O que é isso, companheiro? - Sextante
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ESTAÇÃO BRASIL

O que é isso, companheiro?

O que é isso, companheiro?

FERNANDO GABEIRA

Quase quarenta anos depois da publicação de sua primeira edição, O que é isso, companheiro?, que foi adaptado por Bruno Barreto para o cinema em 1997, continua sendo um dos mais contundentes documentos históricos já produzidos acerca do período militar.

“Este é o livro de um homem correndo da polícia, tentando compreender como é que se meteu, de repente, no meio da Irarrazabal, no Chile, se apenas cinco anos antes estava correndo da Ouvidor para a Rio Branco, num dos grupos que fariam mais uma demonstração contra a ditadura militar que tomara o poder em 1964. Onde é mesmo que estávamos quando tudo começou?” – Fernando Gabeira

 

Publicado pela primeira vez em 1979, O que é isso, companheiro? conquistou um lugar de destaque na categoria dos livros que melhor retratam um dos períodos mais obscuros da história brasileira: a ditadura militar.

Documento histórico – esta seria a melhor maneira de categorizar a narrativa que Fernando Gabeira empreende para nos contar, em primeira pessoa, como jovens guerrilheiros, em 1969, conseguiram realizar a mais espetacular proeza de um grupo de esquerda: o sequestro do embaixador americano. O então jornalista recém-saído do Jornal do Brasil e seus companheiros de organização “trocaram” a vida do embaixador pela libertação de 15 presos políticos.

Heróis? Vilões? Loucos? Inconsequentes?

A vitalidade deste livro, sua permanência e sua importância residem no fato de que seu autor nunca esteve alheio às contradições de sua geração. Nas páginas deste contundente, emocionante e, por vezes, irônico relato, somos confrontados com nossos próprios fantasmas. Será que somos tão diferentes assim do que foi Fernando Gabeira?

Aos 75 anos, ele segue sua jornada, contando e refletindo sobre a história do nosso país. A coragem de admitir que precisamos nos reinventar a cada dia na construção de um mundo melhor e mais democrático continua sendo uma de suas qualidades mais marcantes. Aos que resistem a isso, cabe-nos apenas perguntar: O que é isso, companheiro?

Quase quarenta anos depois da publicação de sua primeira edição, O que é isso, companheiro?, que foi adaptado por Bruno Barreto para o cinema em 1997, continua sendo um dos mais contundentes documentos históricos já produzidos acerca do período militar.

“Este é o livro de um homem correndo da polícia, tentando compreender como é que se meteu, de repente, no meio da Irarrazabal, no Chile, se apenas cinco anos antes estava correndo da Ouvidor para a Rio Branco, num dos grupos que fariam mais uma demonstração contra a ditadura militar que tomara o poder em 1964. Onde é mesmo que estávamos quando tudo começou?” – Fernando Gabeira

 

Publicado pela primeira vez em 1979, O que é isso, companheiro? conquistou um lugar de destaque na categoria dos livros que melhor retratam um dos períodos mais obscuros da história brasileira: a ditadura militar.

Documento histórico – esta seria a melhor maneira de categorizar a narrativa que Fernando Gabeira empreende para nos contar, em primeira pessoa, como jovens guerrilheiros, em 1969, conseguiram realizar a mais espetacular proeza de um grupo de esquerda: o sequestro do embaixador americano. O então jornalista recém-saído do Jornal do Brasil e seus companheiros de organização “trocaram” a vida do embaixador pela libertação de 15 presos políticos.

Heróis? Vilões? Loucos? Inconsequentes?

A vitalidade deste livro, sua permanência e sua importância residem no fato de que seu autor nunca esteve alheio às contradições de sua geração. Nas páginas deste contundente, emocionante e, por vezes, irônico relato, somos confrontados com nossos próprios fantasmas. Será que somos tão diferentes assim do que foi Fernando Gabeira?

Aos 75 anos, ele segue sua jornada, contando e refletindo sobre a história do nosso país. A coragem de admitir que precisamos nos reinventar a cada dia na construção de um mundo melhor e mais democrático continua sendo uma de suas qualidades mais marcantes. Aos que resistem a isso, cabe-nos apenas perguntar: O que é isso, companheiro?

