Carlos Burle - Profissão: surfista - Sextante
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BIOGRAFIA

Carlos Burle – Profissão: surfista

Carlos Burle – Profissão: surfista

CARLOS BURLE E ANDRÉ VIANA

“O surfe de ondas grandes é o ser humano enfrentando a natureza no grau mais elevado de seu poder físico e psicológico. Existem mais de 7 bilhões de pessoas no mundo, mas só alguns desses seres são capazes de fazer o que fazemos.” – Carlos Burle

 

Primeiro campeão e incentivador do circuito mundial de ondas grandes e do tow-in, Carlos Burle conta tudo sobre suas décadas de dedicação ao esporte, do anonimato ao estrelato, sempre tentando desmistificar a imagem desses homens que encaram ondas de 20, 30 metros por prazer – mas também por profissão.

Em depoimento ao jornalista e escritor André Viana, Burle fala de peito aberto, com bom humor e com a coragem que demonstra diante da fúria da natureza, sobre sua infância, os dramas familiares, sexo, drogas e polêmicas dentro e fora do mar.

***

Nazaré, Portugal, 28 de outubro de 2013. Depois de salvar a vida de Maya Gabeira das ondas gigantes na praia do Norte, Carlos Burle toma uma decisão ousada e perigosa: voltar para a água e surfar, diante de câmeras de todo o mundo, os paredões que arrebentavam a metros da areia. Nesse dia, surfou uma onda estimada em 32 a 35 metros de altura.

 

Protagonista de inúmeros episódios fundamentais da história do surfe, Burle sempre se arriscou a ir mais longe, a nadar na direção das maiores ondas, dos maiores desafios.

Dramático, inspirador e, por vezes, hilário, Carlos Burle – profissão: surfista apresenta um olhar íntimo sobre o garoto que ia passar as férias no engenho dos padrinhos e sofreu com a separação dos pais, o adolescente que comprou a primeira prancha aos 13 anos e viajou para o Havaí assim que fez 19, o campeão mundial e referência em ondas grandes que gravou seu nome nas páginas do esporte.

Aos 50 anos, Burle faz um balanço de tudo que recebeu da vida e fala sem reservas sobre os erros e acertos ao longo do caminho.

“O medo pode ser uma droga poderosa. Sempre morri de medo do que fiz, mas aprendi desde cedo que um bom jeito de não ser dominado pelo medo é manter a mente pronta para enfrentá-lo… A vida é um laboratório que me permite experimentar o que eu quiser para descobrir o que é melhor para mim. Liberdade, experiência, equilíbrio. Essas foram minhas apostas para ganhar força com o medo. Não deixar ninguém limitar meus sonhos, nem eu mesmo. Por um simples motivo: não existe verdade absoluta. O que existe é a postura que cada um escolhe para atuar na vida – e assumir que o erro também faz parte do jogo.” Carlos Burle

“O surfe de ondas grandes é o ser humano enfrentando a natureza no grau mais elevado de seu poder físico e psicológico. Existem mais de 7 bilhões de pessoas no mundo, mas só alguns desses seres são capazes de fazer o que fazemos.” – Carlos Burle

 

Primeiro campeão e incentivador do circuito mundial de ondas grandes e do tow-in, Carlos Burle conta tudo sobre suas décadas de dedicação ao esporte, do anonimato ao estrelato, sempre tentando desmistificar a imagem desses homens que encaram ondas de 20, 30 metros por prazer – mas também por profissão.

Em depoimento ao jornalista e escritor André Viana, Burle fala de peito aberto, com bom humor e com a coragem que demonstra diante da fúria da natureza, sobre sua infância, os dramas familiares, sexo, drogas e polêmicas dentro e fora do mar.

***

Nazaré, Portugal, 28 de outubro de 2013. Depois de salvar a vida de Maya Gabeira das ondas gigantes na praia do Norte, Carlos Burle toma uma decisão ousada e perigosa: voltar para a água e surfar, diante de câmeras de todo o mundo, os paredões que arrebentavam a metros da areia. Nesse dia, surfou uma onda estimada em 32 a 35 metros de altura.

 

Protagonista de inúmeros episódios fundamentais da história do surfe, Burle sempre se arriscou a ir mais longe, a nadar na direção das maiores ondas, dos maiores desafios.

Dramático, inspirador e, por vezes, hilário, Carlos Burle – profissão: surfista apresenta um olhar íntimo sobre o garoto que ia passar as férias no engenho dos padrinhos e sofreu com a separação dos pais, o adolescente que comprou a primeira prancha aos 13 anos e viajou para o Havaí assim que fez 19, o campeão mundial e referência em ondas grandes que gravou seu nome nas páginas do esporte.

Aos 50 anos, Burle faz um balanço de tudo que recebeu da vida e fala sem reservas sobre os erros e acertos ao longo do caminho.

“O medo pode ser uma droga poderosa. Sempre morri de medo do que fiz, mas aprendi desde cedo que um bom jeito de não ser dominado pelo medo é manter a mente pronta para enfrentá-lo… A vida é um laboratório que me permite experimentar o que eu quiser para descobrir o que é melhor para mim. Liberdade, experiência, equilíbrio. Essas foram minhas apostas para ganhar força com o medo. Não deixar ninguém limitar meus sonhos, nem eu mesmo. Por um simples motivo: não existe verdade absoluta. O que existe é a postura que cada um escolhe para atuar na vida – e assumir que o erro também faz parte do jogo.” Carlos Burle

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Ficha técnica
Lançamento 06/11/2017
Título original CARLOS BURLE - PROFISSÃO: SURFISTA
Tradução
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 320
Peso 480 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-68377-18-5
EAN 9788568377185
Preço R$ 49,90
Ficha técnica e-book
eISBN 9788568377192
Preço R$ 29,99
Selo
Primeira Pessoa
Lançamento 06/11/2017
Título original CARLOS BURLE - PROFISSÃO: SURFISTA
Tradução
Formato 16 x 23 cm
Número de páginas 320
Peso 480 g
Acabamento BROCHURA
ISBN 978-85-68377-18-5
EAN 9788568377185
Preço R$ 49,90

E-book

eISBN 9788568377192
Preço R$ 29,99

Selo

Primeira Pessoa

Leia um trecho do livro

Capítulo 1

Minhas pernas estão pesadas, eu não consigo mais correr. Inspiro. Expiro. Vejo touros vindo de tudo que é lado. Estou sozinho no meio do campo, bem no ponto de convergência daquela boiada sem freios. Não tenho nenhuma chance de escapar de tamanha fúria. Estou sem fôlego, o desespero faz meu cérebro latejar. O som crescente dos sinos dos caboclinhos de Nazaré da Mata, saído de não sei onde, enche meus ouvidos de agonia.

