ver, trazem resultados muito distintos daqueles consolidados no modelo metodológico anterior. O contraste entre as revelações estatísticas e o padrão histórico clássico, estabelecido até meio século atrás, é, muitas vezes, chocante. Um caso muito evidente é o das relações entre a riqueza da colônia e a da metrópole. O estudo da documentação tradicional apontava consistentemente a subordinação política e administrativa como geradora de um resultado econômico: pobreza na colônia e transferência de riqueza para o Reino. Todas as interpretações eram solidamente ancoradas nessa inferência. As diferenças ficavam para a avaliação de tendências, mas o cenário da inferioridade colonial era um só.

Os números que os econometristas foram encontrando – e que são apresentados no correr da narrativa sobre o período – apontam na direção oposta à documentação tradicional. Atualmente é consenso que a economia colonial era, no final do século XVIII, muito maior que aquela da metrópole.

Esse é o primeiro caso – mas não o único na narrativa – no qual os indicativos numéricos, vindos de centenas de estudos das mais diferentes fontes, levam a uma mudança radical de postura: não se trata mais de dar uma nova resposta a um problema estabelecido na tradição, mas, antes, de explicar um problema diferente daquele que vinha sendo colocado pelos estudiosos. As implicações, nesses casos, são tremendas.

Para ficar no caso da colônia, a inversão nas medidas derruba também toda uma série de noções consideradas unânimes. Em termos de riqueza, a mais ampla delas é aquela da economia de subsistência – que define tanto as economias nativas quanto a atividade no mercado interno como incapazes de gerar excedentes, permitir acumulação, gerar riqueza. Essa noção é indistintamente empregada por todas as correntes de historiadores que tentavam explicar o cenário comum da colônia pobre: o espectro de uso ia, sem divergências, dos conservadores mais empedernidos até os marxistas mais radicais.

A unanimidade fazia sentido, pois todos estavam tentando explicar um mercado interno pouco dinâmico e uma acumulação concentrada apenas na face exportadora da economia. Para isso, a ideia de que tanto
a economia dos nativos como a do mercado interno não tinham qualquer possibilidade de gerar riqueza – apenas a de garantir a subsistência – era mais do que conveniente. Por isso sempre aceitaram essa noção, pouco mais que uma tautologia sobre a fraqueza acumulativa interna.

Evidentemente esse tipo de noção perde totalmente a razão de ser quando se trata de explicar uma economia colonial que cresce mais que a metropolitana – pois o novo quadro somente pode ser explicado pelo crescimento do mercado interno da área colonial em ritmo mais rápido que aquele do comércio com a metrópole e o mundo.

Assim, a primeira consequência de se entender os números descobertos estabelecidos é a de abandonar por completo as interpretações baseadas no conhecimento clássico. Não por divergências pontuais ou ideológicas, mas apenas porque os números mostram um cenário completamente diferente. Novos instrumentos, novas descobertas, novos problemas – novas possibilidades a serem exploradas, e também novas divergências futuras.

O esforço é concentrado na busca de explicações alternativas para esse novo quadro de problemas – e estas muitas vezes surgem de outras disciplinas que não a história. No caso da noção de economia de subsistência, por exemplo, mudanças radicais de entendimento aconteceram a partir do momento em que os antropólogos também passaram a empregar técnicas quantitativas para avaliar o trabalho e a produtividade nas economias dos povos nativos.

Embora sejam economias sem moeda – fato que levou os estudiosos tradicionais a supor uma economia incapaz de acumular riqueza –, descobriu-se que são economias perfeitamente capazes de produzir excedentes e trocá-los com outras formações, além de terem mecanismos próprios para a administração dos bens acumulados, da riqueza que produzem. Em grau ainda mais acentuado, a mesma capacidade de acumular bens, muito ao contrário do que sugeria a restrita circulação do dinheiro, foi sendo constatada em toda a economia do sertão.

Esse novo conhecimento fez ruir de vez os precários fundamentos empíricos da noção de economia de subsistência. Permitiu comprovar que tanto a produção dos nativos quanto a dos sertanejos eram capazes de gerar riqueza em ritmo crescente – ou, de outro modo, permitiu que se começasse a entender de que maneira o mercado interno tinha uma dinâmica de crescimento mais forte que a do setor exportador ou a da economia metropolitana. Ao longo da leitura o leitor poderá aquilatar o tamanho das diferenças em relação ao padrão anterior de análise também para outros períodos históricos.

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Jorge Caldeira

Sobre o autor

Jorge Caldeira

Nasceu em São Paulo, em 1955. É doutor em Ciência Política, mestre em Sociologia e bacharel em Ciências Sociais (FFLCH–USP). Sóciofundador da Mameluco Edições e Produções Culturais, é escritor e possui ampla experiência profissional na área jornalística e editorial. Foi publisher da revista Bravo!, consultor do projeto Brasil 500 Anos, da Rede Globo de Televisão, editor-executivo da revista Exame, editor do caderno Ilustrada e da Revista da Folha, do jornal Folha de S.Paulo, editor de economia da revista IstoÉ e editor da revista Estudos Cebrap. É autor de Noel Rosa: de costas para o mar(Brasiliense), Mauá: empresário do Império e Viagem pela história do Brasil (Companhia das Letras), A nação mercantilista e Ronaldo: glória e drama no futebol globalizado (Editora 34), O banqueiro do sertãoA construção do samba e História do Brasil com empreendedores (Mameluco), além de organizador dos volumes Diogo Antônio Feijó e José Bonifácio de Andrada e Silva, que integram a coleção Formadores do Brasil (Lance!/Editora 34), e do livro Brasil: a história contada por quem viu (Mameluco). Ocupa a cadeira nº 18 da Academia Paulista de Letras.

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