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Ficha técnica
Lançamento 24/04/2017
Título original O QUE É ISSO, COMPANHEIRO?
Tradução
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 240
Peso 250 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-5608-017-2
EAN 9788556080172
Preço R$ 39,90
Ficha técnica e-book
eISBN 9788556080189
Preço R$ 24,99
Selo
Estação Brasil
Lançamento 24/04/2017
Título original O QUE É ISSO, COMPANHEIRO?
Tradução
Formato 14 x 21 cm
Número de páginas 240
Peso 250 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-5608-017-2
EAN 9788556080172
Preço R$ 39,90

E-book

eISBN 9788556080189
Preço R$ 24,99

Selo

Estação Brasil

Leia um trecho do livro

Parte I

HOMEM CORRENDO DA POLÍCIA

Irarrazabal chama-se a rua por onde caminhávamos em setembro. É um nome inesquecível porque jamais conseguimos pronunciá-lo corretamente em espanhol e porque foi ali, pela primeira vez, que vimos passar um caminhão cheio de cadáveres. Era uma tarde de setembro de 1973, em Santiago do Chile, perto da praça Nunoa, a apenas alguns minutos do toque de recolher.

Caminhávamos rumo à Embaixada da Argentina, deixando para trás uma parte gelada da Cordilheira dos Andes e tendo à nossa esquerda o Estádio Nacional, para onde convergia o grosso do tráfego militar na área.

Na esquina com a rua Holanda, somos abordados por alguém que nos pede fogo. Uma pessoa parada na esquina. Parecia incrível que se pudesse estar parado ali, naquele momento. Vera me olhou com espanto e compreendi de estalo o que queria dizer:

– Coitado, vai cair em breve nas mãos da polícia.

Ele se curva para acender o cigarro e vemos seus dedos amarelos. A chama do fósforo ressalta as olheiras de quem dormiu pouco ou nem dormiu. Certamente era de esquerda o cara parado na esquina. E, como nós, estava transtornado com o golpe militar, tentando reatar os inúmeros vínculos emocionais e políticos que se rompem num momento desses.

Tive vontade de aconselhá-lo: se cuida, toma um banho, não dá bandeira, se manda, sai desta esquina. Mas compreendi, muito rapidamente, que seria absurdo parar para conversar na esquina da Irarrazabal com Holanda, naquele princípio de primavera.

Nós também estávamos numa situação difícil. A alguns minutos do toque de recolher, a meio caminho da Embaixada da Argentina, nossas chances eram estas: ou saltávamos para dentro dos jardins e ganhávamos asilo político, ou ficávamos na rua, em pleno toque de recolher. Se ficássemos na rua com certeza seríamos presos e teríamos, pelo menos, algumas noites de tortura para explicar o que estávamos fazendo no Chile durante a virada sangrenta que derrubou a Unidade Popular. Pessoalmente teria de explicar por que me chamava Diogo e era equatoriano. E não me chamava Diogo nem era equatoriano. Tratava-se de um passaporte falso, de um português que emigrara para Quito, e que me dava margem para falar espanhol com sotaque. Português naturalizado equatoriano, caminhando ao lado de uma brasileira e de uma alemã, sem tempo portanto para dar conselhos.

Pois, como ia dizendo, estávamos numa situação difícil. Na melhor das hipóteses, venceríamos a vigilância dos carabineros e cruzaríamos os jardins da Embaixada. Começaria aí um exílio dentro do exílio, dessa vez mais longo e doloroso porque as ditaduras militares estavam fechando o cerco no continente. Na melhor das hipóteses, portanto, iríamos sofrer muito.

No entanto, era preciso correr. Correr rápido para chegar a tempo e meio disfarçado para não chamar a atenção dos carros militares. E, talvez, o cara da esquina nem fosse de esquerda. Foi assim, nessa corrida meio culpada, que me ocorreu a ideia: se escapo de mais esta, escrevo um livro contando como foi tudo. Tudo? Apenas o que se viu nesses dez anos, de 1968 para cá, ou melhor, a fatia que me coube viver e recordar.

Este, portanto, é o livro de um homem correndo da polícia, tentando compreender como é que se meteu, de repente, no meio da Irarrazabal, se apenas cinco anos antes estava correndo da Ouvidor para a Rio Branco, num dos grupos que fariam mais uma demonstração contra a ditadura militar que tomara o poder em 1964. Onde é mesmo que estávamos quando tudo começou?