– Carlinhos! Carlinhos! Acorda, menino!

Meu padrinho me desperta com um chacoalhão na rede.

– Levanta, Carlinhos! Anda! Já vai amanhecer!

Apesar de ser uma alma muito carinhosa comigo, nunca entendo por que ele me desperta desse jeito.

Como acontece inevitavelmente todas as madrugadas, acordo com o short do pijama ensopado. Tenho 5 anos e ainda faço xixi dormindo. Molhar a rede é rotina para mim.

Enquanto me troco, meu padrinho desce as escadas do casarão junto com minha prima Thereza, que tem muito mais facilidade de acordar do que eu.

– Estamos na varanda, Carlinhos! Não demora…

Em julho, as noites em Nazaré da Mata são geladas. Visto um agasalho, madrinha me leva ao banheiro para escovar os dentes, desço as escadas correndo. Olho o relógio da sala, vejo que ainda não são nem 4h15 da manhã e me lembro dos touros.

Encontro meu padrinho e minha prima no alpendre da casa, ambos já em posição de aquecimento.

– Vamos lá! Abrindo os braços. Isso. Agora fecha. Inspira, expira. Abre novamente. Olhar no horizonte, encham os pulmões. E um e dois…

Enquanto sigo sonambulamente as ordens do meu padrinho, fico olhando a névoa que encobre o vale aos pés da casa, escondendo o açude e o galpão. Como é bonito aquele tecido fino de nuvem se dissipando lentamente com as primeiras luzes da manhã… Olho para meu padrinho e para Thereza, ambos de braços estendidos enquanto inspiram e expiram compenetrados, e sinto uma felicidade sem nome porque sei que ainda tenho um dia inteiro pela frente no engenho.

Durante muitos anos da minha infância, era assim que tinha início a rotina no engenho de meu padrinho, tio Nando, em Nazaré da Mata, cidade da Zona da Mata pernambucana, a 70 quilômetros do Recife. Eu sentia frio, sono, preguiça, cheiro de xixi, tinha remela no olho – mas a única sensação que consigo ter ao lembrar daqueles exercícios matinais é de prazer. Um prazer que só crescia à medida que os eventos iam se sucedendo pelo resto do dia.

A sequência era quase sempre a mesma. Tão logo terminava a sessão de exercícios, tio Nando, Thereza e eu seguíamos até a cozinha, pegávamos cada um sua caneca, deixávamos a casa e galgávamos alguns metros de encosta pelos fundos da casa até chegar à cocheira para tomar o leite cru da vaca, tirado por tio Nando ou então por Valdemar, o cocheiro oficial do engenho. Vez ou outra, eu burlava as regras e colocava escondido chocolate em pó no fundo da caneca, mas só quando eu achava que tio Nando não perceberia minha heresia.

Minha vaca preferida era a Estrela, que pertencia à madrinha Carmelita. Tio Nando dizia que a filha de Estrela era minha, mas eu sabia que ele falava a mesma coisa para todos os sobrinhos. Mesmo assim, eu não deixava de sentir orgulho de ser o falso proprietário daquela bezerra linda.

Quando fazia ele mesmo a ordenha, tio Nando tinha por hábito limpar a teta da vaca com um lencinho antes de esguichar leite nas nossas canecas. Ele mal podia imaginar que eu dava minhas mamadas escondidas nas tetas da filha de Estrela quando ela estava solta no campo.

Meu sonho, naquele tempo, era ser bezerro. Achava bonito o jeito como o garrote dá cabeçadas de leve no peito da mãe para o leite descer. Longe da vista dos adultos, eu me colocava debaixo da filha de Estrela e dava minhas cabeçadas para ela entender que Carlinhos queria se alimentar. O leite até que descia, mas me faltava força no fundo da língua para sugar o que a natureza me ofertava.

E como eu adorava o cheiro daquela cocheira. Principalmente quando colocavam melado na ração do gado. Que perfume doce e encantado que se espalhava à nossa volta! Até onde minha memória chega, havia lá umas 20 a 30 cabeças de gado. Entre maravilhado e assombrado, eu ficava assistindo à movimentação dos bois disputando lugar para se alimentar. À noite sonhava com eles. Os bois do engenho povoariam meus sonhos até que eu chegasse à idade adulta.

O capim era moído em dois turnos: pela manhã e à tarde, sempre no mesmo horário. O som do moedor funcionava como um badalo de relógio para a gente do engenho. Eu me sentia peça indissociável daquele mundo feito de feno e bosta. Quando eu desaparecia por muitas horas, geralmente a cocheira era o primeiro lugar onde me procuravam. Não era raro me encontrarem roncando largado no cocho ou então enroscado com alguma garrotinha. A pele dos meus cotovelos era áspera de tanto que eu dava o braço para Tostão, um boi zebu cinza e muito manso, lamber. Era uma sensação prazerosa, de amizade e comunhão.

Minha identificação com os bichos devia provocar certa estranheza entre os adultos. Com meu queixo projetado para a frente, eu conseguia tocar a língua na ponta do nariz, como fazem os bois. Também sabia mexer minha orelha para espantar moscas imaginárias. Eu queria ser um bicho. Eu era um bicho. Tio Nando enxergava claramente isso em mim:

– Esse menino é terra! Esse menino é engenho!

Eu sentia o orgulho dele ao dizer isso. Como a vida não lhe deu filhos, talvez imaginasse que seria eu, dos sobrinhos, aquele que, no futuro, cuidaria dos engenhos de cana nas mãos da família dele há pelo menos três séculos. “Tu Nano”, como eu o chamava quando ainda não sabia falar direito, sempre foi um coração de bondade por trás de sua figura severa de senhor de engenho. Vestia-se invariavelmente de chapéu, botas e camisa quadriculada por dentro da calça jeans. Era um homem inteligente – fez duas faculdades, de Química Industrial e de Engenharia Civil –, mas sua alma nunca perdeu a rudeza do campo.

Tio Nando era um cara de poucas palavras que me passava segurança, controle e muita disciplina. Todo fim de mês eu ficava com a impressão de que ele não era dono de engenho nenhum, mas sim de um banco. Quando chegava o dia de pagamento dos peões, ele se trancava no escritório, uma saleta com uma janelinha gradeada como abertura. Os funcionários do engenho faziam fila em frente ao guichê de tio Nando e iam, um a um, enfiando a mão pela janelinha e retirando dali um maço de dinheiro. Thereza e eu costumávamos nos infiltrar no fim da fila achando que tio Nando não notaria que era a gente. Quando chegava nossa vez, colocávamos nossas mãozinhas pela grade da janela, mas a única coisa que recebíamos era uma palmada carinhosa.