Sinceramente que saí buscando um pouco de ar fresco. A sala do copidesque do JB tinha uma luz branca e, depois de certo tempo de trabalho, cansava. Era melhor sair para o balcão, olhar a avenida Rio Branco, ver o trânsito fluir rumo ao sul da cidade. Gente voltando do trabalho, no fim da tarde. De repente, não sei como, cinquenta pessoas se reúnem no meio da rua, tiram suas faixas e cartazes e gritam: “Abaixo a ditadura!” Como? Os carros não podem se mexer: é uma passeata. Mil coisas estavam acontecendo nos telegramas empilhados na minha mesa: guerras, terremotos, golpes de Estado. Ali, diante dos meus olhos, cinquenta pessoas com faixas e cartazes, iluminadas pelos faróis e meio envoltas na fumaça dos canos de descarga, avançavam contra o trânsito. “Mais verba, menos tanques, abaixo a ditadura!”, gritavam. Lembrei-me da minha terra. O Guarani Futebol Clube batido mais uma vez, pelo mesmo adversário, irrompendo na rua Vitorino Braga com sua bandeira azul e branca, cantando “Em Juiz de Fora quem Manda sou Eu”. Aquelas pessoas gritando na rua, a vida seguindo seu curso, o trânsito engarrafado por alguns minutos, tudo isso me fazia pensar. O rosto dos jogadores do Guarani, nossas camisas meio rasgadas, a gente de cabeça erguida enquanto todos atacavam seu macarrão de domingo, macarrão com ovos marca Mira, vinho Moscatel.

Tudo parecia já muito remoto depois do golpe de Estado no Chile, com os cachorros latindo e o ruído dos helicópteros patrulhando a cidade. Daí a pouco chamariam para voltar ao trabalho, mas a demonstração estudantil não ia sair fácil da minha cabeça. Desde 1964 que estava buscando aquela gente, e aquela gente, creio, desde 1964, preparava seu encontro com as pessoas olhando da sacada da avenida Rio Branco.

Em 1964 eu tinha dois empregos. Um era no Jornal do Brasil, outro no Panfleto, semanário da ala esquerda do PTB que, mais tarde, depois do golpe, iria sobreviver de forma autônoma como Movimento Nacionalista Revolucionário, MNR. No JB, trabalhava como redator; no Panfleto, como subsecretário de oficinas. Os dois empregos tinham uma importante função para mim. Num trabalhava de acordo com minhas ideias e, no outro, trabalhava para ganhar dinheiro. Isto é ótimo para um depoimento retocado. Na verdade, havia outro interesse, um pouco mais baixo, mas importante também: O JB pagava por mês e o Panfleto, dirigido por amigos, dava alguns vales que nos permitiam tocar o barco cotidiano. E, afinal, não era um barco muito pesado: vivíamos em cinco num apartamento do 200 da Barata Ribeiro e o aluguel não custava muito, assim dividido por cinco pessoas. Todos éramos jornalistas começando carreira. Quase todos comiam no trabalho e, uma vez ou outra, ali no Beco da Fome, que ficava bem perto de casa. Alguns participavam do Grupo dos 11, uma forma de organização que o Brizola tinha proposto para a resistência ao golpe. Outros não estavam muito interessados, por desencanto, mal de amores ou mesmo problemas que iam explodindo na vida de cada um, um pouco indiferentes à crise nacional que se aproximava.

Quando irrompeu o golpe de 1964, ninguém ficou em casa. Os que participavam do Grupo dos 11 foram fazer a fila das armas do Aragão. Nessa fila muita gente se encontrou, mas as armas não apareceram. Lembro-me de ter ido para a Cinelândia até o momento em que começaram a atirar nas pessoas, de dentro do Clube Militar. Um golpe de Estado – pelo menos foi o que senti nos dois que me atingiram – é um pouco como uma grande e emocionante peça de teatro. Quando termina, você sente um grande impulso para estar junto das pessoas de quem gosta, ou mesmo telefonar para saber se estão bem.

Um pouco tocado pelas balas do Clube Militar e um pouco tocado pela vontade de estar perto dos amigos, saí da Cinelândia. Para o Panfleto não adiantava voltar, pois os homens já haviam cercado tudo, recolhido os arquivos e empastelado a redação. Segui para o JB e encontrei um grupo de jornalistas na Rio Branco. Era o que procurava. Fomos juntos para o Sindicato dos Gráficos, onde resistiríamos. E nós, que pensávamos em resistir, acabamos sendo envolvidos na confusão geral que se armou para retirar os papéis, para escapar da polícia. Foi assim também com muita gente no Chile. Você diz que vai resistir, você parte para resistir, mas o que você vai fazer, de verdade, é fugir.