Ao longo da primeira década de nossas vidas, Thereza e eu frequentamos o engenho como se fôssemos filhos legítimos de tio Nando e tia Carmelita. Nas férias de janeiro e julho, a Lagoa Seca de Baixo era nosso destino certo e não havia nada que nos fizesse esperar outra coisa. Eu estudava para tirar nota boa na escola simplesmente para não correr o risco de perder um só dia no engenho. Somando o tempo que passávamos lá todo ano, dava perto de quatro meses. Tio Nando e tia Carmelita eram nossos segundos pais, e aquele universo rural era nossa segunda casa.

Quando começamos a viver o engenho, eu ainda chamava Thereza de “Leleza”. Ela é poucos anos mais velha do que eu e por isso eu vivia grudado nela. Na minha lembrança, eu batia na altura de seus joelhos. Thereza era alta, magra, olhos azuis, loira. Não dava nem para brincar que era alemã, porque ela realmente havia nascido na Alemanha, no tempo em que o pai era professor-visitante na cidade de Colônia. Tio Nando a chamava de “Perna de Muriçoca” ou então de “Macaíba”, árvore grande e espinhosa, condizente com a personalidade forte dela.

Thereza e eu fomos criados como irmãos. Eu me lembro perfeitamente da euforia que tomava conta da gente já na véspera da ida para o engenho, quando dormíamos na casa de tio Nando e tia Carmelita em Boa Viagem para pegar a estrada no dia seguinte bem cedo. Íamos pinoteando dentro do carro, numa época em que cinto de segurança ainda era um acessório dispensável.

Minha excitação se multiplicava de forma exponencial nas férias de julho porque eu sabia que era grande a chance de encontrar um atoleiro na chegada. Eu amava a aventura. Amava avistar o rio transbordando de tão cheio, o canavial alagado, o carro atolando na lama da estradinha de terra, o trator vindo para nos rebocar até a entrada do engenho e a dúvida na cara de todos: conseguiríamos mesmo subir a pé a rampa que ia dar no casarão?

Tio Nando não perdia tempo em nos aplicar, já na manhã seguinte à nossa chegada, os exercícios matinais, seguidos do leite quente e espumoso de Estrela, que Thereza e eu bebíamos com avidez infantil. Quando estávamos saciados, percebíamos que Marlene, dona Maria e Zefinha já haviam iniciado os trabalhos na cozinha do casarão. O cheiro de café e milho cozido que chegava à cocheira coincidia com os primeiros sons do louro aquecendo a voz para infernizar a vida de todos pelo resto do dia. O diabo verde vivia solto, empoleirado debaixo do telhado do corredor que nos levava ao pomar, nos fundos do casarão. Estava sempre bufando, bravo, andando de um lado para outro, as penas da cabeça sempre arrepiadas, as pupilas contraídas de raiva. O pessoal dizia que ele era capaz de arrancar uma orelha em pleno voo, o que só fazia aumentar meu pavor dele.

Thereza e eu passávamos longe do louro para retornar à casa e encontrar madrinha Carmelita à nossa espera para o café da manhã. A mesa posta era uma fartura só: inhame, macaxeira, cuscuz, tudo macio e fumegante. Além disso, ovos mexidos com salsicha, milho, leite, suco e frutas, muitas e das mais variadas – manga, goiaba, sapoti, tudo colhido do pomar. Também era de lei ter à mesa uma jarra de água de coco fresco, que o pessoal tirava do pé subindo apenas com o apoio da planta dos pés e uma corda para puxar o cacho com precisão.

A essa altura, todos os primos – Thereza, eu, Antônio, Neném, Zé Miguel – já estávamos ruidosamente à mesa nos fartando de comer sob a supervisão maternal de madrinha. Com a barriga estufada de leite de Estrela e macaxeira com ovo mexido, eu aproveitava o momento em que o pessoal discutia como seria a sequência do dia para deslizar discretamente da mesa e correr direto para minha goiabeira querida. Era ali meu banheiro privativo, onde eu subia e aliviava meu intestino entre folhas e brisa, devolvendo à terra tudo o que ela havia me dado com generosidade.

A natureza do engenho estimulava uma liberdade maravilhosa em nós, crianças. Em dias de calor, costumávamos ir depois do café da manhã diretamente para a “solta”, como chamávamos o vale próximo ao casarão por onde passava um riacho. No período das águas, em julho, quando o riacho se espraiava pelas várzeas, eu e meus primos fazíamos barragem em parte do leito. Quando a água secava, os peixes ficavam presos. Aí era só colher um a um com o jereré e levar para Marlene cozinhar: traíra, muçum, piaba, cará e até camarão e pitu.

Certa vez, Thereza e eu pegamos tantos muçuns, uma enguia de água doce, que não houve balde que desse conta da quantidade. Tivemos a ideia de guardá-los na caixa-d’água da casa. Não demorou para que a água da torneira começasse a sair com um cheiro estranho. Quando tio Nando foi investigar o que podia estar acontecendo, encontrou um emaranhado dos bichos deslizando no fundo preto do tanque. A bronca não foi pequena.

Em outra ocasião, resolvemos levar muçuns para dona Lurdes cozinhar. Dona Lurdes aproveitou para nos dar uma aula de culinária:

– Primeiro, precisa amaciar bem a carne, assim…

Ela pegou então um muçum pelo rabo e começou a chicoteá-lo com violência numa tábua de madeira. Thereza e eu ficamos acuados diante da cena insólita. Depois de descamado, o bicho, que era preto, tornou-se azulado. Ficou visível a nossa cara de arrependimento, principalmente após provar o famoso prato.

Dos funcionários do engenho, eu tinha um apreço especial por Valdemar, que, na minha pronúncia infantil, era o “Valdebar”. Era com ele, e só com ele, que eu arrancava meus dentes. Madrinha me levava na cocheira, e Valdemar aparecia sorrindo e enfiava seus dedos de alicate na minha boca. Não era raro eu almoçar e jantar na cocheira só para poder passar o maior tempo possível com ele e os outros funcionários do engenho.

– Eu só gosto de comida de pobre! – dizia eu a madrinha.

Apesar de me comportar como o sobrinho mimado do patrão, isso era tudo o que eu não queria ser. Eu queria ser como o Valdemar, ser um deles. Tudo o que os funcionários do engenho faziam, eu imitava. Eu não dizia “vermelho”, por exemplo, mas “vermei”. Descascava cana com os dentes porque era assim que eles faziam. Pegava cobra na mão como eles: prendia a cabeça da bicha no chão com um pedaço de pau, para não ser picado, segurava com dois dedos pela cabeça e ficava com ela enroscada no braço.