Lembro-me de ter escrito uma carta, de dentro da Embaixada da Argentina, para um amigo do Rio, comunicando que estava vivo. E dizia: “Amigo, acabo de perder minha segunda revolução e estou caminhando para o recorde daquele personagem do García Márquez que perdeu 12 ou 13, creio. Vi muita gente morrendo, grupos inteiros se entrincheirando nas fábricas e resistindo até o último homem. Mas o movimento geral era de fuga, de retirada. E penso que era o mais inteligente a fazer, consideradas as circunstâncias.”

Quando nos reunimos de novo, no 200 da Barata Ribeiro, não era apenas o Brasil que estava derrotado. Nossas próprias caras estavam derrotadas e ficariam assim por muitos dias. São aqueles momentos em que se dá o balanço e não se sabe se para e chora ou se vai ajudar os que ainda não conseguiram escapar. Os que deixaram a fila de armas do Aragão tinham encontrado com a Marcha da Vitória que vinha da Zona Sul. A greve nos jornais foi furada por todos os lados. Os colegas que eram contra o governo Goulart estavam eufóricos, alguns preparando às pressas um livro comemorativo. Outros baixavam do Palácio Guanabara, onde foram também resistir à possível invasão por parte dos fuzileiros comandados pelo almirante Candido Aragão.

Ainda me lembro de vê-los ali, comentando as mil e uma táticas defensivas que usariam caso o Palácio fosse atacado, insinuando toda a bravura que teriam caso o combate se travasse. Uma das edições que se preparavam trazia uma história com o coronel Montanha, que tomara o Forte de Copacabana com um grito que abalou o sentinela e permitiu sua entrada triunfal. Às vezes, uma história dessas caía na nossa mão, para corrigir os erros de português, mudar um ou outro verbo, fazer os títulos e as legendas para as fotos. Começávamos a engolir sapos e sequer imaginávamos que íamos continuar a engolir sapos durante 15 anos, nas mais variadas circunstâncias.

Lembro-me que, na saída do Sindicato dos Gráficos, meio corridos e já ouvindo vozes do adversário na Rádio Mayrink Veiga, resolvemos cruzar todas as ruelas ao lado da Rio Branco e evitar o tráfego. Numa delas, já estava tão deprimido que joguei uma pedra numa das vitrines e sentei no meio-fio. Um amigo jornalista, mais experiente, voltou para me buscar: “Está bem que você seja idiota a ponto de achar que jogando pedras na vitrine você está resistindo. Mas não precisa exagerar, a ponto de jogar pedra e ficar aí parado.”

Mais tarde, nas noites da clandestinidade, ou mesmo nas conversas de cadeia, pude ir ligando fatos, compondo um quadro mais claro do que foi o golpe de Estado de 1964. Para começar fui respondendo as perguntas mais elementares. Onde é que estavam os estudantes? Por que é que não vieram as armas do Aragão? Coisas assim, ainda meio prosaicas, mas que eram, exatamente, as perguntas que me vinham à cabeça.

Os estudantes também estavam tentando resistir. Só que na Faculdade de Direito, no Rio, para falar apenas da experiência que me foi mais próxima. Num depoimento prestado em 1970, Vladimir Palmeira, que em 1968 era o grande líder do movimento estudantil, contou que eram mais de 300. A mesma disposição heroica, as mesmas frases de efeito: “Resistir até o último homem”; ou então: “Daqui a pouco chegam as armas do dispositivo militar do presidente”.

E as armas, Antônio? As armas que você traria pra nós, Antônio Duarte, da Associação dos Marinheiros? Quantas vezes não perguntei isso durante as partidas de xadrez do exílio. E quantas vezes você não me repetiu esta história, sempre com sabor daquele conto da infância. Alguém foi à festa, vinha trazendo um docinho para nós, vinha passando por uma ponte e pluft, caiu o docinho no rio. Pena.

Parte I

HOMEM CORRENDO DA POLÍCIA

Irarrazabal chama-se a rua por onde caminhávamos em setembro. É um nome inesquecível porque jamais conseguimos pronunciá-lo corretamente em espanhol e porque foi ali, pela primeira vez, que vimos passar um caminhão cheio de cadáveres. Era uma tarde de setembro de 1973, em Santiago do Chile, perto da praça Nunoa, a apenas alguns minutos do toque de recolher.

Caminhávamos rumo à Embaixada da Argentina, deixando para trás uma parte gelada da Cordilheira dos Andes e tendo à nossa esquerda o Estádio Nacional, para onde convergia o grosso do tráfego militar na área.

Na esquina com a rua Holanda, somos abordados por alguém que nos pede fogo. Uma pessoa parada na esquina. Parecia incrível que se pudesse estar parado ali, naquele momento. Vera me olhou com espanto e compreendi de estalo o que queria dizer:

– Coitado, vai cair em breve nas mãos da polícia.

Ele se curva para acender o cigarro e vemos seus dedos amarelos. A chama do fósforo ressalta as olheiras de quem dormiu pouco ou nem dormiu. Certamente era de esquerda o cara parado na esquina. E, como nós, estava transtornado com o golpe militar, tentando reatar os inúmeros vínculos emocionais e políticos que se rompem num momento desses.

Tive vontade de aconselhá-lo: se cuida, toma um banho, não dá bandeira, se manda, sai desta esquina. Mas compreendi, muito rapidamente, que seria absurdo parar para conversar na esquina da Irarrazabal com Holanda, naquele princípio de primavera.

Nós também estávamos numa situação difícil. A alguns minutos do toque de recolher, a meio caminho da Embaixada da Argentina, nossas chances eram estas: ou saltávamos para dentro dos jardins e ganhávamos asilo político, ou ficávamos na rua, em pleno toque de recolher. Se ficássemos na rua com certeza seríamos presos e teríamos, pelo menos, algumas noites de tortura para explicar o que estávamos fazendo no Chile durante a virada sangrenta que derrubou a Unidade Popular. Pessoalmente teria de explicar por que me chamava Diogo e era equatoriano. E não me chamava Diogo nem era equatoriano. Tratava-se de um passaporte falso, de um português que emigrara para Quito, e que me dava margem para falar espanhol com sotaque. Português naturalizado equatoriano, caminhando ao lado de uma brasileira e de uma alemã, sem tempo portanto para dar conselhos.

Pois, como ia dizendo, estávamos numa situação difícil. Na melhor das hipóteses, venceríamos a vigilância dos carabineros e cruzaríamos os jardins da Embaixada. Começaria aí um exílio dentro do exílio, dessa vez mais longo e doloroso porque as ditaduras militares estavam fechando o cerco no continente. Na melhor das hipóteses, portanto, iríamos sofrer muito.

No entanto, era preciso correr. Correr rápido para chegar a tempo e meio disfarçado para não chamar a atenção dos carros militares. E, talvez, o cara da esquina nem fosse de esquerda. Foi assim, nessa corrida meio culpada, que me ocorreu a ideia: se escapo de mais esta, escrevo um livro contando como foi tudo. Tudo? Apenas o que se viu nesses dez anos, de 1968 para cá, ou melhor, a fatia que me coube viver e recordar.

Este, portanto, é o livro de um homem correndo da polícia, tentando compreender como é que se meteu, de repente, no meio da Irarrazabal, se apenas cinco anos antes estava correndo da Ouvidor para a Rio Branco, num dos grupos que fariam mais uma demonstração contra a ditadura militar que tomara o poder em 1964. Onde é mesmo que estávamos quando tudo começou?

Sinceramente que saí buscando um pouco de ar fresco. A sala do copidesque do JB tinha uma luz branca e, depois de certo tempo de trabalho, cansava. Era melhor sair para o balcão, olhar a avenida Rio Branco, ver o trânsito fluir rumo ao sul da cidade. Gente voltando do trabalho, no fim da tarde. De repente, não sei como, cinquenta pessoas se reúnem no meio da rua, tiram suas faixas e cartazes e gritam: “Abaixo a ditadura!” Como? Os carros não podem se mexer: é uma passeata. Mil coisas estavam acontecendo nos telegramas empilhados na minha mesa: guerras, terremotos, golpes de Estado. Ali, diante dos meus olhos, cinquenta pessoas com faixas e cartazes, iluminadas pelos faróis e meio envoltas na fumaça dos canos de descarga, avançavam contra o trânsito. “Mais verba, menos tanques, abaixo a ditadura!”, gritavam. Lembrei-me da minha terra. O Guarani Futebol Clube batido mais uma vez, pelo mesmo adversário, irrompendo na rua Vitorino Braga com sua bandeira azul e branca, cantando “Em Juiz de Fora quem Manda sou Eu”. Aquelas pessoas gritando na rua, a vida seguindo seu curso, o trânsito engarrafado por alguns minutos, tudo isso me fazia pensar. O rosto dos jogadores do Guarani, nossas camisas meio rasgadas, a gente de cabeça erguida enquanto todos atacavam seu macarrão de domingo, macarrão com ovos marca Mira, vinho Moscatel.