E como esquecer o dia em que ganhei uma peixeira de meu padrinho? Eu devia ter uns 8 anos. Uma peixeira com bainha, meu Deus! Finalmente eu tinha virado homem. “Daqui a pouco, já posso ser coronel”, pensei, esquecendo por alguns instantes que meu sonho era ser peão. A peixeira logo virou extensão do meu braço. Eu via os caboclos amolando as peixeiras na pedra na beira do açude e queria fazer igual. Ia pescar, ia brincar com os meninos que moravam no engenho – e a peixeira sempre ali comigo, minha companheira de todas as aventuras. Aonde quer que eu fosse, ela estava junto, me ajudando a desbravar florestas virgens e infinitas e a vencer jaguatiricas gigantes e sanguinárias. Até na hora de dormir lá estava ela, dividindo o travesseiro comigo.

Mas, então, um dia cochilei na rede e, quando acordei, que surpresa, a peixeira estava sem ponta! Traição. Chorei, esperneei, gritei durante dias:

– Quem tirou a ponta da minha peixeira?

Quem, que alma perversa havia me rebaixado novamente à condição infantil? Até hoje não sei quem fez aquilo – madrinha talvez, com medo de eu me machucar. Ninguém viu, ninguém sabe, ninguém lembra.

Foi difícil me recuperar do golpe. Sorte que, para me distrair, havia as histórias de assombração que seu Biu nos contava antes do jantar. A narração acontecia sempre no cair da tarde, na frente do casarão, com todas as crianças sentadas ao seu redor. Eram histórias de “arma do outro mundo”, como ele dizia, pitando seu cachimbinho de preto velho. Quando queria fazer suspense, ele dava umas batidinhas na madeira com a mão fechada e dizia:

– Vou puxar pela memória…

A história que mais me arrepiava o couro cabeludo era a da comadre Florzinha, que corria atrás das crianças que ficavam zanzando pela floresta. Por causa de comadre Florzinha, Thereza e eu sempre íamos pegar manga na mata agarrados um no outro. Sábio na sua simplicidade, seu Biu era um homem tão franzino quanto tranquilo, respeitador, discreto e fiel aos patrões. Quando ia falar com Tio Nando ou madrinha, sempre tirava o chapéu de palha da cabeça, em sinal de respeito. Chamava madrinha de “patoa” ou de “dona Carrelita”. Eu adorava conversar com ele enquanto tirávamos sapoti do pé.

Nós, crianças, vivíamos na barra da saia de Marlene pedindo comida. Todo dia, era ela a responsável pelos lanches do meio da manhã e do meio da tarde. O da tarde era o mais aguardado, pois era quando saíam as guloseimas mais desejadas: pastel Lolita recheado de goiabada, pudim de Leite Moça, rabanada (que chamávamos de fatia dourada). Do pomar, ouvíamos madrinha chamar a mim e a Thereza:

– Hora do lanche!

De tanto ouvir madrinha, o louro safado acabou aprendendo a chamada do lanche. Ele imitava a voz dela à perfeição. Vez ou outra, saíamos correndo para lanchar e descobríamos que a mesa ainda não estava pronta. Era quase possível ver o louro rindo da cara da gente.

Outra saia na qual vivíamos grudados era a de Finha, contratada por madrinha para supervisionar as crianças. Ela estava com 18 anos na época, mas ainda preservava uma leveza infantil no olhar e no trato com a gente. Geralmente, era Finha quem nos levava ao açude – ela era tão cuidadosa comigo que, em época de enchente, me carregava no colo, no meio do lamaçal, mesmo que eu estivesse usando minhas botas Sete Léguas. E como se divertia fazendo esquibunda na chuva com a gente, na descida em frente ao casarão, quase sempre deslizando com as calças direto na lama, para desespero de Marlene, que teria que lavar tudo na munheca mais tarde.

Esse era o núcleo, digamos, inocente do engenho. Porque havia um outro, do qual passei a fazer parte lá pelos 6 ou 7 anos, que contava com os filhos dos funcionários do engenho, em especial os irmãos Carlinhos e Marquinhos, filhos de dona Lurdes e seu Henrique, o administrador da fazenda. A família morava na “vila”, a antiga casa-grande do engenho, um casarão amarelo com uma escadaria secular. Era ali que os garotos se sentavam para falar de sacanagem, quase sempre conduzidos pelo Loro, que tinha pelo menos o dobro da nossa idade.

Loro era o responsável pelo pão nosso de cada dia no engenho. De domingo a domingo, em algum momento do início da manhã ou do fim da tarde, ele despontava na estradinha que vinha da cidade com duas sacolas grandes de pão fresco nas mãos. Quem mais tocava fogo na nossa infância era o responsável pela comunhão do pão no engenho. Longe da vista dos adultos, Loro ensinava a mim e aos outros meninos a lidar com as comichões da vida.

A antiga senzala do engenho havia se transformado em um imenso galpão onde se armazenavam sacos de adubo, fertilizante e material do trato diário com a cana. Ainda é possível ver o lugar exato onde os escravos moíam a cana com a força dos braços e os tachos onde produziam melado, que é feito até hoje – certa vez, Thereza e eu encontramos por lá antigas correntes e tornozeleiras dos tempos da escravidão. Era ali, na antiga senzala, que o gado costumava descansar no fim da tarde. Todo mundo sabia que Loro gostava de ir sarrar as vacas. Um dia, quando eu tinha meus 7 ou 8 anos, passei por lá e o surpreendi cutucando o útero de uma vaca com um pedaço de pau. Assim que me viu, Loro abriu um sorriso e perguntou em tom de desafio:

– Quer ver o que eu vou fazer agora?

Em seguida, Loro baixou a calça e começou a fazer o mesmo que a gente via o touro fazer quando cobria a vaca.

– Vai, Carlinhos! Vem cá agora! Faz, faz assim, ó!

Ensaiei timidamente com o pedaço de madeira que Loro segurava, mas não tive coragem de encostar meu corpo no da inocente vaca, mais por pudor do que por repulsa. Aquele mundo de lubricidade selvagem era algo que me atraía. Sempre enxerguei o sexo dos animais com encantamento. Eu me deliciava observando a aproximação do touro no cio, o jeito como ele aponta o focinho para o céu depois de cheirar o sexo da parceira. “Um dia vou fazer igual”, eu pensava.

Loro orquestrava também as masturbações coletivas, mas os troca-trocas dos quais eu participava ficavam mesmo a cargo do Marquinhos, o mais novo da turma. Eu e ele mal sabíamos o que fazer. Trancados no quarto das crianças no casarão, abaixávamos as calças e ficávamos nos esfregando um na bunda do outro de modo quase puritano.