Tudo parecia já muito remoto depois do golpe de Estado no Chile, com os cachorros latindo e o ruído dos helicópteros patrulhando a cidade. Daí a pouco chamariam para voltar ao trabalho, mas a demonstração estudantil não ia sair fácil da minha cabeça. Desde 1964 que estava buscando aquela gente, e aquela gente, creio, desde 1964, preparava seu encontro com as pessoas olhando da sacada da avenida Rio Branco.

Em 1964 eu tinha dois empregos. Um era no Jornal do Brasil, outro no Panfleto, semanário da ala esquerda do PTB que, mais tarde, depois do golpe, iria sobreviver de forma autônoma como Movimento Nacionalista Revolucionário, MNR. No JB, trabalhava como redator; no Panfleto, como subsecretário de oficinas. Os dois empregos tinham uma importante função para mim. Num trabalhava de acordo com minhas ideias e, no outro, trabalhava para ganhar dinheiro. Isto é ótimo para um depoimento retocado. Na verdade, havia outro interesse, um pouco mais baixo, mas importante também: O JB pagava por mês e o Panfleto, dirigido por amigos, dava alguns vales que nos permitiam tocar o barco cotidiano. E, afinal, não era um barco muito pesado: vivíamos em cinco num apartamento do 200 da Barata Ribeiro e o aluguel não custava muito, assim dividido por cinco pessoas. Todos éramos jornalistas começando carreira. Quase todos comiam no trabalho e, uma vez ou outra, ali no Beco da Fome, que ficava bem perto de casa. Alguns participavam do Grupo dos 11, uma forma de organização que o Brizola tinha proposto para a resistência ao golpe. Outros não estavam muito interessados, por desencanto, mal de amores ou mesmo problemas que iam explodindo na vida de cada um, um pouco indiferentes à crise nacional que se aproximava.

Quando irrompeu o golpe de 1964, ninguém ficou em casa. Os que participavam do Grupo dos 11 foram fazer a fila das armas do Aragão. Nessa fila muita gente se encontrou, mas as armas não apareceram. Lembro-me de ter ido para a Cinelândia até o momento em que começaram a atirar nas pessoas, de dentro do Clube Militar. Um golpe de Estado – pelo menos foi o que senti nos dois que me atingiram – é um pouco como uma grande e emocionante peça de teatro. Quando termina, você sente um grande impulso para estar junto das pessoas de quem gosta, ou mesmo telefonar para saber se estão bem.

Um pouco tocado pelas balas do Clube Militar e um pouco tocado pela vontade de estar perto dos amigos, saí da Cinelândia. Para o Panfleto não adiantava voltar, pois os homens já haviam cercado tudo, recolhido os arquivos e empastelado a redação. Segui para o JB e encontrei um grupo de jornalistas na Rio Branco. Era o que procurava. Fomos juntos para o Sindicato dos Gráficos, onde resistiríamos. E nós, que pensávamos em resistir, acabamos sendo envolvidos na confusão geral que se armou para retirar os papéis, para escapar da polícia. Foi assim também com muita gente no Chile. Você diz que vai resistir, você parte para resistir, mas o que você vai fazer, de verdade, é fugir.

Lembro-me de ter escrito uma carta, de dentro da Embaixada da Argentina, para um amigo do Rio, comunicando que estava vivo. E dizia: “Amigo, acabo de perder minha segunda revolução e estou caminhando para o recorde daquele personagem do García Márquez que perdeu 12 ou 13, creio. Vi muita gente morrendo, grupos inteiros se entrincheirando nas fábricas e resistindo até o último homem. Mas o movimento geral era de fuga, de retirada. E penso que era o mais inteligente a fazer, consideradas as circunstâncias.”