Eu não tinha limites para nada. Meus sentimentos eram absolutamente abertos e vazios de preconceito. Eu só queria aproveitar a vida do jeito mais emocionante possível. Sempre fui um menino “treloso”, como dizem em Pernambuco: é uma definição que me acompanha desde pequeno. Agia sempre por impulso, um tanto ingênuo e inconsequente. Não havia maldade nos meus atos. O que eu tinha era energia para ser gasta, e poucos medos. Essa combinação devia dar trabalho para os adultos. Eu vivia correndo de um lado para outro, completamente livre, inventando trelas. Se Thereza e eu estivéssemos brincando na goiabeira, eu achava pouco:

– Agora, vamos subir no pé de juá!

O juazeiro é cheio de espinhos, o que deixava tudo mais emocionante. Thereza sempre saía machucada das aventuras que eu inventava. Certa vez, passei voando por uma cerca viva de avelós, planta do sertão com uma seiva corrosiva:

– Corre, meu Deus, que Carlinhos vai ficar cego! – gritaram.

Com toda a calma, madrinha ficou derramando leite de cabra nos meus olhos para anular o efeito do ácido. Eu adorava deitar no colo quente de tia Carmelita enquanto ela tirava lêndeas e piolhos da minha cabeça. Ela me chamava para o balanço no alpendre do casarão e eu adormecia em seu colo sentindo o cheiro de óleo de coco queimado que dona Maria esquentava para ela passar nos meus cabelos. O tec-tec das suas unhas exterminando as lêndeas uma a uma era um sonífero para mim.

Que sonho de pessoa é madrinha, como eu me sinto amado por ela… Tia Carmelita parecia uma anjinha encarnada na Terra, de uma delicadeza e doçura incríveis. Seu tom de voz só alcança os decibéis dos seres humanos normais quando ela se estressa. Desde aquela época, ela e meu padrinho me tratam como o filho que não puderam ter. Certa vez, minha madrinha chegou a falar com mamãe sobre isso: se minha mãe quisesse ou permitisse, ela poderia me adotar.

– É lógico que eu não vou fazer isso com você nem com o Carlinhos – respondeu mamãe à irmã. – Todo mundo pode viver junto sem precisar de rompimentos de um lado ou de outro.

Sábia mamãe. Desse modo, tudo sempre ficou aberto e às claras entre nós. Eu não tinha vergonha de me sentir filho de madrinha e padrinho enquanto estava no engenho e ficava triste quando via o fim das férias se aproximar, já começando a contar os meses que faltavam para as férias seguintes.

Hoje em dia eu me pergunto como seria minha vida se mamãe tivesse me dado para madrinha. Será que eu teria dado desgosto a ela? Será que teria me tornado um senhorzinho de engenho, daqueles com a pança caindo sobre a calça jeans? É lógico que eu gostaria de ser filho de madrinha, e hoje posso dizer que também sou filho de tia Carmelita. Tenho duas mães: foi o que sempre ouvi em casa.

Capítulo 1

Minhas pernas estão pesadas, eu não consigo mais correr. Inspiro. Expiro. Vejo touros vindo de tudo que é lado. Estou sozinho no meio do campo, bem no ponto de convergência daquela boiada sem freios. Não tenho nenhuma chance de escapar de tamanha fúria. Estou sem fôlego, o desespero faz meu cérebro latejar. O som crescente dos sinos dos caboclinhos de Nazaré da Mata, saído de não sei onde, enche meus ouvidos de agonia.

– Carlinhos! Carlinhos! Acorda, menino!

Meu padrinho me desperta com um chacoalhão na rede.

– Levanta, Carlinhos! Anda! Já vai amanhecer!

Apesar de ser uma alma muito carinhosa comigo, nunca entendo por que ele me desperta desse jeito.

Como acontece inevitavelmente todas as madrugadas, acordo com o short do pijama ensopado. Tenho 5 anos e ainda faço xixi dormindo. Molhar a rede é rotina para mim.

Enquanto me troco, meu padrinho desce as escadas do casarão junto com minha prima Thereza, que tem muito mais facilidade de acordar do que eu.

– Estamos na varanda, Carlinhos! Não demora…

Em julho, as noites em Nazaré da Mata são geladas. Visto um agasalho, madrinha me leva ao banheiro para escovar os dentes, desço as escadas correndo. Olho o relógio da sala, vejo que ainda não são nem 4h15 da manhã e me lembro dos touros.

Encontro meu padrinho e minha prima no alpendre da casa, ambos já em posição de aquecimento.

– Vamos lá! Abrindo os braços. Isso. Agora fecha. Inspira, expira. Abre novamente. Olhar no horizonte, encham os pulmões. E um e dois…

Enquanto sigo sonambulamente as ordens do meu padrinho, fico olhando a névoa que encobre o vale aos pés da casa, escondendo o açude e o galpão. Como é bonito aquele tecido fino de nuvem se dissipando lentamente com as primeiras luzes da manhã… Olho para meu padrinho e para Thereza, ambos de braços estendidos enquanto inspiram e expiram compenetrados, e sinto uma felicidade sem nome porque sei que ainda tenho um dia inteiro pela frente no engenho.

Durante muitos anos da minha infância, era assim que tinha início a rotina no engenho de meu padrinho, tio Nando, em Nazaré da Mata, cidade da Zona da Mata pernambucana, a 70 quilômetros do Recife. Eu sentia frio, sono, preguiça, cheiro de xixi, tinha remela no olho – mas a única sensação que consigo ter ao lembrar daqueles exercícios matinais é de prazer. Um prazer que só crescia à medida que os eventos iam se sucedendo pelo resto do dia.

A sequência era quase sempre a mesma. Tão logo terminava a sessão de exercícios, tio Nando, Thereza e eu seguíamos até a cozinha, pegávamos cada um sua caneca, deixávamos a casa e galgávamos alguns metros de encosta pelos fundos da casa até chegar à cocheira para tomar o leite cru da vaca, tirado por tio Nando ou então por Valdemar, o cocheiro oficial do engenho. Vez ou outra, eu burlava as regras e colocava escondido chocolate em pó no fundo da caneca, mas só quando eu achava que tio Nando não perceberia minha heresia.

Minha vaca preferida era a Estrela, que pertencia à madrinha Carmelita. Tio Nando dizia que a filha de Estrela era minha, mas eu sabia que ele falava a mesma coisa para todos os sobrinhos. Mesmo assim, eu não deixava de sentir orgulho de ser o falso proprietário daquela bezerra linda.

Quando fazia ele mesmo a ordenha, tio Nando tinha por hábito limpar a teta da vaca com um lencinho antes de esguichar leite nas nossas canecas. Ele mal podia imaginar que eu dava minhas mamadas escondidas nas tetas da filha de Estrela quando ela estava solta no campo.

Meu sonho, naquele tempo, era ser bezerro. Achava bonito o jeito como o garrote dá cabeçadas de leve no peito da mãe para o leite descer. Longe da vista dos adultos, eu me colocava debaixo da filha de Estrela e dava minhas cabeçadas para ela entender que Carlinhos queria se alimentar. O leite até que descia, mas me faltava força no fundo da língua para sugar o que a natureza me ofertava.

E como eu adorava o cheiro daquela cocheira. Principalmente quando colocavam melado na ração do gado. Que perfume doce e encantado que se espalhava à nossa volta! Até onde minha memória chega, havia lá umas 20 a 30 cabeças de gado. Entre maravilhado e assombrado, eu ficava assistindo à movimentação dos bois disputando lugar para se alimentar. À noite sonhava com eles. Os bois do engenho povoariam meus sonhos até que eu chegasse à idade adulta.

O capim era moído em dois turnos: pela manhã e à tarde, sempre no mesmo horário. O som do moedor funcionava como um badalo de relógio para a gente do engenho. Eu me sentia peça indissociável daquele mundo feito de feno e bosta. Quando eu desaparecia por muitas horas, geralmente a cocheira era o primeiro lugar onde me procuravam. Não era raro me encontrarem roncando largado no cocho ou então enroscado com alguma garrotinha. A pele dos meus cotovelos era áspera de tanto que eu dava o braço para Tostão, um boi zebu cinza e muito manso, lamber. Era uma sensação prazerosa, de amizade e comunhão.

Minha identificação com os bichos devia provocar certa estranheza entre os adultos. Com meu queixo projetado para a frente, eu conseguia tocar a língua na ponta do nariz, como fazem os bois. Também sabia mexer minha orelha para espantar moscas imaginárias. Eu queria ser um bicho. Eu era um bicho. Tio Nando enxergava claramente isso em mim:

– Esse menino é terra! Esse menino é engenho!

Eu sentia o orgulho dele ao dizer isso. Como a vida não lhe deu filhos, talvez imaginasse que seria eu, dos sobrinhos, aquele que, no futuro, cuidaria dos engenhos de cana nas mãos da família dele há pelo menos três séculos. “Tu Nano”, como eu o chamava quando ainda não sabia falar direito, sempre foi um coração de bondade por trás de sua figura severa de senhor de engenho. Vestia-se invariavelmente de chapéu, botas e camisa quadriculada por dentro da calça jeans. Era um homem inteligente – fez duas faculdades, de Química Industrial e de Engenharia Civil –, mas sua alma nunca perdeu a rudeza do campo.

Tio Nando era um cara de poucas palavras que me passava segurança, controle e muita disciplina. Todo fim de mês eu ficava com a impressão de que ele não era dono de engenho nenhum, mas sim de um banco. Quando chegava o dia de pagamento dos peões, ele se trancava no escritório, uma saleta com uma janelinha gradeada como abertura. Os funcionários do engenho faziam fila em frente ao guichê de tio Nando e iam, um a um, enfiando a mão pela janelinha e retirando dali um maço de dinheiro. Thereza e eu costumávamos nos infiltrar no fim da fila achando que tio Nando não notaria que era a gente. Quando chegava nossa vez, colocávamos nossas mãozinhas pela grade da janela, mas a única coisa que recebíamos era uma palmada carinhosa.

Ao longo da primeira década de nossas vidas, Thereza e eu frequentamos o engenho como se fôssemos filhos legítimos de tio Nando e tia Carmelita. Nas férias de janeiro e julho, a Lagoa Seca de Baixo era nosso destino certo e não havia nada que nos fizesse esperar outra coisa. Eu estudava para tirar nota boa na escola simplesmente para não correr o risco de perder um só dia no engenho. Somando o tempo que passávamos lá todo ano, dava perto de quatro meses. Tio Nando e tia Carmelita eram nossos segundos pais, e aquele universo rural era nossa segunda casa.

Quando começamos a viver o engenho, eu ainda chamava Thereza de “Leleza”. Ela é poucos anos mais velha do que eu e por isso eu vivia grudado nela. Na minha lembrança, eu batia na altura de seus joelhos. Thereza era alta, magra, olhos azuis, loira. Não dava nem para brincar que era alemã, porque ela realmente havia nascido na Alemanha, no tempo em que o pai era professor-visitante na cidade de Colônia. Tio Nando a chamava de “Perna de Muriçoca” ou então de “Macaíba”, árvore grande e espinhosa, condizente com a personalidade forte dela.

Thereza e eu fomos criados como irmãos. Eu me lembro perfeitamente da euforia que tomava conta da gente já na véspera da ida para o engenho, quando dormíamos na casa de tio Nando e tia Carmelita em Boa Viagem para pegar a estrada no dia seguinte bem cedo. Íamos pinoteando dentro do carro, numa época em que cinto de segurança ainda era um acessório dispensável.

Minha excitação se multiplicava de forma exponencial nas férias de julho porque eu sabia que era grande a chance de encontrar um atoleiro na chegada. Eu amava a aventura. Amava avistar o rio transbordando de tão cheio, o canavial alagado, o carro atolando na lama da estradinha de terra, o trator vindo para nos rebocar até a entrada do engenho e a dúvida na cara de todos: conseguiríamos mesmo subir a pé a rampa que ia dar no casarão?

Tio Nando não perdia tempo em nos aplicar, já na manhã seguinte à nossa chegada, os exercícios matinais, seguidos do leite quente e espumoso de Estrela, que Thereza e eu bebíamos com avidez infantil. Quando estávamos saciados, percebíamos que Marlene, dona Maria e Zefinha já haviam iniciado os trabalhos na cozinha do casarão. O cheiro de café e milho cozido que chegava à cocheira coincidia com os primeiros sons do louro aquecendo a voz para infernizar a vida de todos pelo resto do dia. O diabo verde vivia solto, empoleirado debaixo do telhado do corredor que nos levava ao pomar, nos fundos do casarão. Estava sempre bufando, bravo, andando de um lado para outro, as penas da cabeça sempre arrepiadas, as pupilas contraídas de raiva. O pessoal dizia que ele era capaz de arrancar uma orelha em pleno voo, o que só fazia aumentar meu pavor dele.

Thereza e eu passávamos longe do louro para retornar à casa e encontrar madrinha Carmelita à nossa espera para o café da manhã. A mesa posta era uma fartura só: inhame, macaxeira, cuscuz, tudo macio e fumegante. Além disso, ovos mexidos com salsicha, milho, leite, suco e frutas, muitas e das mais variadas – manga, goiaba, sapoti, tudo colhido do pomar. Também era de lei ter à mesa uma jarra de água de coco fresco, que o pessoal tirava do pé subindo apenas com o apoio da planta dos pés e uma corda para puxar o cacho com precisão.