Quando nos reunimos de novo, no 200 da Barata Ribeiro, não era apenas o Brasil que estava derrotado. Nossas próprias caras estavam derrotadas e ficariam assim por muitos dias. São aqueles momentos em que se dá o balanço e não se sabe se para e chora ou se vai ajudar os que ainda não conseguiram escapar. Os que deixaram a fila de armas do Aragão tinham encontrado com a Marcha da Vitória que vinha da Zona Sul. A greve nos jornais foi furada por todos os lados. Os colegas que eram contra o governo Goulart estavam eufóricos, alguns preparando às pressas um livro comemorativo. Outros baixavam do Palácio Guanabara, onde foram também resistir à possível invasão por parte dos fuzileiros comandados pelo almirante Candido Aragão.

Ainda me lembro de vê-los ali, comentando as mil e uma táticas defensivas que usariam caso o Palácio fosse atacado, insinuando toda a bravura que teriam caso o combate se travasse. Uma das edições que se preparavam trazia uma história com o coronel Montanha, que tomara o Forte de Copacabana com um grito que abalou o sentinela e permitiu sua entrada triunfal. Às vezes, uma história dessas caía na nossa mão, para corrigir os erros de português, mudar um ou outro verbo, fazer os títulos e as legendas para as fotos. Começávamos a engolir sapos e sequer imaginávamos que íamos continuar a engolir sapos durante 15 anos, nas mais variadas circunstâncias.

Lembro-me que, na saída do Sindicato dos Gráficos, meio corridos e já ouvindo vozes do adversário na Rádio Mayrink Veiga, resolvemos cruzar todas as ruelas ao lado da Rio Branco e evitar o tráfego. Numa delas, já estava tão deprimido que joguei uma pedra numa das vitrines e sentei no meio-fio. Um amigo jornalista, mais experiente, voltou para me buscar: “Está bem que você seja idiota a ponto de achar que jogando pedras na vitrine você está resistindo. Mas não precisa exagerar, a ponto de jogar pedra e ficar aí parado.”

Mais tarde, nas noites da clandestinidade, ou mesmo nas conversas de cadeia, pude ir ligando fatos, compondo um quadro mais claro do que foi o golpe de Estado de 1964. Para começar fui respondendo as perguntas mais elementares. Onde é que estavam os estudantes? Por que é que não vieram as armas do Aragão? Coisas assim, ainda meio prosaicas, mas que eram, exatamente, as perguntas que me vinham à cabeça.

Os estudantes também estavam tentando resistir. Só que na Faculdade de Direito, no Rio, para falar apenas da experiência que me foi mais próxima. Num depoimento prestado em 1970, Vladimir Palmeira, que em 1968 era o grande líder do movimento estudantil, contou que eram mais de 300. A mesma disposição heroica, as mesmas frases de efeito: “Resistir até o último homem”; ou então: “Daqui a pouco chegam as armas do dispositivo militar do presidente”.

E as armas, Antônio? As armas que você traria pra nós, Antônio Duarte, da Associação dos Marinheiros? Quantas vezes não perguntei isso durante as partidas de xadrez do exílio. E quantas vezes você não me repetiu esta história, sempre com sabor daquele conto da infância. Alguém foi à festa, vinha trazendo um docinho para nós, vinha passando por uma ponte e pluft, caiu o docinho no rio. Pena.

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Fernando Gabeira

Sobre o autor

Fernando Gabeira

Começou sua carreira jornalística como repórter no Jornal do Brasil. Em 1970, preso em São Paulo pela ditadura militar, foi para o exílio e passou por vários países, entre eles o Chile, a Suécia e a Itália. Em 1979, ano em que retornou ao Brasil, Gabeira voltou a atuar como jornalista e escritor. Foi candidato ao governo do Rio de Janeiro em 1986. Foi eleito deputado federal em 1994 e reeleito em 1998 e em 2002. Gabeira dedicou-se a uma intensa produção literária, construindo as primeiras análises críticas da luta armada e impulsionando discussões sobre temas como as liberdades individuais e a ecologia. Livros como O crepúsculo do macho, Entradas e bandeiras, Hóspede da utopia, Nós que amávamos tanto a revolução e Vida alternativa apontaram novos horizontes no campo das mentalidades e colocaram na berlinda uma série de velhos conceitos da vida brasileira.

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