A essa altura, todos os primos – Thereza, eu, Antônio, Neném, Zé Miguel – já estávamos ruidosamente à mesa nos fartando de comer sob a supervisão maternal de madrinha. Com a barriga estufada de leite de Estrela e macaxeira com ovo mexido, eu aproveitava o momento em que o pessoal discutia como seria a sequência do dia para deslizar discretamente da mesa e correr direto para minha goiabeira querida. Era ali meu banheiro privativo, onde eu subia e aliviava meu intestino entre folhas e brisa, devolvendo à terra tudo o que ela havia me dado com generosidade.

A natureza do engenho estimulava uma liberdade maravilhosa em nós, crianças. Em dias de calor, costumávamos ir depois do café da manhã diretamente para a “solta”, como chamávamos o vale próximo ao casarão por onde passava um riacho. No período das águas, em julho, quando o riacho se espraiava pelas várzeas, eu e meus primos fazíamos barragem em parte do leito. Quando a água secava, os peixes ficavam presos. Aí era só colher um a um com o jereré e levar para Marlene cozinhar: traíra, muçum, piaba, cará e até camarão e pitu.

Certa vez, Thereza e eu pegamos tantos muçuns, uma enguia de água doce, que não houve balde que desse conta da quantidade. Tivemos a ideia de guardá-los na caixa-d’água da casa. Não demorou para que a água da torneira começasse a sair com um cheiro estranho. Quando tio Nando foi investigar o que podia estar acontecendo, encontrou um emaranhado dos bichos deslizando no fundo preto do tanque. A bronca não foi pequena.

Em outra ocasião, resolvemos levar muçuns para dona Lurdes cozinhar. Dona Lurdes aproveitou para nos dar uma aula de culinária:

– Primeiro, precisa amaciar bem a carne, assim…

Ela pegou então um muçum pelo rabo e começou a chicoteá-lo com violência numa tábua de madeira. Thereza e eu ficamos acuados diante da cena insólita. Depois de descamado, o bicho, que era preto, tornou-se azulado. Ficou visível a nossa cara de arrependimento, principalmente após provar o famoso prato.

Dos funcionários do engenho, eu tinha um apreço especial por Valdemar, que, na minha pronúncia infantil, era o “Valdebar”. Era com ele, e só com ele, que eu arrancava meus dentes. Madrinha me levava na cocheira, e Valdemar aparecia sorrindo e enfiava seus dedos de alicate na minha boca. Não era raro eu almoçar e jantar na cocheira só para poder passar o maior tempo possível com ele e os outros funcionários do engenho.

– Eu só gosto de comida de pobre! – dizia eu a madrinha.

Apesar de me comportar como o sobrinho mimado do patrão, isso era tudo o que eu não queria ser. Eu queria ser como o Valdemar, ser um deles. Tudo o que os funcionários do engenho faziam, eu imitava. Eu não dizia “vermelho”, por exemplo, mas “vermei”. Descascava cana com os dentes porque era assim que eles faziam. Pegava cobra na mão como eles: prendia a cabeça da bicha no chão com um pedaço de pau, para não ser picado, segurava com dois dedos pela cabeça e ficava com ela enroscada no braço.

E como esquecer o dia em que ganhei uma peixeira de meu padrinho? Eu devia ter uns 8 anos. Uma peixeira com bainha, meu Deus! Finalmente eu tinha virado homem. “Daqui a pouco, já posso ser coronel”, pensei, esquecendo por alguns instantes que meu sonho era ser peão. A peixeira logo virou extensão do meu braço. Eu via os caboclos amolando as peixeiras na pedra na beira do açude e queria fazer igual. Ia pescar, ia brincar com os meninos que moravam no engenho – e a peixeira sempre ali comigo, minha companheira de todas as aventuras. Aonde quer que eu fosse, ela estava junto, me ajudando a desbravar florestas virgens e infinitas e a vencer jaguatiricas gigantes e sanguinárias. Até na hora de dormir lá estava ela, dividindo o travesseiro comigo.

Mas, então, um dia cochilei na rede e, quando acordei, que surpresa, a peixeira estava sem ponta! Traição. Chorei, esperneei, gritei durante dias:

– Quem tirou a ponta da minha peixeira?

Quem, que alma perversa havia me rebaixado novamente à condição infantil? Até hoje não sei quem fez aquilo – madrinha talvez, com medo de eu me machucar. Ninguém viu, ninguém sabe, ninguém lembra.

Foi difícil me recuperar do golpe. Sorte que, para me distrair, havia as histórias de assombração que seu Biu nos contava antes do jantar. A narração acontecia sempre no cair da tarde, na frente do casarão, com todas as crianças sentadas ao seu redor. Eram histórias de “arma do outro mundo”, como ele dizia, pitando seu cachimbinho de preto velho. Quando queria fazer suspense, ele dava umas batidinhas na madeira com a mão fechada e dizia:

– Vou puxar pela memória…

A história que mais me arrepiava o couro cabeludo era a da comadre Florzinha, que corria atrás das crianças que ficavam zanzando pela floresta. Por causa de comadre Florzinha, Thereza e eu sempre íamos pegar manga na mata agarrados um no outro. Sábio na sua simplicidade, seu Biu era um homem tão franzino quanto tranquilo, respeitador, discreto e fiel aos patrões. Quando ia falar com Tio Nando ou madrinha, sempre tirava o chapéu de palha da cabeça, em sinal de respeito. Chamava madrinha de “patoa” ou de “dona Carrelita”. Eu adorava conversar com ele enquanto tirávamos sapoti do pé.

Nós, crianças, vivíamos na barra da saia de Marlene pedindo comida. Todo dia, era ela a responsável pelos lanches do meio da manhã e do meio da tarde. O da tarde era o mais aguardado, pois era quando saíam as guloseimas mais desejadas: pastel Lolita recheado de goiabada, pudim de Leite Moça, rabanada (que chamávamos de fatia dourada). Do pomar, ouvíamos madrinha chamar a mim e a Thereza:

– Hora do lanche!

De tanto ouvir madrinha, o louro safado acabou aprendendo a chamada do lanche. Ele imitava a voz dela à perfeição. Vez ou outra, saíamos correndo para lanchar e descobríamos que a mesa ainda não estava pronta. Era quase possível ver o louro rindo da cara da gente.

Outra saia na qual vivíamos grudados era a de Finha, contratada por madrinha para supervisionar as crianças. Ela estava com 18 anos na época, mas ainda preservava uma leveza infantil no olhar e no trato com a gente. Geralmente, era Finha quem nos levava ao açude – ela era tão cuidadosa comigo que, em época de enchente, me carregava no colo, no meio do lamaçal, mesmo que eu estivesse usando minhas botas Sete Léguas. E como se divertia fazendo esquibunda na chuva com a gente, na descida em frente ao casarão, quase sempre deslizando com as calças direto na lama, para desespero de Marlene, que teria que lavar tudo na munheca mais tarde.

Esse era o núcleo, digamos, inocente do engenho. Porque havia um outro, do qual passei a fazer parte lá pelos 6 ou 7 anos, que contava com os filhos dos funcionários do engenho, em especial os irmãos Carlinhos e Marquinhos, filhos de dona Lurdes e seu Henrique, o administrador da fazenda. A família morava na “vila”, a antiga casa-grande do engenho, um casarão amarelo com uma escadaria secular. Era ali que os garotos se sentavam para falar de sacanagem, quase sempre conduzidos pelo Loro, que tinha pelo menos o dobro da nossa idade.

Loro era o responsável pelo pão nosso de cada dia no engenho. De domingo a domingo, em algum momento do início da manhã ou do fim da tarde, ele despontava na estradinha que vinha da cidade com duas sacolas grandes de pão fresco nas mãos. Quem mais tocava fogo na nossa infância era o responsável pela comunhão do pão no engenho. Longe da vista dos adultos, Loro ensinava a mim e aos outros meninos a lidar com as comichões da vida.

A antiga senzala do engenho havia se transformado em um imenso galpão onde se armazenavam sacos de adubo, fertilizante e material do trato diário com a cana. Ainda é possível ver o lugar exato onde os escravos moíam a cana com a força dos braços e os tachos onde produziam melado, que é feito até hoje – certa vez, Thereza e eu encontramos por lá antigas correntes e tornozeleiras dos tempos da escravidão. Era ali, na antiga senzala, que o gado costumava descansar no fim da tarde. Todo mundo sabia que Loro gostava de ir sarrar as vacas. Um dia, quando eu tinha meus 7 ou 8 anos, passei por lá e o surpreendi cutucando o útero de uma vaca com um pedaço de pau. Assim que me viu, Loro abriu um sorriso e perguntou em tom de desafio:

– Quer ver o que eu vou fazer agora?

Em seguida, Loro baixou a calça e começou a fazer o mesmo que a gente via o touro fazer quando cobria a vaca.

– Vai, Carlinhos! Vem cá agora! Faz, faz assim, ó!

Ensaiei timidamente com o pedaço de madeira que Loro segurava, mas não tive coragem de encostar meu corpo no da inocente vaca, mais por pudor do que por repulsa. Aquele mundo de lubricidade selvagem era algo que me atraía. Sempre enxerguei o sexo dos animais com encantamento. Eu me deliciava observando a aproximação do touro no cio, o jeito como ele aponta o focinho para o céu depois de cheirar o sexo da parceira. “Um dia vou fazer igual”, eu pensava.

Loro orquestrava também as masturbações coletivas, mas os troca-trocas dos quais eu participava ficavam mesmo a cargo do Marquinhos, o mais novo da turma. Eu e ele mal sabíamos o que fazer. Trancados no quarto das crianças no casarão, abaixávamos as calças e ficávamos nos esfregando um na bunda do outro de modo quase puritano.

Eu não tinha limites para nada. Meus sentimentos eram absolutamente abertos e vazios de preconceito. Eu só queria aproveitar a vida do jeito mais emocionante possível. Sempre fui um menino “treloso”, como dizem em Pernambuco: é uma definição que me acompanha desde pequeno. Agia sempre por impulso, um tanto ingênuo e inconsequente. Não havia maldade nos meus atos. O que eu tinha era energia para ser gasta, e poucos medos. Essa combinação devia dar trabalho para os adultos. Eu vivia correndo de um lado para outro, completamente livre, inventando trelas. Se Thereza e eu estivéssemos brincando na goiabeira, eu achava pouco:

– Agora, vamos subir no pé de juá!

O juazeiro é cheio de espinhos, o que deixava tudo mais emocionante. Thereza sempre saía machucada das aventuras que eu inventava. Certa vez, passei voando por uma cerca viva de avelós, planta do sertão com uma seiva corrosiva:

– Corre, meu Deus, que Carlinhos vai ficar cego! – gritaram.

Com toda a calma, madrinha ficou derramando leite de cabra nos meus olhos para anular o efeito do ácido. Eu adorava deitar no colo quente de tia Carmelita enquanto ela tirava lêndeas e piolhos da minha cabeça. Ela me chamava para o balanço no alpendre do casarão e eu adormecia em seu colo sentindo o cheiro de óleo de coco queimado que dona Maria esquentava para ela passar nos meus cabelos. O tec-tec das suas unhas exterminando as lêndeas uma a uma era um sonífero para mim.

Que sonho de pessoa é madrinha, como eu me sinto amado por ela… Tia Carmelita parecia uma anjinha encarnada na Terra, de uma delicadeza e doçura incríveis. Seu tom de voz só alcança os decibéis dos seres humanos normais quando ela se estressa. Desde aquela época, ela e meu padrinho me tratam como o filho que não puderam ter. Certa vez, minha madrinha chegou a falar com mamãe sobre isso: se minha mãe quisesse ou permitisse, ela poderia me adotar.

– É lógico que eu não vou fazer isso com você nem com o Carlinhos – respondeu mamãe à irmã. – Todo mundo pode viver junto sem precisar de rompimentos de um lado ou de outro.

Sábia mamãe. Desse modo, tudo sempre ficou aberto e às claras entre nós. Eu não tinha vergonha de me sentir filho de madrinha e padrinho enquanto estava no engenho e ficava triste quando via o fim das férias se aproximar, já começando a contar os meses que faltavam para as férias seguintes.

Hoje em dia eu me pergunto como seria minha vida se mamãe tivesse me dado para madrinha. Será que eu teria dado desgosto a ela? Será que teria me tornado um senhorzinho de engenho, daqueles com a pança caindo sobre a calça jeans? É lógico que eu gostaria de ser filho de madrinha, e hoje posso dizer que também sou filho de tia Carmelita. Tenho duas mães: foi o que sempre ouvi em casa.

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André Viana

Sobre o autor

André Viana

André Viana nasceu em 1974, no Rio de Janeiro, mas viveu a infância e a adolescência em Aracaju. Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Sergipe, trabalhou nas revistas Playboy e Veja, no suplemento cultural do jornal Gazeta Mercantil e na editora Trip. Hoje, além de atuar como tradutor, dirige uma pequena editora especializada em histórias de família. É também autor do romance O doente, publicado em 2014 pela Cosac Naify.

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